«São 17 deste mês de Julho, ano de graça de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«E, assim que a noite se fechava, e a lâmpada do altar vasquejava os lampejos finais, ninguém se afoitava a transitar naquelas ruas de encruzilhada, desde que se divulgou que os demónios, a horas mortas, marinhavam, como bugios, pelo barrote onde a cabeça do regicida apodrecia.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
«A ambição não avança um pé sem ter o outro assente. a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos. Na aparência é a insignificância a lei da vida: é a insignificância que governa a vila.» Raul Brandão, Húmus (1917)
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1 comentário:
«Foi, portanto, um homem profundamente desditoso. A infelicidade cava-se por nossas mãos, mas também se recebe por herança. Herda-se, como uma geba, na desfortuna paterna e obscuridade de geração; herdava-se sobretudo na época em que Camões veio ao mundo, de predomínio do indivíduo privilegiado pelo sangue. Então o poeta não era destes? Numa coisa os registos da Casa da Índia falam alto e concordes: Luís de Camões era escudeiro. Naquele século, o mundo que se prezava, e particularmente Portugal, repartia-se em fidalgos e vilões. Pois que o poeta não era escravo como Esopo, nem moço de bispo como Afonso Álvares, nem ourives como Gil Vicente, muito menos hortelão ou calafate, que categoria lhe respeitava a meio da legião inumerável dos filhos de algo?»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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