«escuta o arranhar da vassoura / no passeio, / ouve a blandícia tónica das vozes / que sobem da rua, / atenta na canção que o negro chora / nas cordas da viola e na lonjura.»
«Espreita o inescrutável», O País dos Outros (1959)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«escuta o arranhar da vassoura / no passeio, / ouve a blandícia tónica das vozes / que sobem da rua, / atenta na canção que o negro chora / nas cordas da viola e na lonjura.»
«Espreita o inescrutável», O País dos Outros (1959)
Na década de 1930 Tintin suscitava reservas ao conservadorismo: não tinha família, não estudava, era demasiado livre. A revista Coeurs Vaillants propõe assim a Hergé uma série com crianças normais, inseridas numa família tradicional. Nascem então Jo, Zette et Jocko – Joana, João e o Macaco Simão, em português –, os gémeos da família Legrand, composta pelo pai engenheiro, a mãe doméstica, e um chimpanzé.
O Vale das Cobras em curso de publicação em 1939, foi interrompido e só retomado na década de 1950, pelos Estúdios Hergé, concluído por Jacques Martin (Alix, Lefranc) e Bob de Moor (Barelli, Cori, o Grumete), saindo o álbum em 1957.
Numa estância de neve na Alta Sabóia, Joana, João e Simão cruzam-se com o Marajá de Gopal, rei dum país imaginário nos Himalaias indianos. O marajá merece, por estupidez própria, figurar na galeria das grandes personagens secundárias de Hergé, que o qualificava como um Abdalá (O País do Ouro Negro) adulto. Entra em conflito com os miúdos porque estes ousam ultrapassá-lo no ski, e como se não bastasse ainda apanha com uma bola de neve em cheio na cara. Qualquer contrariedade tinha como punição mínima o açoitamento do infractor, pelo que as coisas não poderiam correr-lhe de feição, quando intervém o pai Legrand. Sanados os hilariantes incidentes, o engenheiro é convidado pelo soberano a construir uma ponte numa região remota do país. O que ambos não sabem é que o seu vizir pretende dar um golpe e ser marajá no lugar do marajá…
Mesmo a seis mãos, trata-se de puro Hergé, dando ideia, ao virar de cada página, de que Tintin vai aparecer por ali...
Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão – O Vale das Cobras
texto e desenhos: Hergé (com Jacques Martin e Bob de Moor)
edição: Difusão Verbo, Lisboa, 1981
(Novembro, 2019)
«Depois da acabrunhadora tristeza daquela infindável viagem, daquela soturna chegada, essa alusão mental à morte recente da mãe chocou-a a pontos de sentir que ia chorar. Se a mãe fora viva, não andara ela por aí sozinha, já de noite, assim carregada, exposta a estas pequenas humilhações que todavia abatem uma rapariga tímida -- e endereçada a parentes pelo visto pouco gentis.» José Régio, Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941)
«André apertou na sua uma mão seca, ossuda e brusca. Agora próximo, de novo se abriu o clarão do cigarro. André mais adivinhou que viu um bigode negro e um rosto anguloso e moreno. / Os três vultos desceram o talude junto à via férrea e seguiram por uma azinhaga sombria, enfeixada entre renques de árvores de forma confusa.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975)
«Ele levantara os olhos devagar, num esforço, e fora então que as ancas da mulher, assim sentada, lhe pareceram mais amplas do que quando ele estava em pé. Os seus olhos fugiram imediatamente do diabo que se escondia ali, sob as saias, redondo que nem uma abóbora; mas logo se enredaram no sorriso que a mulher luzia -- um sorriso brando e húmido.» Ferreira de Castro, A Missão (1954)
Tem sido uma debandada, entre o grotesco e o hilariante. Não há uma única razão para que tal esteja a acontecer, mas a principal, para este volumoso número de baixas em combate, será a da exposição pública da ignorância espessa e mediocridade crassa de uns quanto académicos & outros comentadores. Tão insuportável que os leva a fugir.
Ora, uma das razões, talvez a principal, para estes comentadores terem ficado knock-out, é a falta de noção de que nas relações entre estados a Geografia e a História ultrapassa em muito os protagonistas de turno. Nem a Rússia ficaria quieta se fosse outro a liderá-la que não Putin, nem Trump, mesmo com a atenção virada a Oriente, deixará a Nato. Isto é o bê-a-bá que qualquer historiador percebe, se não estiver condicionado por preconceitos (sucede a todos, e a mim também).
Estes medíocres que alegadamente lêem muito mas não percebem nada -- imagino a quantidade de irrelevâncias e lixo académico que não passará debaixo daqueles olhos --, submetem as suas impressões (partindo do princípio que dali saia qualquer pensamento original e sólido) -- a uma ideia peregrina que dá às lideranças um protagonismo determinante. Acontece que sendo importantes, as lideranças nunca dependem apenas da vontade. Nas suas pobres "análises" (vamos classificá-las assim por caridade cristã) é como se se tratasse de peças num xadrez que se movem sem tabuleiro (a Geografia), e que quem as faz mover não estivesse grandemente condicionado pela História, real ou mítica, para o caso tanto faz. E quem não percebe isto -- mesmo que saiba o nome da sogra do governador da Pensilvânia --, não percebe nada. Como se tem visto, com a retirada desordenada dum batalhão de especialistas que no fundo pouco têm de especial.
