terça-feira, março 05, 2013

Difícil não será visionar Cascais na época gloriosa da sua História


Difícil não será visionar Cascais na época gloriosa da sua História, quando D. Pedro I, satisfazendo o pedido dos seus homens bons, lhe outorga, a 7 de Junho de 1364, a solicitada autonomia administrativa. Na enseada que se estendia ao longo das suas penedias, defendida por forte baluarte, baloiçavam, agitadas pela nortada ou na quietude das suas águas calmas, caravelas pescarescas ou de pescar, tão usadas já, então, no Algarve (caíques); frágeis embarcações e pequenos barcos de velame latino e triangular, que, com o rodar dos tempos, vieram a tomar o feitio das actuais canoas, lanchas e traineiras. De tempos a tempos, o pavor lançava a tristeza àquele povo bom e ordeiro. A pirataria surgia e tudo devastava. Não raro se verificaram surtidas dos Mouros e dos Normandos... e, mais tarde, das próprias galés de Veneza, quando estas não vinham comerciar devidamente autorizadas.

Ferreira de Andrade, Cascais -- Vila da Corte -- Oito Séculos de História [1964], ed. fac-similada, Cascais, Câmara Municipal, 1990.

Antologia Improvável - Afonso Duarte

BÚZIO DO MAR


Praguejam pescadores: Ora esta, ora esta,
O mar na praia é um tambor em festa!

Danado e rouco ele há lá quem o fateixe!
O mar não anda bom...
E som, e som, som-som,
deita a fugir o peixe.

Meus patrícios, poveiros tal e qual
É a nobreza maior de Portugal!

Mesmo sou duma aldeia à beira-mar,
E ouço-o bem duas légias em redol:
Meio ano a lavoirar,
Outro meio ao anzol!

Meus patrícios cada qual
Tem o seu bote que é o seu casal.

Mas, o Oceano, o mar não anda bom:
Ondas são trambolhões, e trambolhões de som!

Ó mar, meu brutamontes,
Música, deixa ouvi-la da noitinha:
Eu quero ouvir o murmurar das fontes
Que a noite já se avizinha...


presença #16
Coimbra, Novembro de 1928

segunda-feira, março 04, 2013

Outros tons - João Gilberto, «Pra machucar Meu Coração»


Les colines, sous l'avion, creusaient déjà leur sillage d'ombre dans l'or du soir.


Les colines, sous l'avion, creusaient déjà leur sillage d'ombre dans l'or du soir. Les plaines devenaient lumineuses mais d'une inusable lumière: dans ce pays elles n'en finissent pas de rendre leur or de même qu'après l'hiver, elles n'en finissent pas de rendre leur neige.

Início de Vol de Nuit (1931), de Antoine de Saint-Exupéry, Paris, Gallimard, 1981.

domingo, março 03, 2013

BABA O'RILEY


Poucos extravasam o som, e a fúria com a verve de Pete Townshend, o grande. 
Extractos dos concertos organizados, em Londres, Dezembro de 1979, por Paul McCartney e a ONU, em favor do povo cambodjano, numa aflitiva situação de fuga dos Khmers Vermelhos, que haviam dizimado o país, em face da invasão do vizinho Vietname.
Baba O'Riley abre este álbum desigual. Melhor é ver o filme, em baixo. 
Roger Daltrey, voz e harmónica; Pete Townshend, guitarra, voz e uns synths que pusera a tocar sozinhos; John Entwistle, baixo; Kenney Jones, bateria.


Abaixo, uns furitos abaixo, os Pearl Jam. Eddie Vedder faz, bem, o que pode, mas não é Daltrey quem quer. Fantástico o público de Santiago do Chile.

 

Antologia Improvável - Eugénio de Andrade

A PRIMEIRA NEVE


E depois, tão antiga a neve.
Só o lume a podia trazer
da fundura dos dias

a esta casa. Brancura estendida
em páginas lidas
a outra luz, dentro do sono.

Quase sem peso, sem nenhum
ruído -- vinda de outros céus,
outros caminhos.

