domingo, janeiro 31, 2021

sábado, janeiro 30, 2021

a arte de começar

 «Tinham dado onze horas no "cuco" da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:»

Eça de Queirós (1845-1900), O Primo Basílio (1878)

Tony Banks (1950) - Seis Peças para Orquestra (2012) - #6 City of Gold




sexta-feira, janeiro 29, 2021

um dia histórico

 A aprovação da legalização da eutanásia pelo Parlamento é mais um passo na libertação das pessoas das parvoíces religiosas que a beatice procura a todo o custo preservar. 

Percebo que por razões éticas e filosóficas (e até religiosas, que é uma possibilidade que a liberdade individual dá) se seja contra, desde que aplicada a si mesmo. Que se queira impingir as crenças próprias aos demais é dum descaramento e falta de noção para os quais não pode haver contemplações.

Postura diferente tem o PCP, que receia que a miséria humana a vários níveis comece a despachar os velhos doentes por dispensáveis. Percebo mas obviamente discordo. Não há autoridade moral e política e muito menos conjuntura social que tenha legitimidade para coarctar a liberdade das pessoas.

quinta-feira, janeiro 28, 2021

terça-feira, janeiro 26, 2021

na estante definitiva

 2. Continuar: «Na história da estética portuguesa do século XIX, onde situar com mais evidência as primeiras correspondências a uma "arte útil"?» Cap. I: «Até finais de 1935: motivações e primórdios de um trajectória de inspiração marxista» (pp. 11-22).

A década de 1930 foi apaixonante no que respeita a debates e confrontos de posicionamentos estéticos sobre os méritos e deméritos de uma arte útil ou inútil (para simplificar...). A questão vinha já detrás e de fora, no prefácio de Théophile Gautier ao seu romance Mademoiselle de Maupin (1835), proclamando que toda a arte para o ser não deveria servir outro propósito que não o seu próprio, o célebre prinípio da arte pela arte.
Alvarenga recua à Geração de 70 e a Antero de Quental, que no prefácio às Odes Modernas (1865) afirma: «A poesia que quiser corresponder ao sentir mais fundo do seu tempo, hoje, tem de forçosamente de ser uma poesia revolucionária.» Estranho a ausência de uma referência à conferência de Eça de Queirós do Casino Lisbonense, em 27 de Maio de 1871, «A "Literatura Nova" ou "O Realismo como nova expressão da arte», provavelmente porque o texto se perdeu, sendo reconstituída posteriormente através dos relatos da imprensa. 
Esta ideia de uma arte interventiva ou útil nos moldes proudhonianos terá continuidades e desenvolvimentos na geração da Seara Nova como de A Batalha, que ficarão situados, digamos, a meio caminho entre os presencistas e os neo-realistas, para não falar do curioso caso de O Diabo, fundado em 1934 por um grupo de escritores e jornalistas anarquistas e republicanos, que progressivamente passará par as mãos da geração seguinte, propriamente considerada neo-realista, até ao seu encerramento compulsivo, em 1940, circunstância que não é para já abordada; mas será a partir do Congresso dos Escritores Soviéticos, em 1934, com a defesa de um realismo socialista, que o debate irá aquecer, mas com nuances, fazendo o autor o levantamento de algumas tomadas de posição, com especial destaque para José Régio no campo do que eu chamaria de arte livre -- mas nunca de arte pela arte, no seu caso, e um destaque ainda para do outro lado, mas sem intenção polemizante, um outro nome maior: José Rodrigues Miguéis, enquanto ficcionista, em entrevista ao Diário de Lisboa ou, antes dele, no campo da crítica e do ensaio, Álvaro Salema, com o artigo publicado no jornal Gládio, em Janeiro de 1935, «O antiburguesismo da cultura nova», propondo a ultrapassagem dos conceitos defendidos pela Geração de 70, ou seja, uma abordagem marxista da literatura e da arte em geral.
Nestes debates, aparece como sumamente importante o artigo de Adolfo Casais Monteiro, com o artigo publicado n'O Diabo em 1935, «Sobre o que a Arte é, e sobre algumas coisas que não poderá ser», de onde se retira a famosa frase em prol da independência artística, «a arte é, não serve» -- embora o autor não o refira, é uma reacção ao discurso de Salazar na Sala do Risco, em que elabora sobre o papel dos artistas, mas que acabará por ver-se apontado aos que no pólo oposto queriam essa arte comprometida com as ideias ascendentes da humanidade. Há a contraposição de meio termo de Amorim de Carvalho no artigo «O carácter social da Arte», também n'O Diabo, em Agosto de mesmo ano, interpelação directa a Casais, quando escreve que «A Arte pode servir, sem deixar de ser»; e uma síntese de Julião Quintinha em três artigos no mesmo semanário com o mesmo título, «A Arte e os artistas», posição com proximidade à de Régio, nomeadamente no terceiro, «O artista ante o problema social e político»: «Parece coisa natural que o artista, possuído por determinados sentimentos sociais, muito sinceramente os exteriorize na sua obra. O essencial é que não seja faccioso na afirmação ou negação desses sentimentos, que vá até ao ponto de os transformar em baixo instrumento político, e que acima de tudo, não se esqueça do que deve à Arte.» 
Estudo sobre arte, Fernando Alvarenga dá-nos exemplos de outras intenções, com Roberto Nobre e A Cega Sanha do Povo (1935) e Companheiros, de António Lopes (s.d.), que reproduzo em baixo, fechando com uma apreciação de Heliodoro Caldeira, no inevitável O Diabo, a propósito de dois reconhecidos muralistas mexicanos: Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros e dos chamados Frescos de Cuernavaca, apresentando-os como exemplo duma arte a fazer-se, em que estivessem patentes, como ali, a «linguagem simples e reveladora das grandes verdades».

