terça-feira, setembro 16, 2014

a vida, um milagre incompreensível

A categoria "romance histórico" está de tal modo gasta e desacreditada, que classificar como tal A Ponte Sobre o Drina (1945), de Ivo Andrić, constituiria um afunilar sem sentido de um grande romance -- um daqueles livros que enformam a cultura europeia e a civilização ocidental.  "Como, ocidental?", perguntarão os mais apressados que saibam do que se trata, -- "como, se o pano de fundo é a Bósnia, durante séculos otomana, tornada austríaca já muito dentro do século XIX, iugoslava, finalmente, após a Grande Guerra?"
"Ocidental, pois", digo eu, porque se desenrola numa zona de fronteira, em que se entrecruzam e convivem as três religiões do Livro, e porque desde o conceito do limes romano a Europa sempre se construiu no confronto-entendimento com o outro tornado próprio (os chamados bárbaros germânicos são disso a melhor ilustração).
Existe essa ponte (hoje, património da Unesco), mandada construir por Mehemed-Paxá, um antigo janízaro (tropa de elite de infantaria do sultão, recrutada coercivamente por entre as crianças cristãs); um sérvio que se alcandorou a grão-vizir (primeiro-ministro) do Império Otomano, cargo que ocupou durante catorze anos (1565-1579), até à sua morte, e durante a época de ouro imperial turca. Mehemed-Paxá era natural duma aldeia nas cercanias de Višegrad (hoje integrante da República Sérvia da Bósnia), e a ponte edificada torna-se via obrigatória de circulação entre Oriente e Ocidente. Sob a sua égide se desenrola este romance, abrangendo cerca de quatro séculos e uma multiplicidade de histórias de vida: «Muitos, muitíssimos de nós sentámo-nos ali, pousados sobre esta pedra bem talhada e polida, e, perante eternos jogos de luz nas montanhas e das nuvens do céu, desenredámos os fios dos anónimos destinos das gentes da cidade, eternamente os mesmos, mas eternamente emaranhados de uma nova maneira.»  
 A Ponte Sobre o Drina, ao longo da suas 380 páginas, faz-nos reflectir também sobre a acção do tempo, tão corrosiva no que respeita a sistemas de governo e a ideologias e tão lenta no transformar da essência humana, sabiamente reflectida naquilo que o escritor nos dá como «a filosofia inconsciente da cidade: a vida é um milagre incompreensível, porque se consome e dilui sem cessar, todavia continua rija e sólida "como a ponte sobre o Drina".» Andrić (Prémio Nobel de 1961) é um escritor fino, inteligente e brilhante;  

e Deus, onde está?

«Será este, Senhor, o dia do teu juízo, em que os cadáveres permanecerão insepultos; em que o céu se retira como um livro que se enrola; em que os anjos vaguearão nos ares e sete pragas lançarão; em que os selos serão quebrados; em que o fogo descerá sobre nós e em que os quatro cavaleiros, Senhor, os quatro cavaleiros do fim dos tempos, nos revelarão o estigma da nossa própria iniquidade? Onde estão, Senhor, os teus sinais? Os teus sinais, Senhor, que ninguém vê nunca, quando os julga ver em toda a parte?»

Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348 (1990)

segunda-feira, setembro 15, 2014

A Escócia e os escroques do costume


À medida que quinta-feira se aproxima com toda a sua incerteza, cresce a pressão dos rapinantes do costume. Companhias e bancos ameaçam abandonar a Escócia, se ganhar o 'sim' à separação do Reino Unido. Como se um país com população semelhante em número à da Irlanda republicana, com as reservas petrolíferas que detém e com uma cultura universalmente reconhecível e admirada pudesse estar sujeita aos caprichos dos mercenários da finança e dos mercados...
Mesmo que vença o 'não', será, tudo o indica, uma vitória tangencial, o que significará que metade do eleitorado, a que se junta, no lado unionista, uma percentagem inquantificável que votará 'não' por desígnio político e não meramente utilitário -- significará que mais de metade dos escoceses  responderá com o devido desprezo aos argentários a soldo, gente de má fama.

P.S. A postura da rainha tem sido politicamente sábia -- além disso, a questão do regime, de momento, não está em causa. Obviamente, ela é contra a secessão; mas também sabe que a legitimidade histórica da sua dinastia não é inglesa, mas escocesa, pois Isabel II é uma Stuart. Questão politicamente complexa, simbolicamente nem por isso.

o segredo

«Foi justamente você quem no começo deste ano me revelou um segredo de que eu nunca tinha chegado a suspeitar. E me confiou mesmo a fórmula de certas circunstâncias indispensáveis à existência de um "amor feliz":
"Uma pessoa casada... só com outra pessoa casada."»

David Mourão-Ferreira,Um Amor Feliz (1986) 

sábado, setembro 13, 2014

estampa CLXXXIII - Willem de Kooning


Duas Mulheres no Campo (1954)
Hirshhorn Museu and Sculpture Garden, Washington

nas dobras da ventania

«O caudal da chuva parecia ter aumentado, a avaliar pelo som contínuo e crescente que se ouvia num trepidar rufado para lá dos vidros, mas trespassava-o a sereia de uma ambulância a desenrolar-se desesperadamente nas dobras da ventania.»

