terça-feira, dezembro 31, 2024

o que está a acontecer

«Jantava sempre pouco, e acabava fumando tabaco de onça. Reparava extraordinariamente para as pessoas que estavam, não suspeitosamente, mas com um interesse especial; mas não as observava como que perscrutando-as, mas como que interessando-se por elas sem querer fixar-lhes as feições ou detalhar-lhes as manifestações de feitio. Foi esse traço curioso que primeiro me deu interesse por ele.» Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982) 

«Sob estas capas de vulgaridade há talvez sonho e dor que a ninharia e o hábito não deixam vir à superfície. Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.» Raul Brandão, Húmus (2017)

«Muito seu continua o jeito de como ao falar cerra os olhos em duas fendas chinesas, antes risonhas, agora insondáveis. / Sentado na relva à sombra dos castanheiros, o cajado entre as pernas, os cães dum lado, eu do outro, o rebanho espalhado pela ladeira, o murmúrio da água, o tilintar dos chocalhos.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

ucraniana CCLXXVI - zero rotundo

Para que serviram os comentários dos generais-falcões e a pobreza vesga, ignorante, carreirista e burra de boa parte do comentariado académico? Para nos enganar. Uns zeros crassos, grossos, rotundos. Zero. 0

música para salvar o ano #6 - «Went to a Party» (Nick Lowe, Los Straitjackets)

4 versos de Sebastião da Gama

«Não conto. Não digo. / Comigo te guardo. / Assim tu, ó estrela, / me guardes contigo...» 

«Madrigal a uma estrela», Pelo Sonho É que Vamos (póst., 1953)

também no cinema, o Vaticano assaltado pelo manicómio





Gosto destes enredos, em que a luta pelo poder e a ambição mais maligna e o mais manso desprendimento coabitam na Igreja do Apóstolo Pedro. Tenho ideia de ter gostado mais do «Habemus Papam», do Nanni Moretti, com o Michel Piccoli, num registo bonacheirão.
«O Conclave», do suíço Edward Berger, de ligeiro nada tem, e tem também um desempenho emocionante de Ralph Fiennes -- ele é o filme -- surpreendentemente estragado pelo assalto do manicómio woke. Quando estava à espera duma saída encostada à Teologia da Libertação (talvez muito previsível), eis que estala o 'wokismo' mais descarado, passe o pleonasmo  Mas o papel do Fiennes vale todos os sacrifícios.

P.S. - A propósito: neste post, atarantado com a pulhice dos americanos & satélites, esqueci-me de como a decência bateu no fundo, com as olimpíadas também transformadas em manicómio woke. O caso nefando da boxeuse italiana esmurrada por um tipo que o manicómio decretou ser mulher. Aqui

segunda-feira, dezembro 30, 2024

vária

«As grandes tabuletas por toda a parte, com indicações breves e terminantes. Os pesados "lorries" só podem rodar pelas estradas principais. As outras estão quase todas fechadas a veículos que não pertençam à Cruz Vermelha. Até uma certa altura do caminho, há ainda um ou outro civil que calca a lama da estrada e arrasta, por esta região devastada, a sua desgraçada amargura. Depois não se vêem senão militares.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert» (A Capital, 29-III-1917), Repórteres e Reportagens de Primeira Página (s.d.)

«--Eu bem na sinto!, eu bem na sinto! É impossível que certas flores sejam filhas das grosseiras plantas de que brotam. Há no colorido delas, na delicadeza, no espírito e no perfume umas elegâncias de tipo, umas aristocracias de carácter, feições por tal forma pur-sang, que a idealização de artista de logo nega graus de parentesco entre flor e planta, mal-grado a evidência das ligações estruturais.» Fialho de Almeida, «Pelos campos», O País das Uvas (1893)

«Fragmentos do Muro de Berlim são vendidos como brinde por espertos negociantes norte-americanos, / Teorias, ideologias -- teorias ditas científicas, ideologias consideradas de pureza incontestável -- que seduziram intelectuais, mobilizaram multidões, massas populares, comandaram lutas, revoltas, guerras em nome da felicidade do homem, dividiram o mundo em dois, um bom, um ruim, se revelam falsas, pérfidas, limitadoras: conduziram à opressão e não à liberdade e à fartura.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)

música para salvar o ano #5 - «Quando Eu Era Pequenina» (Filipa Vieira)

3 versos de António Salvado

«As palavras humildes que registo / são feitas da manhã interior / à dimensão que satisfaz a vida.» 

