terça-feira, agosto 18, 2026

o que está a acontecer

«Além das matérias pagas, os jornais do Rio e de São Paulo divulgaram algum noticiário sobre os eventos principais que abrilhantaram os festejos, com destaque para as cerimônias, ambas solenes, da inauguração dos bustos do coronel Prudêncio de Aguiar e do doutor Inácio Pereira, erguidos um em cada praça, a da Prefeitura e a da Matriz.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984)

«As casas encardidas do litoral, com seus tectos de colmo e adobes de uma argamassa em tudo semelhante ao barro amassado em sangue, desciam em três fiadas até ao fundo do vale. Aí se enlaçavam umas nas outras, ao longo de canadas tortuosas, através das quais seria milagre a passagem de uma junta de bois atrelada ao tiro das carroças.» João de Melo, O Meu Mundo não É deste Reino (1983)

«As suas casitas estendiam-se junto à riba, branquejando entre a paisagem e sugerindo uma vida tão plena de claridade como modesta; mas haviam crescido em número, sim, pois Juvenal pudera contar muito mais do que na época, já distante, em que viera com a família passar o Estio na vila Baleira.»  Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

2 versos de Gastão Cruz

«os versos partem para a humanidade / mas a humanidade para onde parte?» 

 «Luz Geral», Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

segunda-feira, agosto 17, 2026

3 versos de Diogo Vaz Pinto

«essas coxas, meias de malha, mãos / de louça antiga, sardas e / que boca, que madrugada adolescente.» 

Resumo - A Poesia em 2012 (2013) 

Volta a Portugal em escritores: Beja

 


Pe. José Agostinho de Macedo

(Salvador, Beja, 11-IX-1761)






domingo, agosto 16, 2026

o que está a acontecer

«O rio que acabei de cruzar no último ferry apanhado no aeroporto de Hong Kong, nesta tarde de tufão, já com o sinal três de tempestade tropical hasteado. Viagem de enjoo, sobressalto constante, a surfar as vagas, numa alucinada vertigem.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (2026) 

«Que requintes de luxo para o corpo, e anelos de glória para a felicidade do espírito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existência, quando ele escrevia: Héritiers des douleurs, victimes de la vie, / Non, non, n'espérez pas que sa rage assouvie / Endorme le Malheur,» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

«Ele olhava, bestificado, as camas de ferro, os armários a pedir cadeado, as lajes frias e os colegas a despirem-se com ares de condenados. / -- Qual Cavalaria? -- perguntou com um ar imbecil -- Isto até me parece muito asseado. / -- A gente depois conversa. -- rosnou o Zé puxando a manta até aos olhos.» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984) 

6 versos de Alberto Pimenta

«também me parece / que muitos poetas  / não querem dizer / o que dizem / quando dizem / o que querem»

 Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

o que a Frederiksen deveria ter dito ao lado da Meloni

 A propósito da rebaldaria de Ceuta, com evidente intervenção da CIA -- só um anjinho não o vê --, não sei se em joint venture  com a Mossad e a cumplicidade vergonhosa do próprio Marrocos em dia de aniversário de entronização de Mohamed VI, que deveria pintar a cara de preto, por monarca de um reino de onde os súbditos querem fugir --, a propósito de tal acontecimento vieram a católica nacionalista Meloni e a social-democrata Frederiksen falar daquilo que as preocupa, a imigração.

Não serei eu quem dirá que a imigração, de que tanto gosto -- mas dum gostar diferente do dos hoteleiros, empreiteiros e agricultores --, não acarreta problemas para os quais o país não está(va) preparado. Mas sem nunca fazer o jogo do Tullius Detritus.

Dizem as senhoras que são orgulhosas das raízes cristãs da Europa; pois eu também! Portugal fez-se com as milícias dos reis e com a Igreja. Mas também me orgulho muitíssimo da herança muçulmana, como deve suceder com todo o português patriota.

Vivo em Cascais, um concelho cheio de topónimos árabes, o mais importante dos quais será Alcabideche (onde nasceram os meus dois netos), terra natal do grande poeta árabe do Século XI Ibn Muqana, concretamente,  Abu Zayd'Abd ar-Rahmãn ibn Muqana al-Qabdaqui al-Lishbuni. Gosto tanto dos poetas, como das palavras e dos moinhos (e dos cavalos, e um longo etecetera...) nos deixaram. Dois dos livros da minha vida são os quatro volumes do Portugal na Espanha-Árabe, do transmontano António Borges Coelho e O Meu Coração É Árabe, antologia de poetas árabes nascidos no território que veio a ser Portugal, do lisboeta Adalberto Alves.

Como, de resto, tenho muito orgulho na nossa herança judaica, considerando que a expulsão e conversão forçada dos judeus no final do Século XV foi não só o maior crime que Portugal cometeu, como foi catastrófico para o país em todos os sentidos. E, já agora, também da céltica, da romana, da sueva e da visigótica. Sem esquecer que uma das palavras preferidas da minha língua é gajo, de origem cigana, como se sabe.

Não quer com isto dizer que seja tolerante para com a religião deles (muçulmanos), como não sou para com a nossa (cristãos), quando começam a exorbitar. A religião é da esfera íntima, pessoal e familiar, mais do que isso só deve ser tolerada pelo estado laico, ou por razões identitárias ou de Estado, como sucede, e bem, com a Igreja Católica.

