Woody Allen: «Scott estava com uma grande problema de disciplina e, apesar de todos gostarem muito de Zelda, concordávamos que ela tinha um efeito adverso na sua obra, reduzindo a sua produção de uma novela por ano a uma esporádica receita de mariscos e a uma série de aspas.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «Por exemplo, não é verdade que a massa dos opositores do existencialismo olhe o mundo com olhos ingénuos; apreendem-no através desses lugares-comuns que constituem a Sabedoria das Nações, incoerente, contraditória; essa sabedoria é, entretanto, uma visão do mundo que convém pôr em causa.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Leonid Andreiev: «Nos dias de festa e bem assim todos os domingos, o Director mandava içar a bandeira nacional pra reozijo dos doentes. O facto provocava uma sensação estranha e feliz a que chamaríamos garridice na demência.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Balzac: «Há em certas cidades da província casas cuja visão inspira uma melancolia igual à que nos causam os claustros mais sombrios, as charnecas mais estéreis ou as ruínas mais lúgubres. Talvez haja nessas casas, ao mesmo tempo, o silêncio do claustro, a aridez das charnecas e a desolação das ruínas.» Eugénia Grandet (1833) - trad. Jorge Reis § Génesis: «Deus chamou céus ao firmamento. Assim, surgiu a tarde, e, em seguida, a manhã; foi o segundo dia. / Deus disse: "Reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus num único lugar, a fim de aparecer a terra seca". Deus, à parte sólida, chamou terra, e, mar, ao conjunto das águas. E Deus viu que isto era bom.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Geneviève de Gaulle Anthonioz: «De súbito, passou a haver apenas o feixe de uma lanterna, o rosto assustado da nossa chefe de barracão, a ordem rouca para me levantar e a sombra de dois SS. Pesadelo ou realidade? Baty e Félicité, as minhas vizinhas de enxerga, despertaram. Juntaram alguns objectos, entre os quais o meu púcaro e a minha gamela, ajudaram-me a descer do beliche, beijaram-me. Que sorte me espera?» A Travessia da Noite (1998) - trad. Artur Lopes Cardoso
quinta-feira, abril 02, 2026
quarta-feira, abril 01, 2026
Vitorino Nemésio, escrever como se respira
Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.
Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico.
1 verso de José Fernandes Fafe
«Janelinha triste, escorrendo água,»
A Vigília e o Sonho (1951) - «Quase lírica»
o que está a acontecer
« -- O filho da mãe que fez as correias tão estreitas é que devia andar aqui no mato a amargá-las com um saco às costas -- resmungou um soldado. / -- De-de-ve ser pa-pa-ra pou-pou-par -- gaguejou outro em resposta. / -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: vamos lá a falar baixo.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
terça-feira, março 31, 2026
3 versos de Camões
«Entre gentes tão poucas e medrosas, / Não mostra quanto pode, e com razão, / Que é fraqueza entre as ovelhas ser leão.»
Os Lusíadas (1572) - Canto I-68
segunda-feira, março 30, 2026
Trump, esta anedota
Não me lembro de quem, mas tenho pena: ontem um comentador numa estação fez notar que Trump -- tão bem enrolado pelo Netanyahú (e, quiçá, pelo próprio MBS) -- está a enviar toda aquela tropa para o Golfo Pérsico para forçar a abertura do Estreito de Ormuz, que estava aberto antes de começar este carnaval... Maior brilhantismo é impossível.
Antes, tínhamos um senil manipulado por falcões, Joe Biden; agora um tipo que não é estúpido, antes um mitómano doido varrido, rodeado de yes men. Num caso e noutro, ambos patifórios.
Escusado será dizer que quero muito que eles levem nas lonas. Veremos. Quem vai pagar as favas será Cuba, que passará do comuno-tropicalismo para os bons velhos tempos em que a ilha era um vasto casino e uma colorida casa de putas da máfia e demais elite n-americana.
4 versos de José Alberto Oliveira
«As buzinas dos carros proclamam / a vossa pressa de chegar a casa, / a um jantar desatento, / a caminho do sono.»
Mais Tarde (2003) - «Manifesto»
o que está a acontecer
«1. o fascismo dos bons homens - somos bons homens. não digo que sejamos assim uns tolos, sem a robustez necessária, uma certa resistência para as dificuldades, nada disso, somos genuinamente bons homens e ainda conservamos uma ingénua vontade de como tal sermos vistos, honestos e trabalhadores.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)
« -- O que me importa e irrita é essa mania que tu tens de achar bom tudo quanto é estrangeiro e mau tudo quanto é espanhol. Mas não me admira nada; mesmo nada; todos os teus correligionários são assim... / Soriano contemplava-a com esse sorriso complacente e irónico de quem não está disposto a melindrar-se. Ela levantou-se da mesa e caminhou apressadamente para o seu quarto.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
«Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos entusiasmo; analisa-se mais e melhor; porém a própria análise é a prova de que se sente menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, mal têm cabida a paciência e fleuma, necessárias aos processos analíticos. O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão à pátria com a carteira cheia de apontamentos; o entusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
domingo, março 29, 2026
zonas de conforto
Fialho de Almeida: «Nenhum canto de natureza infecundo!, o mesmo amor que sobe da terra, a revigorentar os arvoredos, comunica-se aos ninhos, cinge os casais de pássaros, extravasa no ar como nafta de bodas bíblicas, e comunica-se, aspira-se, vai-se infiltrando em toda a parte. Eu bem na sinto! Eu bem na sinto!» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos» § Maria Gabriela Llansol: «["] É o instante físico, dilacerante, em que subo a um monte, e desço um declive. / É um sentimento incrível, o que estás a viver -- diz-me Eckhart, acusando-me com um sorriso. / Mas a sua companhia é doce, ágil, vai dando voltas ou descrevendo curvas à altura do meu sofrimento.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Branquinho da Fonseca: «É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente. Mas não vou filosofar; vou contar a minha viagem à serra do Barroso. / Ia fazer um sindicância à escola primária de V...» O Barão (1942) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Dizem-me que se suspeita de uma ligação entre a iniciativa que conduziu aos actos efectuados na capela e a deflagração de explosivos, acompanhada da divulgação de panfletos, ocorrida no dia 31 de Dezembro. Gostaria, porém, de assegurar a V. Ex.ª que, conhecendo de muito perto, como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura, com quem tenho muito contacto, estou talvez melhor colocado que ninguém para poder considerar completamente absurdo que acerca dele se possa pôr a hipótese de ter qualquer relação com organizações cujos meios de acção sejam dessa natureza.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes
sexta-feira, março 27, 2026
quinta-feira, março 26, 2026
2 versos de Florbela Espanca
«Esmaguei meu coração / Para o triste te esquecer,»
Trocando Olhares (póst., 1994)
quarta-feira, março 25, 2026
1 verso de Antero de Quental
«Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,»
Sonetos Completos (1886) - «A M. C.»
terça-feira, março 24, 2026
o que está a acontecer
«Só pelo preço de muitas jornadas se compra o hábito de ficar impassível no meio dos episódios destas pequenas odisseias, que atormentam e exaurem o ânimo dos Ulisses novatos; mas ai, quando se adquire esse hábito, também nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as comoções do belo.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
«Porém, e este ponto de doutrina só raros o desconhecem, sobretudo se pertencerem à geração veterana, o cão Cérbero, que assim em nossa portuguesa língua se escreve e deve dizer, guardava terrivelmente a entrada do inferno, para que dele não ousassem sair as almas, e então, quiçá por misericórdia final de deuses já moribundos, calaram-se os cães futuros para toda a restante eternidade, a ver se com o silêncio se apagava da memória a ínfera região.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«Ao ver a expressão da irmã, Soriano julgou adivinhar nela uma discordância que se continha por falta de tempo para discutir. / -- Há muitas excepções, é claro, e tu és uma delas... -- acrescentou ele a sorrir. / Não é isso o que me importa -- interrompeu Mercedes, pousando a chávena.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
os persas...