A primeira neve. E tão antiga.

Foz do Douro, 13.2.97

Q

Valérian (agente espácio-temporal) e Laureline
(Jean-Claude Mézières, desenho & Pierre Christin, argumento).
(imagem)

sábado, março 02, 2013

Em cada esquina um amigo / Em cada rosto igualdade


Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

José Afonso

Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação...


Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação, a serpente de olhos verdes de todos os veraneantes masculinos.

Início de O Drama da Sombra, de Ferreira de Castro, Lisboa, Diário de Notícias, 1926.

TRÊS ESCUDOS


minha cela levou hoje uma barrela mestra!
Durante três horas andaram dois presos encarrapitados num escadote, e a palmilhar a lagariça do chão, descalços, encharcados até aos ossos, numa esfrega desenfreada de escova, pano, sabão e potassa, que deixou tudo num brinquinho, do tecto à porta!
Como não eram obrigados a tanto esforço, disse-lhes que ia entregar 3 escudos à Secretaria, onde eles poderiam recebê-los.
-- Nada, não senhor! responderam ambos. Não iremos!
Insisti. Mostrei-lhes que a fartura não era grande, que nada os obrigava ao que tinham feito, que estavam ambos exaustos de cansaço.
-- Muito agradecido, atalharam eles mantendo a sua recusa. Isto que nós fizemos não é nada...
-- Não nos deu trabalho algum, acrescentou o mais velho, arfando de fadiga.
Ainda tentei convencê-los. Não houve meio. Mantiveram-se intransigentes.
-- E além disso, concluiu um deles com ar embaraçado, nem era bonito a gente aceitar...
Intrigado, perguntei-lhe porquê.
-- Porque a gente sabe muito bem que o senhor... o senhor também vive com dificuldades!
sem quererem ouvir mais, deitaram o escadote aos ombros e abalaram pela porta fora, a escorrer como uns pintos!
Um deles, por alcunha o Marreco, está condenado por ladrão.
outro, por alcunha o Bilau, está condenado por incendiário. (*)

(*) -- Este Bilau era um recluso com bom comportamento. Condenado por crime de fogo posto num palheiro, jurava estar inocente, e o seu co-réu, autor do crime, confirmou sempre a verdade desse juramento. Bilau tentou a revisão do processo, mas faltaram-lhe os meios para isso. Morreu em 1929.
O outro ainda se encontra preso e é igualmente bem comportado.

António Bandeira, os Grandes Armazéns da Desventura, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1931.

O Vale do Riff - Ron Sexsmith, «Love Shines»


sexta-feira, março 01, 2013

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico


Calcorrear o país, conhecê-lo como as palmas das mãos, saber o sabor da terra e perceber que somos como somos porque nos conhece desde a Pré-História, de antes dos lusitanos, das estradas que percorremos na Antiguidade: o Norte atlântico e celta do megalitismo; o Sul mediterrânico e levantino do comércio com fenícios e gregos.
Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro -- o maior geógrafo português do século XX --, para além da caracterização das três grandes áreas em que ele dividiu o país, Noroeste atlântico, Norte interior e Sul, com a caracterização dos solos, dos climas, das culturas, das habitações -- e por muito que os anos por ele tenham passado (1.ª edição, 1945), apesar das várias reedições --, para além, dizia, da enorme importância de que se reveste, está admiravelmente escrito, o que faz do livro não apenas uma obra científica, como literária e, portanto, um marco cultural português, cuja leitura continua a ser altamente recomendável.

Antologia Improvável - Cristovam Pavia

ÉCLOGA OU CANÇÃO ABANDONADA


Na folha bailada
Levada
No vento,
Vai meu pensamento...

Na cinza delida
Espargida
Pelo rio,
Vai meu olhar frio...

E no teu sorriso
Da mais lisa
Quietação...
O meu coração...

