sexta-feira, outubro 31, 2008

Antologia Improvável #338 - Sidónio Muralha (2)

JOANINHA

A joaninha bonita
que mora a meio do caminho
da rua das violetas
tem um vestido de chita
todo ele encarnadinho
e cheio de bolinhas pretas.

E quando a gente lhe diz:
-- «Joaninha voa, voa,
não me digas que tens medo,
se voas serás feliz
que o teu pai está em Lisboa
foi lá comprar um brinquedo...»

A joaninha responde:
«Se és amigo verdadeiro
não me digas voa, voa,
-- voar sim, mas para onde? --
o meu pai não tem dinheiro
para ter ido a Lisboa...»

E a joaninha bonita
lá se fica no caminho
da rua das violetas
com um vestido de chita
todo ele encarnadinho
e cheio de bolinhas pretas...


Bichos, Bichinhos e Bicharocos

O Vale do Riff - King Crimson, «The Power To Believe - I»

quinta-feira, outubro 30, 2008

caderninho



A razão vigilante não me deixa adormecer na crença, mas a nostalgia de crer impede-me de ressonar no materialismo. Bourbon e Meneses
Novos Solilóquios Espirituais

O Vale do Riff - Jackie McLean, «Quadrangle»

quarta-feira, outubro 29, 2008

terça-feira, outubro 28, 2008

Antologia Improvável #337 - Ana Hatherly (3)

Era uma vez um povo que de tanto caiar a soleira da porta se tornara introspectivo ao ponto de a cabeça lhe entrar pelo peito dentro. A cal grassava pelas ruas e às vezes por sobre os telhados chegando mesmo a cobrir certas torres pintadas de azul. Aí a criminalidade atingia tal grau que se tiravam mesmo algumas fotografias.


351 Tisanas

O Vale do Riff - Aswad, «Roots Rockin'»

segunda-feira, outubro 27, 2008

caderninho

Uma pessoa tem alguns amigos menos do que supõe e alguns mais do que conhece. Hugo von Hofmannsthal
Livro dos Amigos (tradução de José A. Palma Caetano)

O Vale do Riff - Simon & Garfunkel, «Homeward Bound»

domingo, outubro 26, 2008

Figuras de estilo - Eça de Queirós

A poesia contemporânea compõe-se [...] de pequeninas sensibilidades, pequeninamente contadas por pequeninas vozes. O poeta lírico A diz-nos que Elvira lhe dera um lírio numa noite de luar! O poeta lírico B revela-nos que um desespero atroz lhe invade a alma, porque Francisca está nos braços de outro! O poeta lírico C conta-nos uma noite que passou com Eufémia, num caramanchão, olhando os astros e dizendo frases. E no meio das ocupações do nosso tempo, das questões que em roda de nós e em toda a parte se erguem como temerosos pontos de interrogação, estes senhores vêm contar-nos as suas descrençazinhas, ou as suas exaltaçõezinhas! No entanto operários vivem na miséria por essas trapeiras , e gente do campo vive na miséria por essas aldeias! E o Sr. Fulano e o Sr. Cicrano empregam toda a sua acção intelectual em se gabarem que apanharam boninas no prado, para as ir pôr na cuia de Elvira!


Uma Campanha Alegre

dardejado #3



Uma festa agradecida ao cãocompulgas, que também lançou um dardo para aqui. Este Abencerragem, que não está habituado a tantas distinções, envaidece-se...

sábado, outubro 25, 2008

cartoon - The Pink Panther / A Pantera Cor-de-Rosa

Gerry Chiniquy, «Think Before You Pink» (1969)


sexta-feira, outubro 24, 2008

Da morte em vida

Eu digo-te como é a cara dos
que sofrem muito, aqueles
que as tuas lágrimas não
salvam e haviam já
morrido quando
deste por eles.

É a cara da
surpresa pelo
limite do
suportável da
existência há
muito passada -- e
eles vivem, sem
querer viver, contra
eles vivem e
nós miramos de
longe o rosto
da dor a
máscara da
desesperança a
morte em vida.

O Vale do Riff - The Everly Brothers, «Wake Up Little Susie

acordes nocturnos


quinta-feira, outubro 23, 2008

Antologia Improvável #336 - Alexandre O'Neill (9)

A NOITE-VIÚVA

Uma pequena angústia sentida nos joelhos
Como o bater do próprio coração
E é a noite que chega
Não a noite-diamante
Mas a noite-viúva a noite
Sete vezes mais impura do que eu
Em passo obsceno em obscena força
Minúscula perversa venenosa

Escrevo o teu nome
Noite de amor que de longe me defendes
Escrevo o teu nome contra a noite obscena
Que a meu lado espera seduzir-me
Levar-me consigo
À porca solidão onde trabalha
À insónia sem margens ao vinho solitário
Duma pequena angústia
Escrevo todos os teus nomes
Puxo-os para mim tapo-me com eles
Na noite da surpresa
Noite feroz da surpresa
Noite do amor atacado de perto e conseguido
Alto e convulsivo
Noite dos amantes deslumbrados
Iluminados pelo demónio mais puro
Noite como uma punhalada ritual no invisível
Noite da vítima-triunfante

Escrevo o teu nome a meu favor e contra
Esta noite este murmúrio esta invenção atroz
A que chamam o dia-a-dia
Estas quatro minúsculas patas
Venenosas da angústia

Escrevo o teu nome cruel
Puro e definitivo.

No Reino da Dinamarca / Poesias Completas

O Vale do Riff - The Animals, The House Of The Rising Sun

dardejado #2


Desta vez foi o operoso e dos mais consistentes autores da nossa bloga, o velho PCP -- apetece dizer PCP (R), renovado com o seu O Duro das Lamentações --, que, num acto de pura camaradagem, me distinguiu com este galardão. Depois de lhe enviar o devido abraço, por aqui me fico, em homenagem ao vício da preguiça, como ele muito bem salientou (ufa!...).

quarta-feira, outubro 22, 2008

não sei de poema que não seja mar
Manuel Alegre