terça-feira, novembro 17, 2020

«Leitor de BD»

 

"Das duas Américas"

domingo, novembro 15, 2020

amor de perdição: «Eurico o Presbítero» (20)

começar: «Apenas Pelágio transpôs o escuro portal da gruta, Eurico alevantou-se.»  Capítulo XVIII, «Impossível!», pp. 256-275 da minha edição.

Finalmente desvendada a identidade de Eurico, é agora que a questão do celibato dos padres como absurdo e atentado à integridade humana que é posto em toda a aspereza do deu dano. Com Hermengarda ao lado, o padre luta com o homem dentro de si; mas uma vez que sobre a existência «deixara cair a campa de bronze do sacerdócio», imagem fortíssima. O protagonista remói, dilacera-se, à entrada da gruta, sobre o vale. E o que temos é uma espécie de tela de Friedrich, por palavras:

«Eurico deu alguns passos e encostou-se à boca da gruta; porque os membros exaustos lhe fraqueavam, apesar de que nem um momento o abandonasse a força da alma enérgica. A brisa frigidíssima da madrugada consolava-o, como ao febricitante a aragem de um sol posto do outono. A seus pés estavam as trevas do vale, sobre a sua cabeça as solidões profundas e serenas do céu semeado dos pontos rutilantes das estrelas mal desbotado do ocidente pela última claridade da lua minguante que desaparecia. Era a imagem da sua vida. Serena e esperançosa, como o crepúsculo do luar fugitivo lhe fora da juventude. Desde que um amor desditoso o fizera alevantar uma barreira entre si e o ruído do mundo; [...]».  

Todo o texto, aliás, está repleto de formulações extraordinárias de incompreensão pela falta de humanidade que impõe a amputação da dimensão amorosa. Alexandre Herculano é um extraordinário escritor, e a sua prosa envelheceu bem.


Johann Sebastian Bach ((1685-1750) Magnificat BWV 243 (1733) . I. Magnificat




sábado, novembro 14, 2020

John Barry (1933-2011) Out of Africa - Banda sonora (1985) 1«I Had A Farm In Africa»






a arte de começar

«Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas,tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.»

Camilo Castelo Branco (1825-1890), A Queda dum Anjo (1865) 

Isaac Albéniz, Concerto #1 para piano e orquestra ("Concerto Fantástico") (1887) (1860-1909), Op. 78 - I. Allegro ma non troppo




quinta-feira, novembro 12, 2020

ó Ventura, diz lá aos pobrezinhos de espírito quanto custam os teus outdoors e quem é que tos paga

 Nas tintas para o fascismo de ocasião do Ventura; ele é tudo e o seu contrário, tão fascista quanto eu sou do Sporting O que me chateia é ver continuamente a cara deste gajo na rua. Quem lhe paga os outdoors? Os nomes dos apoiantes estão aqui neste artigo de António Garcia Pereira. Eu, na verdade, quero que o Ventura se foda. Mas não me apetece deixar passar em branco a aldrabice e, pelo menos, contribuir para alertar os pobres diabos que lhe vão na cantiga. Sempre é uma questão de higiene. É espalhar...

50 discos: 10. THE DOORS (1967) - #8 «I Looked At You»




quarta-feira, novembro 11, 2020

o pintor poeta, o cronista e o tradicionalista visionário

 Dizer que em três dias o país ficou mais pobre é um grande cliché? Então eu digo: em três dias o país ficou muito mais pobre.

Artur do Cruzeiro Seixas (n. 1920) só pelo que representava como um dos surrealistas iniciais assumidos enquanto tal -- o Grupo Surrealista de Lisboa, que em 1949 perguntava até quando o medo num país guardado pela pide, coisa muito de se arrecear, pergunta que exigia tomates volumosos, ou não estivesse isto tudo salpicado de bufos e legionários. A sua pintura deixa-me frio, devo dizer, ao contrário de algumas assemblagens. mas a sua poesia límpida, publicada em bloco tardiamente, organizada por Isabel Meyrelles, foi a revelação de um autor excepcional. Morreu no dia 8.

Artur Portela, Filho (n.1937), um publicista fulgurante, uma mistura de Camilo e Eça, entre o escárnio e e a ironia, era devastador. Os volumes de A Funda, sete, aí estão para o comprovar, e são testemunho do período de transição do Estado Novo para a democracia. O jornalismo político passa por ele. Não li nenhum dos seus romances. Morreu ontem, dia 10.

Hoje, Gonçalo Ribeiro Telles (n. 1922), monárquico, oposicionista, porta da paisagem, porta da ecologia. Quem deambula nos jardins da Gulbenkian na canícula estival sabe-o. Tradicionalista e progressista no melhor sentido, municipalista, comunalista, fundou o PPM, com Henrique Barrilaro Ruas, medievalista e camonista de grande relevo. Teve o cargo político mais extraordinário que já existiu num governo, o de ministro da Qualidade de Vida.



«Leitor de BD»

 

Carl T. Anderson, John Liney, Henry

50 discos: 49. AS IS NOW (2005) - #8 «From The Floorboards Up»




terça-feira, novembro 10, 2020

a arte de começar

«A multidão se levantou como se fora uma só pessoa. E conservou um silêncio religioso. O juiz contou:»

Jorge Amado (1912-2001), Jubiabá (1935) 

50 discos: 14. LIVE AT LEEDS (1970) - #8 «I'm A Boy»




segunda-feira, novembro 09, 2020

a organização da espera: «Eurico o Presbítero» (19)

 Continuar: «O espectáculo que oferecia a caverna de Covadonga na noite imediata àquela que se despediu com os sucessos das margens do Sália era mui semelhante ao dessa outra noite em que Pelágio recebera a nova do cativeiro de Hermengarda; -- espectáculo semelhante, mas personagens, em parte diversas.» Capítulko XVII, «A aurora da redenção», pp. 241-245 da minha edição.

Capítulo que se organiza em torno da táctica de enfrentamento das forças muçulmanas e aliados visigodos. Recordemos que a invasão de 711 ocorre no âmbito de uma guerra civil no reino visigótico, com os árabes e berberes chamados por uma das partes. Covadonga está situada nos Picos da Europa, lugar azado para emboscadas, como, séculos antes, os Montes Hermínios, a Serra da Estrela, os lusitanos iam massacrando os romanos. (Herculano faz reaparecer Gustislo, semi-selvagem e mais lusitanos -- «Os quase selvagens filhos do Munda, vestidos de peles de alimárias [...]», que se preparam para a espera na companhia dos cântabros, que também custaram a Roma um preço elevado).

