sexta-feira, setembro 30, 2022

quinta-feira, setembro 29, 2022

a arte de começar mais depressa

 «Prelúdio (A música das ondas)». «Dispensou a cadeira de rodas e atravessou o portão do hospital cambaleando.»

«Amizade». «Quase toda a manhã é o mesmo suplício: quando chego na portaria, a vizinha gorda do trezentos e dois já está esparramada no banco de madeira, tendo ao lado o seu irritante cachorrinho peludo.»

«Gosto de enxofre». «Uma mulher entrar sozinha no bar, escolher a mesa, se sentar e pedir uma cerveja são coisas que nunca se vê por aqui.»

«Caminhos». «Diante da banca de jornais e revistas, o homem parece petrificado, os olhos grudados na primeira página do jornal que estampa a manchete MARADONA ESTÁ MORTO».

«O pedido». «A mulher está sentada na varanda, xícara de café e latinha de biscoitos de maisena no colo.»

«Cicatriz». «Seu Júlio disse que o homem cultivava cavanhaque grisalho e tinha uma cicatriz no rosto que ia do nariz até perto da orelha.»

«A primeira vez».  «Eu jogava futebol de botão no  piso da sala quando a ambulância freou na porta de casa.»

«Como num quadro sacrossanto». «Deus me perdoe, mas parecia que eu estava diante do quadro da Virgem e o menino Jesus -- o delegado repetia.»

«Estação Fim do Mundo». «-- Quanto é a a bala de tamarindo? -- pergunta o homem.»

«Café fraco». «Do jeito que me cataram em baixo da marquise, me despejaram aqui, sem uma palavra sequer, de explicação ou de consolo.»

«O amor é mais frio que a morte».  «Não há nada mais triste do que cemitério em dia de chuva.»

«O último post». «Eu poderia ter resolvido o assunto no tuíter, com menos de cem caracteres, algo como Quando vocês acabarem de ler isto aqui, eu terei acabado com tudo, mas ficaria faltando alguma coisa.»

«Mortos na cabeceira». «E esse medo de ir para a cama?»

«Herança». «A nuvem avermelhada manchava o céu desde o começo da manhã, prometendo que o dia não seria como outro qualquer.»

«Mangas vermelhas». «Marcaram encontro para o fim da tarde e pegaram o caminho da chácara.»

«Ternura». «A filha do velho recomendou que eu não usasse roupas "pronunciantes".»

«Queima de arquivo.» «A dupla formada por repórter e fotógrafo que fazia o plantão da madrugada na redação -- num tempo em que ainda havia plantões, jornalistas e redações -- me tirou da cama antes do galo cantar.»

«A última lembrança».  «Ele disse que não queria me ver nunca mais, nem pintada de ouro.»

«Decisão». «Foi dele mesmo a decisão de se mudar para a casa de repouso -- Solar da Amizade, estava escrito na placa de madeira -- e também a escolha do asilo.» 

«A crooner do Norte». «Hoje eu me lembrei de você, Cauby.»

«Deus sabe». «Quando minha mãe vinha com a trouxa de roupas descosturadas ou precisando de remendos, eu já ficava nervosa.»

«Tempos difíceis». «Cenário: Ponto de ônibus.»

«Cada um sabe de si.» «Lucinha chega ao trabalho com uma mão no olho e outra na boca, cobrindo o hematoma no supercílio e o machucado no lábio.»

«Cruzamento». «Ainda lembrava como se tivesse acontecido ontem do dia em que ela chegou com os olhos duros, aquele mesmo par de olhos que já amolecera tanto antes dos seus.»

«Os caçadores e a caça (Um conto de Natal)». «Na volta da escola, caminhando às margens da belíssima lagoa que ilumina e transluz no crepúsculo, o menino vê o homem passar correndo.»

«A vida é troca». «A vida é dura, doutor.»

«Mais cedo ou mais tarde o teto desaba». «A cena se passa no ano de mil novecentos e setenta e um.»

«Ainda tem sol em Ipanema». «De mãos dadas, Sergio e Clara pulam das pedras do calçadão para a areia morna e caminham para o mar.»

Luís Pimentel, Ainda Tem Sol em Ipanema (2022)

Prémio Ferreira de Castro / 2021

apresentação: Museu Ferreira de Castro, 30-IX-2022, 18 h.

(estão todos convidados)


quarta-feira, setembro 28, 2022

«Stonemilker»

quadrinhos


Jacques Tardi e Didier Daeninckx, Varlot Soldado (1999)

 

a Rússia com o problema resolvido (ucranianas CXXIX)

 Quer dizer: já não sai do Donbass, como era previsível, e também duvido que largue Kherson -- ou o que quer que seja, o que é muito bem feito para quem andou estes anos a provocar e a fazer de peão dos americanos. 