Roberto Nobre, A Cega Sanha do Povo (1935) - Museu de Faro

António Lopes, Companheiros



Diego Rivera, História de Cuernavaca e Morelos.
 Plantação de Açúcar



Fernando Alvarenga, Afluentes Teórico-Estéticos do Neo-Realismo Visual Português, Porto, Edições Afrontamento, 1989.

segunda-feira, janeiro 25, 2021

domingo, janeiro 24, 2021

a arte de começar

 «O rio, a árvore e o rouxinol tinham razão de existir idêntica à do dia arrastado pelas metamorfoses sombrias da noite e pelo vento frio do norte. Na fragilidade quebradiça da palavra gasta pelo uso, Luísa encontrava o respirar mágico e ofegante do sonho. Todos no bosque a conheciam e a aceitavam por igual até quando a viam embriagada de fantasia.»

Miguel Barbosa (1925-2019), Anatomia de um Sonho (2008)

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Concerto para piano em lá maior K. 486 (1786)




sábado, janeiro 23, 2021

«Breathe»

«Cinnamon Girl»

porque voto em Marcelo

 Após alguma hesitação, decidi deixar-me ir no voto em Marcelo Rebelo de Sousa, a minha estreia num voto à direita em Presidenciais. Conheço bem os seus defeitos e nunca fui seguidor dos comentários televisivos, que por aqui várias vezes critiquei. Mas também reconheço as suas qualidades, a sua preparação para o exercício do cargo, a sua postura democrática, não sectária e humanista, em perda neste tempo de abutres e patifes à solta.

Por outro lado, Marcelo é o único candidato verdadeiro a presidente. Poderia votar em branco, já me aconteceu, mas não vejo razão neste caso. Vai ajudar a levar a direita ao poder? Porte-se a esquerda como deve, como fez o PCP ao contrário do BE.

Em terceiro lugar, Marcelo é o candidato para o agora; não só porque é o único real (os outros estão a brincar às presidenciais), como o que tem estofo e lastro -- e eu não estou para aturar tacticistas nem boçais. Com os problemas com que nos debateremos, confio em que terá uma actuação ponderada. Gosta dos "privados"?, é "papa-missas"? Quero lá saber, é para o lado que durmo melhor.

E para ser honesto, a possibilidade de enganar-me redondamente e Marcelo vir a fazer um mau segundo mandato (não seria o primeiro), será aborrecido, mas ficarei confortado pelo facto de o meu voto não ter sido decisivo para a reeleição, mais do que garantida.

Cheguei a ponderar em votar em João Ferreira, não apenas por ser o melhor dos restantes candidatos, em preparação e postura não demagógica, mas porque se o PCP perder força a sociedade fica entregue aos bichos. É um caso a ver depois das eleições, porque voto em quem me apetece.

Ana Gomes. É uma candidatura que emerge da politicalha partidária, uma casca de banana que Assis lançou a Costa. Não tenho paciência, por mim o Assis pode ir dar sangue. Claro que Ana Gomes não é uma boneca de Assis, é uma mulher corajosa e uma diplomata experimentada, mas não tenho nada que ver com aquilo.

Marisa Matias. Gosto imenso dela, seriíssima, dedicada, empática, afável. Joga num tabuleiro que não é o meu, e que abomino, as parvoíces do Bloco de Esquerda. Quando diz "a todos e a todas" tenho vómitos. Não por causa da questão da igualdade de género, pois considero que todo o homem decente deve ser feminista, mas pela manipulação da linguagem, que é algo terrível.

Tiago Mayan Gonçalves. A boa surpresa da campanha quanto à prestação, candidato ideológico, o que só lhe fica bem. O modelo de sociedade que propõe é lindo, mas não para este país com povo e elites de terceiro mundo. Ainda estamos a pagar a factura do atraso a que o Salazar nos votou.

Vitorino Silva. Há cinco anos creio que lhe chamei o nosso Tiririca. Errado. Tornou uma candidatura espontânea em algo refrescante. Impôs-se por não ser parvo. Óptimo para o voto de protesto.

André Ventura. Boi e bobo. Boi na postura avinhada e de taberna (ficámos a saber que é neto de alcoólicos), na provocação e nos ventos que semeia que lhe ia valendo um calhau na mona. Bobo, porque é uma marionete -- marionete de si próprio, para começar, porque diz o que acredita que rende e num segundo incha que nem um sapo,  e marionete da gente que o financia, vá lá saber-se porquê e para quê. Mas eles sabem.

Fala-se na possibilidade de uma segunda volta, na eventualidade de uma abstenção catastrófica. Se a lei o permitisse, faria sentido adiar a eleição para Maio ou Junho; ninguém falou nisso, à excepção de Vitorino Silva. 

50 discos: 28. COMES A TIME (1978) - #9 «Motorcycle Mama»




sexta-feira, janeiro 22, 2021

a arte de começar

 «Aquele fora um tempo de más notícias. O deputado Artur Carneiro Macedo da Rocha, descendente da velha estirpe paulista, pensava com alegria que dentro em poucas horas aquele fatídico mês de Outubro do ano de 1937 estaria terminado, talvez Novembro se iniciasse sob melhores auspícios.»

Jorge Amado, Os Subterrâneos da Liberdade (1954)