Enquanto a febril Hermengarda repousa sob o efeito dos curativos do monge Baquiário, junto dos quais Eurico permanece, docemente intimado pelo irmão daquela, Pelágio, que organiza, mais do que a resistência, a cilada no âmago daquelas montanhas, enftrenta protesto dos seus guerreiros, nomeadamente Sanción, pela falta de nobreza no enfrntamento do inimigo, numa galhardia guerreira talvez extemporânea.



50 discos: 22. BURNIN' (1973) - #8 «Duppy Conqueror»




domingo, novembro 08, 2020

a arte de começar

 «Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta dr um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.»

Júlio Dinis (1839-1871), A Morgadinha dos Canaviais (1868)

sábado, novembro 07, 2020

sexta-feira, novembro 06, 2020

50 discos: 8. RUBBER SOUL (1965) - #8 «What Goes On»




a arte de começar

 «Vadinho, o primeiro marido de Dona Flor, morreu num domingo de Carnaval, pela manhã, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maior animação, no largo 2 de Julho, não longe de sua casa. Não pertencia ao bloco, acabara de nele misturar-se, em companhia de mais quatro amigos, todos em traje de baiana,  e vinham dum bar no Cabeça, onde o whisky  correra farto  à custa de um certo Moysés Alves, fazendeiro de cacau, rico e perdulário.»

Jorge Amado (1912-2001), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966)

quarta-feira, novembro 04, 2020

segunda-feira, novembro 02, 2020

a arte de começar

 «Logo que as cabras e as ovelhas entestaram à corte, o "Piloto" deu por findo o seu trabalho. E antes mesmo de o pastor, que lhe aproveitava os serviços, se dirigir a casa, ele meteu ao extremo da vila. Rabo entre as pernas, focinho quase raspando a terra, ia triste, cismático, como perro vadio de estrada, descoroçoado da vida. Subitamente, porém, sorveu no ar algo que lhe era conhecido. A cauda ergueu-se num ápice, formando volta que nem cabo de guarda-chuva; a cabeça levantou-se também e nela luziram os olhitos até aí amortecidos. "Piloto" estugou o passo. O caminho estava cheio de tentações, de paragens obrigatórias, estabelecidas por todos os cães que passaram ali desde que Manteigas existia, desde há muitos séculos. Forçado a deter-se, ele regava, à esquerda e à direita, rudes pedras, velhos castanheiros, velhos cunhais, mas fazia-o alegremente e com o visível modo de quem leva pressa. Em seguida, voltava a correr no faro do seu dono. Cada vez o sentia mais perto e cada vez era maior o seu alvoroço. Por fim, lobrigou-o. Horácio estava junto de Idalina, também conhecida de "Piloto"; estavam sentados num dorso de rocha que emergia da terra, ao cabo das decrépitas e negrentas casas do Eiró, no cimo da vila. E tão atarefado parecia Horácio com as palavras que ia dizendo à rapariga, que não deu, sequer, pela chegada do cão. Vendo-o assim, "Piloto" hesitou um instante, enquanto agitava mais a cauda e tremuras de alegria lhe percorriam o corpo. Logo se decidiu. E, humilde, foi colocar o focinho sobre a coxa do amo, como era seu costume quando este o chamava, à hora da comida, nos dias em que os dois andavam pastoreando o gado, lá nos picarotos da serra. Só então o amo deu por aquela presença. Ele regressara nessa tarde do serviço militar e, no entusiasmo de ver pai e mãe, os vizinhos, e, sobretudo, Idalina, não se havia lembrado ainda do seu antigo companheiro. Agora, porém, afagava-lhe a cabeça e metia, enternecido, um parêntesis na narrativa que estava fazendo:»

Ferreira de Castro (1898-1974), A Lã e a Neve (1947)

50 discos: 23. CRIME OF THE CENTURY (1974) - #8 «Crime Of The Century»




domingo, novembro 01, 2020

"o rei dos bosques" - «Eurico o Presbítero» (18)

 continuar: «A hora de amanhecer aproximava-se: o crepúsculo matutino alumiava frouxamente as margens do rio mal-assombrado, que corria turvo e caudal com as torrentes do inverno.» Cap. XVI, «O castro romano», pp. 219-240 da minha edição.

Capítulo onde nada e tudo acontece nas extremidades de um grosso tronco, ponte e passagem únicos sobre um precipício, no meio do qual corre o rio Sália; em que, febril e à beira da exaustão, Hermengarda, sente a atracção do abismo, o suicídio, essa «espécie de encanto fatal». Muito boas as passagens a propósito. Capítulo, ainda, em que o Cavaleiro Negro se desvela, Eurico, para ainda mais forte comoção da irmã de Pelágio.

Uma nota para o modo como o autor põe o discurso directo mas personagens populares: os guerreiros ou o barqueiro, analfabetos e rudes, falam como Eurico, uma linguagem articulada como se fossem instruídos; e nós, leitores do século XXI, aceitamo-lo com bonomia... E, claro, o que conta é o estilo impecável e vigoroso do grande Herculano. Eis um tronco, que será passagem e salvação:

«A ponte romana, porém, se outrora aí existira, haviam-na consumido as injúrias das estações. Em lugar dela, os habitantes daqueles desvios tinham tombado através do Sália um roble gigante, que nos seus dias seculares fora enredando as raízes nos seios da pedra, até irem beber no leito do rio. A árvore monstruosa derrubada por cima da corrente, caíra sobre o alcantil fronteiro e vivia de uma vegetação moribunda, que mal podia conservar através do cepo, arrancado quase inteiramente do solo. Calva e musgosa, apenas alguma vergôntea, que lhe rompia da enrugada epiderme na primavera para morrer no estio, dava sinal de que o rei dos bosques ainda não era inteiramente cadáver. Mas essa pouca vida bastava para que a obra rude dos bárbaros montanheses durasse por mais anos que a edificação dos antigos metatores ou engenheiros das legiões romanas.  [...]»


