quarta-feira, julho 15, 2026
2 versos de Fernando Assis Pacheco
«No ano em que eu era comido pelo escorbuto / chegavam as tuas enviadas com limões de oiro»
Memórias do Contencioso (1976)
terça-feira, julho 14, 2026
aborto ortográfico
Na mesma frase, num livro de 2025 destinado a um público infanto-juvenil, escreve-se "espetáculo" [sic] e "espectadores". Não é erro de revisão, é propositado, para que "espectadores" não se transformem em espetadores.
Ninguém para com isto -- ou ninguém pára com isto? O estúpido do programa sublinha o pára a vermelho. "Como és belo, meu Portugal."
JornaL: dos guardiões do Estreito à brita do ministro, passando pela Ucrânia, de que não queremos saber para nada
As obras do ministro. Estou-me epistemologicamente nas tintas para a puta da licença da piscina do ministro Luís Neves e para as suas obrinhas em casa. O homem que pague as coimas que tiver de pagar e que seja pelo menos tão bom ministro como foi director da PJ! A tentativa de cerco pelo conhecido Ventura e os que lhe servem os propósitos é mais do que evidente; poderia lá o Tullius Detritus perdoar a quem vinha desmontar o discurso de ódio que lhe permitiu subir na vida?...
Estreito de Ormuz. Não fora tão sério e perigoso... Da "Fúria Épica" a "Guardião do Estreito", Trump é mais cómico do que o Jesus. Rangel também faz rir, mas percebe-se -- não podemos indispor os vizinhos piratas; melhor o Governo nesta idiotice da Coligação dos Dispostos (só o nome...), apesar das palavras dúbias do mesmo Rangel. Já servimos os interesses dos americanos, não temos que servir também os dos franceses em África, que estão em disputa com os russos. Enxerguem-se lá, por amor de deus!
5 versos de Alberto de Lacerda
«Não há centro / Há diversas / Imagens de centro / Todas verdadeiras / Uma de cada vez»
Átrio (1997)
segunda-feira, julho 13, 2026
4 versos de Amadeu Baptista
«Deus, / se existir / há-de pagar-me / os Cristos que pintei,»
Doze Cantos do Mundo (2009) - «Domenikos Theotokopoulos, El Greco: Laocoonte (1614)»
domingo, julho 12, 2026
todo e qualquer Robin dos Bosques
o que está a acontecer
«Que diria Juca Tristão, que o tinha por esperto e exemplar, quando ele lhe aparecesse com três homens a menos no rebanho que vinha pastoreando desde Fortaleza? E o Caetano, que ambicionara aquele passeio por conta do seringal e assistira, roído de inveja, à sua partida? Rir-se-iam dele...» Ferreira de Castro, A Selva (1930)
«Bêbedos extraordinários falam de tudo e descrevem parábolas no solo, com a sombra de seus corpos embrutecidos. Dois ou três embirram com a sombra./-- Mete-te comigo, cai nessa, minha tirana! / -- A velhaca, comentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta manhã era atrás. Mas não me larga! Bêbeda! / -- Era o que me faltava! Súcia de marmanjos!» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878)
«Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça, e desculparemos a paixão fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, está fumegando por todos os orifícios e destilando por todos os poros. / Como veio esta menina para a casa do negociante? / Da seguinte maneira.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)
sábado, julho 11, 2026
sexta-feira, julho 10, 2026
2 versos de Amadeu Baptista
«Tudo o que me perturba / permanece»
Doze Cantos do Mundo (2009) -- «Domenikos Theotokopoulos, El Greco: Laocoonte (1614)
quinta-feira, julho 09, 2026
Portugal, 900 anos: 1128-2028 - comemorações
1. Uma data certa. Portugal nasceu de rompante num dia, depois de uma batalha -- a Batalha de São Mamede, em Guimarães, a 24 de Junho de 1128. A partir daí, foi sempre a andar, mesmo com o breve desvio dos Filipes 2-3 (o Primeiro, mundialmente conhecido como o Segundo, foi muito outra coisa).
2. 1179. Qualquer comemoração do nascimento de Portugal tem de incluir esta data, ano em que foi redigida a bula Manifestus Probatum, redigida pelo Papa Alexandre III. No concerto das nações do Ocidente Medieval, a legitimação jurídica internacional era assegurada pela autoridade do bispo de Roma. Das três grandes datas - 1128-1143-1179 --, a do Tratado de Zamora é menos relevante que a dos extremos (coisa que os neonazis de pacotilha não sabem). Se li bem, terminar as comemorações em 1143 não faz nenhum sentido; o término deverá ser 1179, mesmo que muitos de nós já estejamos mortos, circunstância absolutamente irrelevante.
