quinta-feira, julho 02, 2026
um ateu católico
Racionalista e ateu, sou, como a maioria dos portugueses, cristão e católico por formação e cultura.
Diria até que, num ecossistema financismo capitalista abominável e predatório, considero que o papel dos três últimos papas, Bento XVI, Francisco e Leão XIV (poderia falar também de líderes religiosos distantes como o actual Dalai Lama, Tenzin Gyatso) torna(ra)m o mundo um pouco mais respirável, no meio desta lixeira abjecto-comunicacional-argentária.
Valorizo o apelo a uma espiritualidade, que em mim terá correspondência numa necessidade metafísica (Schopenhauer), precisamente porque despojada de fantasmagorias e sempre ancorada na realidade.
Enquanto ateu, as questões internas da Igreja dizem-me pouco, são curiosidades; enquanto homem e cidadão, aprecio uma mensagem emancipadora que possa elevar-nos do lodo merdiático-reticular em que esbracejamos.
Vem isto a propósito daqueles reaccionários do Lefebvre, que desafiaram o Papa. Esteticamente, acharia muito mais piada à missa em latim; mas não frequento missas e ,de fora, prefiro uma Igreja apesar de tudo emancipadora e não uma que sirva para enquadrar a carneirada no rebanho. Já tivemos disso durante muitos séculos -- da Santa Inquisição a cumplicidade com o Salazar -- com todas as honrosíssimas e dignificantes excepções, do fantástico Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes ao extraordinário Padre Mário Oliveira, cuja evocação num livro recente de Luís Reis Torgal -- camarada de armas na Guiné, ao tempo em que o primeiro serviu como capelão-militar anticolonialista na Guiné, até ser recambiado --, me sensibilizou imenso.
Olhar para estes gajos, põe-me diante dos olhos o Estudo a partir de Velázquez, do Francis Bacon.
o que está a acontecer
«É um barco sério e sisudo que não se mete nessas andanças. / Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, visto de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crónicas.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«O povo, esmagado debaixo do peso dos tributos, dilacerados pelas lutas dos bandos civis, prostituído às paixões dos poderosos, esquecera completamente as virtudes guerreiras de seus avós.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
«Quinta-feira, -- noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual coitados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadam.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)
quarta-feira, julho 01, 2026
2 versos de Alberto de Lacerda
«O amor, a própria morte nos aumenta / Sua luz obscura que nos alimenta.»
Átrio (1997)
terça-feira, junho 30, 2026
como disse Sócrates no início, "isto só agora começou"
Continuo sem saber se Sócrates prevaricou, e em que extensão o terá feito, se o fez. Todos os crimes cometidos por titulares de cargos públicos, mas também por magistrados ou agentes da autoridade devem ter moldura penal agravada. No que hoje é notícia, a condenação do Estado a indemnizar José Sócrates, houve alguém das magistraturas que cometeu um crime, mas estranhamente não se apurou quem, como salienta o bastonário da Ordem dos Advogados.
Faz lembrar o caso dos submarinos, em que o corrupto alemão foi condenado, mas o corrompido português passou por entre os pingos da chuva, ao contrário do colega grego, que foi parar à cadeia.
Sobre Sócrates, já disse tudo o que tinha a dizer, na altura própria (é confirmar na etiqueta, a quem interesse). Só tenho uma ressalva a fazer e penitenciar-me por ter sido ingénuo, para variar: foi quando cedi à curiosidade de ouvir as escutas dos telefonemas com o amigo, a propósito da casa de Paris, plantadas nos media para, obviamente, condicionar a opinião pública. Na verdade, quem as ouvisse desprevenido, como me sucedeu -- a mim e a toda a gente --, teria grande dificuldade em não chegar à conclusão da evidente culpabilidade do antigo primeiro-ministro, pois se o outro é que era o dono do apartamento não faria nenhum sentido o tom com que o novo locatário se dirigia ao senhorio, mesmo sendo amigo próximo...
Mas há aqui um grande mas... Ouvi Sócrates dizer -- verdade ou mentira, cabe ao tribunal apurar -- que havia arrendado o apartamento ao amigo, e que entretanto eram necessárias obras, que estavam atrasadas, etc. Ora daqui decorre que o tom com que se dirigiu é, nesta precisa circunstância, perfeitamente normal.
