domingo, janeiro 14, 2007

Correspondências #75 - Carlos Drummond de Andrade a Sérgio Telles

Rio de Janeiro,
24 de Agôsto de 1971.
Meu caro Sergio Telles:
Encontro está sempre em minha mesa, deixando-se folhear e despertando encantamento, como obra de arte que realmente é. Se o texto apresenta muitas páginas de alta qualidade, que dizer das reproduções de quadros e desenhos que o ornam, e que fazem do seu livro mais do que um livro, uma admirável galeria portátil? Nem sei mesmo a quem deva louvar de preferência: o realizador do "encontro" espiritual de escritores brasileiros e portuguêses, em nível tão diverso do convencional, ou o criador dessas paisagens e figuras luminosas, que com tanta sensibilidade forrada de técnica faz desfilar diante da gente a vera imagem de Portugal povo/cultura? A verdade é que os dois se fundem num só realizador, a quem vai o meu abraço muito reconhecido por me haver ofertado essa jóia gráfica -- e logo a mim, que não me animei a participar do encontro, e aqui estou, encabulado, comovido e grato...
O abraço amigo de
Carlos Drummond de Andrade
In Portugal na Obra de Sérgio Telles

Sérgio Telles










auto-retrato

sábado, janeiro 13, 2007

onde estarei eu hoje em pequeno?
Ruy Belo

Uma leitura da «presença» #9

Os parâmetros desta continuidade [Orpheu-presença] têm sido motivo de controvérsia fecunda desde que Eduardo Lourenço, no início da década de sessenta, propôs para a presença a qualidade de agente da «contra-revolução do modernismo», notando, em autores referenciais da revista, «uma religação ao fluir tradicional da poesia portuguesa.» (33)
Ao reclamar o magistério de Pessoa, Almada, Raul Leal e outros, promovendo-os, divulgando-os, retirando-os do gueto em que se encontravam e dando-lhes outra respeitabilidade, a presença acabava por ser -- numa perspectiva cultural e sociológica --, consequentemente, mais subversiva. O ensaio de Lourenço remete para aspectos literários; só que dissociá-los da repercussão amplificada que os primeiros modernistas passaram a ter junto dum público mais vasto (34) é, quanto a mim, insatisfatoriamente restritivo.
Este é, sem dúvida, um tema movediço, pois ao reclamar-se uma continuidade de modernismos -- como Simões explicitamente fez, Régio de forma implícita e Casais de alguma maneira praticando-o enquanto poeta (35) --, há que ter em conta uma personalidade forte como a do autor de Jacob e o Anjo, demasiado singular para limitar-se a um como que epigonismo dos antecessores, e que gozava dum claro ascendente sobre os jovens (ainda mais jovens do que ele) Gaspar Simões e Casais Monteiro. (36)
(33) Eduardo LOURENÇO, «"Presença" ou a contra-revolução do modernismo português?», Tempo e Poesia, 2.ª ed., Lisboa, Relógio d'Água [1987], p. 162. Para além da rejeição veemente desta tese por Gaspar Simões e da aceitação, com algumas reservas, por Casais Monteiro, as ondas de choque que provocou chegaram até hoje. (É de notar que o ponto de interrogação não figura no título do artigo na primeira edição.) Se para David MOURÃO-FERREIRA, («Revisita à poesia da "Presença"», Os Ócios do Ofício, Lisboa, Guimarães Editores, 1989, p. 224), a presença susteve «o niilista processo de desagregação para que tendiam» os de Orpheu, para Eugénio LISBOA (O Segundo Modernismo em Portugal, 2.ª ed., Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1984, p. 42), o objectivo dos seus autores foi o de «resistir e durar»; desaceleração que é, de todo o modo, avaliado de forma diferente pelos dois ensaístas: o que constitui ao mesmo tempo um mérito e uma limitação para o primeiro (ibidem), para Eugénio LISBOA (José Régio ou a Confissão Relutante, p. 25) tratou-se de um processo «de reflexão e consolidação» do caminho iniciado por Pessoa e companheiros. Em artigo anterior aos textos acima referidos -- e propondo uma espécie de solução de compromisso para uma nova questão havia pouco suscitada -- Jorge de SENA («A poesia de "presença" [1967]», Régio, Casais, a «presença» e Outros Afins, p. 77) defendera ter o segundo modernismo, «que os directores da presença representaram [,] impos[to] criticamente o Primeiro, sem ter imposto o experimentalismo dele».
(34) «A Presença foi a primeira publicação periódica modernista que, através de uma acção persistente e relativamente longa (de 1927 a 1940), alcançou audiência nacional.» Adolfo Casais MONTEIRO, «Introdução» [s.d.], O que Foi e o que Não Foi o Movimento da Presença, pp. 18-19.
(35) «Adolfo Casais Monteiro [...] foi, não só [entre os autores da presença] dos mais tocados pela sombra de Pessoa, como também um dos poucos que soube, na sua geração, assimilar e ampliar o vector vanguardista do primeiro modernismo.» Fernando J. B. MARTINHO, Pessoa e a Moderna Poesia Portuguesa -- do «Orpheu» a 1960, 2.ª ed., Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1991, p. 69.
(36) No caso do futuro autor de Elói é nítido o parafrasear da doutrina regiana. Basta ler. Claro que o que em Régio é exposto com a moderação própria de um pedagogo, em Simões as ideias ganham um juvenil e combativo entusiasmo, servidas muitas vezes por uma brilhante, e ao mesmo tempo polémica, enunciação.
(continua)

quinta-feira, janeiro 11, 2007

estampa XC

Paul Cézanne, O Jas de Bouffan
Museu Norton Simon, Pasadena, Califórnia

Antologia Improvável #193 - Isabel de Sá (2)

No ventre da mulher as sementes germinaram. Cinco crianças saíram enleadas em panos de ranho. Em sangue, a rainha mãe rasgou os ventres miúdos e ofereceu às outras mulheres os intestinos minúsculos para que deles fizessem colares.
Esquizo Frenia / Repetir o Poema

O Vale do Riff - David Bowie, «Fashion»

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Uma leitura da «presença» #8

Só com independência era possível ao escritor não se falsear; só ela era possível de garantir a autenticidade e, por conseguinte, a sua originalidade, enquanto autor de uma obra pessoal -- «Ser de determinada maneira pessoal e fatal -- qualquer coisa que se seja!», escreverá Régio, gideanamente (30) --, criador de uma «literatura viva», desde logo definida no nascimento da presença:
«Em Arte é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personagem artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe.» (31)
Pessoa será evocado neste mesmo texto; no terceiro número, ele com Sá-Carneiro, Raul Leal e Mário Saa serão todos guindados à categoria de «mestres contemporâneos»: «os homens que, pior ou melhor, exprimem as tendências mais avançadas do seu tempo, isto é: a parte do futuro que já existe no presente. Enfim: são os futuristas.» (32) Surgia o segundo modernismo, a presença sucedia a Orpheu.
(30) José RÉGIO, «A lição inútil ou carta a um juvenil individualista», presença, n. 14-15, Coimbra, 23 de Junho de 1928, p. 9.
(31) José RÉGIO, «Literatura viva», presença, n.º 1, Coimbra, 10 de Março de 1927, p. 1. Neste manifesto inaugural, defendeu Régio ser o «colectivo» uma afirmação superior do «pessoal», o que foi interpretado, com particular interesse, como indício de «pulsões» evidenciadoras de um «outro discurso estético, ou seja, por uma individualidade tanto mais socializada e socializante quanto mais libertamente se cumpram na sinceridade original do artista.» [Fernando ALVARENGA, «José Régio e a socialização da arte no limiar presencista», O Escritor, n.º 1, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, Março de 1993, p. 69.] Tema demasiado vasto para ser abordado numa nota de rodapé, não resisto, porém, a transcrever um excerto duma carta do autor de Jogo da Cabra Cega, precisamente a propósito deste romance, passagem (dentre muitas outras possíveis) que poderá enriquecer e reforçar a tese citada: «depois duma adolescência dolorosamente prolongada pela mocidade fora [...] julgo-me entrar finalmente na idade viril; quero dizer: num período de mais atenção aos outros, e mais serenidade na paixão. Veremos [...] se consigo fazer cousa em que se reflictam outras cousas da vida para as quais também me julgo capaz de simpatia.» Portalegre, Junho de 1936, in Correspondência de Rodrigues Lapa -- Selecção (1929-1985), edição de Maria Alegria Marques, Ana Paula Figueira Santos, Nuno Rosmaninho, António Breda Carvalho e Rui Godinho, Coimbra, Minerva, 1997, p. 71.
(32) José RÉGIO, «Da geração modernista», presença, n.º 3, Coimbra, 8 de Abril de 1927, p. 1. Muito mais tarde, dirá Adolfo Casais MONTEIRO: «[...] fora do Chiado pode dizer-se que ninguém sabia quem fosse Fernando Pessoa; e o seu nome, logo no primeiro número da Presença, valia por um programa inteiro.» in «A poesia da Presença» [1972], O que Foi e o que Não foi o Movimento da Presença, p. 117.
(continua)

