terça-feira, outubro 22, 2019

«Leitor de BD»

Logo Jornal i
sobre Deadpool Mata os Clássicos! (Cullen Bunn e Matteo Lolli)
e As Investigações do Coronel Clifton (Raymond Macherot)

segunda-feira, outubro 21, 2019

diálogo sobre a questão catalã

Jaime Santos, cujas opiniões demoliberais prezo, pois não divergem muito das minhas,  comentou este post, levantando questões que me parecem úteis trazer para aqui, em vez de ficarem perdidas numa caixa de comentários. Para facilitar a leitura, intercalo as minhas observações com o seu comentário: o texto dele vai entre aspas e em itálico, o meu vai em redondo e a bold.

«Comparar, meu caro, Saddam, Assad ou o Estado Islâmico com o PSOE ou o PP é um bocadinho puxado, penso eu (mesma coisa a compará-los com Franco).»

Duas notas: 
1. Não estava a pensar em Saddam ou no Assad (duas personagens muito diferentes), mas simplesmente na Turquia e no PKK, cujo enfrentamento vai muito para além (e para trás) da era Erdogan. Aliás, o Saddam está aqui a mais, pois tratava-se de um psicopata; o Franco e o Assad são dois ditadores que mantêm o poder e a unidade territorial dos respectivos estados pela força que for precisa. Não sei por que razão quer há-de você ser benevolente para com o generalíssimo pela graça de deus...
2. Não se trata de uma questão de grau de repressão -- porque, gostemos ou não, a repressão, mais bárbara ou mais civilizada, está sempre presente --, mas do princípio elementar da autodeterminação dos povos, que aos catalães está vedada.
(Isto leva-me a falar na ignorância atrevida e crassa de muitos comentadores da questão: quando esta se levantou no ano passado, ouvi uma corifeia, a partir do palanque merdiático que detém, comparar o problema com uma eventual vontade de secessão do Porto ou coisa que o valha, para significar a absurdez da situação, no seu vesgo modo de ver. É não ter a mínima noção do que fala; mas como além de falta de noção também lhe mingua a vergonha, continua por aí a perorar, provavelmente não repetindo o dislate, pois alma caridosa provavelmente chamou-lhe a atenção para o disparate). Há dias, não um comentador mas um singelo director de informação, punha a questão secessionista ao nível do Açores e da Madeira, achando que podia comparar o incomparável, não percebendo nada (ou não querendo perceber), misturando autonomias  de natureza diferente). E o que ele devia perceber é que não há espanhóis; ou então: espanhóis somos todos, como lembrou D. João II aos Reis Católicos, os tipos que armaram este sarilho. Açorianos e madeirenses são tão portugueses como transmontanos e algarvios, e não se sentem outra coisa; a Espanha é uma entidade política artificial, imposta pela força das armas, ao longo dos séculos, uma unidade de que fizemos parte em várias situações e das quais saímos porque quisemos sair, ou não quisemos entrar, em várias ocasiões, sempre pela força das armas, em duas delas contra a legalidade, com D. Afonso Henriques e D. João IV (D. Afonso V também quis subjugar Castela e dela tornar-se soberano).

«Os meios devem ser ponderados à situação presente e a Espanha ainda não começou a meter pessoas indiscriminadamente na cadeia ou a torturá-las, ou o que seja (isso não impede as presentes condenações de serem exageradas e sobretudo injustas).»

Não, meu caro, as condenações não são exageradas; provavelmente as sentenças são impecáveis, porque de acordo com a legalidade do estado espanhol, mas profundamente ilegítimas, pois negam um direito básico de qualquer povo (daí a minha referência aos curdos), o tal da autodeterminação. E as leis mudam-se, é uma questão de bom senso, ou de força... 

«Quando alguém se levanta contra uma ordem constitucional (porque a presume ilegítima) deve estar preparado para sofrer as consequências. Nessa medida, Junqueras ou Forcadell merecem muito mais a minha admiração que Puigdemont. Escolhem como Gandhi (ou Mandela que mais tarde se converteu à solução política do conflito na África do Sul), sofrer pelas convicções.»

