terça-feira, outubro 14, 2014

adoro dicionários

ABCdário do Antigo Egipto, Guillemette Andreu, Patricia Rigault, Claude Traunecker.  Adoro dicionários temáticos, sínteses estimulantes entre o ponto de situação do tema proposto e a alieatoriedade quase insana com que somos comandados pelos asteriscos, que nos remetem para verbete conexo, dentro duma ordem alfabética...
Aqui, história, política, religião, literatura, artes decorativas e as outras, arqueologia -- a civilização egípcia concentrada em oitenta entradas, precedidos de um breve enquadramento histórico e sucedidos por uma cronologia que abrange do Período Pré-Dinástico (5000 - 3000 a.C.) até ao ocaso da época ptolomaica, em 30 da nossa era, com a conquista romana. Acresce um óptimo acervo iconográfico em bom papel -- que mais se pode pedir? 

segunda-feira, outubro 13, 2014

domingo, outubro 12, 2014

impura de todos / gostarem de mim
Natália Correia

merecer a terra

«A terra daquele cemitério era sua, como a aldeia e tudo o que lhe ficava à volta. E ali era ele quem mandava. Já marcara o lugar para o genro -- seria metido num dos jazigos da família, no dos aparentados, ao pé das mulheres, das crianças e dos homens; de certos homens que disso pouco mais tinham do que o corpo. De cova aberta no chão, bem funda, só os que davam à terra o que ela merecia.»

Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

sábado, outubro 11, 2014

das vítimas da História

O Retorno, Dulce Maria Cardoso (2012). Um bom romance sobre o drama dos chamados retornados -- episódio central do pós-revolução de Abril, em que sobressai o choque cultural e consequente rejeição da "Metrópole", que responde em conformidade. Rejeição sentida principalmente por parte dos jovens, que nunca a haviam conhecido ou dela tinham uma ideia distorcida, porque mitificada, nomeadamente nos programas escolares. Decepção que acarreta um sentimento de impotência e revolta. Todos os que não fomos retornados conhecemos e tivemos parentes que o foram. Eu tenho a idade de Dulce Maria Cardoso, e lembro-me.
Esta é, pois, uma história sobre as vítimas da História, as que foram apanhadas no turbilhão em que, por um lado, se intersectaram as contingências da política interna (Guerra Colonial, Revolução e estado de pré-guerra civil, Descolonização) e, por outro, as dinâmicas geopolíticas decorrentes da Guerra Fria. Demasiado para simples pessoas que a pobreza da "Metrópole" ou o espírito de iniciativa fizeram com que fossem atraídas por essas terras de oportunidade. Daí que o mainstream político retornado espelhe uma enorme hostilidade ao 25 de Abril e àqueles que o protagonizaram, militares e políticos. Os doestos com que mimoseavam Soares e Rosa Coutinho, por exemplo, são expressão patética dessa impotência.
Dulce Maria Cardoso trata o tema, não apenas com mestria literária (a chegada ao Aeroporto da Portela é um dos grandes momentos do livro), mas igualmente com sabedoria autoral, pois O Retorno é um livro que se esforça por não tomar posição. Embora se perceba a inelutabilidade histórica -- e, desse ponto de vista, não há um mínimo de justificação do colonialismo, bem pelo contrário --, o romance é feliz ao dar-nos um perfil perfeitamente normal daqueles que vieram de África: na maioria, gente comum apanhada pelo vórtice da História.
A forma como a autora o veicula é inteligentemente dada através do discurso do protagonista, Rui, um adolescente a quem, nós leitores, permitimos e compreendemos todos os desabafos, todas as invectivas, todas as perplexidades. 

quinta-feira, outubro 09, 2014

a falar macio

«Foi quando Aparício entrou no arraial. Viu o filho à frente dos cangaceiros, de chapéu de couro, de rifle às costas, de punhal atravessado. Os cabras encheram as latadas de risadas, de pabulagens, de histórias de briga. Aparício chegou-se à latada da mãe e tomou-lhe a bênção, manso como um cordeiro. E sentou-se a seu lado, de chapéu na mão, falando macio:»

