quinta-feira, maio 15, 2014

como uma prece

imagem daqui
Um tom de litania, palavras do baiano Ildásio Tavares, música de Gerônimo, a abrir o esplêndido álbum Brasileirinho (2004), um disco que nos transporta para o mais profundo ethos brasileiro, português, índio e africano. Bethânia acompanhada pelos mineiros do Grupo Uakti; pelo meio o maranhense Ferreira Gullar (Prémio Camões) diz -- e que bem! -- um excerto dum poema do paulista Mário de Andrade, o livreto, atravessado por frases de João Guimarães Rosa. Ouvir, reouvir, muitas vezes, como uma prece.





quarta-feira, maio 14, 2014

estampa CLXXVII - Mark Rothko

Sem Título (Metro), c. 1937
National Gallery of Art, Washington

Couldn't nobody get me out of New Orleans but him!

imagem
Uma das primeiras gravações de Louis Armstrong (Abril de 1923), acabado de chegar de Nova Orleães, chamado por Oliver, em Chicago desde 1918. Ralph J. Gleason transcreve no livreto a evocação de Satchmo: "He sent for me to play second cornet [...] Couldn't nobody get me out of New Orleans but him! I wouldn't take that chance. / I hadn't heard his band till I got back to Chicago. When I heard it at the door I said 'I ain't good enough for this  band, I think I'll go back...'" Da autoria de Oliver e Bill Johnson, é desopilante e (minuto 1'-1'40") irresistível.

terça-feira, maio 13, 2014

o prédio


A primeira prancha apresenta-nos, em vinheta única, um edifício de esquina com 14 pisos, construído em finais do século XIX, inícios do seguinte. Um edifício em que, por algumas gerações, se viveu, nasceu e morreu, com tudo o que isso implica. Até que o prédio foi demolido, e com ele o lastro imaterial de aspirações humanas que acolheu.

Tratam disto as duas primeiras pranchas de um dos livros da minha biblioteca de BD que mais prezo: O Edifício, do enorme Will Eisner (1907-2005). No prefácio a esta sua obra, Eisner diz-se convicto de que não é impunemente que estes imóveis acolhem vidas durante vidas: «[...] estou certo de que essas estruturas marcadas por risos e manchadas por lágrimas são mais do que edifícios inertes»; e o livro é também uma insurgência contra a depredação dum património cultural, arquitectónico, artístico e imaterial a que se assiste numa cidade. Nada mais eloquente do que a epígrafe de John Ruskin: «Os edifícios antigos não nos pertencem. Em parte, são propriedade daqueles que os construíram; em parte das gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre eles: aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar.»
Will Eisner, O Edifício [The Building, 1987], tradução anónima, São Paulo, Editora Abril, 1989, pranchas 1-2.

um cafis de apodrecidos cereais nas húmidas matamorras

Durante a Guerra Civil de 1245-1247 -- que também opôs dois irmãos, D. Sancho II, deposto pelo papa, e o Conde de Bolonha, futuro Afonso III --, conta-se uma estória lendária, protagonizada pelo alcaide-mor de Celorico da Beira, Fernão Rodrigues Pacheco (o primeiro deste nome).

H. Lopes de Mendonça, por Columbano
Sitiado pelo próprio infante, que o alcaide tinha por usurpador, Afonso quis vergar Celorico pela fome, até que, em intervenção supostamente divina, uma águia trazendo nas garras uma truta que acabara de caçar, deixa-a cair milagrosamente no recinto sitiado, levando a um estratagema que tem sido glosado noutras situações semelhantes (v. g. Deuladeu Martins): com o pouco de farinha que restava, Pacheco manda fazer pães, que, envolvendo o peixe de água doce, vai oferecer ao Bolonhês, através dum emissário, como preito respeitoso ao irmão do rei -- o único legítimo que reconhecia. D. Afonso levantará o cerco nesse mesmo dia.