Sim, deve estar preparado, mas essas considerações implicam um julgamento que não só não adianta nada, como é bastante fácil de enunciar a partir do teclado. O exílio não deve ser um mar de rosas; em segundo lugar, não sabemos que articulação terá havido entre os protagonistas; e por fim, o Puigdemont serve a sua causa em Bruxelas, e não creio que haja catalão que não o apoie.
E, deixe-me que lhe diga, a conversa da constituição é uma treta, pois na transição todos queriam ver-se livres do regime e aceitaram todos os compromissos para acabar com o franquismo. Falar de constituição nesta altura do campeonato é de um grande cinismo (não seu, mas dos políticos de Madrid).

«Relativamente ainda à acção violenta, o insuspeito Camus disse um dia que entre a Justiça e a sua Mãe (que vivia na Argélia), ele escolheria a sua Mãe. Eu faria exactamente a mesma escolha...
E, chame-me cobarde ou reaccionário, não vou criticar nenhum Espanhol ou Catalão (Pied-Noir ou não) que faça também essa escolha. E cuidado com aqueles que a fizerem. O terror, como bem mostra a História, não é normalmente só a arma de um dos lados... A Guerra Civil de Espanha foi tudo menos um conflito entre os bonzinhos e os mauzinhos... Cuidado com o que se deseja...»

O Camus era um individualista, e bem; também eu me considero tal. As nossas opções são sempre sopesadas entre a ética e as convicções, por um lado, e os custos e danos por outro. Cada um deve ter a liberdade de agir em conformidade com a sua consciência, sem entrar no tropel da manada. Mas tenho a certeza de que faria suas as extraordinárias palavras do José Martí: «Si no luchas ten al menos la decencia de respetar a quien sí lo hace.»
O "terror". Chamar terroristas a quem pega em armas para defender-se é o que faz o Erdogan aos curdos do PKK e os que lutaram contra o Daesh, era o que o Salazar chamava aos movimentos de libertação das colónias. Não, meu caro, não faço esse favor aos opressores, mesmo que sejam opressores 'soft' ou 'light'. Se um comando catalão atacar pelas armas a sede da polícia espanhola, não serei eu quem levantará a voz para os condenar, era o que faltava. Embora, como escrevi, considere mais produtiva e inteligente um movimento de desobediência civil essencialmente pacífico e simbólico, mas eficaz. 
Terror é o que fez aquele islamita em Nice, que varreu dezenas de pessoas ao volante de um camião; ou os guerrilheiros da UPA, que massacraram colonos e indígenas, mulheres e crianças no norte de Angola, em 1961, ao contrário do MPLA, que assaltou uma cadeia onde estavam presos políticos nacionalistas / patriotas angolanos. Terror é condenar um líder político a 13 anos de cadeia.
Não, a Guerra Civil foi uma insurreição contra um governo democrático legítimo, chefiada por uma ratazana cujas ossadas vão ser despejadas daquele ignominioso Vale dos Caídos, o tipo que mandou fuzilar o Companys, presidente da Generalitat durante a II República. Não há mauzinhos nem bonzinhos; quando muito tipos do lado certo e outros do outro lado.


«Mas depois, existe um pequeno problema, aparte a falta de coragem dos Partidos Espanhóis que não querem abrir a caixa de Pandora dos referendos e se preparam para abrir a do separatismo porventura violento.»

Não querem, porque a direita espanhola é profundamente reaccionária e franquista, do aldrabão do Alberto Rivera (filho de colonos andaluzes que o Franco mandou para lá, que cortou o 'o' do nome para parecer catalão) ao gajo do Vox, a extracção é toda a mesma: o PP, o partido nascido do franquismo.  Fui um pouco injusto com o PSOE, que quis de facto dar um salto a tempo para outro patamar político, mas sempre bloqueado pelos franquistas do PP. É a minha embirração com o Sanchez, de que me penitencio, em período eleitoral, embora não dê nada por ele, como político ou indivíduo (um tipo que plagiou a tese, não é?...).

«A maioria dos catalães votou, nas últimas eleições, em Partidos Unionistas, a maioria presente no Parlement deve-se a um sistema eleitoral não proporcional e o mesmo se passou na anterior eleição que deu o Parlement que declarou a independência. Fazer um referendo sem sequer se dispor de uma maioria parece-me um bocadinho forçado...»