Esqueçamo-nos dos aiatolas (mas não das suas malfeitorias); isto já são os velhos persas. Trump, borradíssimo, engole a própria basófia. Ou então prepara-se para ludibriar os iranianos outra vez. Mas quem se deixa ludibriar por Trump três vezes? Se este meter a viola no saco, o estreito de Ormuz será uma espécie de Termópilas para o estado do Golfo Pérsico, ou um novo David contra Golias.
1 verso de Fernando Assis Pacheco
«Com peso triste caminha na rua o Outono.»
Cuidar dos Vivos (1963) -- «Tentas, de longe»
segunda-feira, março 23, 2026
terrorismo(s)
Sendo contra toda a forma de coacção, seja ela violenta ou insidiosa , política e/ou religiosa, venha das igrejas ou das associações cívicas, só espero que o energúmeno que se atreveu a lançar um cocktail molotov para dentro de uma marcha que se autointitulava "pró-vida", e que tem todo o direito a manifestar-se publicamente, seja exemplarmente indiciado, acusado, julgado e condenado a uma pena pesada, seguida de obrigatoriedade de reeducação, para servir de exemplo aos patetas de esquerda e de direita.
Eu não ignoro que estes movimentos de fanáticos religiosos chamados "pró-vida" exercem uma coacção psicológica aviltante, ilegítima e ilegal junto de mulheres que planeiam abortar, seja por que razão for. Isto e um certo laxismo tolerante das autoridades para com estas práticas criminosas não pode ficar em claro.
Aceito que por razões éticas se faça campanha e procure influenciar a opinião pública contra ou a favor do aborto e da eutanásia. Já manifestações religiosas nesse sentido, parece-me mais complicado -- a religião é sem dúvida o ópio do povo, mas pode ser também o conforto do indivíduo ou o amparo e resistência de um povo (Timor-Leste). Tenho muitas questões éticas em relação ao aborto, mas considero que é em primeiro lugar um assunto que diz respeito a cada mulher; por outro lado, sou ferozmente pró direito à eutanásia e desprezo quem procure impor lixo religioso para impedir-me de poder escolher o meu fim.
Cada um tem o direito de acreditar ou não acreditar no que quiser, sem ser chateado nem chatear ninguém -- mas ninguém tem o direito a impor as suas convicções ou crendices a terceiros. Este imbecil que procurou atentar contra a integridade física dos manifestantes, além de ser um fanático de outro tipo, conseguiu, por exemplo, desviar as atenções das manifestações pela habitação que se realizaram em vários pontos do país; sem contar que está a dar gás às organizações de extrema-direita cuja violência está a deixar de ser larvar. Além de criminosamente fanático, é estúpido.
domingo, março 22, 2026
sexta-feira, março 20, 2026
projectos-lei do PSD, do CDS e do Chega -- é um dia bom
Restringir a demagogia e a estupidez deste activismo de manicómio; e já agora, proteger as famílias dos joõescostas & outras alimárias que se incrustam no aparelho de estado.
2 versos de Alexandre Dáskalos
«Só no silêncio o coração murmura / e desliza a vida para o que a alma quer.»
Poesia (1961)
quinta-feira, março 19, 2026
2 versos de Alberto de Lacerda
«Lembras-te da nuvem que tangia / de transparência as cavernas da terra?»
Opus 7 / Oferenda II (1994)
quarta-feira, março 18, 2026
terça-feira, março 17, 2026
1 verso de Manuel Matos Nunes
«Amou, floriu, morreu.»
Insolúvel Flautim (2023) - «João Bensaúde, quase heterónimo de José Régio»
segunda-feira, março 16, 2026
cada cavadela, cada minhoca -- são uma anedota estes americanos
Depois de acharem que poderiam não só derrotar como partir a Rússia aos bocados, usando os neonazis que tomaram conta da Ucrânia ocidental --, estes nabos em Washington viraram-se para o Irão (bem manipulados por Netanyahu), crendo que os aiatolas eram palhaços do tipo Maduro, e que a velha Pérsia, com milénios em cima e habituados a bater-se contra gregos, romanos, mongóis, otomanos e russos, iriam facilitar e não vender cara a pele.
E de tal maneira, que Trump já está em pânico de poder atolar-se ali, tendo começado a coagir os idiotas úteis da Europa e arredores, que tão prestimosos foram para com a administração alegadamente liderada pelo senil que o antecedeu.
Veremos se com tanta cordura solidária para com o nosso grande vizinho, ainda não seremos obrigados a enviar uma fragata -- afinal não somos da raça de Albuquerque, o Terríbil?...
2 versos de Armindo Reis
«Agitaram-se os cabelos / sobre as dunas. Estendida.»
Cântico Escorreito (2020) - «Sobre as dunas»
o que está a acontecer
«Outra coisa que igualmente não se sabe é por que mutações orgânicas teria passado o famoso e altissonante canídeo até chegar à mudez histórica e comprovada dos seus descendentes de uma cabeça só, degenerados.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«Em Espanha não só se come tarde, mas também se come demasiado. Provavelmente, o nosso carácter violento deve-se, em grande parte, ao excessivo trabalho que damos ao fígado... E é ver as nossas mulheres... Tão bonitas, tão sedutoras antes dos trinta anos! Mas, depois dos trinta, porque jantam tarde e se deitam, quase todas, em seguida ao jantar, começam a exibir umas ancas tão prósperas como se fossem mães de toda a Humanidade...» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
«A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempero ou destempero do heteróclito cozinhado com que se enche o estômago, a lama que nos incrusta até os cabelos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cérebro, tudo então nos desafina o espírito, que trazíamos na tensão necessária para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
domingo, março 15, 2026
sexta-feira, março 13, 2026
"uma proposição apodítica"
Com palavras de 7$50, o Ministério Público mandou arquivar o inquérito sobre os cartazes miseráveis, xenófobos, badalhocos e racistas (portanto, inconstitucionais e fora-da-lei) do Chega.
Que asnal falta de vergonha, que imbecilidade, que estrabismo e que espessa estupidez, como bem demonstra a professora de Direito Cláudia Santos (texto para arquivar).
"Uma proposição apodítica"... Arre!, que se lhes foi a inteligência toda com as descargas de autoclismo diárias do "Processo Marquês".
2 versos de José Alberto Oliveira
«uma tarde que outra (e os dias passam) / há percalços que nos traem»
Mais Tarde (2003) - «Quem Espera?»
