quinta-feira, julho 31, 2025

3 versos de Fernando Namora

«No sonho redimo / o que só a viver / tem sentido.» 

A Heroína Inventada», Marketing (1969)

quarta-feira, julho 30, 2025

Karl Böhm, Sinfonia #1 (Brahms)

3 versos de José Agostinho Baptista

«incessantemente procurei um sentido para os dias e para as noites / interroguei-me sobre civilizações antigas / entreguei-me a surpreendentes ofícios» 

«A rigorosa inutilidade de tudo», Deste lugar Onde (1976)

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Serei agora capaz? Tento. Seguro-me ao argumento de que me dá prazer ler os registos dos outros. Lêem-se sempre com curiosidade. Um motivo para insistir -- satisfazer a curiosidade dos outros. Mas terei eu "outros"?» [1-II-1969], Conta-Corrente 1 (1980) § José Bacelar: «Para o espírito livre -- ou seja: para aquele espírito ao qual não foi feito o dom magnificente dum Absoluto, Absoluto que ele considerará coerentemente de raiz divina ou incoerentemente de raiz humana -- não existe, ou não existe ainda, se quiserem, uma Verdade única: o que existe, de facto, são pontos de vista.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Machado de Assis: «-- Pai José, disse ele ao entrar, sinto-me hoje adoentado. / -- Sinhô comeu alguma cousa que lhe fez mal... / -- Não; já de manhã não estava bom. Vai à botica... / O boticário mandou alguma cousa que ele tomou à noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § José Régio: «Isto ao cabo de longos intervalos em que ia fugindo uma paisagem árida, escalavrada, monótona, queimada do frio e escurecida não só do dia brumoso como de toda a tristeza  de Rosa Maria. / Do outro lado da estação, a caminheta esboçava no escuro o seu grande vulto bojudo. Rosa Maria ia subir, quando um homem alto a segurou quase violentamente:» Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941) § Frei João Álvares aos monges do Paço de Sousa (24-XII-1467): .../... «E estas cousas eu as escrevo e ponho aqui, não por vã glória nem por me gabar, somente por ficarem na memória apegadas sem esquecerem  e não tão somente durarem nos entendimentos, mas ainda nas cartas e nos livros, por que ouçam e falem e se recordem pera sempre.» .../... in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965) § Fialho de Almeida: «Argumentam daí: a susceptibilidade requintada que  faz certas mulheres terem síncopes aspirando o perfume de flores é um caso vulgar de histeroarte. História!... são as almas dos amantes mortos, dos maridos, dos filhos, que volvem nas flores, mordidas de ciúmes, esfaceladas de saudade, ocultas sempre na evolação mais aromática das nectáreas, e anos e anos errantes primeiro que se lhes depare quem procuram, e que um dia, subitamente, quando as pobres mulheres vão mergulhar a narina na urna duma gardénia, lhes ciciam de dentro: "Sou eu, não tenhas medo, eis-nos de novo, juntos, outra vez!"» O País das Uvas (1893) -- «Pelos campos» § José Duarte: «Amanhã há trombone» Cinco Minutos de Jazz (2000)

terça-feira, julho 29, 2025

3 versos de Arnaldo Santos

«Banco raso / Celha cheia / Mãos pretas em roupa branca» 

«Dois quadros - Lavadeira», Fugas (1960)

o que está a acontecer

«Um grito encheu a cadeia. / Num sobressalto, o rapaz ergueu-se da sonolência em que jazia sobre a tarimba e foi até às grades. Alquebrado de torpor, a princípio nada compreendeu. Viu, confusamente, os canteiros cheios de flores, as árvores e, para lá do jardim, o edifício amarelado dos Paços do Concelho.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Resignou-se. Na altura, acusei-a intimamente por me ter recebido assim. Aproveito esta ocasião para corrigir esse erro. Convencemo-nos de que  as mães católicas sofrem muito quando os filhos varões saem de casa e estão sempre desejosas de um regresso para o qual contribuem com pequenas artimanhas, censuras às noras e outras armas do arsenal da mãe latina.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

«Ouvi chamarem-lhe santo homem, com unção e humildade; mas ouvi também minha avó, de lágrimas nos olhos e ódio na boca, amaldiçoá-lo por mais de uma vez, como se de um tirano falasse. Dum tirano irremediável que nada, nem ninguém, pudesse apear do mesmo trono onde morava Deus.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)  

segunda-feira, julho 28, 2025

Madonna, «I'm Going Bananas»

1 verso de Liberto Cruz

«Ah! Mas isso era tomar uma atitude.» 