Cristovam Pavia
Boletim Cultural do Serviço de Bibliotecas
Fixas e Itinerantes da F.C.G., VI série #11 --
As Folhas de Poesia Távola Redonda

sobre O QUE DIZ MOLERO


Grande literatura é isto:  domínio da palavra a benefício da narrativa, espessa, sumarenta, cheia de coisas a dizer e de indícios doutras que ficam por enunciar. Estórias e estorietas, há muito quem conte, alguns até reputados de bons escritores; mas O que Diz Molero (1977) é a história, narrada de forma múltipla, dum escritor de obra escassa, sete títulos, três dos quais sob o pseudónimo Dennis McShade.
Li-o por volta de 1983, e voltei agora a ele, no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro. Por esse então, final da adolescência, apesar de muitas referências me escaparem -- que não as da BD (Dinis Machado terá sido o único escritor português a ter aposto numa obra literária os nomes de Zig e Puce...) ou as dos Westerns de John Ford; é um livro cheio de cinema (até na prosa) e quadradinhos --, havia também uma memória que me era familiar: o imaginário lisboeta das décadas de 1930-1940, que me foi transmitido pelo meu pai, da mesma geração do autor: as figuras populares, suas alcunhas e seus maneirismos; a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial, o modo como eram ansiosamente seguidas e as próprias implicações sociais e políticas desses dois cataclismos entre nós; o cinema de Hollywood e os filmes em 31 partes do Flash Gordon; os comics americanos, Dick Tracy e Mandrake, os combates de boxe... Referências pulp e eruditas, de Camilo Pessanha a Jorge Luis Borges, fluindo naturalmente, porque reflexo da vida e da vivência.  Não sei se algum vez um livro me deu tanto prazer a reler.
A verdade é que em que O que Diz Molero a prosa é rigorosamente vigiada e calibrada, tão fundamental quanto o inventário da infância se presta  a todas as derrapagens do sentimentalismo : não há lamechice, mas ternura, um humor terno e nunca boçal.
Nota aos jovens leitores: tem até vampiros... -- não daqueles de ecrã, que ocupam os escaparates dos híperes, mas o tenebroso "Vampiro Humano", tenebroso para o rapaz(o protagonista do romance, ou um dos protagonistas) e para os seus amigos de correrias e partida pelo Bairro.

DO MERECIMENTO

Rápida   esguia
Apanhado o cabelo   oh
Tão bem apanhado
Passas-me por baixo
Da janela e nem suspeitas
Que o vislumbre dos teus quadris
Adivinhados sob o longo casaco
Doutra época os sapatos dum 
Castanho eduardino ou vitoriano 
E o teu cabelo apanhado   oh
Tão bem apanhado   nem suspeitas
Me mereceram este poema.

19/21-II-2013

uma epígrafe de Joaquim de Carvalho


As nações com a responsabilidade histórica da gente portuguesa, não podem imobilizar-se estaticamente, nem devem iludir-se infantilmente; têm que desentranhar sucessivamente da massa das suas tradições e aspirações um ideal coerente com a conjuntura histórica, que exprima e defina o seu estar mudável em concordância com o seu ser permanente. (Compleição do Patriotismo Português, 1953).

in Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade -- Psicanálise Mítica do Destino Português (1978), Lisboa, Círculo de leitores, 1988.

poesia de cascais / Afonso Duarte


Já meu reino foi calvário
Lá nos mares da Taprobana
Nem tocou a igual sudário
A trombeta castelhana.
Se, como rosas de Abril,
Tem as praias do Estoril,
Já meu reino foi calvário.


RIFF RAFF


Gravado em Glasgow, em alta voltagem, blues branco incrivelmente musculado, mas blues, como escrevi no post anterior. O velho Muddy Watters dizia: «The blues had a baby and they named it rock and roll». Podem chamar-lhe esse e nomes piores; a raiz deste Riff Raff de australianos (no entanto escoceses, Young, Young & Scott...), a raiz está no Delta do Mississípi.
Em If You Want Blood You've Got It (1978). Angus Young, guitarra; Bon Scott, voz; Cliff Williams, baixo; Malcolm Young, guitarra; Phill Rudd, bateria.