quinta-feira, março 12, 2026
quarta-feira, março 11, 2026
2 versos de Rui Pires cabral
«inopinada a nossa casa (onde só podemos ser / o que fomos) chama por nós de outro tempo,»
Capitais da Solidão (2006) - «1992»
zonas de conforto
Machado de Assis: «O princípio do canto rematava em um certo lá; este lá, que lhe caía bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de Esponsais» § Maria Gabriela Llansol: «Lembro-me de uma tarde sob o sol e sobre o mar; a intensidade amorosa era tão grande que peguei num papel qualquer que ali se encontrava à mão e, mal lhe toquei, veio-me -- digamos à memória -- a presença estática e vibrante de alguém, e escrevi: "Eu tenho o corpo com dores, atraído pelo feminino e pelo masculino, pela memória antiquíssima da variedade dos géneros.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) - «Escrita e viagem» § Aquilino Ribeiro: «Mas rei a valer, e nenhum rei de copas, ali... de ceptro em punho, todos ajoelhados diante de mim a lamber-me os butes, sabendo que o era, pois rei era eu sem o saber. Que menos, com o rapariguedo à volta: Antoninho, cravo roxo! saúde de cavalo, açafate o que se chama farto, caminhos desimpedidos?! / Que o mundo é outro -- apregoa para aí o mestre-régio. -- Virou para melhor...» O Malhadinhas (1922) § Fialho de Almeida: «-- Eu bem na sinto!, eu bem na sinto! / E os dias lúcidos vão inundar de tonalidades esses subsolos de florestas da província. Uma virgindade cerra as espessuras e imacula as sombras das árvores, cuja cúpula, por cima, estrela o azul impecabilíssimo do céu. E pelas ramas que se engalfinham, se enlaçam, procuram frémitos de asas num mistério de núpcias.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos».§ Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Aliás, o Prof. Moura esteve ausente do País nos dias que os precederam e não teve deles conhecimento até ao momento em que as pessoas já preocupadas com a direcção que os mesmos estariam a seguir lhe pediram para comparecer. Chegou à capela cerca de uma hora e meia antes da intervenção policial e durante esse período limitou-se a assistir em silêncio ao que se estava passando.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes § António Ferro: «A Vida é o atelier do Artista.» Teoria da Indiferença (1920)
terça-feira, março 10, 2026
começar com o pé direito
Nunca ouvira falar de Mourísia, no concelho de Arganil, aldeia que esteve cercada pelas chamas no Verão passado. A desertificação do interior é um dos maiores problemas do país, e dos mais demorados e difíceis de resolver. Imagino o quão gratificante terá sido para aquela população -- e, por extensão, para todas a Mourísias da nação -- o acto simbólico da visita de António José Seguro, no dia seguinte à sua tomada de posse.
3 versos de Maximiano Gonçalves
«Está muito bem que fales da Palavra / Com palavras. / Mas ouve-a, antes,»
Ouvir a Palavra (2017) - «Ode à Palavra»
segunda-feira, março 09, 2026
o que está a acontecer
«Não, não queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e escorraçado, aquele rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para França com a mulher, a sr.ª D. Angelina Fafes (da tão falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o Cintinho, menino amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenços; com a aia e com o moleque.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda, embora, por obra e fortuna daquele conhecido jogo de ouvir o conto e repeti-lo com vírgula nova, usassem distrair as avós francesas a seus netinhos com a fábula de que, naquele mesmo lugar, comuna de Cerbère, departamento dos Pirenéus Orientais, ladrara, nas gregas e mitológicas eras, um cão de três cabeças que ao dito nome de Cerbère respondia, se o chamava o barqueiro Caronte, seu tratador.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«As pequenas impertinências, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou que a saudade consegue até doirar e poetizar a seu modo; esses microscópicos martírios, que de longe não avultam, actuam-nos, na ocasião, a ponto de nos inabilitar para o gozo do que é realmente belo.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
2 versos de Carlos Matias
«A melodia canta neve e alegria. Falcões / transportam visões ligeiras. Aves, flores, cores.»
Luz Triste (2005)
domingo, março 08, 2026
sexta-feira, março 06, 2026
Zelensky a pisar ainda mais o risco
Não sei se é para que se lembrem dele, agora que estamos todos virados para o Golfo Pérsico, mas, ao ameaçar Orbán, Zelensky nem na União Europeia tem lugar.
Estou curioso para ver a reacção: provavelmente, a cúpula da UE assobiará para o lado, fazendo de conta que não foi nada; o mesmo em relação aos chefes de estado e de governo. Mas é possível que alguém que não Fico (um socialista que os me(r)dia classificam como populista...) ou Salvini; talvez a Europa ainda tenha governantes decentes que ponham o Zelensky na ordem.
2 versos de Manuel Alegre
«só cantando se pode incomodar / quem à vileza do segredo nos obriga.»
Praça da Canção (1965) - «Apresentação»
zonas de confronto
Leonid Andreiev: «O hospital onde Pomerantzev fora internado era uma acolhedora casa de campo à entrada de um pequeno bosque lindante com a estrada que conduzia à cidade. Distava desta umas quantas centenas de metros. O telhado era muito alto e sugeria um machado de gume voltado para o solo.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Woody Allen: «Nos anos seguintes, a minha amizade com Scott foi crescendo, e muitos amigos comuns julgaram que ele baseara o protagonista da última novela na minha pessoa e que eu baseara a minha vida na sua novela anterior e acabei sendo considerado como uma personagem de ficção.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «Hoje em dia, quando se ataca o existencialismo, não é geralmente contrapondo-lhe outra doutrina definida, mas antes recusando qualquer crédito à filosofia em geral. / Uma tal atitude está viciada desde a raiz, repousando em pressupostos que não são, nem axiomas a priori, nem leis experimentais, e que relevam eles próprios de uma filosofia.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Génesis: «Assim surgiu a tarde e, em seguida, a manhã; foi o primeiro dia. / Deus disse: "Haja um firmamento entre as águas para as manter separadas umas das outras." Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam sob o firmamento. E assim aconteceu.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Ivo Andrić: «Assim, olhando à distância, parece que é dos arcos amplos daquela ponte branca que brota e se alastra não só o verde Drina, mas também essa planura fértil e mansa, com tudo o que nela existe bem como os céus meridionais por cima.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e Dejan Stanković § Geneviève de Gaulle Anthonioz: «A porta fechou-se pesadamente. Estou só, na noite. Mal me consegui aperceber das paredes nuas da cela. Tacteando, encontro a tarimba de madeira e a sua cobertura rugosa e estendo-me sobre ela, tentando regressar ao sonho interrompido: há pouco, caminhava por um caminho iluminado pela Lua, uma luz tão doce, tão benfazeja, e havia vozes que me chamavam.» A Travessia da Noite (1998) - trad. Artur Lopes Cardoso
quinta-feira, março 05, 2026
António Lobo Antunes, para mim
Apanhei o Lobo Antunes no início dos anos 80. Surge num período de renovação da ficção portuguesa, nos temas e modo de narrar, atingindo um público mais vasto (Dinis Machado, João de Melo, Carlos Vale Ferraz), embora exemplos houvesse já de fuga ao rame-rame discursivo com Nuno Bragança e, antes de todos, Ruben A. Antes de todos, o que não era para todos. Sim, obviamente Memória de Elefante e Os Cus de Judas (ambos de 1979). Com Auto dos Danados (1985), tornou-se para mim evidente que estávamos diante de um grande. Depois distanciei-me, nem sei bem porquê -- necessidade de ler outras coisas e outros autores, provavelmente. Fui mantendo contacto com as crónicas, sempre de nível alto, embora outros cronistas tivessem a minha preferência, por exemplo Augusto Abelaira ou Vasco Pulido Valente. Por vezes era surpreendido pelas letras de canções para o esplêndido Vitorino. Aquelas diatribes com o Saramago irritaram-me, tornaram-.no mesquinho ao meus olhos. Se há coisa que não perdoo, sobretudo num escritor, é a mesquinhez. Lembro-me que o Ferreira de Castro, quando escreveu pela primeira vez sobre o Raul Brandão, afirmou que não o conhecia nem queria conhecê-lo, precisamente por isto. (É claro que viriam a relacionar-se.) Há poucos anos li o Sôbolos Rios que Vão (2010), que alguns apontam como o seu grande livro dos últimos anos. Não me parece, mas não serei taxativo sem uma releitura. Não trocaria uma página do Autos dos Danados por todo o Tôdolos; como não troco o Finisterra pelo Uma Abelha na Chuva, do Carlos de Oliveira. Continuarei com livros do Lobo Antunes ao longo da vida, os mesmos livros e certamente outros. É o melhor que os escritores nos deixam; é só, na verdade, o que realmente interessa.
2 versos de João Miguel Fernandes Jorge
«Para compreender e tornar transparente esta cidade é necessário seguir, / noite fora, ruas e praças.»