«Cobardia», Momento (1956)

sábado, julho 26, 2025

sexta-feira, julho 25, 2025

claro, claro...

 Claro, claro...

4 versos de José Régio

«Vergo a cabeça sobre o peito, / Concentro os olhos sobre o umbigo, / E um coração que me hão desfeito / Chora de achar-se só comigo...» 

«Mitologia», As Encruzilhadas de Deus  (1936)

o que está a acontecer

«Toda a minha família falou nesse facto histórico durante mais de uma década, julgando-me talvez predestinado para agradar aos amos, espécie de deuses agrários no meu país de desventura e de sonho. (Aqui lhe agradeço o prestígio que esse gesto de ternura me fez conquistar na aldeia.)» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Este acontecimento menor poupou-me a meses de psicólogos e ansiolíticos. Digam o que disserem, encontrar consolo na arte é um razoável substituto da religião. / A minha mãe acolheu-me com impecável sentido de responsabilidade e o sentimento da mal disfarçada incomodidade de quem recebe um presente que não aprecia ou de que não precisa.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

«Decidiu então esperar um pouco. Brando, o grito escorre para dentro, é o silêncio exactamente às avessas: beber o cálice do socorro ou fugir dali para fora, de gatas e aos apalpões à escuridão. Terá contudo de apanhá-lo na próxima corrida, quando vir o gafanhoto empinar de novo as patas e alçar do seu voo de anjo mortal sobre o motor da luz, para o destruir à granada.» João de Melo, Autópsia de um Mar de Ruínas (1984)

quinta-feira, julho 24, 2025

Bobby Timmons, «Samba Triste»

manipular para a cidadania - o papel dos 'merdia'

Anteontem, num espaço de debate com Miguel Relvas, Pedro Adão e Silva e Rui Moreira, com a mesma falta de rigor com que noticia a guerra da Ucrânia, a cnn-Portugal largava uma bomba 'noticiosa' que rezava mais ou menos assim: a educação sexual estará fora do currículo da disciplina de Educação para a Cidadania (ou lá como se chama).

Ora, aquilo que o ministro Fernando Alexandre veio esclarecer ontem, já o fizera na semana passada, se não antes, dizendo que a única restrição que haveria incidia sobre a questão da 'identidade de género'. Li-o na imprensa escrita, salvo erro no DN, que ainda é o único jornal que consigo comprar (Deixo o tema para outra altura, pois o meu propósito é o de escrever sobre o papel dos merdia), estando os conteúdos do programa serem trabalhados por especialistas.

Resumindo: a cnn-Portugal sabia que estava a noticiar uma mentira -- fake news, como diria o Trump --, pelo que vemos, cheio de razão, a avaliar pela amostra. A cnn-Portugal não quer informar, quer espectáculo, controvéria, polémica, audiências, lucro, dinheiro, carcanhol. Como órgão de informação, a cnn-Portugal é uma reles puta.

Mas é lamentável que os comentadores, em especial Relvas e Adão e Silva (Rui Moreira esteve bastante melhor) tenham mordido o anzol e começarem um estúpido despique sobre uma 'notícia' -- que eles, como comentadores (além disso, presumo que bem pagos) tinham a obrigação de saber que era não só incorrecta ou sensacionalista; pior que isso, era falsa.

E por isto, volto a uma velha questão: como é possível estas porcarias de televisões privadas, que gozam de um bem público como a concessão pública de sinal de transmissão usarem os canais informativos para a manipulação mais soez, em vez da informação a que deveriam estar obrigadas; sem falar (faço-o uma e outra vez...) das badalhoquices que transmitem nos canais generalistas, tornando o espaço público numa pocilga?... 