Em baixo, versão em estúdio, incluída em Powerage, do mesmo ano, solos de Angus Young com nuanças.


Finalmente, no Apollo Theatre, Glasgow, onde tudo foi gravado.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Castriana #5



textos: Ferreira de Castro, Dora Nunes Gago, José Laurindo Góis, Ricardo António Alves, Alfred Opitz, Luís Garcia e Silva, Vítor Pena Viçoso, Ivone Bastos Ferreira e Manuel José Matos Nunes. Ilustrações: Albano Ruela.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

PEDIR DESCULPA À REPÚBLICA DE ANGOLA, E JÁ! (com citação de Álvaro de Campos)

     A situação interna de Angola, interessa-me tanto como a do Brasil ou Timor-Leste; isto é: atendendo ao laços históricos e às dependências mútuas, económicas, culturais, afectivas, um pouco mais do que saber da Noruega, do Burundi ou do Nepal.
     São-me, por isso, relativamente indiferentes as lutas pelo poder em Angola -- já me basta o lixo doméstico. O que não me é indiferente é ver um organismo do Estado português ocupado por prostitutos indecorosos,  transaccionando com os jornais material que passa por informação --, sendo que o Expresso aqui é, lastimavelmente, parte ou instrumento dessa luta de interesses.
     Quando em editoriais, escritos em português decente, o Jornal de Angola, com maior ou menor exagero, mas justificadamente, se insurge contra o tratamento que é dado ao seu PGR -- isto é com notícias de jornal veiculadas por rameiras  disfarçadas de magistrados do Ministério Público--, enquanto cidadão sinto uma enorme vergonha pelas instituições de Justiça (de Justiça...) do nosso país. 
     Eu quero lá saber dos governantes angolanos, ou do mensalão brasileiro! Já prenderam alguém do BPN?; do ferro-velho?; das traficâncias feitas por cá? Somos exemplo para alguém?... Não somos. Pelo contrário, somos, como país, uma vergonha de inoperância e impunidade. Mas somos bons em esquemas; deve ter sido esse o nosso grande legado às colónias, além da língua (mal tratada, é claro, pois universidades, em 500 anos de colonização, nem vê-las...)
     Eu nunca estive em Angola, nem a minha família próxima; nem tenho ninguém a trabalhar lá. Não tenho interesses. Mas sei que Portugal precisa de Angola e Angola de Portugal; como precisamos, países da CPLP, todos uns dos outros. E não se trata só de necessidade: os países amigos, os países-irmãos, que é o que são todos os que constituem a CPLP, devem tratar-se em conformidade, respeitando-se e dando-se ao respeito -- coisa que os portugueses têm dificuldade em fazer...
     Quando funcionários do Estado português, funcionários superiores (!), mas, na verdade, a mais reles escória da nação, se vende a jornais e jornalistas sem escrúpulos, pondo em causa os interesses portugueses -- porque é isso que eles estão a fazer, e não a pugnar por maior democracia e transparência em Angola, não me lixem! --; quando o Estado português permite que bandidos que são seus funcionários se comportem assim, não lhe resta outra alternativa senão pedir desculpa ao Estado angolano. E agir depressa, que é o que eu espero faça da dr.ª Joana Marques Vidal, encontrando-os, julgando-os e metendo-os na choça, que é o lugar dos corruptos.

P.S.E, já agora, seria bom que a merda da imprensa portuguesa -- como diria o Álvaro de Campos -- respeitasse os leitores, o que é pedir de mais, eu sei, pois são feitos da mesma massa informe.  