«1-Fevereiro (sábado). Fiz cinquenta e três anos há dias. Como é óbvio, não acredito. Mas enfim, é a opinião do Registo Civil. Acabou-se, fiz cinquenta e três. É aliás uma idade inverosímil, a minha, desde os cinquenta. A "vergonha" da idade (que não tenho) deve vir daí.» Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1 (1969-1976) (1980)
.../ ... «A esta sensação de plenitude junta-se também uma ideia de plenitude que nos converte, física e mentalmente, nos seres mais felizes da criação. Entra em nós uma espécie de fenómeno cósmico de dissipação generosa, fraternal, que nos põe de bem até com todos os credos políticos e sistemas sociais; perdoando tudo, não odiando nada, desejando sòmente -- ser, sentir, pensar.» António de Cértima, Doce França (1963)
.../... «Benes era, sem dúvida, um homem de excepcional envergadura intelectual e moral. / Quem teve a ventura de ler o seu livro "Democracia de hoje e de amanhã" verificou, sem esforço, que o antigo Presidente da República checoslovaca não conseguiu, sòmente, de maneira superior, interpretar os grandes problemas do nosso tempo. Não se limitou a isso. Foi mais longe.» .../... Vasco da Gama Fernandes, Jornal (1955)
«I. Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
«Introdução. Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte: / Simão António Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e estudante da Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa, e assistente na ocasião da sua prisão na cidade de Viseu, idade de dezoito anos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Caldeirão Castelo Branco, estatura ordinária, cara redonda, olhos castanhos, cabelo e barba preta, vestido com jaqueta de baetão azul, colete de fustão pintado e calça de pano pedrês.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)
O termo não é meu -- ao contrário do me(r)dia --, mas ainda é melhor. Não tenho nada a favor do Trump, excepto ele preparar-se para retirar os Estados Unidos da Ucrânia, espera-se, e largar à sua sorte as marionetas de Kiev e da União Europeia.*
Mas ainda tenho menos a favor deste jornalixo com acne retardado, que não se contenta em ser analfabeto, mas é também activista de causas e engraçadista, como deduzo pela inclusão de uma foto apalhaçada do presidente eleito dos americanos.
Talvez fosse aceitável se ilustrasse uma das alarvidades do homem; mas não, trata-se de um banalíssimo tema (resultados eleitorais), embora importante.
* Mas tenho imensamente imenso a favor de Tulsi Gabbard, antiga apoiante de Bernie Sanders no Partido Democrata, do qual fugiu após a chapelada interna para beneficiar a Hillary e de o partido democrata -- de resto, apoiado recentemente pelo insigne Dick Cheney --, tomado por neocons e wokes, passar a constituir-se em perigo sério.
«I.Tinham dado onze horas no "cuco" da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse: / - Tu não te vais vestir, Luísa? / - Logo.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)
«Na Primavera de 1859, comprei na estação de Santa Apolónia, um bilhete da via-férrea para a Ponte da Asseca. Saudades do campo, ânsias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima disto, o meu dorido amor a quantos sítios guardavam para a minha memória do coração vestígios da infância, que tão depressa passara com as flores outra mais formosa Primavera... A que vem isto?!... É a saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdoe-me.» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)
«Um dia, numa floresta, ao entardecer, quando por sobre as frondes ressoavam as buzinas dos porqueiros, e lentamente na copa alta dos carvalhos se calavam as gralhas, um lenhador, um servo, de surrão de estamenha, que rijamente trabalhara no souto desde o cantar da calhandra, prendeu a machada ao cinto de couro, e, com a sua égua carregada de lenha, recolheu pelos caminhos da aldeia, ao castelo do seu Senhor.» Eça de Queirós, S. Cristóvão (C. 1891/1912)
...Na profunda desonestidade intelectual e no exercício de amalgamar alhos e bugalhos, lançando a confusão nos incautos,
O sionismo expansionista racista no poder em Israel procura confundir com antissemitismo as críticas à brutalidade, selvajaria e prática de crimes contra a Humanidade perpetrados pela tropa israelita contra todos os palestinos da Faixa de Gaza. Estes agentes do massacre, da limpeza étnica -- e porque não dizê-lo, mesmo se juridicamente possa ser controverso? -- do genocídio, são os primeiros a desonrar os seus compatriotas e antepassados exterminados pela perversão nazi, maligna, patológica e cobarde -- basta ver a ignomínia da utilização da estrela de David à lapela pelo embaixador israelita na ONU. Para eles, o sagrado, a honra, a memória não existe, ou é cinicamente instrumental, intimidando os críticos com espúrias conexões entre quem os critica e presumíveis tendências ou cumplicidades neonazis. Um embuste que colhe entre os ingénuos e os burros do costume.