Creio que está a incluir nessa alegada 'maioria' o Podem, que em bom rigor não é unionista nem separatista (o que faz a propaganda...) E se é como você diz, não percebo por que razão os 'arriba españa' não viabilizam o referendo, gozando do seu triunfo em todas as frentes, e passam pela vergonha de serem desprezados em países civilizados. Aliás, tem-se visto quem vem para a rua em Barcelona, a defender a integração: aqueles embuçados de braço levantado em saudação fascista. Não era preciso ver, já se sabia, mas assim é mais eloquente.

«Quanto à vida ser feita de crises, bom, eu contrariamente àquele escritor francês, prefiro o aborrecimento à barbárie. O aborrecimento tem futuro, a barbárie não tem nenhum...»

Ora, somos dois! Mil vezes o aborrecimento da vida burguesa e medíocre dentro dos carris. Mas, lá está, não irei criticar quem se revolta contra a indignidade. Viver de joelhos deve ser muito aborrecido, e por vezes também deve custar a olhar para o espelho. Li já há uns bons anos uma entrevista dum escritor catalão que se assumia como independentista, e lembrava, com indignação, de como no seu tempo de criança e jovem, estava proibido de aprender a sua língua na escola. É realmente desagradável andar agachado.
Deus queira você tenha razão nesse optimismo quanto à falta de futuro da barbárie. Mas, como tenho dito, os catalães é que sabem. E note que não tenho nenhum preconceito contra os castelhanos, muito pelo contrário; mas as coisas são como são.

sexta-feira, outubro 18, 2019

quinta-feira, outubro 17, 2019

criador & criatura

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Hugo Pratt e Corto Maltese

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quarta-feira, outubro 16, 2019

«Come Fly With Me»

estampa CCCLXXVIII - Albert Marquet


 Nu Feminino Lendo de Pé (1910)

terça-feira, outubro 15, 2019

«Leitor de BD»

sobre Dylan dog -- Até que a Morte Vos Separe (Marcheselli, Sclavi e Brindisi)
e Little Nemo in Slumberland (Winsor McCay)



segunda-feira, outubro 14, 2019

«All Your Love»

Catalunha, aí vamos nós

A Espanha é governada por uns consabidos merdas. O PSOE obviamente não ousa a acção política, mesmo em defesa da unidade do estado espanhol noutros moldes, mais confederais, pois teme que aquela o afaste por muitos e bons do governo, ao contrário do PODEMOS, parece, se ainda não mudou de posição. Não é de espantar a sentença a pesadas penas de prisão emanadas pelo flato do supremo castelhano. Percebe-se que a vontade  de partir tudo fale mais alto, diante da indignidade, e não serei eu que irei condenar qualquer forma de luta que a sociedade catalã pretenda assumir, incluindo a armada, desde que os alvos sejam legítimos. (Não se pode ser a favor dos curdos e assobiar para o lado quando se trata da Catalunha.) Mas o mais inteligente é mesmo uma resistência firme mas não-violenta, à Gandhi, desde que a sociedade catalã esteja mobilizada para o sacrifício que tal acarreta. Nesta fase, visto de fora e à margem, parece-me ser a maneira mais eficaz de desmascarar a unidade espanhola, imposta pelo sangue. Quanto à UE, não se pode esperar grande coisa; parece que política comum só em relação ao Brexit. Talvez o Tribunal Europeu obrigue Madrid a ter vergonha na cara, o que iria abrir uma crise sem precedentes com a UE, mas a vida é feita de crises. Só espero que nenhum país se manche em relação aos exilados políticos catalães que acolhe. 

domingo, outubro 13, 2019

erotica


Björk, por Laura Levine

orquestrais & concertantes: Bartók, DOIS QUADROS PARA ORQUESTRA (1910): II. Dança de Aldeia / Kösler

os milagres da criação


Joker, de Todd Phillips (2019): uma obra 
que é de início um clássico. Inesquecível,
da música (Hildur Guonadóttir) à realização, 
e o Joaquin Phoenix




sábado, outubro 12, 2019

orquestrais & concertantes: Brahms, SINFONIA #4 (1884) - II. Andante moderato / Sado

estampa CCCLXXVII - Leon Bakst


Auto-Retrato 

parece que sabem assinar...