«Cala-te e Dança»

«Railroad Worksong»

sábado, outubro 31, 2020

Sean Connery (1930-2020)


 

«All Right All Night»

a arte de começar

«CRIANÇAS LADRONAS [...] Já por várias vezes o nosso jornal, que é sem dúvida o órgão das mais legítimas aspirações da população baiana, tem trazido notícias sobre a atividade criminosa dos "Capitães da Areia", nome pelo qual é conhecido o grupo de meninos assaltantes e ladrões que infestam a nossa urbe. Essas crianças que tão cedo se dedicaram à tenebrosa carreira do crime não têm moradia certa ou pelo menos a sua moradia ainda não foi localizada. Como também ainda não foi localizado o local onde escondem o produto dos seus assaltos, que se tronam diários, fazendo jus a uma imediata providência do juiz de menores e do Chefe de Polícia.»

Jorge Amado (1912-2001), Capitães da Areia (1937) 

quinta-feira, outubro 29, 2020

a arte de começar mais depressa:

«Branca». «D. Branca morava no Porto e sofria, por vezes, de chiliques inofensivos.»

«Roxo». «Tinha os olhos roxos, de vidente.»

«Amarelo». «Findo o espectáculo, em toda assistência se notava um contentamento pouco expressivo.»

«Azul». «A transfusão de sangue tinha operado o seu milagre -- realmente o sangue azul corria-lhe nas veias em caudal abundante, até mesmo para um bom aproveitamento sanguíneo eléctrico.»

«Pardos». «Os Pardos viviam fora da cidade.»

«Vermelho». «Todas as vezes que entrava numa sala onde estava gente ele fazia-se vermelho.»

«Preto». «A morte do Preto começava na terça-feira».

«Verde». «Foi gratuitamente e por acaso que estando ontem na Ribeira das Naus a olhar para um Tejo verde me espantei a trouxe-mouxe.»

Ruben A. (1920-1975), Cores (1960)

quarta-feira, outubro 28, 2020

50 discos: 29. POWER IN THE DARKNESS (1979) - #8 «Man You Never Saw»




«Leitor de BD»

                                                    François Bourgeon, Os Passageiros do Vento

                                                                                                                                      jornal i

segunda-feira, outubro 26, 2020

a arte de começar

«Desde as quatro horas da tarde, no calor e silêncio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita cor-de-rosa, trabalhava. Gonçalo Mendes Ramires (que naquela sua velha aldeia de Santa Ireneia, e na vila vizinha, a asseada e vistosa Vila-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, todos conheciam pelo "Fidalgo da Torre") trabalhava numa novela histórica, "A Torre de D. Ramires", destinada ao primeiro número dos "Anais de Literatura e de História", revista nova, fundada por José Lúcio Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cenáculo Patriótico, em casa das Severinas.»  

Eça de Queirós (1845-1900), A Ilustre Casa de Ramires (1900, póstumo)

50 discos: 21. GRAND HOTEL (1973) - #8 «Fires (Which Burns Brightly»




domingo, outubro 25, 2020

"O Cânone" de quem? -- do que falta numa lista, passado a limpo

1.

Acabo de ver a lista de cinquenta nomes assinalados como o cânone literário português, na opinião de três académicos: António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen. Lista bastante defendida no anúncio da editora como nas declarações ao Observador. Antecipando-se à discussão que aí virá, espera-se.

As escolhas são sempre louváveis, desde que honestas e justificadas, porque representam (ou podem representar…) a coragem de escolher como a de excluir. O título, porém, é de menos, pois mesmo sem me pronunciar sobre o que ainda não li, já o posso fazer sobre as ausências. E há ausências de peso, que absolutamente não poderiam verificar-se numa obra que se arroga a pretensão de estabelecer o dito cânone, se o título é para levar a sério. Aliás, o mesmo Observador, com  desenvoltura jornalística, anunciara que o cânone viria aí, perguntando(-se): "Quem são os grandes escritores que formam o cânone da literatura portuguesa?"

Ora, enquanto leitor não totalmente destituído ou desinformado, considero que é um jogo de apostas avançar com nomes que tenham publicado há menos de cinquenta anos; mas o que me parece temerário é trazer para o cânone autores que tenham entrado por este século adentro. Diria até que todos quantos iniciaram a publicação da totalidade ou da parte mais importante das respectivas obras depois do 25 de Abril de 1974 deveriam estar ausentes dum livro que se arroga a pretensão com que se intitula.

Claro que podemos sempre arriscar nomes, percepções (eu tenho algumas, que apenas têm o valor dessa intuição, mais ou menos alicerçada nas minhas próprias qualidades de leitor, satisfatórias ou medíocres, para o caso é irrelevante). E, no fundo, é mesmo disso que se trata, com excepção para o século XIX, o único período que me parece (quase) incontroverso. Talvez, por isso, mais apropriado -- embora menos comercial e cintilante -- fora reconhecer isso mesmo com um título mais singelo, umas Propostas para a Fixação de um Cânone [Literário Português], ou coisa que o valha. Tenho pena, porque demasiada presunção ou falta de humildade envenenam-me a leitura; e tanto faz que venham agora dizer que se trata de uma mera lista como outras possíveis, o que se vê à vista desarmada. 

Começo por subscrever no texto da página da editora, certamente da autoria de um dos coordenadores: «Os grandes escritores não são escolhidos por consenso ou por votação popular, mas por terem sempre leitores, mesmo que poucos, ao longo do tempo.» Certamente que o livro desenvolverá o conceito. Eu acrescentaria  que Os grandes escritores de uma língua e de uma comunidade são aqueles que inauguram um modo de expressão cuja voz continua a fazer-se ouvir nas vozes de outros que lhe sucederam, tendo inscritos um conjunto de tópicos reveladores da pertença a uma nação e/ou a um território.

O mesmo texto informa que não se trata de “um guia neutro para a literatura portuguesa”. Se a neutralidade absoluta é impossível, não deve deixar de ser perseguida num trabalho desta natureza, sob pena de irremediavelmente o comprometer não digo na sua credibilidade, mas na utilidade que pode ter para quem não esteja muito interessado nas opiniões dos editores e respectivos colaboradores. 

