segunda-feira, agosto 24, 2026

o que está a acontecer

«A partir do revertério da situação política, com o fim do domínio da laia que assumira o mando após a morte dos Andrade, o pai e o filho, o fazendeiro mandou e desmandou na Intendência durante lustros, Intendente ele próprio ou preposto de sua escolha, parente ou compadre.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984) 

«A corrida ao último táxi, o nome do hotel dito apressadamente no meu cantonês já esquecido, esperando acertar com o tom correcto dentre os nove. Se a tempestade chegar ao sinal oito, o mundo ficará suspenso. Urge encontrar um porto seguro, uma cama onde amalhar o jet lag de um corpo amassado por tantas horas de voo.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençois de Linho? (2026)

«Jusqu'à ce que la Mort, ouvrant son aile immense, / Engloutisse à jamais dans l'éternel silence / L'éternelle douleur! // E Petrarca, tanto ano a chorar sonetos, aposentado num palácio dum doge, rodeado de servos, e de amigos, e de admiradores, naquela feiticeira Veneza, tudo a expensas da República! / E todos os outros mestres de bardos melancólicos? Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimejantes!» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861) 

3 versos de Nuno Costa Santos

«Às vezes é um fósforo / que resplandece venturosas entradas / no dicionário dos dias.» 

«Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme», Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

domingo, agosto 23, 2026

se Montenegro ceder no 'caso' Luís Neves, bem pode arrumar as botas

Confesso que é o que estou à espera. Tê-los-á Montenegro no sítio ou prepara-se para dar ao Chega uma inacreditável vitória política? Seria suicídio, apesar das jeremíadas das hienas e dos lacraus, avençados do comentariado que precisam destas intrigazinhas para pôr o pão na mesa. Um conhecido pateta chamou-lhe xerife, uma simpatizante do Tullius já atirou com as escaramuças de Rabo de Peixe (onde, segundo li, as actuação da polícia terá sido exemplar). Tudo serve para estrume.

Eu espero dos outros partidos paciência estratégica.? Nem idiota útil, à maneira da IL, ou pior ainda, cúmplice do Chega, se alinhar pelo coiro.

Porque, entendamo-nos: embarcar no chamado 'caso' Luís Neves, ajudar a torpedear um óptimo ministro, homem certo no lugar certo, que foi também um grande funcionário e director da Polícia Judiciária por causa de merdices burocráticas -- por onde têm mais por onde pegar?... --, será fazer objectivamente o jogo do Chega, da política de terra queimada, de facilitar a chegada daquilo ao poder. Se é isso que querem, atirem pedras a  Luís Neves, talvez ele se canse desta choldra. E talvez um próximo líder da Direita já não se importe de aliar-se a um palhaço. 

2 versos de João Camilo

«Viver assemelha-se a um filme desconexo, / mas morrer de verdade é ficar de fora» 

«Um filme desconexo», Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

Volta a Portugal em escritores: Bombarral

 


Esther de Lemos

(Maria Esther Guerne Garcia de Lemos Trigueiros de Marte, 
Carvalhal, Bombarral, 2-XI.1929)


sábado, agosto 22, 2026

2 versos de Fernando Pinto do Amaral

«Talvez fosse mentira, eu sei, mas há mentiras / que em certas noites podem ser verdade» 

«Cais da Pedra a Santa Apolónia», Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

notas periféricas sobre a Guerra da Ucrânia

1. A Ucrânia continua a ser destruída em nome do Ocidente. A Ucrânia nunca foi do Ocidente e nunca será -- ou sê-lo-á quando a Rússia for neutralizada e, em seguida, cortada às postas, como pretendem os neocons que percevejam democratas e republicanos, 

2. A União Europeia, passou de vassala a um franchise americano, débil, com dirigentes políticos péssimos e sem vergonha. A História, quando olhar para os actos destas criaturas será implacável, a começar numa oportunista chamada Ursula von der Leyen e a acabar nuns miseráveis chefes de governo. Melífluos, incompetentes, imorais, burlões da pior espécie, compraram aos americanos "a derrota da Rússia" -- e agora, com uma UE aos pedaços (triunfo para Putin, e é bem feito), continuam a sustentar o arrasar da Ucrânia -- e o que dela restar no fim disto tudo, num processo em que a diplomacia só serviu para enganar (Acordos de Minsk), e quando tal deixou de ser possível, foi posta de lado. Uma União Europeia abaixo de vassala, agora abaixo de zero.