Alguns Círculos (1975)
quarta-feira, março 04, 2026
3 versos de Vergílio Alberto Vieira
«Na fronte a unção da terra / a arma, o dólman / guardando dentro o coração»
A Paixão das Armas (1983) - «Sobre o Clamor das Fardas»
o que está a acontecer
«Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão. / O leitor provavelmente há-de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quase voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planiza qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que dela guardamos depois, são coisas de incomparavelmente maiores delícias, do que as impressões experimentadas no próprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mormente nas clássicas estalagens das nossas províncias.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
«E quando soube que o sr. D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro -- Jacinto "Galeão" correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando furiosamente: / -- Também cá não fico! Também cá não fico!» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
terça-feira, março 03, 2026
5 versos de Rui Knopfli
«Fluida, indecisa, volátil, / inconcreta, a ideia não / se submete facilmente / ao cerco insidioso / da palavra.»
O Corpo de Atena (1984) - «Ideia do Poema»
segunda-feira, março 02, 2026
1 verso de Pedro Tamen
«água que sabe a prados de cavalos idos,»
Depois de Ver (1995) - «O Pintor ao Espelho Todas as Manhãs»
domingo, março 01, 2026
sexta-feira, fevereiro 27, 2026
1 verso de Fernando Assis Pacheco
«Quem sabe, amor, onde o amor se fere?»
Cuidar dos Vivos (1963)
quinta-feira, fevereiro 26, 2026
2 versos de José Fernandes Fafe
«Os ventos sibilam roucos / a hora da nossa hora.»
A Vigília e o Sonho (1951) - «Sonetilho velho e actual»
o que está a acontecer
«Naqueles três miúdos que brincam junto a um monte de urze, julgo reconhecer-me a mim e aos meus irmãos. Nas duas sombras que declinam mais à esquerda, parece que distingo o perfil curvado do meu pai e o semblante severo da minha mãe. Na figura debruçada sobre os declives pedregosos da encosta, o recorte de um livro na mão, reconheço Ernest e o seu hábito de venerar a paisagem.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)
«Durante a guerra com o "outro, com o pedreiro-livre" mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao rei fiambres, caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retrós atochadas de peças que ele ensaboava para lhes avivar o couro.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«A postura de abatimento que lhe tomara o corpo, o olhar melancólico, fito nas orelhas do macho, a indiferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as belezas e acidentes da paisagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silêncio que apenas de quando em quando interrompia com uma frase curta mas enérgica, com uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jogo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não opunha diques e com as joviais cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quais se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbático companheiro.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
quarta-feira, fevereiro 25, 2026
10 dias 10 - quem brinca com quem?
Sim, atira-se tudo ao Sócrates -- é tão fácil, não é? E ninguém quer passar por parvo. Todos topamos o gajo, manobras dilatórias, etc. Ontem num canal qualquer, um jornalista (!) espumava de raiva por a terceira advogada ter renunciado à defesa do ex-PM. Isto tornou-se uma coisa pessoal, para uns quantos.
E então as burrices, incompetências, manipulações e vigarices da acusação, do espectáculo televisivo inicial até a constituição de megaprocessos de onde não se sairá?
E esta brincadeira de o tribunal dar prazos de meia dúzia de dias para que os advogados de defesa a possam exercer, também não? Para não falar daquele que esteve internado com uma pneumonia, tendo os meretíssimos dado de ombros à convalescença prescrita.
Segundo uns tipos espertíssimos há uma máquina bem oleada que aproveita todas as brechas que as nossa legislação -- normalmente redigidas por tipos que não sabem escrever (ler paleio de advogados & congéneres é de estarrecer). Se calhar até há, tal máquina que leva tudo à frente. E eu pergunto-me, siderado com tanta miséria intelectual: então os advogados não têm um nome na praça a defender? É que se tudo está tudo montado, como espumava o raivoso de ontem, quer dizer que os advogados que aceitam sujeitar-se a tais maquinações têm-se em muito pouca conta e a sua tabuleta não vale um caracol. Mas será mesmo assim?
E quando o Estado tiver de indemnizar Sócrates, sabe-se lá daqui a quantos anos, quem será responsabilizado? Ninguém, é claro; não se pode responsabilizar falecidos nem exonerar ou despedir aposentados.
2 versos de Florbela Espanca
«O fado é andar doidinha / Perdida plos olhos teus»
Trocando Olhares (póst., 1994)
terça-feira, fevereiro 24, 2026
1 verso de Alberto de Lacerda
«Metade da vida, não do meu ser.»
Opus7 / Ofrenda II (1994) - «Soneto dos trinta e cinco anos»
segunda-feira, fevereiro 23, 2026
o que dirá a História destes quatro anos da Guerra da Ucrânia
Haverá questões sempre susceptíveis de debate, como "O que é a Ucrânia?"; ou os temas operacionais estratégicos e tácticos: do erro de cálculo e excesso de confiança da Rússia no início da Operação Militar Especial, que rapidamente degenerou em guerra, ao envolvimento no teatro de operações de países terceiros.
O que a História dirá é que esta é mais uma das várias guerras iniciadas sob falsos pretextos, mas que nunca com até aqui houvera uma avalanche de propaganda e desinformação sobre as opiniões públicas ocidentais, nomeadamente europeias, para convencê-las da necessidade do desvio de recursos para "ajudar a Ucrânia" -- e também de tropas, se preciso for --, numa guerra de desgaste que os Estados Unidos decidiram mover à Rússia, usando a população da Ucrânia, e estribando-se no acirrar do nacionalismo radical e neo-nazi local.
Uma guerra que devastou um país, comprometeu o seu futuro próximo, alegadamente liderado por um humorista judeu de língua russa, que se fez eleger presidente assegurando que iria resolver os diferendos com o país vizinho. Muitos dos que enganou e lhe deram o seu voto, estão agora mortos; outros deixaram de ter a nacionalidade ucraniana: ou são russos, ou estão espalhados pelo resto da Europa. O estado do país é catastrófico, a perda de vidas humanas, a troco de nada, ou pior ainda: a troco de menos, é e será insuportável.
A União Europeia pôs-se ao serviço da anterior administração dos Estados Unidos, herdando agora o problema, depois de a política em Washington mudar. Ainda não se sabe o que irá acontecer à UE. mas a sua fraqueza e desunião nunca foram tão visíveis como hoje. Que UE teremos no fim da década? Ainda haverá UE?
O testemunho da chusma de nulidades jornalísticas e académicos medíocres que cobriram este conflito será utilíssimo, quando alguém no futuro vier a elaborar sobre O que foi e o que não foi a Guerra da Ucrânia.
2 versos de Alexandre Dáskalos
«A árvore sustém na copa de sombra / os ramos que apenas sabem que vacilam.»
Poesia (1961) - «Crepúsculo»
domingo, fevereiro 22, 2026
sábado, fevereiro 21, 2026
o que está a acontecer
«No dia, entre todos bendito, em que a "Pérola" apareceu à barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de arcanjo, furava de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«Mas, com o mar colérico ou tranquilo como agora, ventasse rijo ou corresse, à tona, ligeira brisa, o espectáculo seria sempre de surpreender e extasiar, após a viagem desoladora. / No convés lavado de fresco, Juvenal Gonçalves, o busto flectido sobre a amura, ressuscitava a pretérita visão, com tanta pureza emotiva como se, realmente, fosse a primeira vez que ali aproasse um navio.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Depois, já não é a praia nem o mar, é a serra, com os seus socalcos montanhosos, as escarpas verdes semeadas de xisto e de granito. Esvaíram-se as figuras de Natália, de Carolina, da pequena Laura, mas a montanha enche-se de outros vultos.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)
sexta-feira, fevereiro 20, 2026
1 verso de Vergílio Alberto Vieira
«O que da espada é brilho em nada nos protege.»