O Vale do Riff - The Who, «Substitute»

Sobre a incomunicação

a incomunicação entre ricos e pobres, norte e sul, cristãos e muçulmanos, estado e cidadãos, marido e mulher, pais e filhos,
irmão e irmão
nós e nós mesmos
como tudo seria menos árduo se houvesse tempo
e disposição
para comunicar com o(s) outro(s)

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Sempre tive má impressão do jornalismo, mesmo quando o pratiquei, felizmente por um breve período. Se o nosso jornalismo televisivo é péssimo -- os canais noticiosos (o da sic, em especial) aí estão para o demonstrar em toda a sua pobreza, os jornais não lhes ficam atrás. Mas há dias com boas surpresas. Já aqui escrevi que o melhor suplemento que se publica é o 6.ª, do DN; mas o Público continua a ser o que ainda me vai satisfazendo melhor, enquanto diário de informação geral (não leio semanários há vinte anos; e desde o fim da primeira Grande Reportagem, de boa memória, que perdi o hábito de comprar revistas).
A imprensa é o espelho de uma sociedade; pelas amostras, a nossa deixa muito a desejar.Hoje, porém, leio no jornal 4 excelentes artigos de opinião 4, que me vieram lembrar o que em tempos foi considerado o papel dos jornais enquanto veículos de (in)formação e a sua importância para a sedimentação de uma vida pública menos primária, menos argentária, menos futebolística, menos frívola; pelo contrário: mais sofisticada, mais cívica, mais culta, mais séria.
Como os links estão sujeitos a assinatura, transcrevo aqui breves passagens:
De António Paim: «A ideia da democracia grega sempre exerceu uma influência enorme no imaginário ocidental. Não se trata de abdicar de tal legado mas de considerá-lo no que é típico do regime democrático: o carácter participativo. A doutrina do governo representativo tem o mérito de preservar tal característica, explicitando o que é essencial à convivência social: a negociação dos inevitáveis conflitos.» («O que o governo representativo acrescenta ao legado grego»).
De Laura Ferreira dos Santos: «Quem decide do que eu consigo suportar? O pessoal médico? Quando estou grave e irrecuperavelmente doente, passo a pertencer ao Estado ou a uma ortodoxia religiosa?» («A morte assistida de Welby: questões bioéticas e religiosas»).
De Carlos Pacheco: «Foi com o liberalismo que o esbulho, a desordem e a impunidade na administração colonial atingiu dimensões antes impensáveis. Enquanto no regime absolutista houve capitães-generais e ouvidores que se se mostraram por vezes menos preocupados com o interesse público do que com o desejo de amassar fortuna pessoal, a Metrópole, apesar de tudo, nem sempre condescendeu com estes hábitos.» («Pilhagem das colónias»).
De João Paulo Barbosa de Melo: «O ser humano distingue-se dos restantes mamíferos por não ver apenas com os olhos, por ser capaz também de "ver" através da ciência, da razão, da imaginação, das convicções.» («Tem sentido legalizar hoje o aborto?»).
É por isto, por nos interpelar, por nos ajudar a reflectir e suscitar a discussão, por ser um factor de civilização, que vai valendo a pena continuar a comprar o jornal.

Antologia Improvável #192 - António Carlos Cortez

é quando a noite é um animal ferido
que o poema salva quem o lê abandonado
quando se pressente a voz enlouquecida
de alguém que nos olhou e descobriu
é quando a noite rouba a luz do dia
para construir suas altas fragas de silêncio
e um galope de lábios na sua verdura
nos invade ou nos recolhe em suas crinas
é quando a linha de sombra é o azul da chama
ainda antes de ser contra a pureza nua
o edifício das palavras com dois gumes
é quando sabemos que nos encontramos
num café numa esquina que então escutamos
a pedra angular da nossa vida o poema escrito

A Sombra no Limite

O Vale do Riff - Teddy Wilson c/ Dutch Swing College Band, «Lady Be Good»

domingo, janeiro 07, 2007

Olha-me a estante em cada livro que olha.
Pedro Kilkerry

Uma leitura da «presença» #7

Na doutrina e na prática, a revista demonstrou-o ao longo de treze anos de existência. As suas páginas receberam poesia e prosa do grupo de Orpheu, do de A Águia, dos neo-realistas, de autores que viriam a agrupar-se nos Cadernos de Poesia: de Fernando Pessoa e de Tomás Kim, de Afonso Duarte e de João José Cochofel -- para além de tantos outros que faziam o seu percurso mais solitariamente, como sucedeu com o nacionalista João de Castro Osório e o internacionalista José Gomes Ferreira. Por vezes havia uma nota redactorial que avisava quantos pudessem estranhar a inclusão de nomes mais polémicos pelas posições políticas próprias, que estas eram irrelevantes para a presença; o que interessava à revista era o material literário publicado.
Ingenuidade? Obstinação? Talvez tudo isso em conjunto. Com a turbulência política europeia restava pouco espaço para a lucidez ante o inferno que se aproximava, convocando muitos escritores a tomar uma posição, não apenas enquanto cidadãos, mas inclusivamente nas próprias obras.
«Vai / pelo boulevard iluminado / pelos caminhos traçados / pelas velhas caravanas / do tempo dos Ramsés... / ...Mas deixa / que eu arrisque a minha vida / nas encruzilhadas escuras / dos bairros criminais.» (28)
Era eloquente a amarga declaração de Régio, num extraordinário ensaio publicado em 1940, quando não havia espaço para se manter, enquanto artista, acima ou à margem do prélio político:
«[...] não me contentarei com dizer que não faço o mínimo empenho em ser do meu tempo. Antes direi que me sinto honrado com me opor a ele; e que não me perturbam as vulgares habilidadezinhas com que se pretende desautorizar quaisquer afirmações da consciência livre (tão livre quão possível), em nome duma sujeição ao colectivo que seria, a generalizar-se, um verdadeiro flagelo para a colectividade.» (29)
(28) Joaquim NAMORADO, «Navegação à vela», presença, n.º 51, Coimbra, Março de 1938, p. 12.
(29) José RÉGIO, Em Torno da Expressão Artística, Lisboa, Editorial Inquérito, s.d., pp. 8-9.
(continua)

sábado, janeiro 06, 2007

estampa LXXXIX

Thomas Gainsborough, Mr. and Mrs. Andrews
National Gallery, Londres

Ferreira de Castro

Correspondências #74 - Ferreira de Castro a Horácio Bento de Gouveia

Rua Misericórdia, 68
Lisboa, 9 Maio 72
Meu caro Horácio Bento de Gouveia:
O seu artigo sensibilizou-me imenso. Por via de si, velhas relações que ressurgiram agora, ao cabo de muitos anos, com a pujança do trigo que passa o tempo frio sob uma camada de neve*. Por via de Você e por via da Madeira, à qual me encontro ligado por complexos e profundos sentimentos de amor e de poesia. Finalmente, pela generosidade que há nas suas palavras. Fico-lhe muito, muito obrigado. Obrigado e enternecido.
Foi de grande satisfação para mim esse pedaço de noite em que convivemos -- sua esposa e a minha, Você e eu -- aqui, no hotel. E oxalá não tarde muito a encontrarmo-nos novamente.
Em Julho, quando Vocês pensam voltar, estarei no Hotel de S. Vicente -- Termas de S. Vicente, perto de Penafiel. Se Vocês se decidirem a dar um passeio pelo Norte e quiserem ver um belo trecho do Minho, venham lá almoçar ou jantar comigo. Eu teria uma grande alegria com isso.
Afectuosos cumprimentos de minha mulher e meus para a sua esposa e para si, acompanhados dum forte abraço do seu velho amigo e admirador,
Ferreira de Castro
* É claro que nunca houve gelo entre nós, mas apenas desencontros físicos.
In O Escritor, n.º 6
(edição de José António Gonçalves)

