quarta-feira, setembro 11, 2013

terça-feira, setembro 10, 2013

segunda-feira, setembro 09, 2013

músicas grandes - Freiburg Baroque Orchestra

Adagio do Concerto Brandeburguês #1
Johann Sebastian Bach

Cesário Évora & Frank Marluce

Eu sei que no melhor pano cai a nódoa; e também sei que o jornalismo é feito sempre a correr. Mas, que diabo!, não podia o Expresso ter uma revisão mais cuidada e esclarecida? É que na última Revista, a propósito da (inevitavelmente) discutível lista dos "100 Portugueses -- Figuras que moldaram o século XX", no texto sobre Carlos Paredes, citando-se o poeta de Lisboa, Cesário Verde aparece como "Cesário Évora"; e na evocação de Melo Antunes, Frank Carlucci, embaixador americano durante o PREC, ganha o inusitado apelido "Marluce". Não sei se José Pedro Castanheira -- de resto, um dos melhores jornalistas portugueses -- estaria a estranhar que na segunda divisão dessa lista de 100 portugueses notáveis surgisse, como surgiu (e isto nada tem que ver com o caso Casa Pia), o nome de Carlos Cruz... 

sexta-feira, setembro 06, 2013

VISITA À MÃE

Tiro do último JL este extraordinário Visita à Mãe, de João Abel Manta.
A mãe era a pintora Clementina Carneiro de Moura, a mesma que aparece no esplêndido Jogo de Damas, do seu marido, Abel Manta. Todos estes Mantas, mais a filha do primeiro e neta dos segundo, Isabel Manta, estarão em exposição, a partir do dia 13, no Centro Cultural de Cascais.

Extraio, também, um fragmento das declarações de Júlio Pomar, a propósito desta notável família: «Dentro da Lisboa culta da altura, a família Manta tinha uma posição de destaque. [...] É difícil transmitir hoje o que foi o Estado Novo. Portugal era um país extremamente fechado, com uma vida cultural clandestina, e dentro deste clima havia 'ilhas? que mantinham uma posição acima dessa linha muito baixa. A família Manta era uma dessas 'ilhas'.»

quinta-feira, setembro 05, 2013

JornaL - Van Dyke Parks

«I have always tried to make this world a beautiful place, but in the process, heads must roll!»

Prog #37,
Jul. 2013

quarta-feira, setembro 04, 2013

Outros, felizes, sejam rouxinóis... / Eu ergo a voz assim, num desafio
Miguel Torga

já agora, sobre o piropo

Preferia que se distinguisse o piropo do assédio verbal. Em primeiro lugar, porque piropo é uma palavra  gira e boa de se dizer; depois porque num jogo de sedução (passe a banalidade) entre dois adultos, o piropo é mais do que inevitável. Isto não tem nada que ver com a boca dos andaimes ou das portas da tabernas. Nem se lhe deve chamar piropo, mas agressão ou assédio verbal. Lastimável de boçalidade quando atirado a uma mulher adulta, qualquer coisa como um arroto; altamente condenável se se tratar duma adolescente, e deveria ser criminalizável, quando a javardice recaísse numa criança. Isto não é piropo, é agressão, e intolerável.

Sem querer fazer sociologia barata, trata-se em grande parte dum efeito da terrível condição da generalidade dos portugueses: primitivos, rústicos, incivis, consequência da sua secular condição servil e subalterna, pela ausência de um mínimo de educação e condições de vida, assim era o país até 1974. Esta realidade não se altera em uma geração: 40 anos depois do 25 de Abril, a paisagem dominante já não é de trolhas, criadas de servir e trabalhadores rurais; mas eles aí estão, e os filhos que pariram e que, em muitos casos, não souberam (não podiam saber) formar -- agora com os últimos gadgets, muitos com passagem pela universidade, mas sem ponta por onde se lhes pegue. Basta ver a preeminência dos futebóis e todas as merdinhas que lhes estão associadas, ou a quantidade de gente que vive a vida dos outros nesses pasquins ditos cor-de-rosa; basta ver a falta de qualidade dos nossos canais noticiosos, supostamente destinados a uma elite. O vulgar, o brejeiro são ainda a nossa realidade quotidiana. Outra coisa, só por milagre. 