Parece que o livro tem artigos sobre movimentos e revistas literárias (cuja dimensão desconheço), o que, à partida, tornará híbrida a natureza da obra, oscilando entre o ensaísmo e a historiografia cultural. [ver 5., adenda] Quanto a isso, talvez ainda não se fizesse melhor do que a História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes, pese embora as suas (poucas) omissões quanto a escritores relevantes: se a memória não me atraiçoa, lembro-me dos nomes do romancista, ensaísta e poeta Francisco Costa (1900-1988) e do poeta presencista Fausto José (1903-1975), mas haverá outros.

Uma nota marginal, incrédula e possivelmente preconceituosa sobre a inclusão numa obra deste teor de artigos sobre literatura feita por mulheres e por homossexuais: não são temas de somenos, mas não vejo grande utilidade numa obra que pretende definir o cânone. É o espírito do tempo que levará, em obras futuras, a escrever-se sobre escritores vegetarianos, por exemplo. Que interesse tem isso para o Cânone, a não ser marginalmente? Não vejo.


2.

São-nos servidos cinquenta autores, por ordem alfabética. Mais uma vez, o título peca por abusivo, para ser suave. Se a intenção fosse a de estabelecer o cânone só por coincidência chegaríamos a um nome redondo, cinquenta. O cânone será o que será, 47 ou 114. No entanto,  cinquenta nomes para novecentos anos de país parece-me modesto, por muito restritivo que se seja.

O cânone, cronologicamente, começa com Fernão Lopes e termina com uma única autora viva -- escritora extraordinária, aliás, Maria Teresa Horta (1937), arrolada nas "Três Marias". Vou seccionar os cinquenta nomes em três grupos: até ao século XVIII, séculos XIX e XX.

Escritores nascidos até ao século XVIII, são onze, ou seja, 22% do total: Fernão Lopes (c.1380-c.1460), D. Duarte (1391-1438), Gil Vicente (c.1465-c.1536), Sá de Miranda (c.1481-1558), Bernardim Ribeiro (c.1482-c.1552), Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583), Luís de Camões (c.1524- c.1580), Frei Luís de Sousa (1555-1632), o Pe. António Vieira (1608-1697), António José da Silva (dito O Judeu, 1705-1739) e Bocage (1765-1805). 

Comecemos por notar a estranha ausência da poesia trovadoresca, o que sem dúvida estará justificado [ver 5.]. O problema, mais uma vez: uma obra que se define como O Cânone não poderia deixá-la de fora, porque mais canónico que o trovadorismo não há. Fica a curiosidade pela justificação. Quanto ao resto, nada a dizer quanto às presenças, a não ser registar a boa surpresa de ver o rei eloquente, D. Duarte, que talvez não estivesse mal acompanhado do seu irmão, o infante D. Pedro (1392-1449),  príncipe das sete partidas, aliás um dos grandes portugueses destes quase 900 anos.

Sendo também restritivo, e sem querer alardear erudição que me fique curta nas mangas, a grande perplexidade é a ausência do Pe. Manuel Bernardes (1644-1710), prosador onde bebem Camilo e Aquilino. Não pertence ao cânone o Bernardes? Outra perplexidade, Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622), não apenas o poeta, mas também o prosador de A Corte na Aldeia (1619); também não?... 

Fico-me por estes dois, mas poderia lançar o António Ferreira (1528-1569) de A Castro (póstumo, 1587), o ascetismo bucólico do Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), os sermões do Frei António das Chagas (1621-1692).

Também a literatura dos Descobrimentos e da Expansão me parece subrepresentada, a não ser indirectamente, dos cronistas aos autores de relatos, o Gomes Eanes de Zurara (1410-1474) ou o Pero Vaz de Caminha (1450-1500). O meu conhecimento dos autores deste período é superficial, mas não me parece que o cânone literário português os possa deixar de fora.


3.

O século XIX é facílimo. Eles aí estão todos bem à mostra, à espera de quem os pique, excepto um, que ficou para trás, e não devia. Não há grandes dúvidas sobre os autores que integram o cânone oitocentista, onze também aqui, como o correspondente a toda a literatura escrita até ao século XVIII: Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1870), Camilo Castelo Branco (1825-1890), João de Deus (1830-1896), Júlio Dinis (1839-1871), Eça de Queirós (1845-1900), Oliveira Martins (1845-1894), Antero de Quental (1848-1891),Gomes Leal (1848-1921), Cesário Verde (1855-1886), António Nobre (1867-1900).

Apraz-me ver João de Deus e Júlio Dinis neste rol. Há trinta anos teriam sido varridos, certamente ainda se faria sentir sobre ambos o labéu da "ingenuidade", quando não, no caso do romancista d'A Morgadinha dos Canaviais, o de escritor cor-de-rosa. Há porém uma ausência que não compreendo, e ela é a de Fialho de Almeida (1857-1911). Nunca ninguém escrevera como ele e eventuais epígonos não atingem o seu nível, nem por vezes no mal-estar que provoca. Trata-se de uma falta significativa. Há um nome cuja não inclusão me levanta as maiores dúvidas, o de Ramalho Ortigão (1836-1915). Então e As Farpas?, deitam-se fora? Imitando a parcimónia: tenho também dúvidas de que o Guerra Junqueiro (1850-1923) seja arredado de ânimo leve, mas, dos três, é aquele cuja ausência menos me choca. E, já agora, lanço um nome para ponderação, o do exímio contista que foi o Conde de Ficalho (1837-1903). Não me parece que lá ficasse mal, mas precisaria de relê-lo para ter uma ideia mais segura.


4.