P.P.S.- vi ontem a reacção de Paulo Portas. Boa, mas não chega.

porca miséria

Nos topes da Ler, a indigência é esmagadora. Dos 30 livros que por lá aparecem, apenas um existe na minha biblioteca e só dois teriam hipóteses de lá chegar:
Top Fnac não ficção, reinam a culinária & outros livros úteis. Nada contra, nem a favor. O 6.º mais vendido, A Infância de Jesus, de Joseph Ratzinger (Principia), não será uma compra óbvia para um ateu, mas enfim, trata-se da biografia de um famoso.
Top ficção da Bertrand, desesperante. Salva-se A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe (Alfaguara), 7.º lugar. O resto: mistérios & fodilhices de trazer por casa, que eu suspeito não passarem pelo crivo da literatura.
Top geral Wook, socorro, expectativa apenas pelo 6.º, Dentro do Segredo, de José Luís Peixoto (Quetzal).


terça-feira, fevereiro 26, 2013

de Ferreira Gullar:

A arte existe porque a vida não basta.
(entrevista a João Pombeiro, na Ler deste mês)

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Antologia Improvável -- Afonso Duarte



CANTO DE MORTE E AMOR

7

Canto de morte e amor:
Ou um não sei que há na alma
Que dói cortar uma flor!
Distúrbio na noite calma...
O que dói é outra existência,
Não a flor, a dor da ausência,
Ou não sei o que há na alma.

Canto de Morte e Amor / Obra Poética




O Vale do Riff - Chicago, «Colour My World»


domingo, fevereiro 24, 2013

A CONSEQUÊNCIA DOS SEMÁFOROS


Odeio os semáforos. Em primeiro lugar porque estão sempre vermelhos quando tenho pressa e verdes quando não tenho nenhuma, sem falar do amarelo que provoca em mim uma indecisão horrível: travo ou acelero? travo ou acelero? travo ou acelero? acelero, depois travo, volto a acelerar e ao travar de novo já me entrou uma furgoneta pela porta, já se juntou uma data de gente na esperança de sangue, já um tipo de chave-inglesa na mão saiu da furgoneta a chamar-me seu camelo, já a companhia de seguros me propõe calorosamente que a troque por uma rival qualquer, já não tenho carro por uma semana, já me ponho na borda do passeio a fazer sinais de náufrago ao táxis, já pago um dinheirão por cada viagem e ainda por cima tenho de aturar o pirilampo mágico e a Nossa Senhora de alumínio do tablier, o esqueleto de plástico pendurado do retrovisor, o autocolante da menina de cabelos compridos e chapéu ao lado do aviso «Não fume que sou asmático», proximidade que me leva a supor que os problemas respiratórios se acentuaram devido a alguma perfídia secreta da menina que não consigo perceber qual seja.
segunda e principal razão que me leva a odiar os semáforos é porque de cada vez que paro me surgem no vidro da janela criatura inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras virtuosas com uma caixa de metal ao peito que nos colam autoritariamente sobre o coração o caranguejo do Cancro, os matulões da liga dos Cegos João de Deus nas vizinhanças de um altifalante sobre uma camionete com um espadalhão novo em folha em cima, o sujeito digno a quem roubaram a carteira e que precisa de dinheiro para o comboio do Porto, o tuberculoso com o seu atestado comprovativo, toda a casta de aleijões
(microcefálicos, macrocefálicos,coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes de partidos políticos, etc.)
sem contar o grupo de Bombeiros Voluntários que necessita de uma ambulância, os finalistas de Coimbra, de capa e batina, que decidiram fazer uma uma viagem de fim de curso à Birmânia e a rapaziada da heroína que não conseguiu roubar nenhum leitor de cassetes nesse dia.
Resultado: no primeiro semáforo já não tenho trocos. No segundo não tenho casaco. No terceiro não tenho sapatos. No quinto estou nu. No sexto dei o Volkswagen. No sétimo aguardo que a luz passe a encarnado para assaltar por meu turno, de mistura com uma missão de bombeiros, de estudantes, de drogados, e de microcefálicos, o primeiro automóvel que aparece. Em média mudo cinco vezes de vestimenta e de carro até chegar ao meu destino, e quando chego, ao volante de um camião TIR, a dançar numas calças enormes, os meus amigos queixa-se de eu não ser pontual.

