terça-feira, dezembro 01, 2015

se eu tivesse de escolher só uma música

Seria mesmo a faixa inicial de New Grass (1968), o tema composto «New Grass / Message From Albert», uma interessantíssima conjugação da improvisação dialogante free (sax tenor, A.A. / viola baixo, Bill Folwell) com a tonalidade gospel dos sopros -- arranjo de Bert DeCoteaux -- a servir a inquietação mística de Ayler. A sequência funciona.

segunda-feira, novembro 30, 2015

«Spectre», de Sam Mendes

Quando comecei a ver o 007 no cinema -- com o Roger Moore --, era mais ou menos como assistir a uma còboiada na Guerra Fria: os índios eram os soviéticos. E era giro. Agora, também não deixa de ser interessante. Menos gadgets, mas a dose necessária de Aston Martin, perseguições, pancadaria e um James Bond torturado e com um passado espesso.

o plantador

«O plantador andava ali, pelo campo, enterrado até cima dos joelhos, na terra que é ubérrima e preta. Era bonito vê-lo andar nu, o rosado do corpo a contrastar com a cor dos torrões remexidos, lançando ao longo das leivas aqueles bocados de mulher que levava num braçado.»

António Pedro, Apenas uma Narrativa (1942)

ADAGIO



sábado, novembro 28, 2015

uma espécie de ceptro

«Sabendo que seu garimpo era o único a comportar na sêca um número ilimitado de garimpeiros, o Cel. Germano sorria ìntimamente. Ah, o seu Paraguaçu!... Léguas e léguas de serra que lhe pertenciam por documentos passados em cartório, selados e garantidos por lei, e que estavam guardados dentro daquele canudo de fôllha-deflandres, que era como o seu cetro de rei dos diamantes.»

Herberto Sales, Cascalho (1944)

A CASE OF YOU



em Ravensbrück, 1944

«Há alguns dias, festejámos juntas o meu aniversário. Sobre o bolo, para o qual cada uma trouxe um pouco de miolo pão, amassado com essa espécie de melaço a que chamam compota, vinte e quatro raminhos representavam as velas num cenário de folhas colhidas à pressa durante o trabalho de terraplanagem à beira do pântano, um verdadeiro momento de felicidade!»

Geneviève de Gaulle Anthonioz, A Travessia da Noite (1998)

quinta-feira, novembro 26, 2015

o meu LEFFest (20)

Much Loved / Muito Amadas, de Nabil Ayouch (França e Marrocos, 2015 -- «Selecção oficial -- Fora de competição).
Um excelente filme centrado no universo da prostituição em Marraquexe. Escreveu um crítico algures que Nabil Ayouch olhou o seu país de frente. Olhar de frente, significa desafio (abençoado desafio). Não será de estranhar que a fita esteja proibida. As actrizes (só uma, a explêndida Loubna Abidar, não é amadora) estão soberbas, muito bem dirigidas, melhor filmadas. E depois, não se pode deixar de falar doutro aspecto lateral: a coragem que estas mulheres tiveram em fazer este filme. Com consequências. E escrevi 'aspecto lateral', porque o filme é demasiado bom para permitir qualquer tipo de condescendência, como por vezes sucede. 

quarta-feira, novembro 25, 2015

ter Balzac por aí

«--Donde te vem tanta sabedoria acerca da mulher?
-- Quando me não sobrasse experiência própria, tinha aí Balzac.»

Álvaro do Carvalhal, Os Canibais (póstumo -- 1866)

um outro respirar

António Costa, como político hábil que é, soube combinar a competência técnica e a moderação política com um punhado de actores experimentados e com sinais para todos os lados, esquerda e direita, e também para dentro do PS. Depois do traumático do governo anterior, ninguém ficará assustado.. A competência técnica e/ou a moderação de Mário Centeno, Manuel Caldeira Cabral, Maria Manuel Leitão Marques, Francisca Van Dunem, e Azeredo Lopes, entre outros, junta-se a mesma competência técnica e as provas dadas na governação por Vieira da Silva, Augusto Santos Silva, João Soares (foi um excelente vereador da Cultura, em Lisboa) ou Ana Paula Vitorino.
Depois da negociatas, das aldrabices sortidas, de puro gangsterismo político, que continua (a miséria intelectual do líder do grupo parlamentar do CDS -- "governo politicamente ilegítimo", diz o homem, sem se rir -- e a habitual indigência política do PSD), depois disto é um outro respirar, mesmo com uma situação política e económica terrível.
Una palavra ainda para a force de frappe do PS, as suas armas estratégicas na acção política: Ana Catarina Mendes, como presumível s-g- adjunta, Carlos César, interlocutor com os outros partidos, Pedro Nuno Santos, secretário de estado dos Assuntos Parlamentares e João Galamba, porta-voz do PS, representam, em acção e consistência política, o melhor do melhor que o PS tem, no tempo que aí vem, de luta política acesa, e, já se espera. de guerrilha oportunista dos que perderam a maioria, e o poder, por mais que indecorosamente esperneassem, com o país todo a ver. 