Não vamos esperar que o poder político lhes dê um aperto merecido e lhes faça qualquer aviso sério -- não se pode pedir isso aos cúmplices que precisam das estações para se promover ou agradar. Também não será esta sociedade civil amorfa e narcotizada que irá proceder a qualquer contestação, quer à vigarice informativa -- coitada da sociedade civil, que engole tudo o que se lhe põe à frente... -- e menos ainda à boçalidade recreativa.

4 versos de Carlos Queirós

«Repouso a minha fronte, / Dorida, no teu peito; / E o meu bem estar é feito / De não ter horizonte.» 

«Canção fatigada», Desaparecido (1935)

quarta-feira, julho 23, 2025

a carta dos 25 é insuficiente e tardia; o embaixador americano em Israel até a classificou como nojenta

Exceptuando os países da lista que já reconheceram a Palestina como estado (dos 25, creio que apenas a Eslovénia e a Irlanda), os restantes, incluindo Portugal -- talvez tentando amainar um pouco as respectivas opiniões públicas, ultrajadas com a selvajaria do estado israelita, lá resolveram exigir os mínimos, embora demasiado tarde e a más horas. A Alemanha, a pátria do nazismo e do Holocausto, ficou obviamente de fora -- o que até é compreensível: ainda estão vivos alguns milhares de vítimas, e de carrascos também.

A desqualificação moral do Ocidente é repugnante. O embaixador americano em Israel diz que o "apelo" de 25 países é "nojento" -- o que é bem feito para boa parte deles. 

A existência do estado de Israel é mais precária cada vez que sua acção faz evocar os carrascos hitlerianos. Não é ainda o caso, e creio que nunca será. No entanto, brutalidade, selvajaria, desumanidade, violência, racismo, crime não precisam nunca de chegar ao último patamar do nazismo para eximir de qualquer forma a falha moral de Israel, dos seus governos, e sim, dos cidadãos que os apoiaram. Porque não foi só a OLP que reconheceu taxativamente o direito de Israel existir; o próprio Hamas, em tempo, deixou a porta aberta para um entendimento sobre o status quo. Onde isso já vai...

E nunca esquecer o papel do criminoso Netanyahu: este e os outros conflitos existem apenas porque precisa de salvar o coiro; para tal, tem de manter-se no poder; para tal, precisa de crise e guerra permanente o que lhe proporciona o apoio dos lunáticos perigosos ultra-religiosos, que, obviamente, se aproveitam da situação para  levar a sua avante, e Netanyahu aproveita-se dela também. Por isso mesmo, sabendo dos ataques do 7 de Outubro, avisado pelo Egipto e pelos Estados Unidos fez-se desentendido: o caminho para Gaza (e Cisjordânia), a limpeza étnica e o genocídio tinham via verde; e de caminho o julgamento por corrupção passava a ser inoportuno. 

Não há desculpa para para a passividade de muitos países nem para o silêncio cúmplice da União Europeia.

3 versos de Alberto de Lacerda

«O céu merecido: um momento só / que eu tenha sobre a terra / inteiramente repousado.» 

77 Poemas (1955)

terça-feira, julho 22, 2025

Cannonball Adderley, «Smoke Gets In Your Eyes»

a língua de pau dos "amigos" da Ucrânia

Comentadores leves como penas, deslumbrados consigo próprios. Quem leia este indivíduo, de seu nome Manuel Serrano, num "português" ligeiro, para não maçar muito a cabeça dos  apressados (estou a ser benévolo para com o autor) e não perceba um boi do que se fala, apesar de julgar-se muito informado, deve achar refrescantes, e até divertidas, estas observações desempoeiradas a propósito de temas que angustiam o indígena, mas sobre os quais o indígena não percebe um boi -- o indígena sabe é que não gosta de guerra, destruição, morte e que os russos são uns malandros e Putin, em particular, é um louco. 