José Lins do Rego, Cangaceiros (1953)

quarta-feira, outubro 08, 2014

GONE GIRL / EM PARTE INCERTA, de David Fincher (2014)


Chegados ao fim, há uma sensação de algum ludibrio, mas é bem esgalhado, não se fica a chorar tempo e dinheiro. Ben Affleck e Rosamund Pike (ela é especial) fazem bons papéis. Também gostei da ridicularização da "informação" televisiva -- a "tragédia da praia do meco" em tratamento exponencial de estupidez. 
Ver o início para recordar no fim -- talvez o melhor de todo o filme. 






como chapas de vintém

«Nesse comenos, sentiu-se observado: um sujeito franzino, dos seus cinquenta anos,  estava no passo da porta, a mirá-lo com olhinhos piscos e pisados como chapas de vintém.»

Jorge Reis, Matai-vos Uns aos Outros (1962) 

sábado, outubro 04, 2014

LES PLAGES D'AGNÈS / AS PRAIAS D'AGNÈS, Agnès Varda (2008)






Um autodocumentário. Regresso ao passado, através duma genial manipulação (no bom sentido) de imagens que resgatam uma memória pessoal.

sexta-feira, outubro 03, 2014

dos pequenos sismos

Versão de Jorge de Sena, creditada às suas «Obras», com uma magistral «Introdução», apanágio dos trabalhos críticos e ensaísticos do grande escritor.
A poesia de Emily Dickinson (1830-1866) é breve, por vezes quase aforística, e essencial, lembrando, em certas ocasiões -- e embora mais negra -- a de Sophia de Mello Breyner Andresen.
A biografia de Emily Dickinson pouco mais regista além da vivência sem história ("Great Streets of silence led away / To Neighbourhoods of Pause", c.1870)  numa pequena cidade da Nova Inglaterra, ao contrário duma tumultuosa inquietação interior, que surge a cada passo ("This is my letter to the World / That never wrote to Me", c.1862) : as interpelações descrentes a Deus ("Heavenly Father [...] / We apologize to thee / For thine own Duplicity --" c.1879); a incómoda rasura da diferença ("Assent -- and you are sane -- / Demur -- you're straightway dangerous -- / And handled with a chain -- ", c.1862); a ausência do amor ("Wild Nights -- Wild Nights! / Were I with thee / Wild Nights should be / Our luxury!", c.1861)."Your thoughts don't have words everyday", escreveu num apontamento, por volta de 1861, reflectindo esse acontecer do(s) poema(s) por entre a verdejante calma aparente numa casa de família em Amherst, Massachusetts, em que viveu praticamente na obscuridade e ignorada dos seus contemporâneos. 
Há mais mundo na cabeça dum grande poeta do que em qualquer grand tour que um medíocre de ontem e de hoje possa fazer.

quinta-feira, outubro 02, 2014

ainda a algibeira da avó Francisca

«Noutra divisão da prodigiosa algibeira, cabiam as deliciosas línguas-de-gato, biscoitos de Valongo, rosquilhos de Lousada, que nos tornavam mais lambões que obedientes, petisqueiros de tantas guloseimas, havendo de acrescentar-lhes, para nosso regalo, os ladrilhos de marmelada, copinhos de geleia e o arroz doce guardados no armário da copa, travessa de aletria nos domigos, com dois corações pintados a canela que a Joaquina cozinheira garantia serem da avó Francisca carolina e do neto João Maria!»