Horácio Bento de Gouveia

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Uma leitura da «presença» #6

Casais Monteiro
Ora a presença foi também combatida pelo alegado psicologismo e individualismo exacerbado dos seus mentores, por parte dos que não contemplavam outra forma de expressão que não reflectisse a realidade exterior. Régio dirá que «a realidade humana é muito mais rica do que a fazem quaisquer espécie de fanáticos; principiando pelos fanáticos do real.» (22) Mas tal não comovia os adversários da pedagogia regiana, que procurava significar o individualismo de cada criador, não como alheamento, senão como a sua «contribuição individual à humanidade» (23); ou, como escreveria Casais dez anos mais tarde, com um enunciado vigoroso e polemicamente dirigido:
«Exprimir a vida inteira, quando o que é expresso se revela comum a muitos homens, só por absurdo sofisma pode ser designado como atitude a-social; e é por isso mesmo que nunca abordam esse aspecto aqueles que querem o poeta profeta social -- para não falar nos que o quereriam vulgarizador e agente publicitário.» (24)
Esta lúcida postura individualista era condição essencial para tentar assegurar à partida tanto a liberdade como a frágil independência do artista, posta em causa pelas doutrinas autoritárias e totalitárias que iam vingando por quase toda a Europa. Se, para Régio, a liberdade era o bem mais precioso do criador, era também o mais incerto, pelo incómodo ou pelo aproveitamento que podia suscitar. (25) E declarava, por isso mesmo, a sua «repugnância» por todo o dogmatismo (26), cuja rejeição se constituía para os presencistas como único dogma. (27)
(22) [José RÉGIO], «presença reaparece», presença, série II, n.º 1, Lisboa, Novembro de 1939, p. 3.
(23) José RÉGIO, «A lição inútil ou carta a um juvenil individualista», presença, n.º 14-15, Coimbra, 23 de Junho de 1928, p. 9.
(24) Adolfo Casais MONTEIRO, A Poesia de Jules Supervielle, 2.ª ed., s.l., Confluência, s.d., p. 35.
(25) Ver José RÉGIO, «Li te ra tu ra», presença, n.º 45, Coimbra, Junho de 1935, pp. 16-17.
(26) José RÉGIO, «Lance de vista», presença, n. 6, Coimbra, 18 de Julho de 1927, p. 8.
(27) «O dogma modernista é não permitir nenhuns.» João Gaspar SIMÕES, «Tendências e individualidades da moderna poesia portuguesa» [1930], apud José Régio e a História do Movimento da «presença», Porto, Brasília Editora, 1977, p. 319.


(continua)

O Vale do Riff - Ben Webster, «Chelsea Bridge»

quinta-feira, janeiro 04, 2007

talvez

Talvez por ser homem, talvez por ser contra o aborto, talvez por não ser moralista, interessava-me mais estar agora a discutir a eutanásia.
***
É preciso ser-se um grande estupor para negar a alguém consciente a possibilidade de, numa situação-limite, pôr fim à sua própria vida da forma mais tranquila, auxiliado por quem se disponha a ter essa piedade última.

O Vale do Riff - Miles Davis, «Human Nature»

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Uma leitura da «presença» #5

Gaspar Simões
Na «beleza emotiva» (19) procurada pelos poetas da presença não havia também lugar para o formalismo, para a habilidade dos vates de academia, para o tecnicismo, espartilho de muito razoável poeta que dele não logrou libertar-se. E se para Gaspar Simões -- o mais assertivo dos teóricos presencistas, cujas tiradas terão contribuído o seu quê para dar da revista a imagem duma certa irredutibilidade («a história da arte é a história da luta dos artistas com a realidade exterior» (20)), não se seguia -- pelo menos para os restantes co-directores -- que o artista se devesse encasular, umbilicalizar, torredemarfinizar. A poesia-pura, na acepção de Casais, rejeitando a submissão à forma e às escolas, não se afastava dos grandes problemas do homem -- fazia-o, porém, apenas «como expressão directa do seu debate interior.» (21)
(19) Helmut SIEPMANN, «Aspectos da poesia do segundo modernismo português», Revista da Faculdade de Letras, 5.ª série, n.º 16-17, Lisboa, Universidade de Lisboa, 1994, p. 278.
(20) João Gaspar SIMÕES, «A arte e a realidade», presença, n.º 36, Coimbra, Novembro de 1932, p. 6.
(21) Adolfo Casais MONTEIRO, «Mais além da poesia pura», presença, n.º 28, Coimbra, Agosto-Outubro de 1930, p. 7.
(continua)

O Vale do Riff - Frank Zappa, «Bobby Brown Goes Down»

terça-feira, janeiro 02, 2007

Antologia Improvável #191 - António Ramos Rosa (2)

Amo com esta saudade
que me corrói.
Amo cada vez mais doído.
A boca fechada sobre as ervas
há tanto tempo.
Os braços a descansar
no pântano do ventre.
A saudade enxuga-me o fogo
longe do mundo.
A saudade torna-me verde.
Tenho no rosto
aquela parte negra do branco.
A vida toda encostada à lembrança
com a comoção das origens
a soluçar-me
instante a instante
na garganta.
Os ossos
neste Inverno da vida
com a noite da saudade por cima.
Brilha nessa escuridão o passado.
Cresce no frio um caule de luz.
Dissolvo pouco a pouco
a sede baça da morte.
Transfiguro-me perplexo.
A saudade seca-me a tristeza.
Cede-me ao céu
e aos raios da sua alegria.
Enxuga-me a mágoa.
Cresce-me no meio do corpo uma flor.
É uma flor matinal
de anil
rebentando por entre as vértebras.
Brilham-me no ser
os braços irradiantes de uma estrela.
A saudade coa-me no sangue um astro.
O meu corpo
é a raiz sombria de um outro sol.

O Poeta na Rua

Ramos Rosa

O Vale do Riff - Soft Machine, «The Tale of Taliesin»

segunda-feira, janeiro 01, 2007

A beleza sim mais uma vez / Não por adorno mas instinto fundo
Alberto de Lacerda

Uma leitura da «presença» #4

«Nunca será inútil repetir que o que mais interessa numa obra de Arte... é a própria obra de Arte.» (12) Era o primado da arte que Régio defendia nesta sentença; ou como claramente, por outras e mais contundentes palavras, advertiria Casais Monteiro, a propósito da presença: «aqui não se servem causas: faz-se e trata-se de literatura e de arte.» (13) Por demais óbvias que estas posições pareçam, deve, no entanto, dizer-se que eram formuladas num contexto de hegemonia (de poder efectivo ou de influência na acção) de sectores não complacentes com a ideia de a expresão artística dever estar isenta de qualquer subordinação. Afirmações de independência que remetiam o autor presencista para as margens da oficialização cultural do Estado Novo, com uma política nacionalista e de tentativa de domesticação dos intelectuais, afastando-o também do neo-realismo oficial, emergente em meados da década de trinta. Seria, contudo, demasiado simplista e pouco rigoroso inferir que a publicação rejeitasse qualquer manifestação artística de tendência, quer «ascendente» ou «emancipadora» (para empregar termos de Plekhanov, posteriormente vulgarizados pela teorização neo-realista (15)) quer o seu oposto, alinhadamente reaccionária:
«Sim, a presença defende a arte pela arte, mas a arte pela arte da presença nada tem com o "egoísmo da torre de marfim do esteta ante o incêndio do vizinho ali defronte." A presença tem sido, nesse capítulo, ora muito mal compreendida, ora muito desconhecida, ora muito caluniada. Contra o que a presença luta e lutará, é contra as opressões que, ou dos lados da Alemanha e Itália ou dos da Rússia, pesam sobre a livre consciência do artista. A presença não admite que se imponham temas, estilos, modelos, opiniões, preocupações a um artista. Faça cada um o que melhor sabe, pode, quer -- e fará o melhor possível. Eis o que diz a presença, revoltando-se contra os excessos dos nazis e dos comunistas.» (16)
Toda a vida andou o poeta do Cântico Negro a afirmar que a arte podia ser tudo, desde que fosse arte, isto é, genuína, sincera, autêntica -- viva, numa palavra. Podia inclusive ser obra de propaganda: não se lhe recusaria uma categoria superior (17), desde que cumprisse o que devia ser a sua finalidade última: a «emoção estética». (18)

(12) José RÉGIO, «Uma peça de Pirandello (sei personaggi in cerca de auctore)», presença, n.º 7, Coimbra, 8 de Novembro de 1927, p. 7.