Como diria outra luminária: "Estava a Ucrânia posta em sossego..."

Vejamos, então:

É aqui que a Europa deve intervir, não como espectadora que demora quase dois meses a aprovar um pacote de sanções, mas como arquiteta de um ponto de viragem. A tarefa não é defensiva, é ofensiva: construir poder para evitar o colapso. O Conselho Europeu deve superar a reação para assumir a antecipação. A União deve agir com voz única e vontade firme: confiscar ativos russos, eliminar o veto na política externa, isolar os Estados-membros que falam em nome do Kremlin e fomentar uma defesa europeia, em parceria com o Reino Unido. Não para rivalizar com Washington, mas para que o elo transatlântico seja uma verdadeira parceria. E enquanto o dólar perde terreno e os Estados Unidos credibilidade, existe uma janela de oportunidade para que o euro se afirme como alternativa de reserva global. A emissão conjunta de dívida, orientada para as transições estratégicas – defesa, energia, digitalização, indústria – seria o instrumento económico que falta à ambição política, patente no Quadro Financeiro Plurianual apresentado.

O que dá tudo isto espremido? Nada, porque não passa de fantasia alucinada, fogo de artifício argumentativo atirado aos olhos dos incautos, enquanto as canas não lhes caem a pique cabeça abaixo.

Diante da rebaldaria de Donald Trump, deve ser a "Europa" a levantar o facho civilizacional das democracies... e de forma "ofensiva": "construir para evitar o colapso", diz, ocultando que o colapso foi ela própria que o criou ao remeter-se à condição de proxy da superpotência dominante. E de que modo?

1- "confiscar activos russos" -- ou seja, extorquir o que não lhe pertence (mas continuar a comprar gás russo por portas e travessas, entre outras atitudes de grande lisura). Este Serrano deve achar que os russos vão deixar-se roubar e a seguir calar-se -- pois não andam eles a combater cheios de fome e sem botas?

2 - "eliminar o veto em política externa" -- isto seria o cúmulo da demência, pois pressuporia que qualquer estado votasse contra si próprio, desistindo de mais soberania e da única forma que um país pequeno ou médio tem para fazer valer os seus interesses fundamentais no seio da UE -- ou seja, de novo, renunciar voluntariamente ao poder de veto "em política externa" -- nem que para tanto se procedesse como parece que a Dinamarca quer fazer, castigando a Hungria, pondo-a à margem das votações, conforme previsto nos tratados. Tenho dúvidas, de qualquer forma que tal fosse possível, mesmo com os magiares de quarentena. Mas para além da Hungria, há a Eslováquia. Como o vivaz articulista usa o plural, claro está que pensa também no país de Robert Fico para ir para o castigo. E os restantes pequenos estados? A Áustria, por exemplo, com especiais relações com a Hungria?; ou Portugal, país médio europeu com postura de anão, que desbarata em larga medida o seu soft power: estaria Portugal disposto a renunciar a ter poder, uma vez que não sabe utilizar o poder que potencialmente tem? E não poderia um governo que diminuísse desta forma o próprio país ser acusado de alta traição? Quanto a mim pode; mas destas minudências não se ocupa o escrevedor.

3- Sobre o euro poder vir a ser "uma alternativa de reserva global", não tenho a mínima competência para pronunciar-me, mas atendendo ao guião, não me custa deduzir tratar-se de mais palavras sem consequência possível, mais fogo de artifício. Junte-se a emissão conjunta de dívida, já experimentada com as vacinas, um anátema ao tempo da crise das dívidas soberanas.

Já gastei demasiado tempo com toda esta insubsistência, palavreado atirado ao vento e às cabeças dos cidadãos. Resta dizer que há um grande problema que a Europa não resolveu nem irá fazê-lo tão cedo: não é um país, nem um federação, e ainda bem. A porventura desejável confederação é ainda uma miragem para as futuras gerações: a não ser que entremos muito depressa na noite escura da guerra, como parecem pretender (ou não entender, ou ainda marimbar-se desde que se produzam umas linhas de bom efeito) os "amigos" da Ucrânia.