«O que estava para além, não se sabia; lendas e pensamentos estabeleciam cortina espessa, que vinha das alturas do céu, onde se acendiam as luminárias orientadoras, e, golpeando a enorme massa líquida, descia até profundidades abissais, julgadas sem fim. Proa que aspirasse a rompê-la devia ser de caravela onde apenas gesticulassem heróis ou loucos, votados, por livre desejo, à morte.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do "seu salvador", enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«Eu, que nunca fui poeta, não consigo ignorar o encanto docemente melancólico do crepúsculo, quando a noite desce devagar. Natália avança pela praia, os cabelos em rebuliço, a mão em pala sobre os olhos. Carolina aproxima-se pela outra banda, no seu passo inclinado. Quando as trajectórias de ambas se cruzarem, como dois raios de luz convergentes, as duas mulheres hão-de encarar-se sorridentes, segurando os vestidos que o vento quer levantar.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)
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1 comentário:
«Felizmente para os costumes, se não para a toleima, não havia destrinças de apelidos. Sempre assim foi desde o princípio dos tempos na casa lusitana. Por exemplo, o facto dos Sepúlvedas serem quem eram não impedia que outros no mesmo lapso de tempo exercessem o mester de eguariços ou de aguadeiros. A onomástica nacional, não sei se por fas ou por nefas [*], não conheceu exclusivos entre os homens. Seja como for, os Camões não figuram na Sala das Pegas. Mas em heráldica toca-lhes escudo de sinopla, com uma serpe de oiro, lampassada de vermelho, sainte em pala dentre dois penhascos de prata.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
(p. 27) GLOSSÁRIO SUCINTO [*] Elviro da Rocha Gomes
"Fas e por nefas, por" — por qualquer pretexto, por dá cá aquela palha, por tudo e por nada.
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