A Paixão das Armas (1983) - «Recado (quase prosaico) ao que chegou de Ceuta a manquejar dum olho»
quinta-feira, fevereiro 19, 2026
4 versos de Camões
«"Desse Deus-Homem, alto e infinito, / Os livros, que tu pedes, não trazia, / Que bem posso escusar trazer escrito / Em papel o que na alma andar devia.. ["]»
Os Lusíadas (1572) - I-66
quarta-feira, fevereiro 18, 2026
zonas de conforto
Jorge Amado: «Nasci empelicado, a vida foi pródiga para comigo, deu-me mais do que pedi e mereci. Não quero erguer um monumento nem posar para a História cavalgando a glória. Que glória? Puf! Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de cabotagem!» Navegação de Cabotagem (1992) § Machado de Assis: «E então teve uma ideia singular: -- rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra. / -- Quem sabe? Em 1880 talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Desde que fui informado da detenção do Prof. Moura, procurei inteirar-me de todos os acontecimentos com ela relacionados. É-me assim possível afirmar ser totalmente infundada qualquer acusação ou suspeita de que o Prof. Moura haja sido organizador ou tenha desempenhado qualquer papel na orientação dos actos levados a cabo na capela do Rato.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (ed. José Freire Antunes) § Maria Gabriela Llansol: «________________ a viagem que até hoje me trouxe mais paisagens foi o corpo a escrever. Não só mais. Sobretudo indeléveis. / À partida há a folha branca. Na realidade, quando esta se introduz na viagem, há muito que a viagem começou na percepção. Este o seu princípio de real.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Aquilino Ribeiro: «A gente não era falsa a bródios e funções, não só pelo preito que nos mereciam os santos como porque ninguém seria mais amigo de espairecer e folgar. / Ah, velha Barrelas dum sino! Tomara-me eu outra vez com vinte anos e saber o que hoje sei! Diabos me levem se não fosse rei.» O Malhadinhas (1922) § António Ferro: «A Arte é a mentira da vida. / A Vida é a mentira da Arte. / A mentira é a Arte da Vida.» Teoria da Indiferença (1920)
terça-feira, fevereiro 17, 2026
o que está a acontecer
«Só depois de dobadas várias décadas sobre o dia em que Zarco se apossara da terra ignorada, é que o Atlântico se tornara, para os lusos, ser feminino -- Atlântida legendária e de novo virgem, que eles iam deflorando pouco a pouco, sob o impulso da ambição e da glória.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Enquanto o adorável, desejado infante penou no desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em Belém à botica do Plácido nos Algibebes, a gemer de saudades do anjinho, a tramar o regresso do anjinho.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«Do plano desviado donde as observo, nenhuma rivalidade lhes perturba os modos brandos e sabe-me bem que assim seja. Agora, uma menina de cabelos escuros brinca sozinha, correndo descalça pela orla da espuma. Às vezes dobra-se, enterra as mãos na areia molhada, espera que a onda venha tocar-lhe os pés.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)
3 versos de Manuel Bandeira
«As estrelas sorriem de escutar / As baladas atrozes / Dos sapos.»
A Cinza das Horas (1917) - «Paisagem noturna»
segunda-feira, fevereiro 16, 2026
3 versos de Antero de Quental
«Ah! se Deus a seus filhos dá ventura / Nesta hora santa... e eu só posso ser triste... / Serei filho, mas filho abandonado!»
Sonetos Completos (1886) - «Lamento»
domingo, fevereiro 15, 2026
enxurrada de veneno de rã-dardo de propaganda, como se fôssemos tão estúpidos como os pivôs dos telejornais -- ou os russos têm que aprender com os americanos como suicidar criminosos na prisão
Na última semana, a palavra de ordem da propaganda bélica anti-russa, do major-general Isidro à egéria Clinton, é a de inculcar na opinião pública europeia estas duas verdades insofismáveis: 1) a de que os russos são mesmo maus; 2) além de serem maus, militarmente não valem nada -- dois bons argumentos para começarmos a despejar tropas no cemitério ucraniano.
No outro dia, o Isidro dizia no seu espaço de comentário que os russos estavam a levar tanta porrada, mas tanta porrada, que até ficamos admirados como o Zelensky ainda não tomou Moscovo; depois, o Rutte da Nato -- esse tipo que não se reproduz --, a ridicularizar as capacidades militares do inimigo; Hillary, essa esposa exemplar, ataca Trump por causa da Ucrânia; mas o melhor de tudo foi isto: de acordo com os idóneos ingleses (que têm na chefia do MI6 uma neta de um criminoso de guerra ucraniano nazi; a Ursula parece que é só neta de um nazi normal, que foi juiz), de acordo, pois, com os ingleses $ associados, o neonazi Navalny foi envenenado com uma toxina rã-dardo!...
Eu gabo a paciência dos russos (deve ser por isso que eles são tão incompetentes no campo de batalha): têm o Navalny preso no Árctico, e em vez de o matarem ao frio, deram-se ao trabalho de importar veneno de rã do Hemisfério Sul para matar o liquidar à bizantina.
Os russos têm de aprender com os americanos, que suicidaram o Epstein na prisão, na precisa altura em que o circuito interno de videovigilância inexplicavelmente caiu. O que vale é que partilhamos todos os mesmos valores, aqui no Ocidente.
«Hamnet»
«Hamnet», de Chloé Zao, é mais um título memorável, shakespearianamente falando, na filmografia do Bardo, embora por pouco não resvalasse para o melodrama. A sua intensidade é tal, que acaba por estar ali em cima do muro, tem-te não caias entre o quase sublime e a quase histeria; no fim, aguenta-se e resulta.
A realização delicada e subtil de Chloé Zao recomenda que o vejamos de novo; os desempenhos dos actores -- por vezes em risco de overacting --, em particular a irlandesa Jessie Buckley, força da natureza, um animal de representação; o crescendo do filme, até às fortíssimas cenas finais em Londres, no Globe Theatre.
Irão - Estados Unidos: o que eu realmente quero
Porta-aviões americanos ao fundo, e aiatolas pelos ares, caralho...
Seria bonito, ambas as coisas, o pior é o resto.
sábado, fevereiro 14, 2026
zonas de confronto
Hans Christian Andersen: «Voltei, assim, a ver os meus amigos de juventude, com eles e com os seus vivi por um tempo, vi uma parte do seu belo país, que não conhecia e, como a maior parte dos meus compatriotas, tão pouco sabia dele. Eis as recordações, passadas fugazmente ao papel, dessa viagem realizada no ano de 1866.» Uma Viagem a Portugal em 1866 (1868) - trad. Silva Duarte § Génesis: «No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas. / Deus disse: "Faça-se a luz". E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e às trevas noite.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Leonid Andreiev: «Logo que o seu transtorno mental o afastou do serviço, a esposa de quem se separara, havia quinze anos, julgou-se com direito à pensão do Estado e para fazer valer tal direito, levou a questão para o tribunal; mas perdeu a causa e o dinheiro reverteu para o enfermo.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Woody Allen: «Havia algo de verdadeiro nos Fitzgeralds; os seus valores eram básicos. Eram pessoas modestas, e quando Grant Wood, mais tarde, os convenceu a posar para o seu quadro intitulado Gótico Americano, lembro-me como ficaram lisonjeados. Zelda contou-me que durante as sessões Scott esteve sempre a deixar cair a forquilha.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «"Em França, vocês pensam nos problemas sem os resolverem", dizia-me, um dia, um americano. "Nós não pensamos nos problemas: resolvemo-los." / Resumia assim, nesta tirada agressiva, as críticas que em todos os tempos têm sido dirigidas ao pensamento especulativo: este não ajudaria a viver, e distrairia até da vida. É preciso viver.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Ivo Andrić: «Da ponte estende-se, como um leque, todo o vale ondulante com a pequena cidade de Visegrad e as suas cercanias, com povoações aninhadas nas abas das colinas, cobertas de searas, prados e ameixoais, riscada por muros e sebes e salpicada de pequenos bosques e raros tufos de verdura.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e Dejan Stanković
sexta-feira, fevereiro 13, 2026
2 versos de Manuel Matos Nunes
«Também eu queria conhecer essa rapariga / estendida ao sol no relvado de um colégio inglês»
Insolúvel Flautim (2023) - «Ruy Belo: a rapariga de Cambridge»
o que está a acontecer
«O que estava para além, não se sabia; lendas e pensamentos estabeleciam cortina espessa, que vinha das alturas do céu, onde se acendiam as luminárias orientadoras, e, golpeando a enorme massa líquida, descia até profundidades abissais, julgadas sem fim. Proa que aspirasse a rompê-la devia ser de caravela onde apenas gesticulassem heróis ou loucos, votados, por livre desejo, à morte.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do "seu salvador", enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«Eu, que nunca fui poeta, não consigo ignorar o encanto docemente melancólico do crepúsculo, quando a noite desce devagar. Natália avança pela praia, os cabelos em rebuliço, a mão em pala sobre os olhos. Carolina aproxima-se pela outra banda, no seu passo inclinado. Quando as trajectórias de ambas se cruzarem, como dois raios de luz convergentes, as duas mulheres hão-de encarar-se sorridentes, segurando os vestidos que o vento quer levantar.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)
quinta-feira, fevereiro 12, 2026
quarta-feira, fevereiro 11, 2026
2 versos de Antero de Quental
«Pelo mundo procuro um Deus clemente, / Mas a ara só lhe encontro... nua e velha...»