Quarenta e quatro nomes, 66% da lista para os escritores do século XX, em que os três primeiros começam a publicar ainda no século anterior, e a antepenútlima, em data de nascimento, felizmente ainda viva e a publicar: Camilo Pessanha (1867-1926), Raul Brandão (1867-1930),Teixeira de Pascoais (1877-1952), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de SáCarneiro (1890-1916), Irene Lisboa (1892-1958), José de Almada Negreiros (1893-1970), Florbela Espanca (1894-1930), José Régio (1901-1969), José Rodrigues Miguéis (1901-1980),Vitorino Nemésio (1901-1978), Miguel Torga (1907-1995), Jorge de Sena (1919-1978), Ruben A. (1920-1975), Carlos de Oliveira (1921-1981), Maria Judite de Carvalho (1921-1988), Agustina Bessa Luís (1922-2019), José Saramago (1922-2010), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015), Ruy Belo (1933-1978), Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Luiza Neto Jorge (1939-1969), As Três Marias: Maria Teresa Horta (1937), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Isabel Barreno (1939-2016). e Luiza Neto Jorge (1939-1989). Não discuto nenhum: mesmo os poucos que aqui estão que dificilmente podem ser considerados grandes têm o seu lugar no cânone literário português. Estranho algumas ausências, como as do António Botto (1897-1959) ou Vergílio Ferreira (1916-1996): porém, eu sei que daqui a cem anos o Aquilino será lido, não sei se com o V.F. sucederá, quem saberá dizê-lo?...

Continuando a ser restritivo -- poderiam estar aqui dezenas de nomes, não atirados a esmo, em especial na poesia --, avanço com nove escritores, cuja ausência dir-se-ia escandalosa se houvesse lugar a escândalos, num livro que se apresenta como o cânone. A constatação dessa ausência significa que o livro, com título pomposo e definitivo, serve para pouco, relativamente àquilo a que se propõe: M. Teixeira-Gomes (1860-1941), ou o primado da estética, sem par. Ninguém tem a mesma elegância informada, desassombrada, cultíssima. Manuel Laranjeira (1877-1912), uma escavação interior desapiedada, que vim a encontrar num Cioran; o tal que levou o Unamuno a qualificar-nos como povo de suicidas. Jaime Cortesão (1884-1960), porventura o maior historiador português do século (está para ele como Herculano para o anterior, portador de uma ideia de país que foi confirmá-la nas fontes. Ferreira de Castro (1898-1974), o romance português era uma coisa antes dele e foi outra depois; ninguém falara do país da maneira como o fez. Foi o pai do neo-realismo. A partir de Emigrantes (1928) não tem um só romance menor.  Tomaz de Figueiredo (1902-1970) é uma outra estética, não cosmopolita, à maneira do Teixeira-Gomes, mas castiça. É o nosso Lampedusa antes de O Leopardo, como se dos olhos de um príncipe criança. Saul Dias (1902-1983) -- o pintor Júlio [Maria dos Reis Pereira], irmão de Régio, poeta da palavra essencial, justa e definitiva. Alves Redol (1911-1969), ficcionista de sangue quente, duma têmpera  de romancista como poucos, de longe um dos grandes do século, como o século fará questão de registar. Manuel da Fonseca (1911-1993,) tão neo-realista e tão singular, ele é o Alentejo profundo e dramático, por vezes trágico, no romance, no conto, na poesia. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), como não?, a palavra decantada, o canto dos tópicos nacionais, o mar, as navegações, mas também a liberdade, a dignidade, que é o contrário da servidão e do aviltamento. E Rui Knopfli (1932-1997), uma expressão eloquente e desafiante, que se faz também de uma interpelação ao cânone. Poderia continuar, mas creio que será suficie.

Em conclusão: um título desastroso dum livro que certamente terá as suas virtualidades. Mas um título é o mais importante depois de tudo o que está lá dentro.  O organizador Miguel Tamen, em declarações ao Obervador: sustentou«Quem acha que certos nomes deviam estar lá, tem bom remédio, escreva um livro. É disso que precisamos.» Como não concordar?


5. Adenda. Folheado anteontem, verifiquei tratar-se de artigos breves. Há um dedicado à poesia trovadoresca e outro ao renascimento, bem como à crítica literária, prémios literários, memorialística, entre outros que não retive. Não vi na consagrado às narrativas de viagens, outra falha importante.

«I Am The Resurrection»

sábado, outubro 24, 2020

quarta-feira, outubro 21, 2020

"O Cânone" de quem? - do que falta numa lista (4)

(Continuação do comentário à lista de O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen).

Quarenta e quatro nomes, 66% da lista para os escritores do século XX, em que os três primeiros começam a publicar ainda no século anterior, e a antepenútlima, em data de nascimento, felizmente ainda viva e a publicar:Camilo Pessanha (1867-1926), Raul Brandão (1867-1930),Teixeira de Pascoais (1877-1952),Aquilino Ribeiro (1885-1963),Fernando Pessoa (1888-1935),Mário de Sá‑Carneiro (1890-1916),Irene Lisboa (1892-1958),José de Almada Negreiros (1893-1970), Florbela Espanca (1894-1930),José Régio (1901-1969),José Rodrigues Miguéis (1901-1980),Vitorino Nemésio (1901-1978) Miguel Torga (1907-1995), Jorge de Sena (1919-1978),Ruben A. (1920-1975), Carlos de Oliveira (1921-1981),Maria Judite de Carvalho (1921-1988), Agustina Bessa‑Luís (1922-2019),José Saramago (1922-2010), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015),Ruy Belo (1933-1978),Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Luiza Neto Jorge (1939-1969),  Ruy Belo (1933-1978), "As Três Marias": Maria Teresa Horta (1937), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Isabel Barreno (1939-2016). Não discuto nenhum: mesmo os poucos que aqui estão que dificilmente podem ser considerados grandes terão o seu lugar no cânone literário português. Estranho algumas ausências, como as do António Botto (1897-1959) ou Vergílio Ferreira (1916-1996), sem grande escândalo, porém: eu sei que daqui a cem anos o Aquilino será lido, não sei se com o V.F. sucederá o mesmo, quem saberá dizê-lo?...