3. Uma luta pelo poder feiosa a desenrolar-se dentro da clique dirigente que serve os interesses dos americanos, com ou sem Trump, digna de um tipo -- Zelensky -- que enganou o eleitorado e ajudou a levar o país à ruína, repetindo-me: para servir os interesses americanos de neutralização da Rússia.

4. Era para falar em comentadores e no papel de palhaços de circo de pivôs, por exemplo da cnn-Portugal, mas não vou descer tão baixo.

5. Preocupa-me, isso sim, a dinâmica própria da inércia que conduz à inevitabilidade de uma guerra com a Rússia, por causa da Ucrânia -- algo que em 2014 me parecia impossível, mas que agora, com sonâmbulos e trafulhas aos comandos passou a ser uma preocupação. E pergunto:

A. A quem serve uma guerra na Europa com a Rússia? Não à Europa, certamente;

B. Quem ganharia uma guerra entre alguns países da Europa (que não Portugal, espera-se que não seja governada por traidores) com a Rússia? Não esses países, certamente. Pelo contrário, nessa circunstância catastrófica, vejo uma Alemanha de novo destruída -- e talvez de novo, havendo futuro --, remetida para a condição de muitos pequeninos estados inofensivos. Eu cá gostaria disso; quero lá saber dos alemães.

6. Talvez o poder atómico francês seja suficientemente dissuasor: talvez a Inglaterra devesse levar uma lição, pela quantidade de abortos que são eleitos, desde pelo menos o ultravigarista Boris Johnson; talvez a Polónia católica resista; talvez a Finlândia volte a ser partilhada com a Suécia; talvez os países bálticos voltem ao primitivo estado de territórios ocupados do limes  russo; talvez... talvez Portugal, país da Nato, entretanto uma fraude que há muito deixou de ser aliança defensiva, consiga ficar à parte de uma guerra que não lhe interessa para nada -- que é contra os seus interesses.

7. Com 900 anos (2028), Portugal não precisa da Europa para nada no que respeita à sua condição de antigo estado do Velho Continente -- aliás o estado europeu com as fronteiras mais antigas.... A UE serviu-nos para sacar dinheiro e ensinar-nos a comer à mesa. Da Europa, duas constantes de política externa: Espanha e o Atlântico, antigamente a Inglaterra, depois os Estados Unidos. Depois, Brasil, Cabo Verde, Angola, Moçambique, etc. 

8. Ucrânia -- que nos interessa isso? Por mim, como já disse, Putin pode tomar Kiev e resolver a questão da Transnístria, região cuja população nunca quis deixar de ser russa. Como creio que a cidade russa de Odessa está perdida para a Ucrânia (a não ser que se apressem a fazer a paz com a Rússia enquanto podem -- e já não sei se podem) -- como Odessa está perdida e o acesso ao mar da Ucrânia terminará, aquela região que nunca quis ser Moldávia resolve-se por si. Chatices lá para o Mar Negro; já houve, na História, mortandade que chegasse por ali. Deve interessar-nos tanto como o Sudão do Sul, presidido por um tipo chamado Salva Kiir Mayardit.

sexta-feira, agosto 21, 2026

o que está a acontecer

Os primeiros machos haviam sido domesticados à força, uns pelo açaimo, outros pela inexorável castração, e carregavam agora em osso escassas moendas de fava e milho, com destino às azenhas da Achada e da Salga. Tinham o olhar mole e aflito de toda a natureza condenada à servidão dos homens.» João de Melo, O Meu Mundo não É deste Reino (1983)

