quarta-feira, junho 05, 2024

caracteres móveis VII - CERROMAIOR

1 «Um grito encheu a cadeia. / Num sobressalto, o rapaz ergueu-se da sonolência em que jazia sobre a tarimba e foi até às grades. / Alquebrado de torpor, a princípio nada compreendeu. Viu, confusamente, os canteiros cheios de flores, as árvores e, para lá do jardim, o edifício amarelado dos Paços do Concelho.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

Outono. I «Fecharam os telhais. Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos.» Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941) 

I. O enxurro. «Vem o Inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza inteira envolve-se numa grande nuvem húmida que tudo abafa e penetra.» Raul Brandão, Os Pobres (1906)

2 comentários:

Manuel M Pinto disse...

«A obra de Raul Brandão é altamente eloquente no que tem de social, por conseguinte de humano. A dor foi sempre o centro planetário da sua arte. Mas não a dor metafísica, pela qual se é fácil cavaleiro, mas a dor individuada, que nos torna solidários e responsáveis com o próximo. A par com esta feição toda evangélica, em literatura era um artista do impressionismo. "Os Pescadores" e "Portugal pequenino" são duas obras, irroradas de todas as tintas da Primavera e da candura da neve, do melhor que pode ostentar a língua.»
Aquilino Ribeiro, "Camões, Camilo, Eça e Alguns Mais: ensaios de crítica histórico-literária." (1949)

R. disse...

Ao contrário de Aquilino, creio que a dor brandoniana se revestiu de ambos os aspectos: dor pelos que sofrem, e dor metafísica, por todos. Nisto ele aproxima-se muito do Ferreira de Castro, ou o contrário, pois Brandão vai ser uma das suas referência nacionais, talvez a sua maior influência.