3. Paulo Portas. Vejamos: o que o Poder faz quando quer comemorar datas históricas é nomear um dos seus; é sempre assim, não percebo a admiração. Comemorar é sempre um acto político. Agora: Paulo Portas, português velho, tem de estar à altura do nome dos seus nobres antepassados, Pedro Álvares Cabral, Sacadura Cabral e, principalmente, o seu extraordinário progenitor, Nuno Portas (haverá outros certamente, que desconheço). Quero isto dizer o quê? Que Paulo Portas deverá ter a inteligência e a sensibilidade de não aparecer como um comissário-geral político-partidário, mas alguém imbuído de um largo sentimento patriótico (não "nacionalista"), que procure congregar. Fugir e isolar o lixo: quer o patrioteirismo de loja-dos-trezentos à Ventura, quer as lapalissadas e falsificações do manicómio wokista, por onde circulam alguns historiadores entre parênteses. Próximo da sua área política, tem o excelente exemplo de Vasco Graça Moura.
4. Comissão de honra. O actual e os antigos Presidentes da República, perfeito. Péssimo e incompreensível: a ausência do Rei, D. Duarte. Este não é um rei qualquer, arranjado à pressão como sucedeu para aí em tantas monarquias europeias, em especial no século XIX. Representante das quatro dinastias -- que na verdade só foram uma, entre 1128 e 1910 --, ele personifica o Estado, a Bandeira (mesmo a actual) e até a Nação (já disse porquê, a partir de José Mattoso).
5. Miudezas. Um conselho-geral com representantes dos três maiores partidos, como escreve o Público? Ou seja, o PSD, o PS e o Chega?... Um sinal preocupante de sectarização; é preciso explicar a estes animaizinhos que a História de Portugal é vasta e complexa, solar e negra, e que é também plural, não é para ser coutada de ninguém.
6. O que verdadeiramente importa. Escrevi-o aqui, em 2023: os Portugueses não existiam antes de 1128, não existiam antes de Portugal. Quem criou os Portugueses foram a Coroa (o Estado) e a Língua Portuguesa. É bom que o Estado actual tenha noção disto mesmo, e saiba preservar e defender a língua e a miscigenada (mestiça) cultura portuguesa: do adufe da Beira-Baixa a Luís de Freitas Branco; de D. Dinis ao António Aleixo; da Rosa Ramalho ao Julião Sarmento. E que se aposte tudo, sempre e cada vez mais na educação, depois na educação e a seguir na educação. Exigente e humanista.
7. Não são os estrangeiros que nos desnacionaliza; são os portugueses impreparados, incultos e alienados, ou estupidificados, se preferirem. António Carlos Cortez, na Visão de hoje, lembra que, segundo dados da OCDE, sete em cada dez portugueses não têm capacidade para compreender textos longos. Imigrantes, quais imigrantes?...
8. E a propósito de Visão, a revista, sobre este assunto, não encontrou melhor para escrever que uma noticiazeca parvinha, na secção "Periscópio" (intriga e coscuvilhice política). Se até "a newsmagazine mais lida do país" tem 'isto' para dizer, é porque também andam por lá alguns dos sete em cada dez.
2 versos de Soledade Santos
«tenho um cavalo que nas margens da noite / me chama e escarva doido»
Sob os Teus Pés a Terra (2010) - «Inventário»
quarta-feira, julho 08, 2026
1 verso de Vergílio Alberto Vieira
«Tangível à noite, uma figueira cega persiste junto à cal.»
Coágulos (2002)
terça-feira, julho 07, 2026
o que está a acontecer
«Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia -- peneirava -- uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova:» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
«Daniel já tinha condições físicas e morais muito diferentes. Era o avesso do irmão e por isso incapaz de tomar o mesmo rumo de vida. / Possuía uma constituição quase de mulher. Era alvo e louro, de voz efeminada, mãos estreitas e saúde vacilante.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)
«O grupo dos trolhas, junto da porta, discutia o preço das couves e o número de ventres perfurados com facas de ponta, durante a semana. Zé Claudino tinha a palavra; a sua autoridade indiscutível de orador popular fazia-lhe cair dos lábios, como um rosário de sons, as palavras graves, indecorosas, chulas e poéticas, em misto turbulento e inteligente.» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878)



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