Henrique Lopes de Mendonça (Lisboa, 1856-1931), foi um oficial de Marinha, grande historiador dos Descobrimentos e da Expansão, poeta (autor dos versos de A Portuguesa, recorde-se), dramaturgo e ficcionista com acentuada inclinação para a narrativa histórica. A História era a sua paixão, como historiador das Navegações ou ficcionista.
Neste conto, publicado originalmente em Capa e Espada (1922), Mendonça dá lastro à petite histoire e à lenda, pretexto para uma recriação lúdica dum tempo medieval conturbado; e fá-lo com a competência do histroriador.
O estilo é opulento, no bom sentido, português de lei. Mais do que uma historieta lendária, interessa-me e regala-me essa riqueza vocabular, incluindo os arcaísmos, que serve a narrativa.

O incipit: «Na açoteia da torre de menagem, Fernão Rodrigues Pacheco, debruçado sobre uma aberta das ameias, medita.»
Um parágrafo: «E, como a resposta se resuma a um gesto ríspido de impaciência, o agostinho prossegue. Em voz ungida de piedade, relembra as agonias daqueles meses de apertado cerco; o contínuo desfalque dos defensores, dizimados por ascumas e gorguzes, por virotões e pedregulhos, e mais ainda pela pestilência e pela fome. A custo se colhe um cafis de apodrecidos cereais nas húmidas matamorras. A chama dos fornos devora a lenha dos vigamentos, os sarrafos arrancados às mesas, aos escanos, às portadas. Dentro em pouco, toda a parte combustível da vila se reduzirá a cinzas para se transformar numa ilusão de pão as varreduras dos celeiros, a palha dos esteirões, a erva das ruas. À míngua de um mesquinho almanho, sequer, servem de repasto aos sitiados as alimárias mais imundas.»

H. Lopes de Mendonça, «A truta», 14 Novelas Histórias Portuguesas -- De D. Afonso Henriques à Batalha de Aljubarrota, selecção anónima (de José Saramago?), Lisboa, Estúdios Cor, 1965, pp. 125-132 


segunda-feira, maio 12, 2014

ou quando a vigília da Razão (com maiúscula, que é mesmo para chatear), engendra milagres

Se eu tivesse de escolher um único compositor para a ilha deserta, seria este -- o que mais me comove, o que mais admiro, tão tenso (veja-se como Peter Kuhar aborda o violino), tão patética, sublime e terrivelmente humano.
O 1.º andamento, Adagio sostenuto. Presto da Sonata #9 ("a Kreutzer"), é uma das muitas obras-primas que Beethoven, um milagre de humanidade, nos legou.
Peter Kuhar (violino) e Ivan Fercic (piano).


quinta-feira, maio 08, 2014

terça-feira, maio 06, 2014

desinfestação urgente

Conheço mal a situação da interna da Nigéria, quase só pelo que vou vendo pelos telejornais -- o que equivale a dizer, falando da indigência --,  que mais valera nada saber. (Basta aferir pelo que se passa na Ucrânia em relação à qual estou melhor inteirado: na maioria dos casos tenho a sensação de que aquelas vozes-off nem sequer percebem o que estão a papaguear).
Voltando à Nigéria: só se fala no rapto das meninas que cometeram o crime de estudar, gabarolado pelo excremento aí do lado, cujo nome nem escrevo para não me poluir o ficheiro. Um crime contra a humanidade, a ser perpetrado hoje e agora.
 Boko Haram, parece ser o nome desta trupe. Nunca me tinha dado a curiosidade para ver o que significava, e neste momento também não me apetece. Atendendo à incapacidade do governo do presidente Goodluck Jonathan e a eventuais constrangimentos diplomáticos e geo-políticos, espero bem que, seja de que modo for, inclusivamente recorrendo a mercenários tecnologicamente bem equipados e pagos a peso de ouro, dêem caça a este bicho e seus sicários, os julguem ou os abatam. Mas muito rápidamente. Depois, posso inteirar-me melhor sobre a situação deste país complexo.