Fica aí ao lado a fotografia da Joacine Katar Moreira, até tomar posse na Assembleia da República. Quanto ao lúmpen que assina esta petição tonta e mal-intencionada -- 19 mil grunhos, ou seja, o equivalente em criaturas a duas ruas compridas de qualquer subúrbio de Lisboa, e não mais do que isso --,, ficamos a saber que pelo menos conseguem assinar o nome.

sexta-feira, outubro 11, 2019

estampa CCCLXXVI - Paul Klee


Rouxinóis Persas (1917)

quinta-feira, outubro 10, 2019

quarta-feira, outubro 09, 2019

vozes da biblioteca

«achei que aquele silva era um imbecil dos grandes e que me estava a empatar as energias com retóricas a chegar a um ponto em que a irritação me fazia agir contra a vontade de estar quieto.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Não é bem a vida que faz falta -- só aquilo que a faz viver.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«No telhado antigo, com o pó dos tempos fixado em crostas esverdeadas que nenhuma chuva conseguia lavar, os pardais faziam o ninho na Primavera.» Ferreira de Castro, A Missão (1954)

estampa CCCLXXIV - Egon Schiele


A Irmã do Artista, Melanie (1908)

segunda-feira, outubro 07, 2019

«Leitor de BD»

sobre Duke -- Sou uma Sombra (Hermann & Yves H.)
e Aventuras e Desvnturas de Quim e Filipe (Hergé)

sexta-feira, outubro 04, 2019

voto em Joacine

Em primeiro lugar, porque voto no Livre, um partido à esquerda do PS que é europeísta sem ambiguidades.
Depois, porque espero que Joacine Katar Moreira, cujo percurso de vida é muito interessante, seja a voz dos que não têm voz, em especial a voz dos indocumentados e dos imigrantes, em face de um Estado burocratizado, insensível, kafkiano.
Também gosto que seja feminista e negra.
Quanto à questão que só interessa a meia dúzia, a dos Descobrimentos, notei com agrado nesta entrevista, que há um avanço em relação a um militantismo historiográfico absolutamente nocivo - que aliás nem merece a designação de 'historiografia' -- para que se perceba e explique ao comum que o século XV não é o século XIX, e que estudar (e, sim, até celebrar) as navegações dos portugueses não é nenhuma apologia do colonialismo, nem do imperialismo e muito menos do racismo. Um historiador é um historiador; esta condição não implica neutralidade (a História não é nenhuma ciência, ao contrário do que propalavam os neo-marxianos de antepenúltima geração) -- não implica neutralidade, porém exige algo muito mais importante: o rigor.
Mas derivo, e não seria por esta discordância, para mim fundamental, que deixaria de votar nela, mesmo se houvesse razão para tal, que não há, em face da entrevista que cito. A discordância está-me inerente -- a começar pela discordância em relação a mim próprio, várias vezes...
Em suma, quero ver Joacine na Assembleia da República e o meu voto está-lhe garantido.

«Glass House»

quinta-feira, outubro 03, 2019

Freitas

Nas presidenciais de 1985-86 a família dividia-se entre Zenha e Freitas. Claro que eu votei Zenha. Nunca votei Freitas. Li-lhe o D. Afonso Henriques (2000). Fez bem ter fundado o CDS, congregando parte da elite do Estado Novo marcelista. 

quarta-feira, outubro 02, 2019

estampa CCCLXXIII - Thomas Cooper Gotch


A Herdeira de Todas as Idades (1900)

os agentes de vigilância e de defesa do estado do politicamente correcto

Quem me conhece ou costuma passar por aqui sabe que sou profundamente anti-racista e anti-xenófobo, que prezo a dignidade individual como o bem maior que uma comunidade cidadãos deve garantir a todos e cada um dos seus membros; ou de como gosto de evocar uma bisavó brasileira mulata que não tive a sorte de conhecer, originária de Pernambuco, e certamente descendente de escravos africanos.