Portanto: Se Sócrates prevaricou enquanto PM, é um criminoso -- coube ao Ministério Público prová-lo, teve para tal um tempo infinito; mas se for inocentado, será uma vítima. Tendo eu sido usado, como o resto da comunidade, por quem deveria combater o crime à margem de ambições pessoais e politiquices, esse magistrado não tem outra qualificação senão a de criminoso também.
Descansemos, porém: este lamaçal vai acabar mais ou menos como a história dos submarinos: Sócrates irá receber uma choruda indemnização paga por todos nós; os estúpidos do costume continuarão a vociferar contra ele, esquecendo as asneiras e as trafulhices de quem o quis tramar e que conduziram ao estado actual. Obviamente, não serão incomodados.
4 versos de Pedro Tamen
«Não tenho graves defeitos / nem tão-pouco grandes qualidades. / Leve portanto a barca / vai do lastro mais perigoso.»
Guião de Caronte (1997)
segunda-feira, junho 29, 2026
4 versos de Ana Hatherly
«A memória é invisível / por isso tentamos dar-lhe corpo / de cada momento fazendo uma prisão.»
A Idade da Escrita (1998) - «A memória do nome»
domingo, junho 28, 2026
o que está a acontecer
«Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H. J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazónia" mais rabioso do que nunca.» Ferreira de Castro, A Selva (1930)
«Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)
«Todas as noites a casa se enchia e o aspecto era sempre o mesmo. / Ao fundo, encostada ao balcão forrado de zinco, a tia Lauriana, mulher de grandes seios e arrecadas, que tinha a especialidade dos pastéis de bacalhau, e pernas másculas saídas de grosseiras saias de baetilha; ao canto o cego de chapeirão derrubado, a atitude fria, faminta, dolorida e apagada, a rebeca nos joelhos, a manta de riscas ao ombro, a eterna noite nas feições.» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878)
sábado, junho 27, 2026
zonas de confronto
Simone de Beauvoir: «Mas, se olharmos mais de perto, rapidamente nos apercebemos de que os problemas políticos e morais estão indissoluvelmente ligados: trata-se, de qualquer forma, de fazer a história humana, de fazer o homem; e, dado que o homem está por fazer, está em questão: é essa questão que está na origem, ao mesmo tempo, da acção e da sua verdade.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Honoré de Balzac: «Esta rua, agora pouco frequentada, quente no Verão, fria no Inverno, escura em alguns sítios, é notável pela sonoridade da sua calçada pedregosa, sempre limpa e seca, pela estreiteza do seu leito tortuoso, pela paz das suas casas, que pertencem à cidade velha e que dominam as muralhas.» Eugénia Grandet (1833) - trad. Jorge Reis § Génesis: «Deus fez dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia e o menor para presidir à noite; fez também as estrelas. Deus colocou-os no firmamento dos céus para iluminarem a terra, para presidirem ao dia e à noite, e para separarem a luz das trevas. E Deus viu que isto era bom.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos)
sexta-feira, junho 26, 2026
3 versos de João Miguel Fernandes Jorge
«Via de um camarote de ópera o melodrama, advertida / figura lendo no banco do comboio urbano / noite de janelas pelo outono»
O Regresso dos Remadores (1982)
quinta-feira, junho 25, 2026
o que está a acontecer
«Mas nenhum queria o infeliz "Joli"; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tornou a ver o cão na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/80)
«A organização talhara Pedro para a vida de lavrador e parecia apontá-lo para suceder ao pai no amanho das terras e na direcção dos trabalhos agrícolas. / Assim o entendera José das Dornas, que foi amestrando o seu primogénito e preparando-o para um dia abdicar nele a enxada, a foice, a vara, a rabiça, e confiar-lhe a chave do cabanal, tão repleto em ocasiões de colheita.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)
«Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: a diferença radical entre este livro e o Pentateuco. / Dito isto, expirei às 2 horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi Tinha uns 64 anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de 300 contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos.» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
3 versos de Sebastião da Gama
«Vem lavar-me, Senhor!, no azul do Mar. / Filtra a minha impureza na limpidez do Teu olhar, / a luz que clara entornas pelos montes da minha Serra verde...»
Serra-Mãe (1945) - «Harpa»
quarta-feira, junho 24, 2026
1 verso de Luís de Miranda Rocha
«Escura vaga luz que anda no ar do dia que decai»
Os Arredores do Mar, os Subúrbios da Noite (1993)



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