segunda-feira, maio 05, 2014

criadores & criatura

 Philip Francis Nowlan

 Dick Calkins

Buck Rogers

sexta-feira, maio 02, 2014

A minha vida é ler os poetas que mais amo
Teixeira de Pascoais

terça-feira, abril 29, 2014

estampa CLXXVI - James Ensor

Esqueletos num Estúdio (1900)
National Gallery of Canada, Ottawa

segunda-feira, abril 28, 2014

domingo, abril 27, 2014

Vasco Graça Moura

Portugal perdeu hoje um dos seus maiores. Como poeta, foi um dos mais significativos do seu tempo, cujo estro era suficientemente intenso para impedir que a cultura vasta e sólida afogasse a poética em eruditismo estéril. Será sempre um autor a ter em conta em qualquer antologia do tempo que lhe coube. Enquanto crítico e ensaísta, ombreia com os grandes, sendo também um respeitadíssimo camonista. Acresce uma contínua actividade de tradutor, aclamado pelas versões que realizou de Shakespeare e Dante, entre muitas outras.
Do maior relevo, dentre as muitas funções públicas que desempenhou, foram a direcção editorial exemplar da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, e o brilho com que presidiu à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Num e noutro lugar, o seu desempenho foi reconhecido e louvado por todos os quadrantes politico-ideológicos, e a acção que aí realizou deixou frutos, prolongando-se pelo tempo futuro. E foi, como se sabe, o mais combativo adversário do famigerado Acordo Ortográfico, contra o qual se bateu inteligente e denodadamente, sem que o tolhesse a pesada e desesperante inércia duma sociedade que passava tranquilamente ao largo das preocupações e dos interesses duma vida: a literatura e a história de Portugal. 

sexta-feira, abril 25, 2014

25.IV.1974


Salgueiro Maia, foto de Alfredo Cunha

quinta-feira, abril 24, 2014

quarta-feira, abril 23, 2014

bem escrito: "Honra lhes seja." (Helder Macedo)

«O 25 de Abril talvez tenha sido caso único de uma revolução militar em que os militares não quiseram o poder. Mesmo os que talvez tivessem querido foram impedidos por outros militares. Honra lhes seja."

Helder Macedo, «A queixa que tenho contra o corpo», JL #1136, 16.IV.2014

Fender vs. Gibson - Mark Knopfler e George Thorogood



terça-feira, abril 22, 2014

bem escrito: "como nunca houvera em Portugal." (Miguel Real)

«[...] as ondas de choque deste dia puro [25 de Abril de 1974] promoveram um estado geral de bem-estar e de prosperidade como nunca houvera em Portugal.»
Entretanto, mais quero conversar / Com brutos animais, que não com gente
Frei Agostinho da Cruz

segunda-feira, abril 21, 2014

bem escrito: "Entrámos exaustos no século XX" (Maria Isabel Barreno)

«Surgem os tiranos quando a autoestima dum povo é baixa. Tivemos uma difícil históri, ao longo de séculos: pesadas concorrências internacionais nos mares, perda e esforçada reconquista da independência, um destruidor terramoto, três invasões francesas devastadoras, um pagamento exorbitante aos nossos aliados ingleses, uma guerra civil. Entrámos exaustos no século XX.»
Maria Isabel Barreno, «A explosão da alegria», JL #1136, 16.IV.2014

glorioso SLB!

Sport Lisboa e Benfica, Campeão Nacional de futebol pela 33.ª vez

domingo, abril 20, 2014

bem escrito

«Portugal tem pouco tempo para não se tornar num sítio desprezível. No 25 de Abril, cortámos o nó górdio da Ditadura. Hoje, apesar de abundarem as vozes que defendem a escravatura como o único caminho, ainda há mulheres e homens em Portugal que sabem ser a liberdade mais valiosa do que uma vida desonrada. Ou fazemos um federalismo europeu para cidadãos europeus iguais. Ou, então, teremos que reclamar a soberania que nos foi usurpada.»