Em Inglaterra, pelo que sei, a sanha do politicamente correcto é exercida com acutilância e estupidez agravada. Lembro-me do episódio da remoção imbecil dum quadro pré-rafaelita, creio, das paredes dum museu; ou dum inacreditável episódio que me contou um aluno, em que a associação de estudantes da sua universidade  recomendou que no halloween ninguém se mascarasse de índio ou cowboy, porque tal teria um significado pejorativo de apropriação cultural... A última foi este episódio que envolve Bernardo Silva e o seu amigo e colega de equipa Benjamin Mendy, com a federação inglesa a fazer o papel de idiota de turno.


Há muito que a liberdade está condicionada pelos censores do politicamente correcto -- expressão que odeiam, pois desmascara-lhes a fachada pretensamente liberal (quando não libertária...), estraga-lhes o disfarce de alegada irreverência. Mas de liberais ou libertários não têm nada; não passam de moralistas, no pior sentido do termo.


Quem me conhece e costuma passar por aqui também sabe da minha impaciência para com a desonestidade, a preguiça intelectual e os comportamentos de manada. É um dos meus traços de carácter, além de um especial prazer em afirmar que o rei vai nu, quando tal se me afigura. Parece-me que a esquerda pensante, por cobardia, comodismo, incapacidade (o costume) deixou-se capturar pelos sacerdotes e sacerdotisas do politicamente correcto, com pulsões autoritárias, claro, e acolitados pelos idiotas úteis, como sempre.


A uma dessas sacerdotisas que se arrogou a faculdade de dizer quem era de esquerda ou não nas páginas de um jornal, deve dizer-se que ser de esquerda é defender a liberdade e a dignidade individuais, com tudo o que isso significa (para bom entendedor...); e que quem tem vocação para policiar os comportamentos alheios e formatar a maneira de pensar, não tem nada de esquerda, de liberal, nem democrata, mas antes vocação para agente de segurança.

E já agora, como me situo à esquerda, pese o meu conservadorismo (que também acarinho), convém dizer que um dos combates dos próximos anos será pela liberdade, simplesmente.

erotica


John Gutmann

terça-feira, outubro 01, 2019

segunda-feira, setembro 30, 2019

«Leitor de BD»

sobre Entre Cegos e Invisíveis (André Diniz) e
Classificados (Laerte)

domingo, setembro 29, 2019

«Canto do Amanhecer»

orquestrais & concertantes: Copland, AN OUTDOOR OVERTURE (1943) / Valero-Castells

vozes da biblioteca

«Aquele que na hora da ganância / Perdeu o apetite.» Sophia de Mello Breyner Andresen, «Salgueiro Maia», Musa (1994)

«Morre-me a boca por beijar a tua.»  Camilo Pessanha, «Soneto», in Eugénio de Andrade, Eros de Passagem - Poesia Erótica Contemporânea (1968)

«Nascer morrer só pelas folhas ser ficar / e ser sempre por dentro o que se for por fora» Ruy Belo, «Guide Bleu», Boca Bilingue (1966)

sexta-feira, setembro 27, 2019

na estante definitiva

Há tempos, a caminho do Museu do Aljube, deparo-me, à direita, com a Sé, aonde não vou há anos; e logo, voltado para o edifício medieval, vem-me à cabeça o formoso romance de Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) -- sinal de que perdurou na minha memória e confirmação do agrado com que o li pela primeira vez. É um romance realista, e não inova do ponto de vista do estilo ou da estrutura. Também o Concerto para piano n.º 2, de Rachmaninov, não o faz. No que não vem mal ao mundo, pelo contrário.
E depois, há todo o interesse da figura pública de Manuel Ribeiro (1871-1941), alguém que vai mudando de campo político, sem nunca (se) trair. Ferroviário de profissão, é como anarco-sindicalista que intervém enquanto publicista; a ele se deve a tradução de A Conquista do Pão, de Kropótkin. Nas duas primeiras décadas do século XX é uma das grandes referências do ideário anarquista. Entusiasmado pela revolução bolchevique de 1917, na Rússia, abandonada a Confederação Geral do Trabalho (CGT), funda em 1919 e torna-se o principal dirigente da Federação Maximalista Portuguesa, precursora do PCP, partido de que é um dos fundadores, em 1921. Alguns anos passados, em data que não apurei, converte-se, defendendo a ideia de uma igreja social, mantendo as mesmas convicções humanistas.
Data de posse: Dezembro de 1992.