Sonetos Completos (1886) - «Ignoto Deo»
terça-feira, fevereiro 10, 2026
3 versos de Fernando Assis Pacheco
«Eu vi as amantes ensandecerem / com esse peso de Outono. Perderem as forças / com o Outono masculino e sangrento.»
Cuidar dos Vivos (1963) - «Peso de Outono»
segunda-feira, fevereiro 09, 2026
2 versos de José Alberto Oliveira
«Dias turvos e inconsequentes sucedem / a dias inconsequentes e turvos.»
Mais Tarde (2003) - «Proposição»
domingo, fevereiro 08, 2026
sábado, fevereiro 07, 2026
o dever de votar, com alegria
Amanhã exercerei o meu direito e o meu dever de votar por -- que é também um voto contra. António José Seguro não foi o meu candidato na primeira volta, mas é-o agora, pois representa a dignidade e a decência -- palavra muito usada, e apropriadamente.
O meu voto terá, assim, um significado humanista, que não significa outra coisa senão a ideia da dignidade intrínseca de todo e cada ser humano como valor único e irrenunciável.
A única política aceitável e decente é a que acolhe e promove os princípios iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade. A liberdade individual como condição absoluta; a igualdade de partida como condição necessária; a fraternidade humana como ideal a perseguir, sempre. Por isso, irei votar com alegria.
o que está a acontecer
«Moram na viela íngreme e cascosa, que revê humidade em pleno Verão, velhas a quem só restam palavras, presas, alimentadas, encarniçadas, como um doido sobre uma coroa de lata que lhes enche o mundo todo.» Raul Brandão, Húmus (1917)
«Juvenal Gonçalves já o surpreendera, assim, de outras vezes. Mas nunca, como agora, o emocionara tanto, fazendo-o reviver a sensação que deviam ter fruído, outrora, os descobridores, ao ver surgir o arquipélago. Até então, o Atlântico ainda era para os portugueses um elemento masculino, fero e enigmático.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Essa imagem não se ajustava à impressão que eu sentia. Quase no fim da Avenida, tinham os pardais ficado há muito para trás e ainda eu perseguia a ideia rebelde. "Absurda mania", disse comigo, fincando a bengala no passeio. E com imensa surpresa vi-me em frente da casa dos Albalongas.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)
sexta-feira, fevereiro 06, 2026
2 versos de Alberto de Lacerda
«O desejo o horror o terraço a cratera / E ao fundo no fundo mais lúcido das águas»
Opus 7 / Oferenda II (1994)
quinta-feira, fevereiro 05, 2026
2 versos de Rui Knopfli
«Que, transformando-as enfim, o amor das palavras / não corrompa e destrua o amor da verdade.»
O Corpo de Atena (1984)
quarta-feira, fevereiro 04, 2026
cítara, corno, rabeca, sacabucha
ou seja: guitarra, trompa, violino, trombone (de uma entrevista de Pedro Caldeira Cabral ao DN de hoje).
4 versos de Ana Hatherly
«E lançando de meus braços o desejo / não invejo / admiro / a sufocante beleza deste ocaso»
Rilkeana (1999) - «Wer, wenn ich schriee»
terça-feira, fevereiro 03, 2026
1 verso de João Miguel Fernandes Jorge
«cada vez mais azul onde o azul clarece em azul»
Turvos Dizeres (1973) / A Pequena Pátria (2002)
segunda-feira, fevereiro 02, 2026
3 versos de Carlos Matias
«Aves nos pulmões do vento. Vão distantes / da verdade. Acendem, por onde vão, palavras, / cidades.»
Luz Triste (2005)
domingo, fevereiro 01, 2026
o que está a acontecer
«Ràpidamente, atravessei as paralelas sombrias da Baixa, e, mais além, na Avenida da Liberdade, vendo o passeio oriental ainda morno de sol, achei ilógico subir pelo outro lado. Por cima de mim, os cachos de pardais enegreciam os troncos seminus, produzindo uma chilreada compacta. Dir-se-ia emanar das próprias árvores, pensei. Mas logo franzi o nariz. Não. Era outra coisa.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)
«Moram os que enriquecem no fundo das lojas, onde as fazendas petrificaram. Mora aqui o egoísmo que faz da vida um casulo, e a ambição que gasta os dentes por casa, o que enche a existência de rancores e, atrás de ano de chicana, consome outro ano de chicana.» Raul Brandão, Húmus (1917)
«Era vulto apardaçado nos extremos, erguendo, algures para o céu, um mamilo vulcânico e deixando que a sua encosta central se doirasse, suavemente, na luz matutina. Visto de longe, a medrar, a medrar parecia recém-nascido no mistério oceânico, para enlevo de olhos fatigados pela monotonia marítima.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
temas eternos podem dar filme eternos
Se tudo já foi dito, escrito, filmado, o modo de o fazer é tão variável quanto talento de cada indivíduo, passe a lapalissada. E não há como fugir (ou porque fugir) aos chamados temas eternos que nos moldam a vida: amor, família, casa, o que queremos da vida ou o que fizemos dela. Isto está em «Valor Sentimental», de Joachim Trier (1974), filmado com a contenção do pormenor preciso e servido por actores extraordinários e muito bem dirigidos: Renate Reinsve e Stellan Skarsgård* (e também Inga Ibsdotter Lilleaas** e Elle Fanning***).
sexta-feira, janeiro 30, 2026
3 versos de Alexandre Dáskalos
«No compasso de espera, / ainda dia e não sei se noite, / é que acorda o nosso coração.»
Poesia (1961) - «Crepúsculo»
quinta-feira, janeiro 29, 2026
4 versos de Camões
«Nem sou da terra, nem da geração / Das gentes enojosas de Turquia, / Mas sou da forte Europa belicosa; / Busco as terras da Índia tão famosa.»