(13) Adolfo Casais MONTEIRO, «Nós, os porta-vozes de uma estética subjectiva até à desumanização...» [s. d.], O que Foi e o que Não Foi o Movimento da Presença, p. 31.

(14) Ver Jorge Ramos do Ó, «Salazarismo e cultura», in Joel SERRÃO e A. H. de Oliveira MARQUES, Nova História de Portugal, vol. XII, Fernando ROSAS (coord.), Portugal e o Estado Novo (1930-1960), Lisboa, Editorial Presença, 1992, p. 409.

(15) «[...] o talento de qualquer verdadeiro artista é grandemente reforçado se for penetrado pelas grandes ideias emancipadoras do nosso tempo.» PLEKHANOV, A Arte e a Vida Social, trad. de Ana Maria Rabaça, Lisboa, Moraes Editoes, 1977, p. 72.

(16) José RÉGIO, carta a Roberto Nobre, Portalegre, Junho de 1936, Boletim, n.º 4-5, Vila do Conde, Câmara Municipal / Centro de Estudos Regianos, 1999, pp. 31-32.

(17) A propósito de A Revolução de Maio, de António lopes Ribeiro, o director da revista escreveu: «A propaganda e a arte podem não ser inimigas. Basta que profundamente se conjuguem na obra realizada a crença numa doutrina e a emoção artística.» José RÉGIO, «Cinema português», presença, n.º 50, Coimbra, Dezembro de 1937, p. 12.

(18) José RÉGIO, «Literatura livresca e literatura viva», presença, n. 9, Coimbra, 9 de Fevereiro de 1928, p. 1.

(continua)


O Vale do Riff - Gonçalo Pereira, «Movimento Perpétuo»

domingo, dezembro 31, 2006

Duas vinhetas de Jean Giraud
Mister Blueberry -- Dust

José Leite de Vasconcelos

Correspondências #73 - Leite de Vasconcelos a António Tomás Pires

Ex.mo Sr. Por indicação do meu amigo A. de Sequeira Ferraz soube que V. Ex.ª emprehendeu em folhetins da Sentinella a colheita dos cantos pop. do Alemtejo; permitta-me que eu, como enthusiasta por estes estudos, o felicite muito cordealmente; ao mesmo tempo aproveito a occasião para lhe pedir a distinta graça de me enviar um artigo (inedito) contendo algumas superstições ou certos versos, como para talhat doenças, adivinhas, etc. porque tenho no prélo um Annuario das trad. pop. port. onde desejo reunir, como já reuni, com excepção de V. Ex.ª, todos os que em Portugal se occupão de Folklore.
Este art. deve ser muito pequeno, porque o Annuario já está quasi cheio, e alem d'isso deve ser-me enviado por estes dias. Estou nesta terra a passar ferias; assim que fôr para o Porto remetterei a V. Ex.ª algum pequeno trabalho meu. Eu desejava possuir todos os folhetins de V. Ex.ª Num livro que agora publiquei, e de que estou a escrever o 2.º vol., Trad. popul. de Portugal (XVI-320 pag.) inclui vários costumes e cantos d'essa prov., mas não tanto com eu queria. Uma cousa recommendo a V. Ex.ª, e desculpe-me a confiança: conserve fielmente a linguag. do povo, como andi = andei, geôlho, etc..
Guimarães, R. de D. Luiz, -3 Set. 82
J. Leite de Vasconcellos
Cartas de Leite de Vasconcellos a António Tomás Pires
(edição de Eurico Gama)

António Tomás Pires

sábado, dezembro 30, 2006

Uma leitura da «presença» #3

A presença verberou a literatura falsificada e a inanidade aflitiva do jornalismo; mas o seu combate tomou também, e essencialmente, uma feição afirmativa. Ao procurarem a autenticidade de artistas na realidade interior, ao pugnarem pelo primado da arte relativamente aos poderes formais e informais, ao defenderem a independência do autor em face de todas as pressões e ao cultivarem um saudável, mas de sua natureza instável, cultura de liberdade e inclusive de contradição, desencadearam uma tempestade que viria a escapar-lhes ao controlo, levando ao afundamento da revista -- essa «catástrofe» de que falou Casais Monteiro (10) --, cujos náufragos emergiriam como grandes solitários («Havia muito já que Robinson vivia / sozinho na sua Ilha; / era um Robinson só, não tinha Sexta-feira.» (11)). Pois se a arte esteve na génese da presença, algo porventura igualmente complexo e mais poderoso contribuiria decisivamente para o seu fim: hoje já é História; ontem era a política, de que alguns nem queriam ouvir falar. Razão porque, em meu entender, o trajecto da presença como fenómeno cultural, e não apenas literário, só poderá ser apreendido se não afastarmos desse percurso as contigências que lhe estiveram sempre a par: ditadura militar, advento e consolidação do Estado Novo, Guerra Civil de Espanha, II Guerra Mundial.
(10) Carta a Alfredo Pereira Gomes, Lisboa, 1 de Maio de 1940, in JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 25 de Janeiro de 1994, pp. 9-10.
(11) Francisco BUGALHO, «Fábula», presença, n.º 49, Coimbra, Junho de 1937, p. 10.
(continua)
um desenho de Júlio
presença, n.º 1, 10 de Março de 1927

Este ano, um bom ano que nos livrou de alguns indesejáveis, foi incrivelmente mau para a justiça que se lhes devera ter feito. Milosevic morto a meio do processo em Haia, sem que o defunto Tudjman fosse, postumamente embora, responsabilizado pela barbárie balcânica. Houve também o Pinochet, essa fresca enguia. Quanto ao Saddam, compreende-se que os americanos, entre outros..., não estivessem muito interessados em revolver o passado comum.
O julgamento e rápida execução do «Carniceiro de Bagdad», com base em apenas uma das suas muitas atrocidades, embora das mais hediondas, é revelador da prontidão com que os americanos se quiseram ver livres deste empecilho, outrora aliado. Saddam Hussein não foi julgado por todo o seu consulado de terror. E sabemos, infelizmente, que os criminosos que em Washington podiam exibir no cadastro o massacre de milhares de vidas inocentes, não terão o julgamento a que deveriam ser sujeitos, em nome da decência.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Antologia Improvável #190 - Eugénio de Castro (2)

NOCTURNO

Je suis cellui ao coeur vestu de noir.
Ch. d'Orléans

Na viuvez da alameda
Andam bailes de folhas secas...
Paisagem vaga como o avesso duma seda...
O crepúsculo põe veludo nas charnecas...

Como Princesas desfloradas,
Numa floresta, p'los ladrões,
As altas árvores magoadas,
Que o vento abraça aos repelões,
Choram num coro de aflições,
Hirtas, medrosas, despenteadas...

Tudo cinzento, tudo cinzento...
As fontes chamam umas pelas outras...
Como lanças hostis, ao vento,
Tremem as canas do canavial...
E as fontes chamam umas pelas outras,
Como cegas perdidas num pinhal...