Vasco Graça Moura, Naufrágio de Sepúlveda (1988)

sexta-feira, setembro 12, 2014

o Alfa Romeo num saco de plástico

«O engenheiro reagia como se tudo ali no prédio lhe pertencesse, desde a porteira às caixas do correio e ao guarda-nocturno. A sua tirania abrangia os decibéis de quem regulasse o aparelho de rádio ou a TV para ouvir uma orquestra mais puxada à barulhaça. Todo fanicos, o tipo. Mas tinha um Alfa Romeo  de se lhe tirar o chapéu, que protegia metodicamente dos orvalhos com um resguardo de plástico. Enquanto os vizinhos se mofam, de manhã, para espevitar os motores, ele, triunfante e sarcástico, punha aquilo a estrondear ao primeiro contacto.»

Fernando Namora, O Rio Triste (1982)

quarta-feira, setembro 10, 2014

o nosso íntimo pessoal

«O nosso íntimo pessoal é de ordem humana, estética e sagrada. Serve apenas o próprio. É o seu único caminho. O melhor que se pode fazer em favor de qualquer é ajudá-lo a entregar-se a si mesmo. Com o seu íntimo pessoal cada um poderá estar em toda a parte, sejam quais forem as condições sociais, as mais favoráveis e as mais adversas. Sem ele, nem para fazer número se aproveita ninguém.»

Almada Negreiros, Nome de Guerra (1938)

terça-feira, setembro 09, 2014

dois fora-de-série

Dois fora-de-série, dois geniais, Chico Buarque e Gilberto Gil (vi ambos no Coliseu, com uns trinta anos de intervalo...). A autoria está repartida, embora me pareça que a letra é claramente buarquiana quanto ao fundo, mas também pela forma exímia da rima interna. A música é limpidamente de Gil, com uma alegria e um balanço inconfundíveis.
Do álbum Chico Buarque (1989).



Fender vs. Gibson: Rick Parfitt e Andy Powell



domingo, setembro 07, 2014

sábado, setembro 06, 2014

Mistérios a pouco e pouco vão morrendo
Edmundo de Bettencourt

sexta-feira, setembro 05, 2014

ninguém como ele, Satchmo dixit

Louis Armstrong terá dito que ninguém tocava como Bix. E se ele o disse, está chancelado. Ouçam bem esta fera de curta vida (1903-1931) e à trompete, em gravação de 5 de Outubro de 1927. 

sem fazer batota

«Russell, com a sua prosa esbelta, voltaireana e saudavelmente impertinente, lavava-me dos contorcionismos característicos do pior que se fazia nas universidades e desnudava, sem pudor, uma inteligência destemida, que não precisava de uma toilette pedante e, afinal, pirosa, para se impor. Por essa altura também desencantei numa estante não muito ostensiva da "Minerva Central", que voltei a visitar com regularidade, um exemplar, de poche, que ainda conservo, do romance La Peste, de Camus. A beleza descascada do seu estilo solar (mas que não evitava a sombra), a honestidade nua e sedutora daquela linguagem e daquelas emoções -- tudo, mas tudo ia direito ao alvo, sem fazer batota.»

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula -- Memórias-III-Lourenço Marques Revisited (1955-1976) (2013)

quinta-feira, setembro 04, 2014

Beethoven

Da grande traição  que foi a surdez, a 5.ª alterna entre a revolta e a confiança. Este scherzo parece-me ser a transição entre os dois estados de espírito dessa grande força que foi Beethoven. A minha versão é a de von Karajan, talvez mais luminosa que a de Toscanini, que deixo em baixo.

quarta-feira, setembro 03, 2014

nenhum era o menino jesus

«Nunca fora um daqueles mendigos certos, submissos, de carreira e clientela. Havia-os aos bandos, ou calcorreando em bicha de segunda a sábado, por esse Portugal. Aos domingos paravam às portas das igrejas. A missa estimulava a bondade. Trocavam entre si a memória de lamúrias e desenganos, para contar às pessoas sensíveis. Algumas famílias tinham o seu pobrezinho de estimação, reservando-lhes as melhores moedas, com um prato  de sopa e um naco de pão. Os miseráveis atraíam mais os miúdos, que os esperavam à porta de casa em excitação e curiosidade. Mas não era, nenhum deles, o Menino Jesus.»
José de Matos-Cruz, os EntreTantos (2003)

L'amour looks something like you

Do álbum de estreia, The Kick Inside (1978), cheio de músicos da cena prog e transbordante de aplomb, como este L'Amour... demonstra.
Junto uma versão do Quintana Ensemble -- precedida duma composição do compositor barroco morávio Gottfried Finger -- com a bela voz da harpista checa Katerina Ghannuda e uma interessantíssima versão dum harpista italiano, que, no YouTube, se identifica como Jongleurz.


terça-feira, setembro 02, 2014

um estado crónico e manso

«Foram quatro anos de luta incessante. Depois, a hostilidade prolongou-se, mas num estado crónico e manso, como sucedia geralmente às guerras europeias antes do fim do século XVIII.»

Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I (1891)

o zumbido do mar

«Toda a memória lhe vem das janelas em guilhotina da 1.ª Classe, para onde tantas vezes olhou em vão, na esperança de que viessem socorrê-la. As irmãzinhas haviam-na abandonado num camarote sem ar e sem vigias: uma luz mortuária por cima da cabeça, sacos de plástico para o enjoo arrumados numa bolsinha fatídica, o beliche estreito e a mistura dos cheiros que só existem nos barcos -- salitre, tintas quentes e o amoníaco entorpecente das latrinas muito próximas. Dos porões, chegavam-lhe aos ouvidos atordoados o choro das vacas e das cabras, os urros dos vómitos e o lamento contínuo de muitas outras mulheres. Depois entrara nela o zumbido que o mar transmite às paredes trémulas dos barcos.»
João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988)

segunda-feira, setembro 01, 2014