«Um açude sem peixes, sem fundo, este céu. Nuvens, veios ténues. E o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso, como um homem cansado, ar. // Há-de ser um instante em que não se veja nenhum pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
«Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)
«minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o voo fugaz dos cílios;» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)
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1 comentário:
«Glosa Manuel Correia: «Fez primeiro em Coimbra exercitar-se». Como este Príncipe era perfeitíssimo em tudo, quis que seus vassalos o fossem também, e que pois na milícia eram estremados, o fossem também nas letras, pelo que foi o primeiro que fez em Coimbra houvesse estudos, para os quais buscou homens de todas as partes eminentes, aos quais fazia muitas honras e mercês. «Ofício de Minerva», o exercício das letras, o qual se chama assim porque os Antigos chamaram a Minerva, que por outro nome se chama Palas, Deusa das ciências.«E de Hélicon as Musas fez passar-se», por termos poéticos e retóricos diz como el-rei foi o primeiro que fez houvesse estudos em Portugal. Hélicon é um monte dedicado a Apolo e às Musas, padroeiras dos poetas, que está em Fócis, região da Grécia, não longe do monte Parnaso, como diz Estrabão, lib. 9. Deste monte Hélicon se chamam as musas Hélicónidas, como lhes chamou Pérsio no prólogo das suas Sátiras. Diz aqui o poeta que deste monte Hélicon, onde as Musas tinham sua morada, se vieram a Coimbra, por onde rio Mondego passa.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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