António Lobo AntunesLivro de Crónicas, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1998

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

O teu rosto surge vindo do branco da espuma / Brilha no azul do céu, e deixa-me / De rastos
Armando Silva Carvalho

Retrato do Sultão Maomé II

atribuído a Gentile Bellini (1480)
está em Londres, na National Gallery

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

gostam muito de passar as mãos pelo pêlo de suas incelências, e depois fodem-se

Vamos lá a ver: isto que aconteceu ao Relvas é lamentável, mas é consequência de quem não se dá ao respeito. E também da ideia peregrina dos idiotas que convidaram para o colóquio da TVI alguém, não apenas politicamente ferido de morte, como comprometido com o desmantelamento da RTP, negociata ainda não completamente anulada. Convidar o Relvas para discursar no Iscte sobre comunicação social, tal é a tendência para permanentemente bajular o Poder... É preciso ser estúpido.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

um retrato de Teixeira de Pascoais por Fernando Lanhas

retirado de Estrada Larga (ed. de Costa Barreto), vol. I, Porto, s.d.

domingo, fevereiro 17, 2013

A RUA

George Grosz, A Rua (1915)
Está em Estugarda, na Staatsgalerie.

acordes nocturnos


sábado, fevereiro 16, 2013

(MOSCOVO, 1952 -- OS DESMEMORIADOS)


 Ilya Eremburg e eu chegamos silenciosos de uma conversa com figuras gradas nos altos escalões a propósito de nosso amigo Jan Drda, atendendo pedido que ele me fez em Praga de onde venho para receber o Prémio Internacional Estaline da Paz: o prémio me credencia. Estamos em Janeiro de 1952, vinte graus abaixo de zero, vento gélido varre as ruas de Moscovo, emborcamos os cálices de vodca no apartamento da rua Gorki, Ilya me diz: Jorge, somos escritores que jamais poderemos escrever memórias, sabemos de mais. No abalo da conversa que acabamos de ter, balanço a cabeça concordando.
Afirmação categórica não impediu que, alguns anos depois, durante o período de Krushtchev, ao se abrir uma pequena brecha no obscurantismo soviético, ao despontar de uma pequena luz no meio das trevas, o autor de Degelo publicasse sete tomos de memórias, sete, nada menos: no sétimo Zélia e eu figuramos, simpáticos personagens. E isso não é tudo, pois Irina me contou, em 1988, estar pondo em ordem os papéis do pai com o fim de editar vários volumes de memórias inéditas que ele não consegui publicar sequer durante a abertura de Krushtchev: Ilya sabia de mais.
Durante a minha trajectória de escritor e cidadão tive conhecimento de factos, causas e consequências, sobre os quais prometi guardar segredo, manter reserva. deles soube devido à circunstância de militar em partido político que se propunha mudar a face da sociedade, agia na clandestinidade, desenvolvendo inclusive acções subversivas. Tantos anos depois de ter deixado de ser militante do Partido Comunista, ainda hoje quando a ideologia marxista-leninista que determinava a actividade do Partido se esvazia e fenece, quando o universo do socialismo chega a seu triste fim, ainda hoje não me sinto desligado do compromisso assumido de não revelar informações a que tive acesso por ser militante comunista. Mesmo que a inconfidência não mais possua qualquer importância e não traga consequência alguma. Mesmo assim não me sinto no direito de alardear o que me foi revelado em confiança. Se por vezes as recordo, sobre tais lembranças não fiz anotações, morrerão comigo.