Manuel Ribeiro, A Catedral [1920], Lisboa, Guimarães & C.ª Editores [1935?], 280 págs.

quinta-feira, setembro 26, 2019

50 discos: 1. LOUIS ARMSTRONG PLAYS W. C. HANDY (1954) - #7 «Ole Miss»



vozes da biblioteca

«A luz parecia desprender-se, como um véu, da imensurável cavidade, deixando ainda vermelhar a telha francesa das casas abastadas, enquanto os negros telhados dos pobres se somavam já à escuridão que avançava.» Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947)

«Mas não podendo o sempre durar sempre, como explicitamente nos tem ensinado a idade moderna, bastou que nestes dias, a centenas de quilómetros de Cerbère, em um lugar de Portugal de cujo nome nos lembraremos mais tarde, bastou que a mulher Joana Carda riscasse o chão com a vara de negrilho, para que todos os cães de além saíssem vociferantes, eles que, repete-se, nunca tinham ladrado.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)

«Ser homem ou mulher é apenas a natureza; chamar-se João ou Manuela já é a natureza mais a vida inteira: é o problema.» José de Almada Negreiros, Nome de Guerra ([1925]1938)

quarta-feira, setembro 25, 2019


sobre Filhos do Rato (Luís Zhang & Fábio Veras)
e 60 Gags de Boule et Bill (Roba)


criador & criatura


Christian Godard e Martin Milan

domingo, setembro 22, 2019

estampa CCCLXXII - Mary Cassatt


Pequeno Almoço na Cama (1897)

sábado, setembro 21, 2019

livros que me apetecem

No Devagar Depressa dos Tempos, de Marcello Duarte Mathias (D. Quixote)
O que Eu Ouvi na Barrica das Maçãs, de Mário de Carvalho (Porto Editora)
O Zen e a Arte da Escrita, de Ray Bradbury (Cavalo de Ferro)

no papo:
Caim, de José Saramago (Porto Editora)

orquestrais & concertantes: Beethoven, SINFONIA #4 (1806) - I. Adagio. Allegro vivace / Bernstein

sexta-feira, setembro 20, 2019

«Pantagruel's Nativity»

a decisão dum aeroporto no Montijo é própria duma república das bananas

Por tudo o que se tem dito, da satisfação dos interesses duma empresa estrangeira concessionária da Ana (herança de Passos Coelho) a todas as gravíssimas consequências que deste atropelo adviriam (aqui já não é herança de P.C., mas miopia e voluntarismo em excesso, para ser simpático, de Costa). Já estudaram Beja? Vão estudar.
(Ah, e é de ler a notícia sobre a cidadania informada e patriótica do comandante dos Bombeiros Voluntários de Samora Correia, Miguel Cardia, a quem tiro o meu chapéu.)

quinta-feira, setembro 19, 2019

50 discos: LIVE AT LEEDS (1970) - #7 «Happy Jack»



a culpa do padeiro na agonia da III República

Tenho tudo a favor de padeiros na política, padeiros e todas as profissões. Acho até que a corrupção generalizada do país tem muito que ver com os chamados profissionais da política, vindos das juventudes partidárias, cuja grande competência na vida é a de saberem arranjar-se, a si e aos amigos.
A administração ganharia muito em limitar drasticamente os quadros políticos que acompanham membros do governo nos gabinetes. «Sim, senhor ministro», apesar de caricatura, faz muito mais sentido do que esta feira indecorosa que minou a nossa democracia. É isto que cria os populismos, que enoja uns, lançando-os nos braços do demagogo mais habilidoso, e que espevita outros para a chicoespertice. 
É preciso um grande sentimento de impunidade para passar por aquelas cabecinhas deformadas pelos esquemas em que permanentemente vivem e congeminar consultas públicas para o fornecimento de kits  antifogo a empresas de bordados e de electrodomésticosValha-nos o Ministério Público, apesar de todas as asneiras, e, agora e sempre, a liberdade, nomeadamente a de imprensa. A verdade é que atingimos um patamar de degradação nos partidos de poder já sem remédio, a não ser com o fim da III República e a instauração de uma IVª. Uma autodissolução seria uma atitude sábia, aproveitando no dia seguinte a memória dos erros da véspera, para que nunca mais o Estado pudesse ser colonizado pelos grupos de pequenos e grandes interesses que capturaram os partidos. Mas obviamente que não vai acontecer assim; só com um susto valente. Mal comparando, é como o aeroporto dentro da cidade de Lisboa: enquanto não cair um avião em cima dos edifícios, é para expandir. Pois, o crescimento, o turismo -- mas isto já não é corrupção, mas outra coisa que para aqui não é chamada.