O proselitismo woke sempre que é criticado ou atacado na sua insanidade evangelizadora (v.g. a chamada "linguagem inclusiva"), que além de incrivelmente tonta é formalmente, ou seja, gramaticalmente errada (todes, presidenta, etc), procura proteger as suas orientações de manicómio com manobras de confusão, sempre para os mesmos ingénuos, ou apenas burros, com vénia para o quadrúpede, recorrendo a várias formas de desarmar os opositores, entre a mistificação e a intimidação, a saber:
a) misturar causas nobres, como o antirracismo, com as suas aberrações: ao associar um combate nunca terminado à discriminação racial com a promoção de idiotices como a chamada "identidade de género", procura limitar os críticos, pois ninguém bem formado quer ver-se associado a mínima tolerância para com a desigualdade em função do género, etnia, religião ou orientação sexual -- que é outra coisa, dando desta forma cobertura a obscenidades como a que sucedeu numa prova de boxe nos últimos Jogos Olímpicos , em que um homem apresentado como mulher massacrou a atleta que se lhe opunha, com justificada revolta desta, a contemporização cobarde dos dirigentes olímpicos e federativos, e o furor censório-inquisitorial dos evangelistas do costume;
b) diminuir os opositores com a classificação dos críticos como pertencentes à extrema-direita -- como há dias fez uma das irmãs Mortágua, já não me lembro qual. Truque velho que funciona com os medrosos e os videirinhos do costume, que nunca se comprometem.
c) a defesa do relativismo cultural, até onde eles próprios tiverem coragem de o fazer. Não conheço wokes que defendam a burka (talvez exceptuando uma espécie de fato de banho que deu que falar há uns anos) ou a excisão genital feminina. A tal eles não se atrevem, mas pouco escapa, em nome de um falso respeito pela identidade cultural desta ou daquela etnia, marimbando-se para o facto de em várias circunstâncias essa pseudo-assunção identitária ser uma imposição brutal, machista e aqui sim, patriarcal. Por exemplo, a obrigatoriedade do uso do véu islâmico, que todas as verdadeiras feministas contestam (aí está a corajosa e brava Narges Mohamadi), para vergonha destes activistas de pacotilha. E nunca me esquecerei, a propósito, de, num momento de grande infelicidade, numa entrevista ou programa da Antena 1, Miguel Portas referir-se a como o chador realçava a sensualidade da mulher muçulmana... deve ser por essa razão que as mulheres iranianas -- das mais belas que a Humanidade criou --, quando se apanham fora do jugo dos aiatolas mandam às malvas essa pretensa sensualidade...
Como dizia o velho Jorge Amado, a ideologia falsifica (posso dar a referência bibliográfica, com indicação do número de página, onde este romancista e verdeiro activista anti-racista sustentou o que acaba de ser referido).
«Por estes vos darei um Nuno fero, / Que fez ao rei e ao Reino tal serviço; / Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero / A cítara para eles cobiço;»
Os Lusíadas I-12 (1572)
Parei excepcionalmente na sic-notícias, falava o general Pinto Ramalho, a quem já ouvira abordagens sérias a respeito desta guerra. Era raro vê-lo, especialmente porque tinha em frente ou ao lado uma diversificada cópia de comentadores, entre o oportunista, o ignorante e o asno. Hoje, diante de um alucinado que já só faltava ele próprio envergar o uniforme e ir de armas na mão combater os russos na Ucrânia -- está-se mesmo a ver --, o pobre do general, certamente confuso pela insânia ao vivo -- diz que é para a defesa do mundo livre, claro que foi isso mesmo que os americanos andaram a fazer o belo trabalho dos últimos anos, a trabalhar pelo mundo livre, como é seu timbre... --, diante de tanto espasmo bélico, apoiado em camadas grossas de mistificação ou ignorância de académico marrão -- resolveu pôr fim à função, recusando-se continuar a debater.
E a débâcle ucraniana só agora se começa a ver, pese a desinformação continuar abundante. Grotesco de se assistir, mas vamos ter espectáculos destes nos próximos tempos.
«Sobre a montada, subindo devagar a trilha pedregosa, Leonardo esmoía íntimas irritações. Não podia ser! Os galegos estragavam tudo, quer pagando quantos direitos os guardas-fiscais lhes exigiam, quer andando, na calada da noite, a fazer contrabando de peles. Ainda se aparecessem muitas de texugo e de tourão, em que os ganhos pingavam mais, sempre se poderia ir vivendo. Mas não.» Terra Fria (1934)
«Os dias andam devagar, / Ao ritmo da minha pressa.»
«Não há-de ser nada», Sob Este Título (2017)
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.