Os Lusíadas (1572) - Canto I
o que está a acontecer
«Moram os que moem, e remoem e esmoem, os que se fecham à pressa e por dentro com uma mania, e os que se aborrecem um dia, uma semana, um ano, até chegar a hora pacata do solo ou a hora tremenda da morte.» Raul Brandão, Húmus (1917)
I. »Manhã alta, toda vestida de azul, com folhos brancos que o mar tecia e esfarrapava ao sabor da ondulação, a sombra escortinada na linha do horizonte ia crescendo e definindo-se em caprichoso recorte. Mais do que a terra próxima, como queriam os passageiros e a ciência náutica afirmava, dir-se-ia nuvem estática na luminosidade imperante.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
I. «Entreabre-se uma janela - "Este Novembro de 1917 continua frio mas dourado. Por isso eu hoje desci muito devagar a escadaria do banco e me detive a calçar as luvas, mirando a faixa de céu azul que sorria entre os prédios altos. Seria um verdadeiro crime não aproveitar a doçura da tarde...» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)
quarta-feira, janeiro 28, 2026
1 verso de José Fernandes Fafe
«...Mansa, a manhã escorre pelo sono das estrelas,»
A Vigília e o Sonho (1951) - «Ode»
terça-feira, janeiro 27, 2026
quem vota em Ventura, para além dos pobres de espírito?
1. Os traumatizados da História, aqueles que justa e/ou injustamente foram apanhados pelo turbilhão da Revolução e da Descolonização.
2. Os seis intelectuais salazaristas, nem todos assumidos, estes os melhores.
3. Cento e cinquenta nazis dos subúrbios do nosso Portugal.
4. Os ressentidos da vida, os que padecem de inveja social (oh, tantos).
5. Os desertores do CDS, que nunca o convidariam para sua casa nem para a sua mesa quando ele era comentador do Correio da Manha tv (crime e bola), mas que agora exultam com a diabolização dos terríveis últimos cinquenta anos.
7. As patetas das mulheres deles, que entre duas hóstias na igreja de Santo António se arrepiam com tanto imigrante, mas têm a sua nepalesa como criada, a sua brasileira a fazer de babá (ou vice-versa), e até o seu par de ucranianos ou moldavos como caseiros, algures.
8. Os filhinhos, desde cedo treinados para estúpidos e ceo's, que enfim, até votaram Cotrim à primeira volta.
3 versos de Florbela Espanca
«Eu quero viver contigo / Muito juntinhos os dois / O tempo que dura um beijo,»
«Trocando Olhares» (póst., 1994)
zonas de conforto
Vergílio Ferreira: «Vida em superfícies lisas, desinfectadas, vida no instantâneo presente. Vi há dias um filme: Le Viol. Interiores brancos, ou seja, sem cor, móveis sintéticos. E nas paredes, quadros à Mondrian -- a estéril geometria. O tempo -- criação do nosso abandono. O futuro deve inventar uma eternidade à rebours. O instante neutro.» Conta-Corrente 1 (1980) § António Ferro: «Não sou um discípulo de Óscar Wilde. Quando o li pela primeira vez, tive a impressão de que tinha sido plagiado.» Teoria da Indiferença (1920) § Jorge Amado: «Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua.» Navegação de Cabotagem (1992) § Aquilino Ribeiro: «Ia-se à Senhora da lapa, à Senhora da Penha do Vouga, de cruz, estandarte e borracha à tiracolo, no bornal o pão amarelo de azeite e ovos, no merendeiro as trutas do Paiva. Em toda a parte punha ramo a nossa mocidade -- rapazes capazes de arremeter contra uma baioneta, moças a puxar para loirinhas, que por aqui não correu sangue africante.» O Malhadinhas (1922) § Machado de Assis: «Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluídas.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano: «4/I/73 // Exmo Senhor Prof. Doutor Marcello Caetano, / Ilustre Presidente do Conselho // Senhor Presidente, // Como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura encontra-se detido pela DGS em Caxias desde a noite de 31 de Dezembro. A este respeito permita-me V. Ex.ª que leve ao seu conhecimento o seguinte.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. José Freire Antunes
segunda-feira, janeiro 26, 2026
4 versos de Maximiano Gonçalves
«Ao leres, / Ouve a Palavra em silêncio, / Olha o corpo que tem / E prova-lhe o sabor,»
Ouvir a Palavra (2017) - «Ode à Palavra (Ouve a Palavra)»
domingo, janeiro 25, 2026
sábado, janeiro 24, 2026
o que está a acontecer
«Moram as Teles, e as Teles odeiam as Sousas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer cortesias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só têm um fim na existência: estrear todos os semestres um vestido no jardim.» Raul Brandão, Húmus (1917)
«Eu vou à frente, que esse aí está às escuras, tem as janelas de dentro trancadas. Dá como este para o caminho. A cama é alta. É um leito. Antiga, sim. A senhora conhece que é de cana! Pois será, será. Deitaram-lhe esse verniz, também mo disseram.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)
«E a história. E história assim poderá ouvi-la a olhos enxutos a mulher, a criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz consigo do céu um reflexo da divina misericórdia: essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdera honra, reabilitação, pátria, liberdade, irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da mulher que o despertou do seu dormir de inocentes desejos?!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)
sexta-feira, janeiro 23, 2026
4 versos de Ana Hatherly
«Neste ardente ardor / só tu és pausa / fuga / além-palavra»
Volúpsia (1994)
quinta-feira, janeiro 22, 2026
zonas de confronto
Leonid Andreiev: «Assim ficou a dispor de meios com que pagar a sua clínica até se finar, já que o mal era, no parecer dos médicos, um caso sem esperança de cura.» Os Espectros (1904) -- versão de Manuel do Nascimento § Hans Christian Andersen: «Nada melhor achei do que escrever directamente ao meu amigo de juventude, o Sr. Jorge O'Neill, que, depois do falecimento do pai, passara a ser o cônsul da Dinamarca. Assim fiz, e dele recebi a resposta, a que se seguiram outras cartas, renovando nos mais calorosos termos o convite de ir eu também visitá-lo, ver a sua bela pátria, hospedando-me na sua casa e na do irmão, onde estaria como na minha própria, e resolvi tudo aceitar tão bem quanto sentimentos entusiásticos o prometiam -- e cumpriram.» Uma Viagem a Portugal em 1866 (1868) - trad. Silva Duarte § Woody Allen: «Lembro-me de uma noite em que Scott Fitzgerald e a mulher voltavam para casa vindos da festa da passagem do ano. Foi em Abril. Durante os últimos três meses só tinham consumido champanhe e, na semana anterior, vestidos a rigor, tinham lançado o carro ao mar do alto de uma falésia com trinta metros de altura, só por causa de uma teima.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Mikhail Bakunin: «Duas potências apenas existem hoje, e preparam-se para o embate fatal: a potência do passado, representada pelos Estados, e a potência do futuro, representada pelo proletariado. / Que esforço a poderia ainda salvar, não como classe, obviamente, mas como indivíduos? -- A resposta é muito simples: empurrada pela força das coisas para o proletariado, a média e sobretudo a pequena-burguesia deveriam nele entrar livremente, de livre vontade.» O Socialismo Libertário - «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869) - trad. Nuno Messias § Ivo Andrić: «É a partir daqui que as montanhas se alargam bruscamente num anfiteatro irregular, cujo diâmetro não ultrapassa uns quinze quilómetros em linha recta. / Nesse lugar onde o Drina se precipita com toda a impetuosidade das suas águas verdes e espumosas da massa aparentemente fechada das montanhas áridas e negras ergue-se uma ponte de pedra grande e harmoniosamente talhada, com onze arcos de vão largo.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e Dejan Stanković
1 verso de Manuel Alegre
«Darei ao povo o meu poema.»
Praça da Canção (1965) - «Do poeta ao seu povo»
quarta-feira, janeiro 21, 2026
2 versos de António Jacinto
«Ao "desamparinho" da tarde / Os coqueiros são lento adeus»
Sobreviver em Tarrafal de Santiago (1985) - «Saudades»
ucraniana CDIX (e provavelmente a última) - Ucrânia?...