Que Meloni se ufane da herança cristã da Europa, está no seu direito; tal como Frederiksen, que, no entanto, proclamando-se socialista não junte a estas formulações pias o orgulho na herança iluminista, que nos deu a fórmula que mantém toda a razão de ser, enquanto houver ser humano sobre a terra -- e que absolutamente nada substitui, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, isso é que foi pena; e nós não o devemos deixar esquecer: a Razão antes de tudo e em política geral; fantasias celestiais & outras, é com cada um, desde que não nos chateiem.

sábado, agosto 15, 2026

1 verso de Abel Neves

«quem usa o sangue para escrever não consegue falar» 

Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

Volta a Portugal em escritores: Barcelos

 


António Fogaça
(Vila Frescainha (São Martinho), Barcelos, 11-V-1863)




sexta-feira, agosto 14, 2026

René Goscinny (1926-2026)

 










o que está a acontecer

«1. O Regresso / Ainda os ouço, ainda os sinto, mesmo aqui, tão longe, do outro lado do mundo. Os seus passos a arrastarem-se, um restolhar de serpente ou de sombra no pasto seco. Mas não quero falar deles. Mais tarde, quem sabe? Agora, vou enterrá-los em sete palmos de silêncio, no lodo do Rio das Pérolas.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (2026)

«Sentado na borda da cama, ombros baixos, o beiço superior fazendo um muxoxo de amuo, o Zé, filho de oficial, deixou escapar:  / -- O meu velho tinha razão. Estamos quilhados. E logo nos havia de tocar a Cavalaria.» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984) 

«As comemorações dos setenta anos da fundação de Irisópolis e dos cinquenta de sua elevação a cidade, cabeça de comarca e sede de município, alcançaram certa repercussão na imprensa do sul do país. Se para tanto o dinâmico Prefeito despendeu de verba elevada, não incorre em crítica: tudo quanto se faça para para divulgar as excelências de Irisópolis, o passado de epopéia, o presente de esplendor, merece aplauso e elogio.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984) 

2 versos de David Teles Pereira

«O frio dos Pirenéus e o aroma a traição / fazem-me regressar ao toque das tuas mãos.» 

«Roncesvalles», Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

quinta-feira, agosto 13, 2026

Fidel Castro sem idolatria, ou uma coisa que eu sei




Deixo para quem interesse o historiar e o balanço da passagem do Fidel Castro pela terra. Nem faço ideia se a História o absolverá. O que sei, de saber certo, sobre Fidel Castro, foi ter sido alguém que, dirigindo um punhado de guerrilheiros, pegou num país que era uma cloaca dos Estados Unidos, casino e casa de putas dos mafiosos e do poder norte-americano, e deu dignidade e cabeça erguida a um país, um povo e uma bandeira. É comparar com a miséria latrino-americana em volta. Claro que há um deve e um haver, e não serei eu fazer do homem um santinho revolucionário, coisa que não existe, nem o Che Guevara. No entanto, antes cubano que nacional de quase tudo da américa-latinha de que os americanos gostam.

 

4 versos de Carlos Poças Falcão

«Não estou contra / não vou contra / apenas subo um pouco / e desacelero» 

«"Ich habe genug"», Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

quarta-feira, agosto 12, 2026

3 versos de Armando Silva Carvalho

«Entrou nos recintos de Deus / um pouco desabrigado, mas de unhas limpas / e de peito aberto ao que viesse.» 

Resumo -- A Poesia em 2012 (2013) 

terça-feira, agosto 11, 2026

Volta a Portugal em escritores: Baião

 


Soeiro Pereira Gomes

(Joaquim Soeiro Pereira Gomes, Gestaçô, Baião, 14-IV-1909)





4 versos de António Barahona

«Já tão pouco me resta dêsse fruto, / o qual não era ainda este enigma, / mas plena convulsão de gozo em bruto: / massa compacta a desenhar-se escrita» 

«Voto renovado de poesia»,  Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

o que está a acontecer

«Naquele tempo, a freguesia de Nossa Senhora do Rozário da Achadinha não era mais do que uma caganita de mosca, à qual se apontasse um dedo acima do dorso quase sempre verdoso do Atlântico, e a memória dos povoadores escorria ainda do basalto das calçadas e dos musgos marinhos.» João de Melo, O Meu Mundo não É Deste Reino» (1983)

«O "Avelona Star", de boa singradura, trouxera para a direita do seu casco o vulto negrusco que até aí apresentava pela linha de proa. Porto Santo avolumara-se, perdendo em mistério o que dava em relevo orográfico.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Entrei numa das mais flácidas carruagens do comboio. / Vejam a egoísta e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma padecia tanto, se dispensou a ignóbil matéria dos regalos das almofadas! A angústia lamentosa; creio: mas em que recâmaras de asiática opulência se lamentava ele!» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

segunda-feira, agosto 10, 2026

1 verso de A. M. Pires Cabral

«É feio apontar para fora de nós.» 

«É feio apontar», Resumo -- A Poesia em 2012 (2013) -

selecção de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas 

sexta-feira, agosto 07, 2026

1 verso de Pedro Tamen

«Sentado escrevo, sentado esqueço, sentado passo» 

Guião de Caronte (1997)