Viriato Soromenho Marques, «Refundar Abril -- Cortar o novo nó górdio», JL #1136, 16.IV.2014

sábado, abril 19, 2014

"25 de Abril vezes 40"

Ando a pescar coisas daqui. É um número para guardar, claro, com muitos bons textos. Três, pelo menos, são do domínio do excepcional: os de António Borges Coelho, Hélia Correia e Maria Isabel Barreno. Comprem-no.

bem escrito

«Lembrei-me do que tinha dito Garrett, depois da vitória da Revolução Liberal: os revolucionários que a tinham dirigido pareciam conservadores, os que pouco ou nada tinham feito arvoravam-se em mais liberais do que os liberais. Algo parecido estava a acontecer.»
Manuel Alegre, «A quinta dimensão», JL #1136, 16.IV.2014

bem escrito

«Nos começos dos anos 70 a nossa situação representa para muita gente um anacronismo histórico, ora um escândalo, ora as duas coisas ao mesmo tempo, tanto no plano interno como no externo. Para um certo número de portugueses, ávidos de liberdade e democracia, um enigma e um pesadelo de que não conseguiam sequer imaginar o improvável fim que, num relâmpago, a Revolução de Abril materializou.»

Eduardo Lourenço, «A Revolução revisitada», JL # 1136, 16.IV.2013.

bem escrito

«Sejamos francos. O momento político que vivemos hoje, fortemente empurrado pelos ventos internacionais, coroa, 40 anos depois, todos aqueles que no dia 25 de Abril de 1974 ficaram atrás das portas à espera que a barafunda dos cravos passasse.»

Lídia Jorge, «Lembrar o momento perfeito», JL #1136, 16.IV.2014

sexta-feira, abril 18, 2014

os caçadores da pré-história, vistos do século XVII (Manuel Severim de Faria)

«Dela [a caça] foi inventora, quasi a mesma natureza, porque vendo os homens em seus princípios o dano, que dos animais bravos recebiam, e achando-se juntamente faltos de mantimentos, e reparos, com que se sustentassem, e defendessem o corpo das injúrias do tempo, perseguiam os animais para sua segurança, sustentação, e vestido, como hoje fazem os mais dos habitadores do novo mundo [...]».

Manuel Severim de Faria, «Com que condições seja Louvável o Exercício da Caça.», Discursos Vários Políticos (1624).
em baixo: Tunga, um caçador e guerreiro da pré-história, criado por E. Aidans (tirado daqui).


Gabriel García Márquez (engrosso o pranto universal)

Quando morre um escritor que me deu um dos livros da minha vida (os Cem Anos de Solidão, pois claro), só me apetece ficar calado e não contribuir para o obituário em curso, virtualmente esmagador; quando ele me dá dois livros que serão sempre do melhor que li e lerei (junto O Amor nos Tempos de Cólera, evidentemente), é-me impossível não vir aqui dizer isso mesmo e engrossar o número dos que, quase nada dizendo, acabam, creio, por reflectir o triunfo de qualquer criador: o de deixar nos outros a marca da sua individualidade, porque a sua vida (a minha vida) nunca mais foi (e será) a mesma a partir do momento em que se cruzaram. 

sábado, abril 12, 2014

estampa CLXXV - Paul Gauguin

Contos Bárbaros (1902)
Museum Folkwang, Essen

quinta-feira, abril 10, 2014

criador & criatura(s)

 Alain Saint-Ogan e Zig e Puce (& Alfred)

segunda-feira, abril 07, 2014

E de que vale a poesia se não estiver viva?
Rodrigo Tomé

Sócrates: tirinhos a José Rodrigues dos Santos, seguidos de uma bazookada; ou o Telejornal de Domingo transformado em Cabaré da Coxa