«Ele deu três ou quatro voltas no colchão de palha fazendo a si próprio uma pergunta que o acompanharia durante todo o serviço militar: / "Por que raio é que os colchões de palha, aqui, não me fazem asma?"» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984)

«Agora, a ilha maioral, a Madeira nativa, o imã que fascinava todas as pupilas errantes, ostentava-se mais além. Pardo como o do Porto Santo, o seu corpo, de linhas irregulares, parecia, visto assim de longe, totalmente despido de pompas vegetais, ninguém ousando profetizar os encantos que guardava para aqueles que lhe demandassem o encanto dos cumes e das vertentes.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

2 versos de Helder Moura Pereira

«Risca. É um poema num café. Dele / faz parte uma mesa de café e um café.» 

Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

o putedo em acção, ensaio de Agosto para mais uma golpada e um ganda texto de Fabian Figueiredo

Os 'fundos de investimento', os animaizinhos que os gerem e aqueles que os ensinam nas universidades business, essa frandulagem engravatada provocou-me sempre urticária. Não é de agora.  Quem caracterizou bem esta escória foi o Woody Allen, em Golpe de Sorte (2023).

Uma ganda análise deste ensaio de Agosto para mais uma golpada é Fabian Figueiredo, lido aqui, que mão amiga me fez chegar.

quinta-feira, agosto 20, 2026

6 versos de Inês Dias

«Quero um amor que tenha / a lealdade de um cancro, / que alastre apenas dentro de mim / e me escolha os ossos / com dedos ligeiros mas demorados / de nódoa negra.» 

«Vento Garrôa  [Parque Eduardo VII, 1954]», Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

quarta-feira, agosto 19, 2026

5 versos de Fernando Luís Sampaio

«Porque pesam mais as palavras / Do que uma vida / Inteira, poucas ficam no acerto / Final da tosca alvenaria, crude / Lacrimejante.» 

Resumo - A Poesia em 2012 (2013) 

Volta a Portugal em escritores: Benavente



Natércia Freire

(Natércia Ribeiro de Oliveira Freire, Benavente, 28-X-1919)



terça-feira, agosto 18, 2026

o que está a acontecer

«Além das matérias pagas, os jornais do Rio e de São Paulo divulgaram algum noticiário sobre os eventos principais que abrilhantaram os festejos, com destaque para as cerimônias, ambas solenes, da inauguração dos bustos do coronel Prudêncio de Aguiar e do doutor Inácio Pereira, erguidos um em cada praça, a da Prefeitura e a da Matriz.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984)

«As casas encardidas do litoral, com seus tectos de colmo e adobes de uma argamassa em tudo semelhante ao barro amassado em sangue, desciam em três fiadas até ao fundo do vale. Aí se enlaçavam umas nas outras, ao longo de canadas tortuosas, através das quais seria milagre a passagem de uma junta de bois atrelada ao tiro das carroças.» João de Melo, O Meu Mundo não É deste Reino (1983)

«As suas casitas estendiam-se junto à riba, branquejando entre a paisagem e sugerindo uma vida tão plena de claridade como modesta; mas haviam crescido em número, sim, pois Juvenal pudera contar muito mais do que na época, já distante, em que viera com a família passar o Estio na vila Baleira.»  Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

2 versos de Gastão Cruz

«os versos partem para a humanidade / mas a humanidade para onde parte?» 

 «Luz Geral», Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

segunda-feira, agosto 17, 2026

3 versos de Diogo Vaz Pinto

«essas coxas, meias de malha, mãos / de louça antiga, sardas e / que boca, que madrugada adolescente.» 