terça-feira, novembro 24, 2015

Três razões para o terrorismo islâmico na Europa: 3. o relativismo cultural

Passaram mais de dez anos sobre os ataques de Madrid e Londres. As prédicas nas mesquitas (mas também nas prisões e em associações ditas culturais) prosseguiram. 
Repito-me: na Europa não pode haver lugar para indivíduos que usam a lei e a democracia para coagir cidadãos e envenenar-lhes as mentes; não pode haver lugar para os que tratam as mulheres como propriedade sua e com inferiores. E muito menos para uma interpretação cobarde do laicismo, como sucede em locais de França, e porventura não só, que leva a episódios ridículos como o da proibição do Presépio em vários municípios, para não se ferirem susceptibilidades...
Chegados a este estádio, a questão põe-se com uma simplicidade infantil e como uma clareza meridiana: não partilham dos valores democráticos e liberais, resistem-lhes, sabotando-os, se forem estrangeiros, borda fora; se forem nacionais, estão fora da lei -- para isso há os tribunais e as prisões.
Isto soa um bocado lepénico, e é pena, mas não nos deixam alternativa. Sejamos intolerantes para com intolerância. Não demos aos nossos inimigos (pois é de inimigos que se trata), a corda com que nos querem enforcar.

AHORA ME DA PENA



segunda-feira, novembro 23, 2015

Três razões para o terrorismo islâmico na Europa: 2 - A rejeição dupla

Nos séculos XVI e XVII, nos tempos das guerras de religião em França, chacinavam-se os opositores. O conflito que opôs católicos a protestantes foi sangrento e prolongado. Como nos dias de hoje, não graças a Deus, mas à Revolução Francesa, tais práticas não são aceites, o país terá de lidar com essa realidade incómoda que é a de ter milhões de muçulmanos, entre os quais uma percentagem -- pequena, em termos relativos; mas de dimensão preocupante, em números absolutos -- que aderiu ou pode potencialmente aderir ao jiadismo.
Não será por acaso que boa parte destes operacionais pertencem ao lumpen  social, são jovens delinquentes, pequenos traficantes. Para além das desestruturações familiares que são um problema em todas as sociedades modernas, independentemente do desemprego que atinge os jovens, acresce a dificuldade suplementar de estes individuos que dão pelos nomes de Mohamed ou de Abdalah rejeitarem a sociedade que os rejeita. São indivíduos desesperados, pasto verde e fresco para o terrorismo. 
A resolução deste problema, se for atacado de frente e já, é para uma ou duas gerações. O laxismo do estado, o oportunismo de muitos políticos locais que cedem às pretensões dos fundamentalistas a troco de votos, vai ter de acabar. A França vai ter, por isso, de optar entre políticas racionais, esclarecidas e corajosas por um lado; ou então escolhe a Frente Nacional, e aí haverá uma reactualização das guerras de religião do século XVI, em que todos sairão derrotados.

Três razões para o terrorismo islâmico na Europa: 1- Quem semeia ventos, colhe tempestades

1. Não seria crível que estados com largos milhões de população urbana e com acesso a todos os instrumentos da modernidade, como o são os do Médio Oriente, assistissem impunemente ao cataclismo que foi levado às suas sociedades organizadas -- a destruição, a morte, o caos --, em nome duma mentira obscena a ocultar a cupidez mais alarve, sem que houvesse reacção olho por olho, dente por dente
Que os radicais islâmicos, com cumplicidades várias, entre as quais sobressaem as de países do Golfo Pérsico, queiram a todo o custo dar-nos, a nós ocidentais, a provar do nosso próprio veneno, é algo sobre o qual não podemos ter ilusões. 
Repito-me. Primeiros responsáveis: o gabinete de criminosos liderado por George W. Bush, o cúmplice nojento Blair. Nem nomeio o palhaço espanhol e o inenarrável português. Semearam os ventos da tempestade que estamos agora a colher. Há outros responsáveis: o déspota Assad, passando agora de ditador a chefe de facção no mosaico sírio e objectivamente nosso aliado. (Os inimigos dos nossos inimigos, nossos amigos (até ver) são). 
É a puta da vidinha. 

domingo, novembro 22, 2015

o meu LEFFest (19)


Amnesia, de Barbet Schroeder (Suíça e França, 2015 -- «Retrospectiva - Barbet Schroeder).
Um belo filme sobre a atitude do indivíduo perante o mal. Marthe Keller, radiosa nos seus setenta anos.

sábado, novembro 21, 2015

THE AFTERNOON a) FOREVER AFTERNOON (TUESDAY?)




inquieta e receosa como asas de melro recém-nascido

«Se a sábia sentença de Hipócrates está certa e tudo está em tudo, neste meu feio corpo também estará, por ventura inquieta e receosa como asas de melro recém-nascido, a divina beleza que talvez apenas no paradoxo de um corpo relaxado se deixe entrever.»

Migue Real, Carta de Sócrates a Alcibíades, Seu Vergonhoso Amante (1987)

sexta-feira, novembro 20, 2015

quinta-feira, novembro 19, 2015

o menino bonito das sacristias

«No ambiente requintado dos salões lisboetas, a sua linha fidalga recortou-se com mais firmeza e a sua esbelta figura adquiriu novo aprumo, como haste que se expande aos raios dum sol mais quente. A natural afabilidade sem inflexões afectadas, certa distinção de raça timbrando as maneiras graves, a linha sempre correcta e o porte sempre gentil, conquistaram-lhe as simpatias mundanas e obtiveram-lhe êxito completo. Tornou-se o menino bonito das sacristias.»

Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

quarta-feira, novembro 18, 2015