Como esbeltas Imperatrizes
Barbaramente destronadas,
As grandes árvores magoadas
Choram hirtas, despenteadas...
Estalam no chão suas raízes,
Cortam-lhe a alma sete espadas...
-- Pobres Rainhas que o vento humilha.
Rainhas de golpeado peito,
De qual de vós há-de ser feito
O berço estreito da minha filha?

Ergue-se a Lua de cabelos brancos...
Ao luar, as montanhas são grisalhas...
Ao luar, os mortos põem a secar suas mortalhas...
E a Lua penteia seus cabelos brancos...

Pelas desertas avenidas,
Longas, tristíssimas, profundas,
As altas árvores doridas
São como santas moribundas...
-- Árvores negras, cuja voz
Me enche de espinhos o coração,
De qual de vós, de qual de vós
Há-de ser feito o meu caixão?

Calou-se o vento... Um céu de ouros macios...
Como uma doce, afável enfermeira,
A Lua põe-se à cabeceira
Das águas doentes nos pauis sombrios...

Morto, cansado dos seus giros,
O vendaval foi-se deitar,
E os arvoredos, ao luar,
Não choram já, só dão suspiros...

-- Ó sequiosas da manhã,
Ó sequiosas de luz nova,
Onde estará a vossa irmã
Que há-de dar sombra à minha cova?

Silva / Eugénio de Castro -- Poeta do Amor e da Beleza
(edição de Ana Maria Costa)

Eugénio de Castro

O Vale do Riff - Neil Young, «The Needle and the Damage Done»

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Uma leitura da «presença» #2


Porque razão continuamos a folhear a presença com um interesse e um deleite que não esmorece, passadas oito décadas sobre a publicação do primeiro número? A resposta reside naturalmente nos traços distintivos que a caracterizaram -- inovação e rebeldia, espírito crítico e acção doutrinária --, na qualidade de muitos dos colaboradores e, acima de tudo, dos quatro directores, que souberam interpretar o seu momento histórico -- e ser modernos. Como escreveria o maior deles, sobre outro assunto: a presença continha em si «a parte do futuro que já exist[ia] no presente.» (2)
E justo é que os individualizemos: José Régio (1901-1969), poeta, dramaturgo, romancista e ensaísta (sem esquecermos o memorialista, o diarista e também o artista plástico) revelou-se nesta dispersão fecunda um dos escritores mais completos do seu século; e seria sempre um autor de primeiro plano se houvesse cultivado apenas um daqueles géneros. João Gaspar Simões (1903-1981), apesar de novelista, foi o crítico por antonomásia, tantas vezes menosprezado enquanto tal, mas cuja obra é um monumento à persistência e ao ludismo literário ensaístico (literatura, literatura, literatura), pesem embora as parcialidades e os ódios de estimação mal disfarçados que lhe tolhiam por vezes a clarividência e granjearam alguns inimigos. (3) Branquinho da Fonseca (1905-1974), não apenas contista de excepção, como poeta muito apreciável sob o o semi-heterónimo António Madeira (4), um príncipe da cultura portuguesa (são concepção sua as Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian, ensaiadas em Cascais, na década de quarenta, quando foi conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães (5)) que deixou a marca do seu bom gosto expressa no grafismo da folha. Adolfo casais Monteiro (1908-1972) -- que assumiria a partilha da direcção em 1931 (7) --, poeta sofrível, crítico assertivo, importante ensaísta, docente universitário no seu exílio brasileiro.
À aventura iniciada em 10 de Março de 1927, materializada em oito páginas de papel pardo, vendida não se sabe a quem pelo preço de um escudo, agregaram-se jovens condiscípulos de Coimbra (Edmundo de Bettencourt, Francisco Bugalho, Saul Dias, Fausto José, António de Navarro, Alexandre d'Aragão e, marginalmente, Vitorino Nemésio e Miguel Torga, usando ainda o nome civil), ao lado da figura tutelar de Afonso Duarte, poeta mais velho (1885-1959), «colaborador da Águia e vagamente saudosista» (8), com um largo ascendente sobre quase todos eles (9), e, um pouco mais tarde, um jovem poeta portuense, dos maiores do segundo modernismo talvez aquele que ainda não foi reconhecido enquanto tal: Alberto de Serpa; a ela aderiu gente do primeiro modernismo: desde logo Fernando Pessoa -- que começou por ter como elo de ligação o presencista de Lisboa Carlos Queirós, sobrinho de Ofélia --, com colaboração abundante e significativa, Almada Negreiros, Luís de Montalvor, Raul Leal, Armando Cortes-Rodrigues, Gil Vaz, Mário Saa e António Botto; até ela chegaram os poetas da «novíssima geração», neo-realistas como Joaquim Namorado, Mário Dionísio, Fernando Namora e João José Cochofel.
(2) José RÉGIO, «Da geração modernista», presença, n.º 3, Coimbra, 8 de Abril de 1927, p. 1. Todas as citações e referências serão feitas a partir da edição fac-similada compacta em três volumes, Lisboa, Contexto, 1993.
(3) Para a pequena crónica ficaram os trocadilhos que lhe aplicaram o bilioso Jaime Brasil, chamando-lhe «o nosso Sainte-Boeuf», e o impiedoso Tomás Ribeiro Colaço, que aludiu a uma alegada fixação do crítico como a «proustatite de Gaspar Simões»...
(4) Embora António Branquinho da Fonseca tenha recuperado um apelido materno (Madeira), não parece descabido falar em, pelo menos, semi-heteronímia, dada a circunstância de a presença, por algumas vezes, ter apresentado poemas de Branquinho e Madeira, cujas possíveis distinções -- evidentes no plano formal -- caberia definir.
(5) Ver Branquinho da FONSECA, Relatório do Conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães (1943), Cascais, Câmara Municipal, 1997.
(6) Basta folhear a colecção da presença e verificar como o entusiamante grafismo se desvaneceu com a saída de Branquinho. No seu espólio -- depositado no Arquivo Histórico Municipal de Cascais --, conservam-se desenhos e vinhetas que imediatamente evocam a revista.
(7) Estreara-se na revista com um pequeno ensaio «Sobre Eça de Queirós», presença, n.º 17, Dezembro de 1928, pp. 1 e 11.
(8) «[...] é um poeta que, pela expressão, se tem de considerar moderno». João Gaspar SIMÕES, «Defesa da poesia moderna contemporânea» [1937], Novos Temas, Lisboa, Editorial Inquérito, 1938, p. 93. Segundo Casais, terá «desempenha[do], entre a geração do Orpheu e a da Presença, papel idêntico ao que teve a [poesia] de Pessanha, entre a do simbolismo e a do Orpheu». Adolfo Casais MONTEIRO, «A poesia da Presença» [1972], O que Foi e o que Não Foi o Movimento da Presença, edição de Fernando J. B. Martinho, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1995, p. 127.
(9) «[...] nós os da Presença, descobridores do génio deste grande lírico.» João Gaspar SIMÕES, Retratos de Poetas que Conheci, Porto, Brasília Editora, 1974, p. 33.
(continua)

O Vale do Riff - The Rolling Stones, «Paint it Black»

estampa LXXXVIII

Dante Gabriel Rossetti, La Ghirlandata
Guildhall Art Gallery, Londres

O Vale do Riff - Whitesnake, «Fool For Your Loving»

terça-feira, dezembro 26, 2006

Uma leitura da «presença» #1


O recente centenário do nascimento de Lopes-Graça fez-me ir à gaveta retirar um estudo com meia dúzia de anos destinado a uma colectânea de correspondência com os «presencistas», grupo a que, por direito próprio, o autor de Música e Músicos Modernos pertence. Ele aqui fica, em primeira mão.
Liberdade de criação e expressão, recusa de subordinação a tudo que não fosse a verdade do artista, consequente afirmação da sua independência em face dos poderes instituídos -- condição necessária para a autenticidade da criação como manifestação do que de mais genuinamente o artista traz em si --, rejeição do academismo, do formalismo e da contrafacção: este, a traços largos, o programa da presença, revista literária que se publicou em Coimbra, entre 1927 e 1938, com uma segunda série saída em Lisboa, em 1939 e 1940.
Com a Seara Nova, de Raul Proença, Jaime Cortesão, Câmara Reis e António Sérgio, entre outros, iniciada em 1922 -- embora não descurando a literatura, procurava antes de tudo exercer um pedagogismo cívico que não cabia nos propósitos da folha coimbrã --, apresentam-se-nos ambas como as principais referências éticas da vida cultural portuguesa, no que a revistas culturais respeita, entre as duas guerras mundiais. Não por acaso, de resto, se constata a preeminência de ambas, cujas afinidades na respectiva área de intervenção teríamos gosto em explorar, não fosse tal confronto comprometer a razoabilidade das dimensões da apresentação deste epistolário. (1)
(1) Recorde-se a funda admiração que Régio consagrou a António Sérgio, e também a sua importante colaboração na Seara, com destaque para as «Cartas do nosso tempo», dadas à estampa na década de 30 (ver Isabel Cadete NOVAIS, «Colaboração de José Régio em publicações periódicas», Boletim, n.º 2, Vila do Conde, Câmara Municipal / Centro de Estudos Regianos, 1998, p. 5.)
(continua)

