«Tem uma pequena agitação, dá dois passos em direcção à rua, eleva instintivamente os braços como a querer seguir o rumo do pássaro no infinito e depois recolhe-se de novo ao fundo da casa. / Em que pensamentos, ou em que magoadas dúvidas se devora a alma do Simplício Varandas? Na forma como retesa o peito e se volta subitamente para o celeiro, dir-se-á que luta contra uma ameaça qualquer.» Antunes da Silva, Suão (1960)
«-- Ali, seria diferente: conheceria como as pessoas ricas tratam quem está a seu cargo. Se não corresse o risco de receber da madrinha a reprimenda de lhe recordar, a propósito de tudo, as responsabilidades da sua idade, mulher já feita, circunspecta, tão precoce saíra -- pediria uma boneca.» Assis Esperança, Servidão (1946)
«"Está qualquer coisa a arder no cinzeiro", disse Mister DeLuxe. "É papel", disse Austin, apagando apressadamente o cigarro. "Molero detém-se numa tia que lhe comprou um aparelho para endireitar os dentes", continuou ele, "os outros rapazes ainda se riram um pouco por causa disso, um aparelho daqueles estava deslocado no meio ambiente, ali os dentes tortos cresciam em perfeita liberdade".» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
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1 comentário:
«Depois das referências acidentais que faz a Coimbra, no atinente a estudos e às musas, não trazer à colação Camões, dado que tivesse sido estudante da Universidade, é o mesmo que falar na Capela Sistina e não nomear Miguel Ângelo. Pelo contrário, o nome do poeta brotaria espontaneamente daquele articulado como a castanha do ouriço maduro. Nem se diga que semelhante lacuna se deva atribuir às manias do padre, carácter alforgeiro ou sistematicamente omisso quanto ao poeta e a tudo o que na vida ordinária lhe diga respeito. Aqui e além deixou escapar uma ou outra notícia, que alguma luz derramam sobre a vida do poeta, como por exemplo, a pretendida identificação de Camões com Leonardo, o soldado enamorado, que são muito menos oportunas e imperiosas do que esta. Haveria mesmo desdouro no seu lapso, admitindo que fosse de caso pensado. Camões, que até certo ponto deve ter presidido à elaboração dos Comentários, como se deduz do convite que fez ao escoliasta, teria sobejas razões para melindrar-se e, naturalmente orgulhoso como todos os do seu tempo, não sofreria o menoscabo. A nosso ver, pois, tudo indica que este silêncio devemos tomá-lo como o mais positivo dos testemunhos.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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