«E nelas nada fere...», Recapitulação (2005) / Café dos Poetas (2015)

por aí


Woody Allen por Arnold Newman (1996)

 

domingo, dezembro 29, 2024

música para salva o ano #4 «Praise» (Anthony Branker)

o que melhor e pior me impressionou em 2024: Putin e os asnos do Ocidente, e deste a miséria moral

Apesar de faltarem quase três dias para o fim do ano, e sabermos que a perfídia das indústrias da guerra é ilimitada, e aque té à tomada de posse de Trump seja de esperar qualquer tipo de golpada, arrisco já:

1. O que mais favoravelmente me impressionou. 

1.1.Putin perante os asnos do Ocidente. Sem dúvida, a capacidade de resistência da Rússia pela forma como conseguiu contornar uma preparadíssima ofensiva bélica, não tanto pelas armas, mas nas várias tentativas de estrangulamento económico e político, todas tendo falhado, o que é hilariante no meio da tragédia. Militarmente, Putin optou primeiro pela pressão, no que falhou; depois pela contenção, com custos elevados em vidas e equipamento, porém não varrendo a Ucrânia do mapa, ao contrário do que os israelitas fazem na faixa de Gaza. Depois, a resistência à propaganda manhosa estipendiada pelo complexo militar-indusrial americano: hoje, até um lémure de Madagáscar percebe que a guerra da Ucrânia é um enfrentamento entre russos e americanos e que a Ucrânia é um território em que se combate, com líderes ucranianos que sacrificaram parte do seu (?) povo a interesses estrangeiros, v.g., os dos Estados Unidos e suas corporações.

1.2. A fibra (e os tomates) dos comentadores decentes (o que significa que há comentadores indecentes).  Voltemos a referir-lhes os nomes, uma e outra vez: Agostinho Costa e Carlos Branco em primeiro lugar (dos que têm assento nas televisões). Informados, objectivos, não se deixando intimidar por jornalistas ignorantes e atrevidos nem pelo lixo académico que por aqueles estúdios é despejado. Acrescento ainda os nomes de Mendes Dias e Tiago André Lopes, este da Universidade, uma das poucas excepções para a miséria que a academia enviou para as televisões. Nos jornais, impecável, Viriato Soromenho Marques (ler aqui  a crónica deste sábado no DN); e nas plataformas digitais (pois para as televisões não é convidado, evidentemente) Carlos Vale Ferraz (ler aqui) . Outros existem, felizmente, mas ou são silenciados (onde está o general Pezarat Correia, ainda muito lúcido, nos seus mais de noventa anos?) ou escrevem em media de menor difusão.

2. O lixo

2.1. A miséria moral do Ocidente diante da matança indiscriminada de palestinos em Gaza.

2.2 A cobardia depravada, ignorância, inconsciência, incompetência e oportunismo até à traição da clique que lidera os países europeus mais poderosos (Inglaterra, França. Alemanha e Itália), o seu servilismo canino e as entorses à democracia. Sim, com esta guerra as liberdades regrediram na Rússia -- ela que nunca fora tão livre e próspera como o foi com Putin -- mas regrediram também, e de forma nunca vista desde a derrota do nazismo e do fascismo na Europa Ocidental: manipulação às escâncaras, censura (aos media  russos e às vozes discordantes ou independentes), intervenção nas eleições de países europeus, dentro e fora da UE (Roménia, Geórgia).

O que sairá disto tudo? Não sei. Alemanha e França politicamente nas lonas. A seguir, a própria UE? Ou até à lavagem dos cestos, no final de Janeiro, será vindima? Com criaturas destas é sempre de esperar o pior.