João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão (1967)

os presidentes usurpadores e o antifascismo pateta

Parece que o Parlamento vai homenagear a República com uma exposição de bustos de todos os presidentes das ditas (I, II e III Repúblicas). A II República, mais conhecida por Estado Novo, deu três para o ramalhete. Três usurpadores, diga-se, pois a participação em simulacros eleitorais que mais não foram do que acções políticas fraudulentas, retirou a Carmona, Craveiro Lopes e Thomaz qualquer legitimidade para o exercício da chefia do Estado.
O caso de Américo Thomaz é especialmente gritante e criminoso. Filipe II (I de Portugal) teve mais legitimidade como chefe do Estado do que Thomaz, que não teve nenhuma. De tal forma, que o cagaço de Salazar com o Humberto Delgado suscitou(-lhe) uma revisão constitucional, em que o PR deixou de ser eleito por sufrágio universal para passar a sê-lo por colégio eleitoral.
Dito isto: expõem-se cem anos de República. O que se faz com presidentes usurpadores e ilegítimos? Varrem-se para debaixo do tapete da História? Não conheço o teor da exposição, mas duvido que seja glorificadora, caso contrário não é uma exposição mas uma acção (canhestra) de propaganda.

Uma ressalva, em tempo: é claro que não me refiro aos resistentes, quando falo em patetice, gente que me merece o maior respeito, mas a certos pinto-calçudos, quase de calções ainda hoje, bradando...

quarta-feira, outubro 01, 2014

1 de Outubro de 1914

fonte
Em "carta lepidóptera" Alfredo Guisado entra no jogo dos heterónimos com Pessoa. Estivera com Caeiro no parque de Mondariz, na Galiza (Guisado era galego...)

«[...] Estivemos falando um pouco. É um indivíduo deveras esquisito. 
Desejaria até que você ou o Sá-Carneiro o conhecesse. Falámos de poetas novos.
Citei-lhe o seu nome e o do Sá-Carneiro, dizendo-me que ele que já os conhecia e que embirrava imenso com a nova escola. Recitei-lhe versos seus e do Sá-Carneiro e o homem parece que não gostou muito, por isso não lhe falei nos meus (versos).»

Fernando Pessoa, Correspondência Inédita
(edição de Manuel Parreira da Silva;
actualização ortográfica minha)

nota de leitura: «Psicopatologia da Vida Quotidiana», de Sigmund Freud (1904)

Um tratado sobre as incidências do lapso, do esquecimento, da ilusão da memória -- daquilo a que o senso comum assimilou no último século como acto falhado, nas pessoas cujo comportamento é considerado normativo, e nos quais Freud identifica variadíssimas razões para a intervenção do subconsciente nessas armadilhas quotidianas.
Houve dois aspectos que me impressionaram enquanto leitor leigo: primeiro, a coragem do autor em dar-se a si próprio como exemplo, em numerosas ocasiões; e as múltiplas vezes em que esses exemplos foram recolhidos na Literatura, evidenciando que, antes da psicanálise, os escritores (os poetas, na expressão de Freud) já haviam intuído que por detrás de acções e comportamentos aparentemente anódinos ou acidentais com desfechos dramáticos, poderia haver uma intenção inconsciente

terça-feira, setembro 30, 2014

da bolsa da avó Francisca

«Por baixo da grande saia rodada, a avó Francisca prendia uma enorme algibeira, da qual tirava as coisas mais incríveis: a caixinha de prata do simonte, o branco lenço de linho para assoar, que o tabaqueiro era vermelho, de meio côvado, e com ramagens, metido na cintura sob o avental; um molho de chaves pequenas e vários tamanhos para as gavetas do toucador, dos armários das cómodas; o rosário de caroços de azeitona das oliveiras que deram sombra ao meigo e triste Nazareno, e seu crucifixo de metal amarelo, que o Reitor do Ermeiro lhe trouxe da Terra Santa e foi benzido pelo Patriarca de Jerusalém; a bolsinha de malha de prata para os tostões e as outras moedas de valor, um saquitel de pano com os trocos de cobre e a chave dourada do oratório D. João V que tinha um Cristo de marfim, muita da devoção da mãe da avó Francisca e ao qual a piedosa senhora fizera a promessa de lâmpada perpétua por o marido voltar são e escorreito das guerras do Napoleão.»

João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão (1967)