«No Talasnal o Emílio Riço já nos noventa e seis anos de idade morreu com a boca cheia de moscas a apanhar o sol da tarde, e a mulher foi dali levada à força para um asilo da Lousã, mais cega do que uma fraga e com o juízo de todo varrido da cabeça, porque também com mais de noventa anos punha de fora da blusa os sacos vazios das mamas e gritava, Olívia de Ataíde, pura e bela!,» Ascêncio de Freitas, A Noite dos Caranguejos (2003)
«E de repente dobra o ângulo oposto da casa, vem direita a mim. Um breve ruflar de saias compridas no silêncio, desliza imperceptivelmente, traz um molho de couves num braçado, tia Luísa. / -- Já vieste, Paulinho? / Pára um pouco ao pé de mim. / -- Estás morta! -- grito-lhe eu para o espaço em redor.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«Alguns tentaram abrir as conservas com as chaves apropriadas, mas não conseguiram melhor que esventrá-las depois de terem cortados os dedos nos irregulares e afiados rebordos metálicos. / -- Quem lhes metesse as chaves d'arame pas goelas a baixo! -- resmungou um gigante fardado, grande como um eucalipto, de olhos pequenos e redondos, mal encaixados pela testa curta, as maçãs do rosto avermelhadas e que transmitia a ingenuidade do sorriso de uma criança própria dos simples de espírito.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
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1 comentário:
«A única passagem na obra de Camões que se poderia invocar como constituindo um documento de fidalguia, aquela 'Petição de huma nobre moça' em que se diz: a eu ser nobre tendo algum respeito, está fora de causa pelo facto de pertencer, segundo as melhores presunções, a D. Álvaro de Lencastre, duque de Aveiro, que também versejava. Versejava e versejava mal. Podiam ser de Camões, que tinha o sentido apurado do epíteto, não falando do ritmo embalador das sílabas sucedendo-se, como numa bica de água as moléculas da linfa, em toada ininterrupta e harmoniosa, estes versos:
Eu, certo, não duvido que o piloto,
O mestre, o marinheiro, o capitão
Usem do costumado vício roto
Com todas as que em seu poder vão;
Dai-me vós, Senhor, um que estê remoto
De tal delito, nesta ocasião,
E eu direi ser falso o que vos digo,
Tomando sobre mim todo o castigo.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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