domingo, abril 01, 2007

Cukor sabia

Estive ontem a rever o último (salvo erro) filme do George Cukor, que muito justamente recebeu o cognome de «cineasta das mulheres», tantas e tão belas foram as que dirigiu: da Greta Garbo à Katherine Hepburn, passando pela Marylin Monroe e a Audrey Hepburn.
Sobre o filme, interessante, como se impõe, não vou falar. O que me sensibilizou, e sempre revisito com um angustioso prazer (os anos, enfim...), foi ver representar duas das minhas actrizes preferidas de há vinte e tal anos: mais do que grandes actrizes, são sem dúvida das mulheres mais esplendorosas que o cinema alguma vez projectou. Cukor lá sabia.
Em homenagem ao meu bom gosto (peço desculpa) colocarei imagens delas, por baixo deste post. E de vez em quando visitarei as minhas actrizes preferidas, para depois mostrar.

Candice Bergen
Jacqueline Bisset

Esta semana n'O Vale do Riff



Correspondências #86 - Eugénio de Castro a Miguel de Unamuno

Coimbra
1, Arco do Bispo
10 de Maio de 1904
Ex.mo Senhor
Ha perto de 15 dias que tenho passado muito e muito incomodado de saude, sendo este o motivo do meu longo silencio. Beijo-lhe as mãos deveras reconhecido, pela sua gentilissima carta que tanto me sensibilizou, e pela oferta dos seus livros, que ainda não li, porque só quero lêl-os, como elles merecem, quando tiver bem arejado e desanuviado o espirito que a doença encheu de desanimos e de fadiga.
Da sua curta visita a esta cidade, conservo, com a maxima franqueza o digo, as mais agradaveis recordações, e vivamente me felicito por ter estreitado relações de verdadeira amizade com V. Ex.ª que eu tanto admirava pela fôrça originalidade e brilho do seu talento. Espero que havemos de encontrar-nos muitas vezes, em Salamanca e Coimbra, que havemos de trocar muitos livros nossos, que havemos de escrever-nos a miúdo, e que, d'esta fórma de muito amigos passaremos a ser dois grandes amigos.
Antes de terminar, permita-me que lhe peça o favor de me indicar a adresse do snr. D. Luiz Maldonado, a quem desejo agradecer a offerta Del Campo y de la Ciudad.
Peço-lhe que me ponha aos pés de sua Esposa, muito minha Senhora. Affectuosas lembranças de meu irmão Luiz e de Violante.
Abraça-o cordealmente
o seu
admirador e amigo
m.to grato
Eugénio de Castro


Epistolario Portugués de Unamuno
(edição de Ángel Marcos de Dios)

sábado, março 31, 2007

Antologia Improvável #212 - Rui Coias

São da nespereira as maiores folhas deste outono.
E vai a chuva assentando nelas ripas de lama
que prendem as larvas que dos muros foram caindo.
Podemos caminhar assim, pois seguimos o trilho na urzeira
e a espadela do remador a chapear na légua em volta.
Onde cruzarmos de uma a outra margem o vale,
deixando além os alcantis, abrasados dos mortórios
e o granito atiçando a cinza à borda da cachoeira,
a torrente cairá do malva ao azul esverdeado a espuma.
E na modorra que o dia traz por sob a fiada de árvores,
que de longe tomam a silhueta evasiva das queimadas,
dizes-me ser por isto que tudo o que vem -- vem da memória,
e como nela, tal afluente ignorando seus regatos,
a nossa direcção alternará com as sombras nos lameiros.
















A Ordem do Mundo
Não percam os retratos de Karsh, n' O Século Prodigioso
Hemingway

sexta-feira, março 30, 2007

O Vale do Riff - The Rolling Stones



Pedagogia democrática

Fartei-me de ler hoje, nos jornais e nos blogues, que este repúdio pelo outdoor é contraproducente, etecetera e tal. José Manuel Fernandes, no Público, escreve que o "homem da barbicha" (o dirigente do grupúsculo) está a ser promovido com o alarido; e diz que os que discordam do racismo e da xenofobia devem fazer pedagogia nos lugares públicos, lá onde está o povo que até aceita muito bem este tipo de mensagem. Estou a imaginar...
A questão é esta: visibilidade conseguiu-a ele, e não foi pouca, pela sua habilidade e pela conivência ou estupidez burocrática da Câmara de Lisboa; não se pode pedir que ao insulto gravíssimo se reaja com falinhas mansas ou burocratez de magistrado.
E depois, as sociedades abertas e liberais não podem tolerar organizações políticas que a ponham em causa, sob pena de se suicidarem: aconteceu na Alemanha nos anos 30, aconteceu no final do século na Argélia.