Ah, claro: há sempre a possibilidade de a estratégia americana resultar com o desgaste interno. Eles andam há anos a tentar. Acabam de aprovar o auxílio  de mais doze mil milhões de dólares para a guerra em que só os ucranianos irão perder.

A UE se não se desembaraça da Úrsula y sus muchachos está com os dias contados, o que é uma pena.

segunda-feira, setembro 26, 2022

«Lines In Sand»

Giorgia on my mind (continuem. que vão bem)

 

Giorgia Meloni tem o pecado original do fascismo, de que se quis distanciar -- no entanto o símbolo do partido desmente-o. Faço ideia os rios de tinta e o latim gasto com a ascensão desta mulher -- não sei neste momento se neo-fascista, se ultaconservadora. Mais do que conservador, um fascista é um contra-revolucionário, um reaccionário extremista, violento, ressentido e por norma cobarde.

O cenário para já, parece-me este: a julgar pelo que se tem dito ela é uma mulher de convicções e inteligente -- a inteligência política poderá centrá-la --; mas terá que ter cuidado com o principal aliado, Salvini, um faz-tudo, oportunista, modelo dos políticos de taberna como a anedota que dá pelo nome de André Ventura (zero convicções, tudo ambições); e Berlusconi, um artista de variedades, cadáver adiado da política italiana, cujo desígnio parece ser a presidência da República. vai ter que se precaver com a UE. A França já mandou recados, como se tivesse grande autoridade para falar, no que toca aos migrantes que lhe chegam. Mas a Itália é um grande país, e portanto a UE vai ter que falar fininho.

As minhas irritações

1.a politicalha medrosa, calculista e enganadora, cujo grande desígnio é a gestão da própria permanência no poder: os Sanchez, os Macrons, os Boris desta vida, sem esquecer o Costa das pensões e do todos e todas (credo...); e do Montenegro da troika, do leite achocolatado e do chumbo do pec iv, que aparece agora a consolar velhinhos, depois de os terem roubado e aumentado as rendas miseravelmente.

2. o wokismo imbecil, que entretanto domina já as corporações -- quem não se lembra de um merceeirx qualquer que foi ou é administradorx da TAP, e que, não lhe bastando ser saloix, identificando o cargx que ocupava em estrangeirx, deixou de ser chairman, passando a chairperson,?; ou do poderoso lóbi lgbt, Mickey em tons de arco-íris promovido pela Walt Disney Company (melhor que isto foi quando o dito lóbi avançou, sem sucesso, felizmente, com a tentativa de homossexualizar o Egas e o Becas, coisa duma pertinência enorme -- "direitos humanos, pá!...")? Por cá, a perseguição aos alunos e família de Famalicão por outra anedota que era secretárix- de-estadx e hoje ministrx-- ahahah...

A malta chateia-se, enerva-se, e depois vota na Meloni. Continuem, que vão bem.


1 disco, 1 faixa: SEVEN COMPOSITIONS TRIO (1989) - #3. «Composition 40J / Composition 110A ((+108B+69J)»

domingo, setembro 25, 2022

desenhar a morte

Jacques Tardi (n. 1946) é um dos mestres da banda desenhada europeia, um estilo único; mais do que herdeiro da linha clara de Hergé e Jacobs, foi alguém que a transfigurou, tornando-a marca pessoal imediatamente reconhecível. Neto de um soldado das trincheiras, a Grande Guerra é um tema obsidiante neste autor, que, logo no verso do frontispício, avisa-nos ao que vem: «Tenho a impressão de que não podemos fugir à guerra. Mesmo nós, mesmo hoje. / A guerra que mostro não é mais que o décor de 14-18, os uniformes. / Acho que continua actual, o que me inquieta.» Neste álbum, com argumento do romancista Didier Daeninckx (n. 1949), a insanidade da carnificina do conflito mundial de 1914-18 aparece carregada na sua crueza pela utilização magistral do preto e branco, com terra e carne humana retalhadas pelos projécteis arremessados por todas as bocas de fogo, abrindo crateras no lamaçal da Flandres. Duas vinhetas por página são quanto basta para a respiração do texto de Daeninckx: «Uma tonelada de pólvora da casa Krupp destruiu tudo: os mortos, o pelotão, a pocilga onde nos tinham fechado.» A trama, sendo simples, é rica, explorando os quiproquós em que a comédia humana é fértil, aqui exponenciados pelos desencontros da guerra, à rectaguarda: o hospital de campanha, o bordel, os desertores com destino marcado.