vozes da biblioteca

«A lua / tropeça nos juncos» Eugénio de Andrade, «In memoriam», Primeiros Poemas (1977)

«A morte é a verdade e a verdade é a morte.» «Quasi flos», Ruy Belo, O Problema da Habitação -- Alguns Aspectos (1962)

«Mas explicai-vos ou primeiro ouvi-me, / Que a um tempo assim braceando, assim gritando, / Assim chorando não nos entendemos.» Alberto de Oliveira, «Floresta convulsa», Poesia - 3.ª série (1913) / Evatisto Pontes dos Santos, Antologia Portuguesa e Brasileira (1974)

quarta-feira, setembro 18, 2019

criadores & criatura

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Greg, William Vance e Bruno Brazil
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terça-feira, setembro 17, 2019

erotica


Irella Konof

«Leitor de BD»

sobre Riad Sattouf e José Projecto e Jorge Magalhães


segunda-feira, setembro 16, 2019

50 discos: 4. LITTLE GIRL BLUE (1958) - #7 My Baby Just Cares For Me



eu cá, votava lá nela

Jo Swinson makes a speech

Jo Swinson ("Stop Brexit"), escocesa, líder dos Lib Dem


Corbyn a encanar a perna à rã, nem o pai morre nem a gente almoça, nem...


vozes da biblioteca

«Espiava por entre as árvores mirradas a ver se descobria palhotas, deitava uma mirada ao trilho onde assentava os pés.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Lembrava-se vagamente de ter visto, pelo seu casamento, um rosto comprido de menino obstinado, onde brilhavam uns olhos escuros e zombeteiros e se desenhavam uns lábios talvez demasiado grossos, de expressão desdenhosa.» João Pedro de Andrade, A Hora Secreta (1942)

«Desde as quatro horas da tarde, no calor e silêncio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita cor-de-rosa, trabalhava.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (póstumo, 1900)

sexta-feira, setembro 13, 2019

livros que me apetecem

Agnes Grey, de Anne Brontë (Relógio d'Água)
Criminal 1 - Cobarde, de Ed Brubaker e Sean Phillips (G. Floy Studio)
Junto à Pedra, de Fernando Guimarães (Afrontamento)
O Nu na Antiguidade Clássica, de Sophia de Melo Breyner Andresen (Assírio & Alvim)

quinta-feira, setembro 12, 2019

na estante definitiva

Um livro terrível e belo sobre a condição humana, em particular a feminina. Não é ficção, mas está escrito como se fosse, tal como sucede com Se isto É um Homem, do Primo Levi. A badana da capa dá-nos a forma, de modo justíssimo:
«Alexievich criou um novo género literário de não-ficção que é inteiramente seu. Escreve "romance de vozes". Desenvolveu este género livro após livro, apurando constantemente a estética da sua prosa documental, sempre escrita a partir de centenas de entrevistas. Com uma notável concisão artística, a sua perícia permite-lhe enlaçar as vozes originais dos testemunhos numa paisagem de almas.»
Por detrás da miséria e do sofrimento surge, em todo o seu esplendor, a beleza da fragilidade, da abnegação e do heroísmo humanos.
Não gostei da tradução, infelizmente, mas o alcance do livro ultrapassa esse senão.
Data de posse: Julho de 20017.
Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher [1985], trad. Galina Mitrakhovich Amadora, Elsinore, 2016, 332 págs.

terça-feira, setembro 10, 2019

«Leitor de BD»




sobre Émile Bravo e Will Eisner

segunda-feira, setembro 09, 2019

criadores & criaturas

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Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, Valérian e Lauréline