Continuando a ser restritivo -- poderiam estar aqui dezenas de nomes, não atirados a esmo, em especial na poesia --, avanço com nove escritores, cuja ausência dir-se-ia escandalosa se houvesse lugar a escândalos, num livro que se apresenta como o cânone. A constatação dessa ausência significa que o livro, com título pomposo e definitivo, serve para pouco, relativamente àquilo a que se propõe: M. Teixeira-Gomes (1860-1941), ou o primado da estética, sem par. Ninguém tem a mesma elegância informada, desassombrada, cultíssima. Manuel Laranjeira (1877-1912), uma escavação interior desapiedada, que vim a encontrar num Cioran; o tal que levou o Unamuno nos qualificasse como povo de suicidas. Jaime Cortesão (1884-1960), porventura o maior historiador português do século (está para ele como Herculano para o anterior), portador de uma ideia de país que foi confirmá-la nas fontes. Ferreira de Castro (1898-1974), o romance português era uma coisa antes dele e foi outra depois; ninguém falara do país da maneira como o fez. Foi o pai do neo-realismo. A partir de Emigrantes (1928) não tem um só romance menor.  Tomaz de Figueiredo (1902-1970) é uma outra estética, não cosmopolita à maneira do Teixeira-Gomes, mas castiça. É o nosso Lampedusa antes de O Leopardo, como se dos olhos de um príncipe criança. Saul Dias -- o pintor Júlio [Maria dos Reis Pereira], irmão de Régio, poeta da palavra essencial, justa e definitiva. Alves Redol (1911-1969), ficcionista de sangue quente, duma têmpera  de romancista como poucos, de longe um dos grandes do século, como o século fará questão de registar. Manuel da Fonseca (1911-1993,) tão neo-realista e tão singular, ele é o Alentejo profundo e dramático, por vezes trágico, no romance, no conto, na poesia. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), como não?, a palavra decantada, o canto dos tópicos nacionais, o mar, as navegações, mas também a liberdade, a dignidade, que é o contrário da servidão e do aviltamento. E Rui Knopfli (1932-1997), uma expressão eloquente e desafiante, que se faz também de uma interpelação ao cânone. Poderia continuar, mas creio que será suficiente.

Em conclusão: um título desastroso dum livro que certamente terá as suas virtualidades. Mas um título é o mais importante de um livro, depois de tudo o que está lá dentro. 

O organizador Miguel Tamen, em declarações ao Obervador: sustentou«Quem acha que certos nomes deviam estar lá, tem bom remédio, escreva um livro. É disso que precisamos.» Como não concordar?

em tempo: vou passar a limpo e postar o texto completo



terça-feira, outubro 20, 2020

50 discos: 34. THE WALL (1979) - #8 «Empty Spaces»




"O Cânone" de quem? -- do que falta numa lista (3)

(Continuação do comentário à lista de O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen)
O século XIX é facílimo. Eles aí estão todos bem à mostra, à espera de quem os pique, excepto um, que ficou para trás, e não devia. Não há grandes dúvidas sobre os autores que integram o cânone oitocentista, onze também aqui, como o correspondente a toda a literatura escrita até ao século XVIII: Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1870), Camilo Castelo Branco (1825-1890), João de Deus (1830-1896), Júlio Dinis (1839-1871), Eça de Queirós (1845-1900), Oliveira Martins (1845-1894), Antero de Quental (1848-1891),Gomes Leal (1848-1921), Cesário Verde (1855-1886), António Nobre (1867-1900).
Apraz-me ver João de Deus e Júlio Dinis neste rol. Há trinta anos teriam sido varridos, certamente ainda se faria sentir sobre ambos o labéu da "ingenuidade", quando não, no caso do romancista d'A Morgadinha dos Canaviais, o de escritor cor-de-rosa. Há porém uma ausência que não compreendo, e ela é a de Fialho de Almeida (1857-1911). Nunca ninguém escrevera como ele e eventuais epígonos não atingem o seu nível, nem por vezes no mal-estar que provoca. Trata-se de uma falta significativa. Quanto ao resto, há um nome cuja não inclusão me levanta as maiores dúvidas, o de Ramalho Ortigão (1836-1915). Então e As Farpas?, deitam-se fora? Imitando a parcimónia: tenho também dúvidas de que o Guerra Junqueiro (1850-1923) seja arredado de ânimo leve, mas, dos três, é aquele cuja ausência menos me choca. E, já agora, lanço um nome para ponderação, o do exímio contista que foi o Conde de Ficalho (1837-1903). Não me parece que lá ficasse mal, mas precisaria de relê-lo para ter uma ideia mais segura.

segunda-feira, outubro 19, 2020

"islamofobia" -- problema mal posto, como de costume

Foi preciso um professor de História ser decapitado numa rua dos subúrbios de Paris por um radical islâmico, aliás bem estimulado em família, para que o estado francês pareça reagir. Vai ter que ser à bruta. enquanto se trata de um governo democrático e liberal. Quando deixar de sê-lo, a reacção será pior, com atropelos à lei, aproveitando para a pura limpeza étnica que a extrema-direita está ansiosa por fazer.

Chegou-se aqui por laxismo, menorização de um problema, tacticismo e oportunismo político e cedência à espessa idiotia do politicamente correcto.

Não há muitos anos,  os imãs radicais defecavam as suas mensagens de ódio nas mesquitas perante a indiferença geral.

Os partidos políticos apoiavam logística e financeiramente supostas associações "culturais" através das autarquias para lhes captarem o voto. Associações essas que faziam um proselitismo agressivo desestabilizando obviamente o instável subúrbio muçulmano, vítimas, como diria Miguel Tiago do PCP no Facebook em post que parece ter apagado, das "políticas de direita" (eu percebi o que ele quis dizer e tinha toda a razão. Mas o recurso constante à língua de pau perde-os muitas vezes). Os caciques locais queriam os votinhos custasse lá o que custasse, e portanto toca de emprestar o autocarro da câmara municipal para uma deslocação a Paris, à manifestação contra a proibição de símbolos religiosos em edifícios públicos (claro que o que estava em causa eram as islamices, cada vez mais agressivas, impertinentes e evasivas; a igreja católica, extremamente reacionária em França movia-se nas alfurjas neo-fascistas, como cá, mas eram relativamente inofensivos, ainda assim menos do que por aqui; as outras religiões minoritárias, coitadas, foram apanhadas no vendaval laicista, para que não se dissesse que o estado não era imparcial…) 

Não me esqueço da câmara socialista de Lille, que construiu piscinas públicas para homens e mulheres, a fim de fazer respeitar islamices numa sociedade laica, em que muitos estrénuos defensores de uma suposta tolerância e apologetas das políticas de género não só condescendem com o radicalismo islâmico, não se lembrando (ou não se preocupando, pois o perigo mora longe) que se os recipientes da sua condescendência tosca tomassem o poder seriam dos primeiros a ser atirados do alto dos prédios, como fazia o Daesh quando apanhava um homossexual a jeito. 