JornaL - Will Sergeant

«If I were stuck on a desert island, I wouldn't take Never Mind The Bollocks, it'd be Meddle or Foxtrot. That kind of music keeps your brain going.»

Prog #37, Jul. 2013,
entrevista a Rob Hughes

terça-feira, setembro 03, 2013

Antologia Improvável -- Júlio Evangelista

ARRÁBIDA

O vento bate na face
De quem sobe àquela serra.
Vento que por ali erra
Bate na face a quem passe
Perto do cimo da serra.

Bate forte, o vento forte,
Chicoteando com força,
Ao vir das bandas do norte,
Chicoteando com força,
Dono da serra e da morte.

Consente, vento, que eu passe
Pelo alto desta serra
E não me batas na face
Porque, se mais não bastasse,
Basta eu ser da tua terra.

Não grites assim tão forte
Nem te exaltes contra mim,
Porque eu também sou do norte:
Donde tu vens, também vim,
Vento que ventas do norte.

Venho ver frei Agostinho;
Trazer ao Frade saudades
Das verdes terras do Minho:
Venho falar de saudades
Com o Poeta Agostinho.

Morreu o Sebastião
Que lhe falava, falava,
Das coisas do coração.
E o frade está desolado
Era quase como um irmão!...

Ele mora ali em cima
E a conversa não demora.
Venho falar-lhe do Lima,
Venho falar-lhe de Ponte,
E outras coisas que ele ignora.

Regresso depois ao Minho,
Vento que sopras do norte
E guardas Frei Agostinho.
Se um dia quiser recados,
Traze-los tu, vento norte?


Arrábida, 8/3/53


António Mateus Vilhena e Daniel Pires,
A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa

o que tinha Jorge Amado?

Jorge Amado tinha 24 anos no ano de Mar Morto (1936), e já publicara Jubiabá, entre outros. Tinha o calo de vida vivida e formação cultural e académica. E tinha a prática de boémia dos jornais, o conhecimento directo das suas putas, dos seus vagabundos, dos coronéis da família e dos seus jagunços. Tinha uma consciência política e já uma ortodoxia de que só se libertará vinte anos mais tarde -- mas que felizmente não surge aqui. Tinha uma aguda percepção do que era, ou de como devia ser, o romance: viril, poeticamente viril.
Ei-lo que avisa, antes de a narrativa se iniciar: «Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia.» Os trabalhadores e os marginais, por vezes uma e a mesma coisa: «O povo de Iemanjá tem muito que contar.» Ele é o veículo dessas histórias de luta, amor e morte, anunciando-as em nota prévia e para a praça pública -- como um autor de literatura de cordel, um vendedor de almanaques pelas feiras: «Vinde ouvir essas histórias e essas canções.» Nem poeta mimoso nem romancista funcionário ou jornalista vendido; Jorge Amado dessacraliza-se como escritor; e com essa verdade inocente, já era grande aos 24 anos.

edição: Livros de Bolso Europa-América, 4.ª ed., Mem Martins, s.d.