Mais uma vez, JRS foi o bombo da festa de Sócrates: levou em cima 50 cargas de artilharia a propósito dos seu "arquivos"; e foi, de facto, insultado em directo por Sócrates, que, indirectamente, lhe chamou estúpido.
Como não há vergonha, e se o registo não mudar, o programa -- que JRS estragou -- terminará com este exangue. Pessoalmente, não me importa nada ver Santos a cozer quinzenalmente; mas, enquanto telespectador da televisão pública, sinto-me desrespeitado. A mim interessa-me ouvir a opinião de José Sócrates (é assim que se chama o programa, não é?), e não um combate de boxe desigual entre um peso pesado e uma pluma. Pode divertir, mas se eu quisesse ver um tipo impreparado a levar estalos na carinha, mudava para um desses canais patetas do cabo.

domingo, abril 06, 2014

bem escrito

«Arrastamo-nos pelos escritórios muito mais horas do que os holandeses e, no entanto, estamos na sub-cave da produtividade europeia.»

Inês Pedrosa, «O país da adolescência», Sol #396, 4.IV.2014

sábado, abril 05, 2014

estampa CLXXIV - Bronzino

Retrato de Bia de' Medici, c. 1545
Está em Florença, nos Uffizi

quinta-feira, abril 03, 2014

quarta-feira, abril 02, 2014

criador & criatura


Harold Gray, «Little Orphan Annie»

terça-feira, abril 01, 2014

Jacques Le Goff

Quando estudei História Medieval, os nossos heróis vivos eram José Mattoso e Jacques Le Goff, que morreu hoje. Eles e outros deram colorido à historiografia sócio-económica, o golpe de asa da pesquisa das mentalidades, do simbólico, do antropológico. E perceberam que as gerações imediatamente anteriores, ao menosprezarem a história política, cultural e individual, bête noire  dos Annales, haviam deitado fora o bebé com a água do banho.

quarta-feira, março 26, 2014

O mundo odeia o que é claro e puro
Li Bai

terça-feira, março 25, 2014

a falta de noção de Rodrigues dos Santos

Gosto pouco de elaborar sobre inanidades, e por isso não vou perder muito tempo com a entrevista que ele fez a Sócrates, sabendo-se que estava ali para moderar um espaço de comentário.
Devo dizer, em abono de José Rodrigues dos Santos, que tenho (ou tinha) dele uma imagem de profissional sério, um bocado apalermado, é certo. Esta minha convicção baseava-se num episódio de ingerência, ao que parece torpe, num concurso para correspondentes da RTP no estrangeiro, em que ele, sendo então director de informação, se comportou à altura.
Como ainda não tive outras razões para duvidar da seriedade do homem, chego à conclusão de que ele é mesmo apatetado. Vendo bem, outra coisa não seria de esperar do mesmo indivíduo que pisca o olho aos espectadores, em jeito de despedida do Telejornal, ou que entrevista um escritor alemão em alemão, não sabendo alemão, decorando as perguntas...  

segunda-feira, março 24, 2014

Do ouro sobre azul das estrelas da UE ao Bleu Marine: um horizonte vermelho de sangue

Por baixo do ar modernaço de Marine Le Pen, com que quer tranquilizar a boa consciência burguesa, move-se a pestilência do racismo, em especial antissemita, o vírus do ultramontanismo católico, o pus da homofobia, a animalidade violenta da extrema-direita, conluio involuntário de simplismo e crime. Estou mesmo a ver aqueles militantes da Frente Nacional: um perfeito rassemblement de marginais desocupados e pequenos e grandes frustrados, inspirados por alguns intelectuais, nostálgicos da grandeur que só encontram nos livros de História e gostariam de poder recuperar.
Não se segue que a FN ganhe daqui a oito dias, o problema é que estão a implantar-se, com a involuntária cumplicidade do sistema francês, medíocre e corrupto e bloqueado. Daí começar a tornar-se aceitável à consciência da pequena-burguesia urbana, para ela empurrada por ausência de alternativa, pelo inferno em que degenerou o seu quotidiano.
Então, pouco faltará para começarem a errar pelas ruas das cidades da província francesa as milícias para-fascistas, os vigilantes. A pequena-burguesia temerosa que neles votará, irá servir de carne para canhão como costume; os muçulmanos franceses (são quantos milhões?...) e outras minorias em perigo não ficarão à espera que lhes tratem da saúde.
O horizonte francês é sangrento.