Ao longo de quase quatro anos, a coluna da direita apresentou o texto de um post que escrevi logo no início da guerra e que será retirado nos próximos dias, pois tornou-se obsoleto. Mas continuará, portanto, neste blogue, a documentar o modo como um cidadão comum viu uma guerra fabricada na Europa por uma potência extraeuropeia.
A derrota estrondosa da estratégia delineada pela anterior administração americana arrastou com ela uma União Europeia, que se encontra hoje entalada entre o nacionalismo russo, hostilizado de forma irresponsável, e o imperialismo bandoleiro americano, como se está a ver com o caso da Gronelândia. O resultado não podia ter sido pior para a miserável subserviência europeia; e pior ainda para a Ucrânia, tomada por uma clique às ordens dos americanos.
O que restará da Ucrânia, ainda estamos para ver. O que fica da UE, cujos dirigentes não passaram de peões no jogo de uma superpotência, também.
Sem Nato, já não direi nada a propósito do futuro das repúblicas do Báltico, a não ser que mudem de política interna (minorias russas) e externa, se querem sobreviver incólumes.
E Portugal? Somos vizinhos dos Estados Unidos, como sempre tenho dito; e com os vizinhos convém ter boas relações, e mesmo assim não descansamos quanto aos Açores, atendendo ao cadastro vicinal...
Se os Estados Unidos fazem agora 200 anos, Portugal, em 2028, fará 900 como reino independente de facto, aniversário da Batalha de São Mamede; de jure, é menos 1143 (Tratado de Zamora) que 1179, quando foi emitida a bula Manifestus Probatum, pelo papa Alexandre III.
Em 2026, o Atlântico é crucial para o nosso país (Brasil, Cabo Verde, Angola) e nunca a CPLP foi tão importante. Só precisa mesmo de existir.
terça-feira, janeiro 20, 2026
3 versos de Manuel Bandeira
«-- A Lua / Assoma à crista da montanha. / Em sua luz se banha / A solidão de vozes que segredam...»
A Cinza das Horas (1917) - «Paisagem noturna»
segunda-feira, janeiro 19, 2026
3 versos de Rui Pires Cabral
«A cada país do mapa / uma mancha de cores macias / e a negra capital»
Capitais da Solidão (2006) - «Capitais da solidão»
domingo, janeiro 18, 2026
podia ter sido pior
Depois de grande parte do país ter dispensado os serviços de Gouveia e Melo -- bravos portugueses... --, eis-nos na segunda volta. Seguro, com todos os seus defeitos, pelo menos poupa-nos à rasteirice populista de um tipo que, apesar de doutorado, nem sequer sabe falar sem dar erros gramaticais (e não é o único). Uma lástima que nem todos merecemos.
o que está a acontecer
sábado, janeiro 17, 2026
sexta-feira, janeiro 16, 2026
há o voto em Manuel João Vieira e o voto no tiririca de turno
Manuel João Vieira está longe de ser um palhaço; quem não o conhecia pôde verificá-lo no debate a onze, na RTP. Contudo, já sabemos que grande parte dos que porão a cruzinha ao lado do belo fácies deste artista será a mole de néscios que se rebola de gozo quando vota no tiririca de turno.
Há, no entanto, casos em que o voto em Vieira pode ser inteligente e uma maneira superior de manifestação:
os que desprezam e contestam o Estado e as suas instituições, por exemplo os anarquistas, embora alguns, mais possibilistas, possam votar no que consideram o mal menor -- e aí não há incoerência particularmente grave;
os monárquicos, em especial os monárquicos liberais (em sentido político) também o podem fazer, como é o caso de Luís Coimbra, um dos fundadores do então respeitável PPM, que integra a comissão de honra de Gouveia e Melo; ser contra o regime republicano e ser patriota não tem nada de incompatível;
finalmente, mas mais difícil -- atendendo ao perfil libertário de Manuel João Vieira --, alguns autoritários, saudosistas do salazarismo e afins, que possam preferir tal a fazer os habituais arnaldos nos boletins de voto. Mas esses, no fundo, já têm o seu tiririca; diz-se que vai à frente nas sondagens.
Eu, já agora, reafirmo o meu voto em Gouveia e Melo; este país não está para amadores.
2 versos de Pedro Tamen
«Tento pensar-te acima de menino / pela mão de umas horas assustadas.»
Os Quarenta e Dois Sonetos (1973)
quinta-feira, janeiro 15, 2026
3 versos de José Régio
«Olhámo-nos um dia, / E cada um de nós sonhou que achara / O par que a alma e a carne lhe pedia.»
Poemas de Deus e do Diabo (1925 {1926]) «Adão e Eva»
quarta-feira, janeiro 14, 2026
1 verso de Antero de Quental
«Inundem-me d'amor teus olhos -- céu e luz --»
Primaveras Românticas (1872)
imagine-se Cotrim e os outros quando tudo arde... voto pelo seguro, mas no almirante
Ucrânia? Qual Ucrânia?... Neste momento tudo está a esfrangalhar-se, os imperialismos pujantes, a Europa de calças na mão, desprezada e detestada pela Rússia, esbofeteada pelos Estados Unidos graças à situação em que ela própria se colocou nos últimos anos: não é tanto a autonomia militar que a Europa não tem, mas a sua autonomia estratégica: nunca podendo ser uma entidade política coerente enquanto não se confederar, preferiu ser lacaia da América e comprar a inimizade da Rússia. Tem agora a paga e é bem feito.
Neste quadro de pernas para o ar, não quero ter como presidente um vazios das redes sociais ou um bonzo com décadas de política partidária. Não faço juras por Gouveia e Melo, mas sei que ninguém como ele, dentre os candidatos com possibilidade de eleição está tão preparado para estar à frente do país nestes tempos complicados, nenhum tem como ele o entendimento geohistórico, estratégico e político do país; e, assim o creio, nenhum dos outros terá a força para salvaguardar o país de ser ver enredado em guerras criadas por terceiros, para os outros morrerem por si. E acima de tudo, não tratar o povo português como uma nação de patetas.
O homem cuja acção durante a Covid19 foi um exemplo à escala mundial, o militar experimentado que insiste em não facilitar ou gestores de meia tijela e políticos palavrosos e com pouca substância? Sim, voto pelo seguro, mas no almirante.
terça-feira, janeiro 13, 2026
2 versos de José Alberto Oliveira
«Depois veio a idade do gelo, / Chegou em camionetas Bedford, todas enlameadas,»
Peças Desirmanadas e Outra Mobília (2000) - «Camionetas Bedford»
segunda-feira, janeiro 12, 2026
o que está a acontecer
«Paciência... paciência... Já a mentira é de outra casta, faz-se de mil cores e toda a gente a acha agradável -- Pois sim... pois sim... / Cabem aqui seres que fazem da vida um hábito e que conseguem olhar o céu com indiferença e a vida sem sobressalto, e esta mixórdia de ridículo e de figuras somíticas.» Raul Brandão, Húmus (1917)
«Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As louçanias do coração que ainda não sonha em frutos, e todo se embalsama no perfume das flores! Dezoito anos! O amor daquela idade! A passagem do seio de família, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as carícias mais doces da virgem, que se lhe abra ao lado como flor da mesma sazão e dos mesmos aromas, e à mesma hora da vida!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)
«A senhora está a olhar pra esta sala? É grande, é, e tem esta mobília toda, e tão alta que quase chega ao tecto. Comprámo-la com a casa. Foi quando chegámos da Alemanha, já fez agora um ano. Entre por aqui, entre. Cuidado com o degrau.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)
3 versos de Fernando Assis Pacheco
«acho tudo belo a Primavera no fim as árvores da praça / adormeceria aqui sentado / repleto com a minha meia idade atordoante»
Siquer Este Refúgio (1976) - «Quarto Bairro, Paris»





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