Antologia Improvável #189 - Daniel Maia-Pinto Rodrigues (2)

Ainda hoje me recordo
olha que foi mesmo engraçado
quando tu naquela festa de arromba
de rompante me mostras a pomba.

Malva 62

Daniel Maia-Pinto Rodrigues

O Vale do Riff - Chico O'Farril, «Afro Cuban Jazz Suite»

Nenhum de vós ao certo me conhece
Antero de Quental

sábado, dezembro 23, 2006

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Representações familiares 1

Uns desenhos do meu filho António

Por um punhado de Blueberrys




Se fosse preciso,
trocava todos os heróis da Marvel
por um punhado de Blueberrys.

O Vale do Riff - Natal 2006 - Elvis Presley, «Blue Christmas»

Iabadabadu!!!


As imagens mais antigas que tenho dos desenhos animados da tv, então a preto e branco, estão aqui: não bem o Tom & Jerry da MGM, que esses via-os apenas no cinema, nas matinés infantis do Casino Estoril; nem os Schtroumpfs, BD do belga Peyo que negociou com aqueles dois que estão sentados à frente, a adaptação ao cinema de animação.
As minhas imagens remontam a umas tardes de sábado, com os Flintstones, eu sentado no chão da sala e encostado às pernas do meu Pai, há quase 40 anos, numa casa a dois passos de onde agora moro; e ficaram-me os nomes e as dobragens brasileiras: do Zé Colmeia e Catatau ao Pepe Legal e Babalu, do Bibo Pai e Bobi Filho ao Olho Vivo e Faro Fino, do Dom Pixote (Huckleberry Hound) ao Plic, Ploc e Chuvisco, mai-la 'Squadrilha Abutre do Dick (Dastardly) Vigarista e seu cão Pilantra (Mutley), e por aí fora...
Estas lembranças devo a Joseph Barbera, que morreu anteontem, e ao seu colega também já desaparecido William Hanna. Com Tom & Jerry estiveram entre os melhores; com os Flintstones & C.ª, entre os mais criativos.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Vieram de manhã uns homens que varreram / a restante alegria destas ruas
Ruy Belo

estampa LXXXVII

Georges de La Tour, O Recém-Nascido
Museu de Rennes

O Vale do Riff - Natal 2006 - Bing Crosby e Frank Sinatra, «White Christmas»

terça-feira, dezembro 19, 2006

Caracteres móveis - Augusto de Castro

O mal da nossa literatura é o das revoadas. Tivemos a revoada Junqueiro, a revoada António Nobre, a revoada Cesário Verde, a revoada Fernando Pessoa... Depois vão todos, toc-toc, atrás. E o que pode ser, por vezes, fulgor do génio, sinceridade de um temperamento isolado, transforma-se, nos diminutivos que se seguem, em coro e em fífia.
Não é fácil tocar guitarra com um bombo.
Mestre Outono, Pintor

O Vale do Riff - Natal 2006 - Beyonce, «Silent Night»

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Antologia Improvável #188 - Ana Luísa Amaral

NAMORO DE ALDEIA

Duas horas e meia da manhã:
o trabalho que espera sossegado,
o cansaço do fogo na lareira,
a caneta riscando e o cantar do galo
estremunhado

Deve pensar que são seis horas, este galo,
e o meu trabalho em sono, o fogo que me fala,
uma unha roída,
um cigarro fumado,
o café a fazer e o poema desfeito
em só cadência

Que tema é este sério a esta hora
breve da manhã, com o trabalho à espera
e o fascínio do fogo?

Deve pensar que possui tema, este poema
que não me evita e me namora ousadamente
a desoras na aldeia

O fogo estala e outro galo canta
e o meu trabalho enjoa sossegado
No romance parado do meu poema e eu,
o café já saiu, começou a chover

Escorrem gotas macias no telhado,
o fogo morre, o trabalho desperta
abrindo um olho lento

e o meu namorado parvo e tonto
carregado de imagens (e de outras coisas leve)
sai furtivo a desoras

Só deixou por roer
a unha do polegar
da minha mão direita

Minha Senhora de Quê / Poesia Reunida

Ana Luísa Amaral

O Vale do Riff - Natal 2006 - The Temptations, «Rudolph the Red Nose Reindeer»