Resumo - A Poesia em 2012 (2013) 

Volta a Portugal em escritores: Beja

 


Pe. José Agostinho de Macedo

(Salvador, Beja, 11-IX-1761)






domingo, agosto 16, 2026

o que está a acontecer

«O rio que acabei de cruzar no último ferry apanhado no aeroporto de Hong Kong, nesta tarde de tufão, já com o sinal três de tempestade tropical hasteado. Viagem de enjoo, sobressalto constante, a surfar as vagas, numa alucinada vertigem.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (2026) 

«Que requintes de luxo para o corpo, e anelos de glória para a felicidade do espírito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existência, quando ele escrevia: Héritiers des douleurs, victimes de la vie, / Non, non, n'espérez pas que sa rage assouvie / Endorme le Malheur,» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

«Ele olhava, bestificado, as camas de ferro, os armários a pedir cadeado, as lajes frias e os colegas a despirem-se com ares de condenados. / -- Qual Cavalaria? -- perguntou com um ar imbecil -- Isto até me parece muito asseado. / -- A gente depois conversa. -- rosnou o Zé puxando a manta até aos olhos.» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984) 

6 versos de Alberto Pimenta

«também me parece / que muitos poetas  / não querem dizer / o que dizem / quando dizem / o que querem»

 Resumo - A Poesia em 2012 (2013)

o que a Frederiksen deveria ter dito ao lado da Meloni

 A propósito da rebaldaria de Ceuta, com evidente intervenção da CIA -- só um anjinho não o vê --, não sei se em joint venture  com a Mossad e a cumplicidade vergonhosa do próprio Marrocos em dia de aniversário de entronização de Mohamed VI, que deveria pintar a cara de preto, por monarca de um reino de onde os súbditos querem fugir --, a propósito de tal acontecimento vieram a católica nacionalista Meloni e a social-democrata Frederiksen falar daquilo que as preocupa, a imigração.

Não serei eu quem dirá que a imigração, de que tanto gosto -- mas dum gostar diferente do dos hoteleiros, empreiteiros e agricultores --, não acarreta problemas para os quais o país não está(va) preparado. Mas sem nunca fazer o jogo do Tullius Detritus.

Dizem as senhoras que são orgulhosas das raízes cristãs da Europa; pois eu também! Portugal fez-se com as milícias dos reis e com a Igreja. Mas também me orgulho muitíssimo da herança muçulmana, como deve suceder com todo o português patriota.

Vivo em Cascais, um concelho cheio de topónimos árabes, o mais importante dos quais será Alcabideche (onde nasceram os meus dois netos), terra natal do grande poeta árabe do Século XI Ibn Muqana, concretamente,  Abu Zayd'Abd ar-Rahmãn ibn Muqana al-Qabdaqui al-Lishbuni. Gosto tanto dos poetas, como das palavras e dos moinhos (e dos cavalos, e um longo etecetera...) nos deixaram. Dois dos livros da minha vida são os quatro volumes do Portugal na Espanha-Árabe, do transmontano António Borges Coelho e O Meu Coração É Árabe, antologia de poetas árabes nascidos no território que veio a ser Portugal, do lisboeta Adalberto Alves.

Como, de resto, tenho muito orgulho na nossa herança judaica, considerando que a expulsão e conversão forçada dos judeus no final do Século XV foi não só o maior crime que Portugal cometeu, como foi catastrófico para o país em todos os sentidos. E, já agora, também da céltica, da romana, da sueva e da visigótica. Sem esquecer que uma das palavras preferidas da minha língua é gajo, de origem cigana, como se sabe.

Não quer com isto dizer que seja tolerante para com a religião deles (muçulmanos), como não sou para com a nossa (cristãos), quando começam a exorbitar. A religião é da esfera íntima, pessoal e familiar, mais do que isso só deve ser tolerada pelo estado laico, ou por razões identitárias ou de Estado, como sucede, e bem, com a Igreja Católica.

Que Meloni se ufane da herança cristã da Europa, está no seu direito; tal como Frederiksen, que, no entanto, proclamando-se socialista não junte a estas formulações pias o orgulho na herança iluminista, que nos deu a fórmula que mantém toda a razão de ser, enquanto houver ser humano sobre a terra -- e que absolutamente nada substitui, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, isso é que foi pena; e nós não o devemos deixar esquecer: a Razão antes de tudo e em política geral; fantasias celestiais & outras, é com cada um, desde que não nos chateiem.