Em Londres, o que não fosse crime era (ou é ainda) decidido nos tribunais ingleses, mas numa sala à parte, por um juiz muçulmano, de acordo com o direito corânico ou lá o que é. Isto numa mesma cidade em que a esquizofrenia do politicamente correcto introduziu a abolição da separação entre os sexos das casas de banho públicas (por mim nada a opor, antes pelo contrário, desde que o saguão seja amplo e os espelhos abundantes). 

A estupidez é tanta, que há semanas vi numa página belga dum grupelho que se dizia anarquista tomadas de posição pela liberdade de as mulheres islâmicas usarem véu, não percebendo aqueles cretinos que esse mesmo véu, para não falar do resto, é uma imposição masculina, e que nem tem nada que ver com a religião islâmica. -- E que tivesse: as religiões são todas para desrespeitar quando põem as patas de fora, até porque elas respeitam-se todas umas às outras, como aconteceu no Vaticano, a tapar pirilaus das estátuas (parece que é gourmet por lá), não fossem os aiatolas ficar mal dispostos.

As boas notícias é que as autoridades francesas estão a começar a chegar-lhes a roupa ao pelo. Deus nosso senhor queira, mas foi preciso decapitarem um professor de História num subúrbio de Paris.

É verdade, trata-se de uma guerra que ou é travada agora, não ficando pedra sobre pedra, ou a Frente Nacional vai tratar disso, da pior maneira. E infelizmente haverá muita violência, que é o que os islamistas querem, pois o monstro cresceu. O meu receio é que doa também às pessoas pacíficas, que querem viver a sua fé em paz. Só que as pessoas não podem deixar-se chacinar como gado em nome de belíssimos princípios que só servem os inimigos da liberdade e da democracia. E inimigos tratam-se como tal. E ou é já, ou os amigos da Le Pen mostrarão como se faz, com apoio popular...

domingo, outubro 18, 2020

"O Cânone" de quem? -- do que falta numa lista (2)

(Continuação do comentário à lista de O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen)

São-nos servidos cinquenta autores, por ordem alfabética. Mais uma vez, o título peca por abusivo, para ser suave. Se a intenção fosse a de estabelecer o cânone só por coincidência chegaríamos a um nome redondo, cinquenta. O cânone será o que será, 47 ou 114. No entanto,  cinquenta nomes para novecentos anos de país parece-me modesto, por muito restritivo que se seja.

O cânone, cronologicamente, começa com Fernão Lopes e termina com uma única autora viva -- escritora extraordinária, aliás, Maria Teresa Horta (1937), arrolada nas "Três Marias". Vou seccionar os cinquenta nomes em três grupos: até ao século XVIII, séculos XIX e XX.

Escritores nascidos até ao século XVIII, são onze, ou seja, 22% do total: Fernão Lopes (c.1380-c.1460), D. Duarte (1391-1438), Gil Vicente (c.1465-c.1536), Sá de Miranda (c.1481-1558), Bernardim Ribeiro (c.1482-c.1552), Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583), Luís de Camões (c.1524- c.1580), Frei Luís de Sousa (1555-1632), o Pe. António Vieira (1608-1697), António José da Silva (dito O Judeu, 1705-1739) e Bocage (1765-1805). 

Comecemos por notar a estranha ausência da poesia trovadoresca, o que sem dúvida estará justificado. O problema, mais uma vez: uma obra que se define como O Cânone não poderia deixá-la de fora, porque mais canónico que o trovadorismo não há. Fica a curiosidade pela justificação. Quanto ao resto, nada a dizer quanto às presenças, a não ser registar a boa surpresa de ver o rei eloquente, D. Duarte, que talvez não estivesse mal acompanhado do seu irmão, o infante D. Pedro (1392-1449),  príncipe das sete partidas, aliás um dos grandes portugueses destes quase 900 anos.

Sendo também restritivo, e sem querer alardear erudição que me fique curta nas mangas, a grande perplexidade é a ausência do Pe. Manuel Bernardes (1644-1710), prosador onde bebem Camilo e Aquilino. Não pertence ao cânone o Bernardes? Outra perplexidade, Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622), não apenas o poeta, mas também o prosador de A Corte na Aldeia (1619); também não?... 

Fico-me por estes dois, mas poderia lançar o António Ferreira (1528-1569) de A Castro (póstumo, 1587), o ascetismo bucólico do Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), os sermões do Frei António das Chagas (1621-1692).

Também a literatura dos Descobrimentos e da Expansão me parece subrepresentada, a não ser indirectamente, dos cronistas aos autores de relatos, o Gomes Eanes de Zurara (1410-1474) ou o Pero Vaz de Caminha (1450-1500). O meu conhecimento dos autores deste período, é relativamente superficial, mas não me parece que o cânone literário português os possa deixar de fora.



50 discos: 15. MOONDANCE (1970) - #8 «Brand New Day»




sábado, outubro 17, 2020

"O Cânone" de quem? -- do que falta numa lista (1)

Acabo de ver a lista de cinquenta nomes assinalados como o cânone literário português, na opinião de três académicos: António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen. Lista bastante defendida no anúncio da editora como nas declarações ao Obervador.* Antecipando-se à discussão que aí virá, espera-se.

As escolhas são sempre louváveis, desde que honestas e justificadas, porque representam (ou podem representar…) a coragem de escolher como a de excluir. O título, porém, é de menos, pois mesmo sem me pronunciar sobre o que ainda não li, já o posso fazer sobre as ausências. E há ausências de peso, que absolutamente não poderiam verificar-se numa obra que se arroga a pretensão de estabelecer o dito cânone, se o título é para levar a sério. Aliás, o mesmo Observador, com  desenvoltura jornalística, anunciara que o cânone viria aí, perguntando(-se): "Quem são os grandes escritores que formam o cânone da literatura portuguesa?"

Ora, enquanto leitor não totalmente destituído ou desinformado, considero que é um jogo de apostas avançar com nomes que tenham publicado há menos de cinquenta anos; mas o que me parece temerário é trazer para o cânone autores que tenham entrado por este século adentro. Diria até que todos quantos iniciaram a publicação da totalidade ou da parte mais importante das respectivas obras depois do 25 de Abril de 1974 deveriam estar ausentes duma obra que se arroga a pretensão com que se intitula.