domingo, dezembro 17, 2006

Com Lopes-Graça, à beira do fim

Quando há pouco mais de duas décadas me cruzei pela primeira vez com Fernando Lopes-Graça, no Teatro Gil Vicente, em Cascais, num comício de apoio à candidatura de Salgado Zenha à Presidência da República, estava longe de imaginar que viríamos a ter um breve, mas intenso, relacionamento, poucos meses antes da sua morte.
O compositor havia decidido legar o seu riquíssimo espólio ao município de Cascais, onde vivia, destinado à Casa Verdades de Faria (hoje, Museu da Música Portuguesa), onde já se encontravam a magnífica colecção de instrumentos do seu velho amigo e colaborador Michel Giacometti, entretanto falecido, bem como a sua biblioteca especializada. Por razões profissionais, fiz parte da equipa que concretizou o desejo do autor do Canto de Amor e de Morte.
Encontrei-me com ele na Primavera de 1994, no «Marégrafo», onde almoçámos. Lopes-Graça era, para mim, a figura mítica do criador, popularizado pelas Heróicas, mas também do esteta, do teorizador e um nobre exemplo de resistente à ditadura salazarista. Dirigi-lhe a palavra com alguma emoção. Para facilitar o diálogo entre dois estranhos, levei-lhe uma fotografia da década de 50, onde ele aparecia conversando com Ferreira de Castro e Roberto Nobre.
A simpatia mútua surgiu de pronto, e naquele almoço muito se falou de literatura (Graça era um grande escritor, embora nunca assumisse essa condição) e gerações intelectuais de que ele era um dos últimos representantes. Homem da presença e da Seara Nova, fizera a ponte com o neo-realismo, pontificando n'O Diabo e na revista Vértice.
Entre mil-e-uma estórias que alimentaram o prândio -- enquanto cravava os cigarros que lhe estavam proibidos pelo médico e que sistematicamente partia ao meio, para prolongar um prazer que satisfazia como um adolescente que fumasse às escondidas -- , falámos obviamente de Ferreira de Castro e Roberto Nobre -- com quem escrevera um artigo para a Seara, sobre o filme Fantasia (1940), uma das obras-primas de Walt Disney --, de Manuel da Fonseca e José Blanc de Portugal; disse-me que estava a reler o Levantado do Chão, de José Saramago; passámos pelo 25 de Abril, por Picasso, por Stravinsky -- tanta coisa que a minha meória não pôde reter tudo.
Semanas mais tarde, quando visitou a Casa Verdades de Faria, no Monte Estoril, voltámos a falar animadamente dos seus companheiros de geração e dos intemporais confrades que com ele partilharam o destino da escrita -- porque, não o esqueçamos, Lopes-Graça cultivou superiormente a prosa, sendo um notável ensaísta.
Lembro-me de dizer-lhe como lamentava o esquecimento a que estava votado Tomás Ribeiro Colaço -- então uma recente descoberta minha --, monárquico liberal, escritor exilado no Brasil onde veio a morrer, apátrida do Portugal de Salazar, director, nos anos 30, de um importante semanário literário, o Fradique. Daí pulámos para o Eça, pois para além da evocação jornalística do semi-heterónimo Carlos Fradique Mendes, parecia-me haver uma nítida influência do romancista d'Os Maias em Colaço, desde logo por uma implacável ironia de que ambos se serviram. Graça veio, evidentemente, defender a superioridade de Camilo sobre Eça, e também, já no seu século XX, de Aquilino. O mesmo já se não passou com Fialho, para minha surpresa; pareceu-me que o detestava.
Estive na sua casa da Parede pelo menos duas vezes. Senti-me extasiado diante das suas estantes a abarrotar, reveladoras também de um fino gosto bibliófilo. Senti que lhe agradou a avidez com que me lancei aos livros dos escritores portugueses, quase todos com dedicatórias -- e, alguns deles, com que dedicatórias! «Aí estão os autores portugueses», disse-me com aquela entoação das pessoas que não só lêem os livros, como gostam de os ter junto de si, mirara-lhes de longe as lombadas, ir ao pormenor do cólofon.
E lá estavam, copiosos, os volumes de Aquilino, Ferreira de Castro, José Gomes Ferreira, José Régio, Vergílio Ferreira, Carlos de Oliveira, a primeira edição de Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, na editora Sírius, com capa de Álvaro Cunhal...
«O maestro tem aqui preciosidades!...», disse-lhe com evidente entusiasmo. «Ora diga lá, do que aí está, o que acha interessante», retorquiu ele, claramente para experimentar o rapaz com idade para ser seu neto e que lhe invadia em casa para, no cimo de um escadote, remexer as suas estantes, e que, ainda por cima, tinha opiniões sobre escritores que haviam sido seus amigos, privado com ele, trabalhado com ele. «Vá, diga lá a que escritores, dos que aí estão, acha o senhor interesse», insistiu. Aquele senhor, sem uma ponta de hostilidade, mas irónico -- pelo menos assim o senti --, punha-me claramente à prova. «Bem...», hesitei no meio de tantas possibilidades, e decidi jogar logo pelo seguro, «...o Carlos de Oliveira, por exemplo...» E lá começámos à conversa, gostosa e demoradamente.
Inesquecível uma tarde em que o rádio, sintonizado evidentemente na Antena 2, transmitia o Concerto para violoncelo de Dvorak, gravado não sei quando no Coliseu e dirigido por Pedro de Freitas Branco, Lopes-Graça sentado tendo à frente o seu Bechstein, por vezes a trautear uma passagem, e eu a folhear-lhe as prateleiras...
Muitas foram as estórias que ele me contou, por vezes repetiam-se, mas era sempre um prazer ouvi-lo. Episódios do seu exílio em Paris, nos anos 30, os contactos que tivera com Bernardino Machado («um picuinhas a rever textos») e Jaime Cortesão, que considerava ser um pedante, embora não lhe quisesse apoucar a grandeza. E saltávamos de nome em nome: Vitorino Nemésio, grande amigo com quem se incompatibilizou depois da Revolução, Jorge de Sena, homem com «um feitio terrível», mas «um homem superior».
Morreu umas semanas depois. O pouco que privei com ele não chegou para me fazer sentir seu amigo. Consegui admirá-lo pessoalmente, mesmo já diminuído. Comoveu-me a sua ostensiva militância comunista, que a todo o momento procurava vincar, sabendo eu que esse não fora um percurso sem escolhos. Enquanto vulgaríssimo melómano -- gosto de alguma da sua música, não aprecio outra. Quase que por acaso, quase, revejo estas notas tomadas num caderninho, em 5 de Janeiro de 1995, ao som da sua música. Escolhi o Concertino para Violeta e Orquestra, de 1962, incluído no primeiro disco de Lopes-Graça que comprei, e que para sempre evocará o meu encontro com ele, à beira do fim.
Foto de Augusto Cabrita

O Vale do Riff Especial Natal 2006

A PARTIR DE AMANHÃ

sábado, dezembro 16, 2006

Camilo Castelo Branco












Caricatura de Vasco

Correspondências #72 - Camilo Castelo Branco a Tomás Ribeiro

Meu CaroThomaz Ribeiro.
Tomára eu ca os outros volumes das tuas Jornadas. Anceio o que hade ser todo da India, porque os realces originaes hão de avantajal-o aos que fallarem da tão viajada e decrepita Europa. A simplicid.e do teu estylo dá meritos a este livro, que o tornam estimabilissimo. Sem questão, tu és poeta de primeira ordem, e prosador de segunda. Em quanto a musa te apojar bobotoens, torrentes de inspiração, não desças á prosa ignobil. Cede-a aos aleijadinhos do metro. Flores, flores, meu caro Thomaz Ribeiro. Não ha quem atire mais jardins do que tu para cima destas charnecas.
Abraça-te o teu velho e paralytico am.º
C. Castello Branco
Porto 1 de Dzbr.º de 1873.
Cartas de Camilo Castelo Branco a Tomás Ribeiro
(edição de Branca de Gonta Colaço)

Tomás Ribeiro

Figuras de estilo - Fernando Grade

Nas costas de Spínola, cerraram o portão do quartel. Os minutos correram nervosos. E já, novamente, o mesmo portão se abre: vê-se agora, no túnel, o Marcelo, prisioneiro, entrar no carro de combate. Ouvem-se vaias, maldições. Chovem cuspidelas para a carapaça do blindado que rompe por entre a multidão. No interior do veículo, o Marcelo vai verde, leva o rosto destruído, vê-se-lhe nos olhos que não entende ainda o que acontece agora-agora e já é página da História; o ditador mostra uma carantonha siderada de um verde eterno, como as fardas da sua apalhaçada Mocidade Portuguesa.
A Minha Quinta-Feira 25 de Abril

Fernando Grade

quinta-feira, dezembro 14, 2006

«Tão próximo do Natal»

A não perder a fantástica crónica de Ruben de Carvalho no DN de hoje, 5.ª feira. Vale todo o jornal, incluindo a pretensiosa revista.

Antologia Improvável #187 - Jaime Rocha

LACRIMATÓRIA 10

Uma ilha ao longe marca o terreno para o corpo
da morta, uma ilha em ruínas, ladeada por
rochedos acastanhados pelo tempo, escondida
entre altos ciprestes. De noite, uma pequena barca
surge da água trazendo duas mulheres esguias
iluminadas pela lua. Os remos transformam as
silhuetas em animais mágicos, vestidos de cor verde.
A mulher vem deitada num lençol e das falésias
ouve-se um cântico como se ali habitassem os seres
mais antigos do mundo. A ilha vive fora do horizonte,
desfeita pela chuva. Quando a barca fica presa a uns
ganchos, os ciprestes viram-se para dentro mostrando
diversos degraus de pedra. Alguém aguarda o momento
em que o homem se atira para as frestas e contempla o
corpo dela a ser levado pelo vento.

Lacrimatória

Jaime Rocha

O Vale do Riff - Garry Brooker (feat. Peter Frampton), «Conquistador»

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Doenças

É verdade que Israel não tem ajudado muito, mas é repugnante ver o Irão patrocinar um congresso negacionista do Holocausto. O racismo e o nacionalismo continuam a ser doenças por debelar.