Em tempo: esqueci-me de referir Miguel Sousa Tavares, que, desde o início, honra a profissão do jornalista que foi e tem sido sempre uma das vozes lúcidas do comentário. (visto aqui).

sábado, dezembro 28, 2024

o que está a acontecer

«Vi não sei onde, num jardim abandonado -- Inverno e folhas secas -- entre buxos do tamanho de árvores, estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro; aqui se enterraram todos os nossos sonhos...» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Com meias frases, outras que ficam pendentes -- Há dias que pouco falta para que faça uma asneira -- eu à espera de detalhes que não vêm, ele assombrado pelas recordações, entre nós um silêncio incómodo. / Malgrado os anos continua ágil, desempenado, mas o rosto tornou-se-lhe papudo, roxo do vinho.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava -- parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982) 

música para salvar o ano #3 - «feelslikeimfallinginlove» (Coldplay)

sexta-feira, dezembro 27, 2024

alhures

«Vim pela primeira vez a Chicago nos anos 20 e foi para ver um combate de boxe. Ernest Hemingway veio comigo e ambos ficámos alojados no campo de treino de Jack Dempsey. Hemingway tinha acabado de completar duas curtas histórias sobre boxeurs e, apesar de tanto Gertrude Stein como eu pensarmos que eram decentes, concordámos que ainda necessitavam de ser bastante trabalhadas.» Woody Allen, «Memórias dos anos vinte», Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - trad. Jorge Leitão Ramos

«Poderia ter feito de ti um fantasma, mas eu amava a tua realidade. Qualquer pessoa dirá que isto é o mais lógico: também tu o poderias ter pensado, mas para que adoptasses esta atitude era necessário que eu fosse um pouco mais corpóreo.» Félix Cucurull, «Carta de despedida» Antologia do Conto Moderno (1959) - trad. Manuel de Seabra

«"Perante mim, Honorat Grapazi, notário com cartório em Pampérigouste, / Compareceu: / O Sr. Gaspard Mitiflo, casado com Vivette Cornille, pequeno proprietário no lugar de Cigalières, onde reside: / O qual, pela presente escritura, vendeu e transmitiu, com todas as garantias e de facto livre de todos os encargos, privilégios e hipotecas / Ao Sr. Alphonse Daudet, poeta, residente em Paris, aqui presente e que declarou aceitar.» Alphonse Daudet, «Prólogo», Cartas do Meu Moinho (1869) - trad. Fernanda Pinto Rodrigues

música para salvar o ano #2 - «Always a Stranger» (Tindersticks)

serviço público - Viriato Soromenho Marques

 «No labirinto do "governo invisível"»

quinta-feira, dezembro 26, 2024

música para salvar o ano #1: «Alone» (The Cure)

uma oitava de Camões

«Nem deixarão meus versos esquecidos / Aqueles que nos Reinos lá da Aurora / Se fizeram por armas tão subidos, / Vossa bandeira sempre vencedora; / Um Pacheco fortíssimo e os temidos / Almeidas, por quem sempre o Tejo chora, / Albuquerque terríbil, Castro forte, / E outros em quem poder não teve a morte.» 

Os Lusíadas I-14 (1572)

o que está a acontecer

«-- Compreende? / Digo que sim, que compreendo, intrigado pela confidência e aquele olhar que mostra o desespero de quem anseia por absolvição. Mas custa a acompanhá-lo no emaranhado de casos e pensamentos, de mágoas, o comezinho misturado ao trágico, a indiferença de tornar simultâneos o passado e o presente.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (1903)

«A torre -- a porta da Sé com os santos nos seus nichos --, a praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutáveis teias de silêncio e tédio e uma cinza invisível, manias, regras, hábitos, vai lentamente soterrando tudo.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes na vida. / O desejo de sossego e a conveniência de preços levaram-me, em um período da minha vida, a ser frequente em uma sobreloja dessas. Sucedia que quando calhava jantar pelas sete horas quase sempre encontrava um indivíduo cujo aspecto, não me interessando a princípio, pouco a pouco passou a interessar-me.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)