domingo, março 23, 2014

dos meus discos #1 SOMETHIN' ELSE, Cannonbal Adderley

Ficha
Músico: Cannonball Adderley
título: Somethin' Else
músicos: Cannonball Adderley, sax alto; Miles Davis, trompete; Hank Jones, piano; Sam Jones, contrabaixo; Art Blakey, bateria.
produtor: Alfred Lion
selo: Blue Note
ano: 1958
suporte: CD
faixas: «Autumn Leaves»; «Love For Sale»; «Somethin' Else»; «One For daddy-O»; «Dancing In The Dark». Bonus track: «Bangoon» 

«Autumn Leaves»  Quinteto superlativo, a forma como a secção rítmica inicia, com os sopros sotto voce -- diria eu, ou não, se soubesse alguma coisa de música --, agarram-me logo. Depois, o diálogo Miles / Julian, mantêm-me sempre numa expectativa interessada; ao mesmo tempo, o beat constante mas nunca monótono de Blakey e Jones (Sam). O final de Hank Jones, piano que não quer sair, empurrado suavemente pelos  sopros. Maravilhoso. Ouvir

«Love For Sale»  De Cole Porter (1930). Hank Jones sempre discreto, Art Blakey sincopado, mesmo com as vassouras, Miles Davis dá a frase, e o swing do contrabaixo de Sam Jones anuncia o formidável arranque de Julian C.A., que sola, ouvindo-se a ele e a Charlie Parker. Ouvir.

«Somethin' Else» O tema é de Miles, que sola primeiro; segue-se Julian Cannonball, depois em diálogo, sempre sustentados impecavelmente pela secção rítmica, Jones, Jones & Blakey. O solo de Hank é exquisite; e é dos diabos o speed de Art Blakey nos pratos, pelo minuto 3'58"... Ouvir.

«One For Daddy-O» A entrada inspiradíssima do piano de Hank Jones, trompete e sax alto a par até ao arranque a plenos pulmões de Julian Adderley; depois, Miles Davis, cheio de coolness; o balanço contínuo da secção rítmica. Terceiro solo, o piano a desenvolver o fraseado inicial. Imparáveis, novos solos de Julian, Miles e Hank, para terminar com os mesmos riffs com que os sopros abriram, Miles perguntando a Alfred Lion, o produtor: "Era isto que querias, Alfred?..." O tema é de Nat Adderley. Ouvir.




figuras de estilo: Marcello Duarte Mathias

«A nossa mulher, ou aquela com quem se vive, é o nosso outro bilhete de identidade, igualmente intransmissível.»

«Ao acaso das horas», JL #1134, 19.III.2014

bem escrito

«Os tempos de crise podem servir de desculpa para tudo, menos para quebrar as linhas de continuidade onde poderá assentar o reerguer da nossa comunidade nacional.»

Viriato Soromenho Marques, «O mar, a ciência e a (des)continuidade», JL #1134, 19.III.2014.

sexta-feira, março 21, 2014

Cai a máscara

ao Erdogan, e além do ditador em potência, vê-se o quê?... Um tosco a precisar de assessoria informática.
(Entretanto, já me tinha apercebido de dissensões na cúpula do partido no poder; a atitude de Gül, hoje, parece-me eloquente).

