I
Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) –
revista para gente civilizada e para civilizar gente
Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha
a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o
banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor
de que o é.
Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não
alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando
com a decadência do país, que vem do século anterior.
Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele
evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti,
um futuro fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo,
ruralismo, seminarismo…
E detestava ainda mais todas as ideias democráticas,
revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.
Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos”
anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)
II
Senão, vejamos:
a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio
deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação,
uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado
por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se
preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis
com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do
que pelo engano, pela exploração dos outros.
Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar
o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou
comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas
isso já lhe estragaria o argumentário.
Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio,
reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como
algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é
uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo
burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite
ou para as elites.
Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista,
que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro
pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa
que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la,
garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.
Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente
ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria
ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela
larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e
marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.
Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém
do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das
suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de
um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde
a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o
geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja
Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário,
filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista
avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?
A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão
errados; logo, a conclusão é falsa.
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