Foi bem feito

A ministra da Defesa do Chile foi vaiada nas exéquias de Pinochet. Tratando-se de um criminoso que usurpou a chefia do Estado chileno durante 17 anos, não sei porque razão um governo democraticamente eleito se rebaixou enviando um representante àquele acto. Eu sei que a democracia por si só tem uma superioridade ética e moral relativamente às ditaduras. Mas há gente que não merece sequer um gesto de indulgência.

estampa LXXXVI

Amedeo Modigliani, O Violoncelista
Colecção Particular, Paris

Van Morrison e The Chietains, «The Star of County Down»

terça-feira, dezembro 12, 2006

Caracteres móveis - Victor Hugo

Desde as seis e meia da manhã que se ouviu pelas ruas o toque de chamada. Às onze, saio. As ruas estão desertas, as lojas fechadas; vê-se, lá de longe a longe, passar uma velhota. Sente-se que Paris inteiro se derramou para um dos lados da cidade, como um líquido num recipiente inclinado.
O Funeral do Imperador
(tradução de Luiza Neto Jorge)

Hugo

O Vale do Riff - Bing Crosby e Louis Armstrong, «Now You Has Jazz»

estampa LXXXV

Pieter Bruegel, o Velho, Caçadores na Neve
Kunsthistorisches Museum, Viena

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Antologia Improvável #186 - Teresa Guedes

O MEU LÁPIS

É impossível pintar
a canção do vento
ou o choro das árvores
quando são abatidas.
É possível, diz o meu lápis
habituado a tantas vidas.

Real...mente

Teresa Guedes

O Vale do Riff - Woody Herman, «Jazz Me Blues»

Na morte de Pinochet, um Mobutu sul-americano

Salvador Allende no palácio presidencial de La Moneda
durante o golpe de 11 de Setembro de 1973



É triste ver morrer um traidor sem julgamento. Nomeado por Salvador Allende comandante do exército chileno, enganou-o de tal maneira que quando o Presidente estava sitiado em La Moneda perguntava com ansiedade pelo estado do seu general durante a insurreição que corria: «Coitado do Pinochet», lamentava Allende...
É triste ver morrer um facínora sem julgamento. Não são apenas os três mil mortos e desaparecidos que vão atormentar o esbirro no inferno. É a perfídia, a tortura, os requintes de malvadez dos torturadores, cuja responsabilidade política ele há dias assumiu, sabendo-se impune e livre de recorrer ao abjecto número de circo da cadeira de rodas.
Há quem diga que ele salvou o Chile do comunismo. Mesmo que essa deriva se viesse a confirmar -- o que ficou por demonstrar (e recorde-se que Allende pertencia ao Partido Socialista chileno) --, mesmo que aceitássemos a hipótese, o Chile foi em seguida condenado ao Pinochet. E não são os alegados bons resultados da economia (tão louvados por uns pseudo-liberais imbecis) que redimem a personagem. Para a História, Pinochet ficará como um mero peão da Guerra Fria, um Mobutu latino-americano, igualmente ladrão e carrasco. O Chile não ficou como o Zaire/Congo, podem argumentar; mas a história das instituições nos dois países não é comparável.
Na morte de um assassino e de um traidor, presto homenagem à sua mais conhecida vítima, que não recorreu a números de circo para salvar o pêlo: Salvador Allende.

domingo, dezembro 10, 2006

Luís Cardim

Correspondências #71 - Luís Cardim a Roberto Nobre

Porto, 11 de Setembro de 1949
Meu prezado e bom Amigo Ex.mo Snr. Roberto Nobre
Na página literária do «Janeiro» de 4ª feira passada veio uma extensa e muito elogiosa notícia crítica do meu livrinho, subscrita pela letra A.; fui lá agradecer, e soube que era do snr. Jayme Brazil, a quem vou portanto agradecer também, para o que pedi a morada dele em Paris.
Mandei um recorte ao Dr. Câmara Reys, nosso comum amigo, e não [sei] se ele lho mostrou, ou se VExª terá visto a crítica no próprio Janeiro. Começa por fazer referências muito generosas às minhas actividades em filologia germânica, e em especial quanto a Shakespeare, acrescentando que me devia ser dada uma bolsa de estudo para estudar e investigar em Inglaterra, e em seguida passa em revista todo o livrinho, com bastante minuciosidade e compreensão. A única nota discordante -- embora também amável -- é chamar «monumental» à minha obra «Shakespeare e o Drama Inglês»; eu reconheço, sem falsa modéstia, que ela é bastante completa, bem informada, actualizada e... muito condensada; mas daí a «monumental», vai um bocado, e quem ler a crítica e conhecer o livro, estranhará talvez um pouco o epíteto.
Mas é uma crítica extremamente bondosa, tanto pela extensão como pelo fundo, e como sei que a devo em grande parte à iniciativa gentilíssima de VEx.ª, é a VEx.ª que primeiro agradeço. Em Outubro irei a Lisboa, e lá fá-lo-ei pessoalmente. Eu tenho andado a traduzir para inglês uns trabalhos de psicotecnia; tive, é claro, que estudar o assunto, e como me deram pouco tempo, o esforço foi grande, e dura há um mês, pouco mais ou menos. O que vale é que me rende uns três contos; é pouco ainda para o número de horas que me levou, mas... pecuniàriamente é melhor que «Os Problemas do Hamlet», que nada me renderam, aliás por proposta minha inicial. Agora gostava de escrever sobre «As tendências actuais dos estudos shakespeareanos», ou coisa parecida -- um tema em que cabia muita coisa; mas tenho actualmente a vida muito embrulhada, e sinto-me velho e cansado, além do que o assunto demandava grande bibliografia, que não sei se poderei obter. «Os Problemas do Hamlet» foram uma deliciosa aventura, em que os livros necessários -- os mais necessários, pelo menos -- foram «vindo pelo ar», sponte sua aparentemente, dos vários pontos cardiais, e as várias-das-peças do puzzle se foram também encaixando por si mesmas nos seus devidos lugares... Mas o que eu pretendia agora é obra de mais vulto: terei eu tempo, forças, paciência e elementos para a levar a cabo?
Mas não abuso mais da sua bondade -- e até Outubro. Renovo os meus mais rendidos agradecimentos, e sou sempre
o de VEx.ª
admirador e amigo muito reconhecido
Luiz Cardim
«Sete Cartas de Luís Cardim a Roberto Nobre»,
Boca do Inferno, n.º 1
(edição de Ricardo António Alves)

Roberto Nobre

sábado, dezembro 09, 2006

vistos de baixo somos grandes / sobre a terra.
Vítor Oliveira Jorge

estampa LXXXIV

Henrique Pousão, Cabeça de Rapaz Napolitano
Museu Nacional Soares dos Reis, Porto

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Antologia Improvável #185 - Luís Brito Pedroso

PEIXE

Pelas ruas curvilíneas
sentes que pertences a algo
Tudo será montanha ou colina,
guitarra portuguesa
e sardinha a assar, processos de vida
A dado momento estalam os dedos
a vida e a percepção
De certo modo sentes que pertences -- a algo

O chão de pedra -- percebes?
Há sol e sombra, touros
Transístores ao longe sintonizados na distância
Guitarras ao alcance das mãos, fadistas
Vinhos e casas
Processos de vida, coisas mais que antigas
Palavras e gestos.
Rio mar sal abismos promontórios
muito longe naus encalhando
Ondas areias sal.
E o crepúsculo visita-nos a cidade
entornando o seu canto pelos cantos das casas
Indumentárias negras enfim
Guitarras vinho e gritos.
Rixas becos e linchamentos
Linchamentos emocionais
Nada a questionar
sejam cigarros ou canecos ou apenas inchaços
Pátios barulhentos na época do calor
O chão de pedra derrete e quase que fala
Derrete tudo quanto é carne nas colinas
Na encosta do castelo
estoiros de motorizada falésia abaixo
Braços no ar vento na cara cara na rocha
Guitarras quebrando cabeças
e a indumentária negra
manchada de sangue ou vinho
(não se percebe)

Poema Seis

O Vale do Riff - Ben Webster e Gerry Mulligan, «Who's Got Rhythm»

A Rainha

Esta Helen Mirren é magnífica. Já a admirara quando da outra Isabel, a Tudor (muito bem servida por esplêndidas actrizes ao longo da história do Cinema), que há pouco tempo passou na RTP. Mas fazer a Windsor deve puxar muito pelo canastro de dentro... E que bem que ela se sai. Aliás, Helen Mirren salva o filme de Frears da banalidade quase televisiva. E se Mirren se desempenhou superiormente, com ela ganhou também a imagem (detestável conceito...) da própria Isabel II, que surge como a única personagem com grandeza, acolitada por um ou outro servidor fiel, no meio da comoção geral que foi a morte trágica da princesa Diana.