« -- Se quiserem comer comam, se não, comam merda, mas não façam barulho. Julgam que estão na catequese, mas já vão ver como elas mordem!... / Os soldados calaram-se durante uns momentos e prepararam-se para comer, limpando as facas de mato às calças ou enterrando a comprida lâmina na terra seca a fazer de esfregão.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
«O carro acelera na tarde quente, a areia da alameda range. Paro, desligo o motor, um silêncio mais desértico. E um pequeno susto insinuado às coisas. São três malas apenas, o resto virá depois. Tomo duas, subo o balcão até meio, vou buscar depois a outra.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«não nos hão-de convencer que volte a censura, isso seria uma desumanidade e agora somos europeus. qualquer iniquidade do nosso peculiar espírito há-de ser corrigida pela europa, para sempre. isto é que é uma conquista. e é como respirar, existir oxigénio e usarmos os pulmões, não se mete requerimento, faz-se e fica feito e não passa pela cabeça de ninguém que seja de outro modo.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)
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1 comentário:
«Também poeta, atrevera-se a entrar uma vez furtivamente no redil do Paço da Ribeira reservado às damas. Decerto que não lhes foi entregar nenhum vilancete ou rosário para rezarem o terço. Entrou como o lobo no rebanho. Que donzela ou camareira abocanhou? Sabe-se apenas que foi preso e exilado.
Luís de Camões manteve com ele, poeta de água doce, relações pessoais sem que se despartisse da discreta distância. No terreno das letras podia aceitar-se o sainete do festim ao estilo de Trimalcião sem que cada um desmerecesse da sua qualidade.
A mesma vénia observa para com D. Manuel de Portugal, cujo arrimo busca em determinado momento. Sem ser servil, Luís de Camões nunca o é, palpita-se o homem que aceita o lugar de benevolência que lhe reserva a preestabelecida ordem das classes. Numa palavra, sobrenada nestas relações a cortesia sui generis do escudeiro-fidalgo. Para um príncipe das letras é de considerar.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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