Varlot Soldado (1999)

Argumento: Didier Daeninckx

Desenhos: Jacques Tardi

(EdiçõesPolvo, 2001)

(2019)





«Imigradan»

sábado, setembro 24, 2022

recordando as premissas básicas desta guerra, ou da honestidade intelectual (ucranianas CXXVIII)

 Primeira premissa: o conflito no Donbass, que opõe russos e ucranianos, e tudo o que decorreu desde 2014, ou seja, uma guerra que leva oito anos e que a diplomacia própria (Rússia-Ucrânia) e alargada não resolveu.

Segunda premissa: a interferência insolente norte-americana no coração russo -- Kiev (por alguma razão tem sido poupada) --, o culminar de um cadastro de alargamento da Nato às fronteiras da Rússia, que só os inocentes não vêem (desconto os aldrabões de serviço).

Conclusão: a não ser que a estratégia americana saia vitoriosa -- a corrosão do poder na Rússia, com o afastamento de Vladimir Putin --, a Ucrânia como a conhecemos já foi.

Vale isto uma guerra? Para nós, confortavelmente sentados à beira da Finisterra, cm uma história de 900 anos em que só queremos que nos deixem em paz, nem percebemos bem o porquê. Mas falamos com a barriga cheia de estado-nação; só tivemos disso vislumbre quando os povos por nós colonizados decidiram achar que já chegava. Para os outros, a começar já aqui ao lado na Catalunha, no País Basco ou até na Galiza, da Flandres à Escócia, da Bretanha ao Donbass, vale o que tiver de valer.

A História é como as dívidas dos países; não se resolve, gere-se, já dizia Sócrates, José.

«Don't Panic»

sexta-feira, setembro 23, 2022

a revolta das mulheres (e dos homens), carros da polícia a arder, imagens tão belas, só falta incendiar os aiatolas, se Deus quiser

Direito Internacional , é claro, mas só para alguns (ucranianas CXXVII)

 Um código civilizacional muito útil para manter a paz entre os estados que a ele se sentem ou são obrigados. Inútil quando se trate de Estados Unidos, China ou Rússia, ou países bem respaldados pelas grandes potências, v.g. Israel Os exemplos estão aí à mão, não me fatigo a escrevê-los outra vez.

Dito isto, é óbvio que os referendos são uma farsa, coisa que não sucedeu na Crimeia. Mas então o Ocidente alargado não quis saber. É agora a vez de os russos também não quererem saber. Pessoalmente, acho muito bem que os russos do Donbass e outras regiões vejam acolhida a pretensão de se juntarem à sua pátria. É a vida -- e além disso, não suporto hipócritas.

200 anos da Constituição - "A soberania reside essencialmente em a Nação"

Domingos Sequeira, Alegoria à Constituição de 1822

 

marginália

 

Anátema (1851), o primeiro romance de Camilo, meia dúzia de anos depois da estreia, em verso, com o bonito título Os Pundonores Desagravados...

Diz a contracapa da minha edição que o Camilo do futuro já lá está, e é verdade. O Camilo sarcástico, corrécio, inconveniente e iconoclasta; o escritor a metro, mas um metro abençoado, pois havia que fazer render o peixe do folhetim, diz-me o Alexandre Cabral. naquele invejável Dicionário, que publicado em 2-jornais-2, em Lisboa e no Porto --, o estilista límpido e poderoso. 

Completava vinte e seis anos, e os grandes eram então Garrett, Herculano e Castilho, aparecendo dizendo estar-se nas tintas para o romantismo e respectivos ideais revolucionários, que desprezava. «Escola militante» e «sociedade aspiradora», são duas expressões que dão ideia do vezo polémico deste grande reaccionário, que foi temível e destrutivo, quando queria. E em tom de desafio encerra a apresentação do livro: 

«O escritor destas coisas ainda não abriu matrícula, nem pede que o inscrevam ainda à custa de uma boa reputação de folhetinista. Se a escola, em nome do século, do futuro e da humanidade, o interrogar pela substância útil deste apontoado de palavras, o autor não lhe dá resposta alguma. / Dito isto, começa-se.»

É impossível não adorar este desavergonhado de génio.

quinta-feira, setembro 22, 2022

«A Bala»

a arte de começar

 «Este começa por onde acabam os outros.»

Camilo Castelo Branco (1825-1890), Anátema (1851)

caracteres móveis

 «Em todo os estados e em toda a condição social o homem bem educado é um homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o coloquem, fica sempre um subalterno.»

Ramalho Ortigão, As Farpas  II - As Epístolas

«O Novo Normal»