JornaL - Pat Metheny

«If you are the best guy in the band you are in, you are probably in the wrong band.»

a Sid Smith
Prog #37,
Julho 2013

segunda-feira, setembro 02, 2013

foice-feixe-forquilha-carro

Tempo de colheita para os servos. As mãos cruzam-se, afanosas, foice-feixes de trigo-forquilha-carro de bois. O tempo está quente, e o característico rugoso do traço de Hermann mais sobressai. Na vinheta central da primeira prancha todos labutam, excepto um cão deitado ao lado dum canjirão ou jarro semelhante. Todos, menos Babette, em primeiro plano, que estaca olhando enlevada para fora do quadro. Observada pelo irmão, no cimo dos molhos de trigo, o pai é alertado: "Tenho a impressão de que a Babette tem outra paixoneta aí pelos bosques." Foice em punho, o chefe da família, sorrateiro, descobre e enxota o intruso, também ele especado, voltando-se depois para Babette na intenção de arriar-lhe o bastão. Subitamente, enquanto a rapariga ensaia a fuga floresta adentro, irrompe um veado espavorido do arvoredo, ouve-se um sopro de caça, cães e logo atrás cavaleiros avançam a galope pelo campo de trigo, espezinhando as espigas.

Hermann, As Torres de Bois-Maury -- Babette (1985), pranchas 1-2  

sinestesia minhota: Ruben A., A TORRE DA BARBELA (1964) #4

E depois há o estilo, preciso, límpido e contido do paisagista Ruben A., como neste parágrafo magistral, em que o narrador se posta ao cimo da torre triangular, pondo-nos diante dos olhos um horizonte minhoto, e cuja sinestesia passámos a compartilhar com os turistas domésticos:

«Respirava-se um ar vivaz que nos poros mais fechados entrava, descarado, à procura de infiltrações para uma dilatação alegre. Defronte, a serra de Arga desdobrava-se em matizes que deixavam ver lugarejos a deitar fumos pelas frinchas de telhados com remendos, e raro em raro, navegava um barquito de viagem a Ponte de Lima e aos Arcos, ajoujado de pipas, sacos de batatas, caixotes de sabão em barra e vassouras empalhadas.» (p. 11)

Um estilo que, neste particular, me lembra muito o de Ferreira de Castro.

edição: Círculo de Leitores, Lisboa, 1988

domingo, setembro 01, 2013

a campanha pelo Colégio Militar

Muito boa, esta campanha em defesa do Colégio Militar. Nunca lá andei, embora familiares e amigos o frequentassem. Não tenho com ele qualquer identificação, nem especiais simpatias ou antipatias. Gosto de ver a sociedade civil enfrentar o terrorismo de estado protagonizado pelo governo, seja o Colégio Militar ou a Maternidade Alfredo da Costa.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Síria (2): já não estou interessado nas provas do ataque químico, isto chega-me.

entre digestões e Salazar: Ruben A., A TORRE DA BARBELA (1964) #3

Ainda a procissão ia no adro, ou melhor: ainda era de dia -- o período mais desinteressante na velha Torre da Barbela --, os poucos visitantes "do costume" iniciavam a ascenção dos seus 32 metros, e já o narrador pusera o caseiro-guia, muito despachado nas suas "lérias de almanaque", em "ascrições latinas", pedras de "prumitiba" ou mortes por "adigestão" para impressionar os excursionistas, que rapidamente se desvanecerão, sem outro interesse na narrativa que não fosse o de pontuar a vetustez e decorrente interesse patrimonial do edifício -- como seria de esperar dum grupo de de excursionistas.
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam  as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)
Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.
"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.

edição: Lisboa, Círculo de Leitores, 1988

Síria: provas, queremos provas

Que o regime de Bashar al-Assad é capaz de atacar a população com armar químicas, não tenho qualquer dúvida; que uma parte da oposição o poderia também fazer, nomeadamente os elementos da/pró al-Qaeda, parece-me evidente. Que as lideranças ocidentais mostram demasiada pressa em intervir, sem que a opinião pública mundial veja confirmada, até agora, qualquer responsabilidade a cada um dos lados, é altamente suspeito, dado o historial recente de infâmia dos Estados Unidos e da Inglaterra, em particular, no que respeita ao Iraque.

Francamente, não me importa que haja intervenção à margem do Direito Internacional se existirem provas contra o regime sírio. Não havendo, tudo não passará de manipulação grosseira e/ ou duvidosas e débeis convicções.