Jorge Amado, Navegação de Cabotagem -- Apontamentos para um Livro de Memórias que Jamais Escreverei (1992), Mem Martins, Publicações Europa-América, 1992,

O Vale do Riff - Queens Of The Stone Age, «Dark As The Dungeon»


sexta-feira, fevereiro 15, 2013

A Árvore e o Ninho


O maravilhoso poema para a infância (e para todos) de Bernardo de Passos, A Árvore e o Ninho, com capa e ilustrações de Roberto Nobre, edição da Casa do Algarve, Lisboa, 1931.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

A vida é o dia de hoje
João de Deus

sábado, fevereiro 09, 2013

a verdade é que eu amo inquéritos

Graça Morais, A Caminhada do Medo (2011)

Precedido da magnífica obra de Graça Morais -- talvez a pintora portuguesa contemporânea que mais me diz --, o último JL traz um inquérito a 15 escritores, a propósito do papel do escritor no quadro actual de crise e confusão.
Todas as respostas são interessantes, nem todas coincidentes, como é desejável e seria de esperar. Eis alguns fragmentos:

"[...] creio que nunca houve mudança sem uma poética da mudança." Manuel Alegre;
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas a canalha é a mesma." Paulo Moreiras;
"O escritor livre tem imunidade lógica: contraria e contradiz." Patrícia Portela;
"Escrever sobre "isto"? Só se for através de uma escrita a quente, marcada pelo ódio. A literatura serve-se nua e fria." João de Melo;
"[...] as grandes obras acabam sempre por nos fazer perguntas importantes e obrigam-nos a reflectir sobre elas. Não consigo imaginar um intervenção cívica de maior importância." Nuno Camarneiro;
"Para mim, vida e arte não são opostas, nadam no mesmo oceano. E a literatura ou agarra o seu tempo ou é nada-morta. // [...] os livros dignos desse nome são sempre uma pergunta ao real." Rui Zink;
"[...] o primeiro dever do escritor é escrever bem, entendendo-se este «bem», não enquanto «bem-escrevência», mas como mestria dos recursos da imaginação, originalidade, capacidade de combinação e destreza de linguagem, de acordo com o talento [...] de cada um. No fundo, os velhos «engenho e arte» de Horácio." Mário de Carvalho.

O vale do Riff - Eliza Carthy, «Monkey»


acordes nocturnos

Orquestra de Câmara de Praga

a tralha cavaquista + o bloco central dos interesses


Acabo de ver na sic a última parte da reportagem de Pedro Coelho sobre o BPN, o banco da tralha cavaquista, com cumplicidades do bloco central dos interesses.
Tem de haver sangue, porque o povo já está a sangrar às mãos do lixo que se apoderou do Estado. 
Para evitar coisas piores, seria bom que os líderes políticos honestos deixassem de pactuar com a escória que enxameia os partidos "do arco da governação" (ahahah!), da base ao topo. Acredito que tal só será possível com a desinfecção do sistema político. 
Mas terão os antónios costas & afins coragem e força para conduzir essa reforma? Duvido, infelizmente.
A consequência será o apodrecimento, como apodreceram a monarquia constitucional e a primeira república. Depois, as possibilidades serão muitas, todas más. 

7 anotações de José Bacelar


Uma máxima não pretende defen-
der um ponto de vista ou indicar
uma direcção; uma máxima cons-
tata, simplesmente. Não é pois um
género actual.

1 - A tarefa do crítico é facilitada quando não se trata já duma primeira obra. Uma frase resolve tudo: «É pior que a anterior».

2 - Importunamos os outros se lhes pedimos a respeito do que escrevemos a sua opinião; ofendemo-los se não lha pedimos.

3 - Há uma espécie de indulgência que é a indulgência do desinteresse. Uma indulgência mil vezes nefasta -- porque igualiza tudo e todos.

4 - Gritar, vituperar, amaldiçoar -- está bem ainda. Mas ai daquele que não faz como os outros -- ai daquele que friamente levanta um pouco o véu!

5 - Procurar dizer a verdade, hoje em dia, tornou-se muito simplesmente um sinal de infantilidade. O homem de verdadeira categoria mental -- é aquele que sabe mentir bem.

6 - O filósofo deve preparar-se para ver que o abandonam aqueles mesmo que o aconselhavam a dizer toda a verdade -- quando essa verdade sai afinal mais verdadeira do que a eles lhes convinha. 