Estamos conversados

Para a PGR, um cartaz cuja mensagem é: já basta de estrangeiros, o nacionalismo (!?) é a solução, ilustrado com um avião de recambio, não é, só por si, atentatório e ofensivo, nem constitui, só por si, um ilícito criminal, e mais isto e mais aquilo, naquela língua de trapos e conversa murcha de mangas de alpaca. Estamos conversadíssimos. Só que eu não acredito que aquele insulto se aguente por lá muito tempo (muitas horas?).

quinta-feira, março 29, 2007

Hoje há palhaços

Faz-me confusão ver o Blair de peitinho feito a tratar do problema dos soldados britânicos no Irão. Aquilo não está a jogar lá muito bem. Aguardemos o que vem aí.

À boa atenção dos serviços de limpeza da CML

Mas é possível uma coisa daquelas em pleno Marquês? Não há para aí uma brigada do lixo da CML que varra aquela porcaria? Ou o estado democrático se dá ao respeito e elimina aquela dejecção xenófoba e racista duma entidade que dá pelo nome de PNR, ou perdeu-se a noção de decência. Espero bem que as autoridades não obriguem os milhares de lisboetas estrangeiros que têm de passar por ali a confrontar-se com aquela ameaça. Nem mais um dia, sequer. Seria uma infâmia e uma vergonha para todos nós.

O Vale do Riff - AC/DC


quarta-feira, março 28, 2007

Défi à Ric Hochet
Tibet (desenhos) e A. P. Duchâteau (texto)

és um adolescente retardado / faltou-te sempre a quarta do bom senso
Fernando Assis Pacheco

O Vale do Riff - Janis Joplin

Maybe


terça-feira, março 27, 2007

Salazar -- Agora, na Hora da Sua Morte

Leio Salazar -- Agora, na Hora da Sua Morte, de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha (Parceria A. M. Pereira) e deparo-me com a melhor BD portuguesa que alguma vez me passou pelas mãos.
Quando se trata de banda desenhada de inspiração histórica, a tradição nacional tem sido a de cair num didactismo a causar sempre grandes entraves à fluência narrativa. Este livro de Cotrim e Rocha é algo completamente diferente: é um ensaio sobre a personagem Salazar na sua circunstância de governante solitário e todo-poderoso.
A visão é crítica, naturalmente, mas sem proclamações nem vociferações; pelo contrário, a obra é atravessada por uma densa melancolia -- no fundo a melancolia de um país em luto permanente.
Atmosfera angustiosa, portanto, em que o magistral tratamento de imagem de Miguel Rocha serve na perfeição a narrativa de João Paulo Cotrim, que fez a opção pelos momentos-chave do percurso do ditador e as ideias-força da sua actuação política.
Este Salazar, agora na hora do seu ressurgimento mediático, sendo uma obra maior dos quadradinhos portugueses (ou da nona arte, se preferirem), acaba por extravasá-la, tornando-se, pelo seu altíssimo nível, uma referência bibliográfica na interpretação do salazarismo.

O Vale do Riff - Clifford Brown

Lady Be Good / Memories Of You

foto: Francis Wolff

segunda-feira, março 26, 2007

Antologia Improvável #211 - José Emílio-Nelson (2)

NO ÚLTIMO RESTAURO

No azulejo vasto há um monge
De perfil pétreo, desdenho eu,
Que relê obstinado o enigma
Audacioso de um Santo do século sexto.
Decifra na miniatura ali desenhada
E que suspensa numa nuvem nos parece.
O monge casto contempla a virtude e
O abismo que se descreve numa súmula
De copista puro.

No último restauro a limpidez
Foi ofuscada por empastados
E cresceu a plumagem da pena
Até então adelgaçada e mais fendida.
A sua mão está quebrada pela argamassa
Que a divide em quadrados de azul.
O monge que decifra nas trevas
O seu refúgio, redige no século sexto.
Descubro, espiando, que há um monge, satânico,
Que redige as trevas.


Absorção da Luz / A Alegria do Mal