quarta-feira, março 19, 2014

estampa CLXXIII - Vincent van Gogh

A Igreja de Auvers (1890)
Museu d'Orsay. Paris

terça-feira, março 18, 2014

criador & criatura

Roy Crane (retratado por Michael Cho)
e Captain Easy (Capitão César)


segunda-feira, março 17, 2014

Oiçam lá o Gorbachev, e calem-se

Se há coisa que me parece, é que, no que respeita à Crimeia, a opinião pública não se está a deixar intoxicar pela fariseísmo do costume dos EUA e da Alemanha, acolitada tristemente pela maioria dos países da UE (Inglaterra à parte, porque a Inglaterra não se submete à pata alemã). E pouco importa que um dos seus heróis (e meu também),  Gorbachev, exprima o que qualquer russo de bom senso pensa.
Mas bom senso é coisa que não abunda pela UE, ao contrário da estupidez e da cobardia (como se tem visto no seu processo de autodestruição); e nunca abundou no Departamento de Estado dos americanos tranquilos, porque, patetas, pensam (?) que a Rússia é Portugal, que come e cala. Putin deve estar aterrorizado com a Merkel e o Hollande tout-le-monde.

sábado, março 15, 2014

quarta-feira, março 12, 2014

Linda mulher que meu olhar corteja / Com seu colar de pedras desleais
Afonso Duarte

entregar o ouro aos bandidos

É o que se chama a isto.  

terça-feira, março 11, 2014

clip - QUEENIE EYE (Paul McCartney)

)

estampa CLXXII -- Bronzino

Váenus, Cupido, Loucura e Tempo, c. 1545
Londres, National Gallery

segunda-feira, março 10, 2014

quinta-feira, março 06, 2014

a ouvir - Johnny Marr

The Upstarts

Na Crimeia, tudo vai acabar bem. Seguem-se as cenas dos próximos capítulos

 Conforme escrevi aqui, não me parecia provável que a Rússia se ficasse, diante das brincadeiras irresponsáveis da UE -- tal como a UE e os Estados Unidos não irão provocar uma guerra (!) por causa da Ucrânia.

A verdade é que a Rússia, ao integrar a Crimeia, toma posse daquilo que é historicamente seu. E vai fazê-lo de forma modelar, depois da decisão do parlamento legítimo da república autónoma ser reforçada com um referendo em que a vontade popular vai ser democraticamente expressa, e corrigir uma idiotice das autoridades soviéticas do tempo do Krushev, a contento -- tal como a Sérvia, diga-se, não pôde corrigir as sacanices do Tito, que criou o problema do Kosovo, entre vários e graves outros. (Pela mesma razão, já agora, sou completamnete favorável à manutenção das Falkland na soberania britânica, pois assim se manifestou o seu povo nas urnas, por muito que vociferem os generais e a politicalha argentina, com os seus complexos de colónia e as suas cortinas de fumo para enganarem os seus concidadãos).

Vejamos como evoluirá a situação no leste ucraniano, e se haverá bom senso por parte das potências e das supostas autoridades da Ucrânia. Nunca será de excluir o pior, mas não por causa da Crimeia, parece-me.

Notícia da resolução parlamentar da Crimeia, aqui: http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=721592&tm=7&layout=121&visual=49

quarta-feira, março 05, 2014

terça-feira, março 04, 2014

criadores & criatura

Pat Sullivan (nos cartoons) e Otto Messmer (nos comics) 
e o Gato Félix

do Século XIX às Invasões Bárbaras, passando por MST

Quando vejo o John Kerry dizer que a Rússia está a comportar-se como uma potência do séc. XIX (no que tem inteira razão, olha a novidade...), não devia esquecer-se que o país dele, já este século, a propósito da II Guerra do Iraque, teve uma actuação não do século XIX, mas do tempo das Invasões Bárbaras -- que foi isso que significou o saque e o morticínio de Bagdade.
Portanto, quando oiço estes gajos, rio-me porque não os posso mandar à merda.
Já os papagaios e as papagaias dos telejornais -- sufoco com tanta estupidez e analfabetismo. Até agora, e ouvi pouca gente, só o Sousa Tavares disse coisas acertadas.

segunda-feira, março 03, 2014

domingo, março 02, 2014

sábado, março 01, 2014