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domingo, setembro 08, 2019

orquestrais & concertantes: Brahms, SINFONIA #3 (1883) .- IV. Allegro. Un poco sostenuto / Feddeck

silva

«As cidades perdiam os nomes / que o funcionário com um pássaro no ombro / ia guardando num livro de versos.» Carlos Drummond de Andrade, «Registro Civil», Brejo das Almas (1934)

«É terrível ter o destino / da onda morta na praia» Ruy Belo, «Para a dedicação de um homem», Aquele Grande Rio Eufrates (1961)

«Encostei meu ombro naquele céu curvo e terno» Francisco Alvim, «Hora», in Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1976)

sábado, setembro 07, 2019

olha, gostei de ouvir o André Silva,

em especial pela crítica final que faz ao Costa: barragens, que vão encher os bolsos à EDP e à Iberdrola, lixando os  rios selvagens; incentivo à extracção de minério (deve referir-se ao lítio, não sei se a outros). a agricultura intensiva (também foi boa aquela de ser a cap quem manda no ministério da Agricultura); e esqueceu-se (ou não teve tempo) de falar no projectado aeroporto e ampliação do Humberto Delgado. Dinheiro, crescimento económico, ou seja:  destruição, desertificação, hipoteca da qualidade de vida dos vindouros. Mas quem quer saber de quem andará por cá daqui a cinquenta anos?

«Coming In From The Cold»

sexta-feira, setembro 06, 2019

isto é que importa mesmo



A condenação a dez anos de cadeia de uma dirigente política da oposição turca, Canan Kaftancıoğlu , psiquiatra, feminista e obviamente laica.
É pena a política externa da UE estar desacreditada, com Ucrânias, Venezuelas, Kosovos e outros fretes aos americanos, de qualquer administração (então no 'caso Guaidó', o Santos silva até metia dó).

2 elogios a Cristas 2

Não sendo a minha praia política, registo a recusa da cooptação numa alegada geringonça de direita do espertalhão do Chaga ou do Besta, não sei bem; e também a recusa, ontem, no debate com Rio, a responder a uma pergunta cretina sobre género e casas de banho, ou lá o que era. Deveria a moderadora ter, em seguida, inquirido Rio sobre a posição do PSD a propósito das alterações ao código da estrada no que respeita à prioridade nas rotundas; ou a posição do PSD sobre a utilização de anabolizantes por crianços nos ginásios; ou a posição do PSD sobre a saída de Maria Cerqueira Gomes das manhãs da tvi; ou a posição do PSD sobre... Tenho a certeza de que se perguntasse ao Costa, ele respondia.
nota: soube da existência de Maria Cerqueira Gomes graças àqueles agregadores de notícias da net, em que metade delas não interessam a ninguém. Poderia dizer o mesmo acerca das que envolvem a pessoa em causa, mas não digo, apesar de só a conhecer de vista; estou até agradecido aos respigadores de futilidades (oh, sim, parece uma nota sexista; será? muito provavelmente. paciência, é prò lado que durmo melhor, e pesadamente. A seguir, hei-de escrever uma coisa mais séria. Está-me a apetecer, ambrósios, qualquer coisa sobre o Domingos Abrantes e o alegado museu do Salazar, com todo o respeito pelo primeiro, claro está.)

erotica


Jane Fonda, por Peter Basch

terça-feira, setembro 03, 2019

«Leitor de BD»








Sobre José Carlos Fernandes & Roberto Gomes e Alan Moore & Brian Bolland

estampa CCCLXX - Juan Gris


Guitarra numa Cadeira (1913)

domingo, setembro 01, 2019

na estante definitiva

Lê-lo, é deixar-se impregnar pela coragem de pensar -- "pensar contra si próprio" é o título de um capítulo --, tal como sucede, por exemplo, com Nietzsche; é não querer terminar e é perder a noção do tempo. É tentar, sem êxito, escrever qualquer coisa que se aproxime.

ficha:
E. M. Cioran, A Tentação de Existir, Lisboa, Relógio d'Água, s.d.
tradução: Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria.
ano da edição original: 1956.
185 págs.

orquestrais & concertantes: Beethoven, SINFONIA #3 (1804) - IV. Finale - Allegro molto / Bachmann