segunda-feira, abril 02, 2007
domingo, abril 01, 2007
Cukor sabia
Estive ontem a rever o último (salvo erro) filme do George Cukor, que muito justamente recebeu o cognome de «cineasta das mulheres», tantas e tão belas foram as que dirigiu: da Greta Garbo à Katherine Hepburn, passando pela Marylin Monroe e a Audrey Hepburn.
Sobre o filme, interessante, como se impõe, não vou falar. O que me sensibilizou, e sempre revisito com um angustioso prazer (os anos, enfim...), foi ver representar duas das minhas actrizes preferidas de há vinte e tal anos: mais do que grandes actrizes, são sem dúvida das mulheres mais esplendorosas que o cinema alguma vez projectou. Cukor lá sabia.
Em homenagem ao meu bom gosto (peço desculpa) colocarei imagens delas, por baixo deste post. E de vez em quando visitarei as minhas actrizes preferidas, para depois mostrar.
Correspondências #86 - Eugénio de Castro a Miguel de Unamuno
Coimbra
1, Arco do Bispo
10 de Maio de 1904
Ex.mo Senhor
Ha perto de 15 dias que tenho passado muito e muito incomodado de saude, sendo este o motivo do meu longo silencio. Beijo-lhe as mãos deveras reconhecido, pela sua gentilissima carta que tanto me sensibilizou, e pela oferta dos seus livros, que ainda não li, porque só quero lêl-os, como elles merecem, quando tiver bem arejado e desanuviado o espirito que a doença encheu de desanimos e de fadiga.
Da sua curta visita a esta cidade, conservo, com a maxima franqueza o digo, as mais agradaveis recordações, e vivamente me felicito por ter estreitado relações de verdadeira amizade com V. Ex.ª que eu tanto admirava pela fôrça originalidade e brilho do seu talento. Espero que havemos de encontrar-nos muitas vezes, em Salamanca e Coimbra, que havemos de trocar muitos livros nossos, que havemos de escrever-nos a miúdo, e que, d'esta fórma de muito amigos passaremos a ser dois grandes amigos.
Antes de terminar, permita-me que lhe peça o favor de me indicar a adresse do snr. D. Luiz Maldonado, a quem desejo agradecer a offerta Del Campo y de la Ciudad.
Peço-lhe que me ponha aos pés de sua Esposa, muito minha Senhora. Affectuosas lembranças de meu irmão Luiz e de Violante.
Abraça-o cordealmente
o seu
admirador e amigo
m.to grato
Eugénio de Castro

Epistolario Portugués de Unamuno
(edição de Ángel Marcos de Dios)
sábado, março 31, 2007
Antologia Improvável #212 - Rui Coias
São da nespereira as maiores folhas deste outono.
E vai a chuva assentando nelas ripas de lama
que prendem as larvas que dos muros foram caindo.
Podemos caminhar assim, pois seguimos o trilho na urzeira
e a espadela do remador a chapear na légua em volta.
Onde cruzarmos de uma a outra margem o vale,
deixando além os alcantis, abrasados dos mortórios
e o granito atiçando a cinza à borda da cachoeira,
a torrente cairá do malva ao azul esverdeado a espuma.
E na modorra que o dia traz por sob a fiada de árvores,
que de longe tomam a silhueta evasiva das queimadas,
dizes-me ser por isto que tudo o que vem -- vem da memória,
e como nela, tal afluente ignorando seus regatos,
a nossa direcção alternará com as sombras nos lameiros.

A Ordem do Mundo
E vai a chuva assentando nelas ripas de lama
que prendem as larvas que dos muros foram caindo.
Podemos caminhar assim, pois seguimos o trilho na urzeira
e a espadela do remador a chapear na légua em volta.
Onde cruzarmos de uma a outra margem o vale,
deixando além os alcantis, abrasados dos mortórios
e o granito atiçando a cinza à borda da cachoeira,
a torrente cairá do malva ao azul esverdeado a espuma.
E na modorra que o dia traz por sob a fiada de árvores,
que de longe tomam a silhueta evasiva das queimadas,
dizes-me ser por isto que tudo o que vem -- vem da memória,
e como nela, tal afluente ignorando seus regatos,
a nossa direcção alternará com as sombras nos lameiros.