7 - Invocar a verdade com grandes atitudes na discussão dos incidentes do jogo -- eis o que agradará sempre aos contendores dum e doutro lado. Mas que um espírito mais inquieto surja, que, pondo de parte os episódios e as combinações desse jogo, demonstre muito simplesmente que os dados estão viciados, e verá voltarem-se contra ele -- tanto os amigos da mentira, como os amigos da verdade.

José Bacelar, «Prefácio» de  Revisão 2 -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana, Lisboa, Portugália Editora, 1936.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

escrito numa caixa de comentários (ainda o "escurinho" do Arménio)

A referência idiota ao "escurinho", aludindo a Abebe Selassie, representante do FMI na troika, é típica do racismo larvar existente na nossa sociedade, entranhados por séculos de colonialismo, escravatura, etc. A quantidade de gente que diz "monhé", referindo-se a indianos, sem ter (?) noção de que é um termo ofensivamente repugnante... Quando eu andava na escola primária, havia uma cantilena que todos entoávamos: "Em Macau o bom chinês / limpa o cu ao português"...
Não somos menos racistas que os outros povos, nem menos dominadores, e se calhar nem mais moles -- como negreiros, traficando seres humanos, parece que nenhum povo europeu nos suplantou.
Arménio Carlos ter dito o que disse na tribuna de uma acção da CGTP foi como se dissesse "panilas", ou "larilas" ou "fufa" referindo-se aos homossexuais. Se no seu círculos de amigos cada um diz e porta-se como quiser, um dirigente da Inter não deve comportar-se como um tosco.
Que ele não deva ser criticado por isso, porque tal dará armas aos defensores da austeridade, seria cómico se não fosse trágico. Foi com esses argumentos que alguma esquerda (e já não falo dos funcionários do PC) ficava desconfortável quando vinham à baila o Gulag, os hospitais psiquiátricos, o KGB e muitas outras maravilhas com que a União Soviética brindou o "socialismo".

sábado, fevereiro 02, 2013

Vila d'Arcos

Vila d'Arcos fica ao Norte, um pouco para Leste, numa região de montanhas. É uma cidade de província e pequena com ruas empedradas em torno da catedral enorme como um navio de eternas viagens. As suas casas antigas -- nobres mesmo quando pobres -- são proporcionadas com justeza desde o degrau da escada até ao quadrado da janela, desde a balaustrada da varanda até à superfície da parede de granito sem reboco onde só a pedra de armas com arruelas, grifos e leões é grande demais sobre os ferros e as madeiras desconjuntadas da porta; como se no mundo em que estamos nada importasse, nem o frio do granito, nem a estreiteza sombria dos quartos, nem a pobreza monótona dos dias, mas só importasse a nobreza que mostramos à luz e que é o projecto da nossa alma.
É uma cidade antiga onde estagnada se desagrega e se dissolve lentamente uma vida desvivida gesto por gesto, sílaba por sílaba.
Os carros gemem ao longo das ruas empedradas. Passam poucos homens e rápidas mulheres vestidas de preto e em Maio as roseiras florescem nos muros que o Inverno cobriu de musgo. Por trás da portada verde da pequena janela da casa de esquina uma mulher de olhos agudos, muito juntos e castanhos, vê tudo, sábia e arguta, terrivelmente atenta, como se o seu olhar lesse e amparasse o desacontecer das coisas. Há jardins imprevistos, mais subtis e complexos do que o imaginável, onde crescem altas magnólias, com grandes flores brancas de pétalas profundas e largas, macias e espessas e onde a água de prata que irrompe da boca dos golfinhos de pedra cai nos pequenos tanques oitavados. Jardins de buxo, camélias e violetas perfumados de contemplação e paixão, de esquecimento e silêncio. Jardins docemente abandonados a uma solidão dançada pelas brisas, enquanto um longo sussurro de adeus acena de folha em folha nos ramos mais altos das árvores. Jardins onde reconhecemos que a nossa condição é não saber. É não poder jamais encontrar a unidade. E encontrar a unidade seria acordar.

1972

Sophia de Mello Breyner Andresen, Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Edições Salamandra, 1984