Claro que podemos sempre arriscar nomes, percepções (eu tenho algumas, que apenas têm o valor dessa intuição, mais ou menos alicerçada nas minhas próprias qualidades de leitor, satisfatórias ou medíocres, para o caso é irrelevante). E, no fundo, é mesmo disso que se trata, com excepção para o século XIX, o único período que me parece (quase) incontroverso. Talvez, por isso, mais apropriado -- embora menos comercial e cintilante -- fora reconhecer isso mesmo com um título mais singelo, umas Propostas para a Fixação de um Cânone [Literário Português], ou coisa que o valha. Tenho pena porque demasiada presunção ou falta de humildade envenenam-me a leitura; e tanto faz que venham agora dizer que se trata de uma mera lista como outras possíveis, o que se vê à vista desarmada. 

Começo por subscrever no texto da página da editores, certamente da autoria de um dos coordenadores: «Os grandes escritores não são escolhidos por consenso ou por votação popular, mas por terem sempre leitores, mesmo que poucos, ao longo do tempo.» Certamente que o livro desenvolverá o conceito. Eu acrescentaria  que Os grandes escritores de uma língua e de uma comunidade são aqueles que inauguram um modo de expressão cuja voz continua a fazer-se ouvir nas vozes de outros que lhe sucederam, tendo inscritos um conjunto de tópicos reveladores da pertença a uma nação e/ou a um território.

O mesmo texto informa que não se trata de “um guia neutro para a literatura portuguesa”. Se a neutralidade absoluta é impossível, não deve deixar de ser perseguida num trabalho desta natureza, sob pena de o irremediavelmente o comprometer não digo na sua credibilidade, mas na utilidade que pode ter para quem não esteja muito interessado nas opiniões dos autores e respectivos colaboradores. 

Parece que o livro tem artigos sobre movimentos e revistas literárias (cuja dimensão desconheço), o que, à partida, tornará híbrida a natureza da obra, oscilando entre o ensaísmo e a historiografia cultural. Quanto a isso, talvez ainda não se fizesse melhor do que a História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes, pese embora as suas (poucas) omissões quanto a escritores relevantes: se a memória não me atraiçoa, lembro-me dos nomes do romancista, ensaísta e poeta Francisco Costa (1900-1988) e do poeta presencista Fausto José (1903-1975), mas haverá outros.

Uma nota marginal, incrédula e possivelmente preconceituosa sobre a inclusão numa obra deste teor de artigos sobre literatura feita por mulheres e por homossexuais: não são temasd, mas não vejo grande utilidade numa obra que pretende definir o cânone. É o espírito do tempo que levará, em obras futuras, a escrever-se sobre escritores vegetarianos, por exemplo. Que interesse tem isso para o Cânone, a não ser marginalmente? Não vejo.


* a notícia do Observador inclui o vídeo do lançamento do livro, que ainda não vi.

sexta-feira, outubro 16, 2020

quinta-feira, outubro 15, 2020

perseguição - «Eurico o Presbítero» (17)

Continuar: «Os socorros dados imediatamente a Abdulaziz tinham-lhe restituído o sentimento da vida.» Cap. XV, «Ao luar», pp. 200-218 da minha edição.


A perseguição nocturna pelo planalto que vai de Segisamon às Astúrias. O Cavaleiro Negro e os outros afrouxam o galope para retardarem os mouros, enquanto Hermengarda, escoltado por Astrimiro e Gudesteu se dirige para o reduto inexpugnável daquelas montanhas setentrionais.

O estilo de Alexandre Herculano é vívido, ao contrário do que se diz -- e até certo ponto acertado para a sua poesia, brônzea, reza o lugar-comum --, como segue neste parágrafo tão rico de movimento e som: «Na extensa chapada, tanto a fuga como a perseguição eram um frenesi, um delírio. Cristãos e Muçulmanos desapareciam por entre as sarças cobertas de orvalho, e o ar, dividido violentamente, zumbia-lhes em roda, como um gemido contínuo. Cristãos e Muçulmanos punham o extremo da diligência nesta última tentativa. Além da planura, os alcantis e as selvas gigantes eram a esperança de uns, o desalento de outros. Ali, os precipícios cortavam subitamente os caminhos abertos pelas feras nas balsas, e ao cabo de vale fundo os rochedos fechavam imprevistamente a saída: aqui, a senda tortuosa ia morrer na torrente; lá, a torrente em catadupa. Os Godos afeitos àqueles desvios alpestres, sabiam-no; os Árabes adivinhavam-no ao descortinarem o espectáculo que tinham ante si, essa espécie de caos nascido das grandes convulsões do globo na sua vida de muitos séculos, que a baça claridade da noite tornava ainda mais fantástico.»


50 discos: 18. ATÉ AO PESCOÇO (1972) #8 «Tango dos Pequenos Burgueses»




quarta-feira, outubro 14, 2020

a arte de começar

«Que horas são, a manhã vem já aí. Ardem-me os olhos de vigília, o corpo cansado. À porta da capela, fica num alto junto ao mar. À porta da capela, olho à volta o horizonte nocturno, olho o céu cheio de estrelas. Está uma noite tranquila de inocência, como a paz que me invade. Poderia achar razões que me turbassem a paz. Não encontro. Tudo aconteceu fora do meu alcance, não encontro. Um pouco de sono talvez, de fadiga, que horas são? Há em todo o céu lá em cima um pouco de claridade que não é das estrelas. E há uma certa agitação invisível, um profundo estremecer do mundo que vai acordar. E sempre o ressoar das águas, mas tenho de prestar atenção. Longe, no limite do mar, pequenas luzes de barcos na pesca. Estremecem devagar como se cintilassem na sua luz mortal. É um cintilar já breve na claridade que vem aí. Estou parado à porta da capela, há um terreno à frente e depois a queda a pique para as águas. Passei a noite sozinho, fui homem. Quero dizer fui perfeito. Não é que eu tivesse muito a conversar com o meu filho, que dorme ali no caixão. Mas o que houvesse a dizer era só entre os dois.»

                                                                   Vergílio Ferreira (1916-1996), Até ao Fim (1987)