A Ordem do Mundo
sexta-feira, março 30, 2007
Pedagogia democrática
Fartei-me de ler hoje, nos jornais e nos blogues, que este repúdio pelo outdoor é contraproducente, etecetera e tal. José Manuel Fernandes, no Público, escreve que o "homem da barbicha" (o dirigente do grupúsculo) está a ser promovido com o alarido; e diz que os que discordam do racismo e da xenofobia devem fazer pedagogia nos lugares públicos, lá onde está o povo que até aceita muito bem este tipo de mensagem. Estou a imaginar...
A questão é esta: visibilidade conseguiu-a ele, e não foi pouca, pela sua habilidade e pela conivência ou estupidez burocrática da Câmara de Lisboa; não se pode pedir que ao insulto gravíssimo se reaja com falinhas mansas ou burocratez de magistrado.
E depois, as sociedades abertas e liberais não podem tolerar organizações políticas que a ponham em causa, sob pena de se suicidarem: aconteceu na Alemanha nos anos 30, aconteceu no final do século na Argélia.
Estamos conversados
Para a PGR, um cartaz cuja mensagem é: já basta de estrangeiros, o nacionalismo (!?) é a solução, ilustrado com um avião de recambio, não é, só por si, atentatório e ofensivo, nem constitui, só por si, um ilícito criminal, e mais isto e mais aquilo, naquela língua de trapos e conversa murcha de mangas de alpaca. Estamos conversadíssimos. Só que eu não acredito que aquele insulto se aguente por lá muito tempo (muitas horas?).
quinta-feira, março 29, 2007
Hoje há palhaços
Faz-me confusão ver o Blair de peitinho feito a tratar do problema dos soldados britânicos no Irão. Aquilo não está a jogar lá muito bem. Aguardemos o que vem aí.
À boa atenção dos serviços de limpeza da CML
Mas é possível uma coisa daquelas em pleno Marquês? Não há para aí uma brigada do lixo da CML que varra aquela porcaria? Ou o estado democrático se dá ao respeito e elimina aquela dejecção xenófoba e racista duma entidade que dá pelo nome de PNR, ou perdeu-se a noção de decência. Espero bem que as autoridades não obriguem os milhares de lisboetas estrangeiros que têm de passar por ali a confrontar-se com aquela ameaça. Nem mais um dia, sequer. Seria uma infâmia e uma vergonha para todos nós.
quarta-feira, março 28, 2007
terça-feira, março 27, 2007
Salazar -- Agora, na Hora da Sua Morte
Leio Salazar -- Agora, na Hora da Sua Morte, de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha (Parceria A. M. Pereira) e deparo-me com a melhor BD portuguesa que alguma vez me passou pelas mãos. Quando se trata de banda desenhada de inspiração histórica, a tradição nacional tem sido a de cair num didactismo a causar sempre grandes entraves à fluência narrativa. Este livro de Cotrim e Rocha é algo completamente diferente: é um ensaio sobre a personagem Salazar na sua circunstância de governante solitário e todo-poderoso.
A visão é crítica, naturalmente, mas sem proclamações nem vociferações; pelo contrário, a obra é atravessada por uma densa melancolia -- no fundo a melancolia de um país em luto permanente.
Atmosfera angustiosa, portanto, em que o magistral tratamento de imagem de Miguel Rocha serve na perfeição a narrativa de João Paulo Cotrim, que fez a opção pelos momentos-chave do percurso do ditador e as ideias-força da sua actuação política.
Este Salazar, agora na hora do seu ressurgimento mediático, sendo uma obra maior dos quadradinhos portugueses (ou da nona arte, se preferirem), acaba por extravasá-la, tornando-se, pelo seu altíssimo nível, uma referência bibliográfica na interpretação do salazarismo.
segunda-feira, março 26, 2007
Antologia Improvável #211 - José Emílio-Nelson (2)
NO ÚLTIMO RESTAURO
No azulejo vasto há um monge
De perfil pétreo, desdenho eu,
Que relê obstinado o enigma
Audacioso de um Santo do século sexto.
Decifra na miniatura ali desenhada
E que suspensa numa nuvem nos parece.
O monge casto contempla a virtude e
O abismo que se descreve numa súmula
De copista puro.
No último restauro a limpidez
Foi ofuscada por empastados
E cresceu a plumagem da pena
Até então adelgaçada e mais fendida.
A sua mão está quebrada pela argamassa
Que a divide em quadrados de azul.
O monge que decifra nas trevas
O seu refúgio, redige no século sexto.
Descubro, espiando, que há um monge, satânico,
Que redige as trevas.

No azulejo vasto há um monge
De perfil pétreo, desdenho eu,
Que relê obstinado o enigma
Audacioso de um Santo do século sexto.
Decifra na miniatura ali desenhada
E que suspensa numa nuvem nos parece.
O monge casto contempla a virtude e
O abismo que se descreve numa súmula
De copista puro.
No último restauro a limpidez
Foi ofuscada por empastados
E cresceu a plumagem da pena
Até então adelgaçada e mais fendida.
A sua mão está quebrada pela argamassa
Que a divide em quadrados de azul.
O monge que decifra nas trevas
O seu refúgio, redige no século sexto.
Descubro, espiando, que há um monge, satânico,
Que redige as trevas.

Absorção da Luz / A Alegria do Mal
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