terça-feira, julho 07, 2026

3 versos de José Alberto Oliveira

«Noites longas. Repara / como há quanto tempo / és funcionário da vida» 

Nada Tão Importante que Não Possa Ser Dito (2007) - «Sequela»

segunda-feira, julho 06, 2026

Joaquín Sabina, «El Muro de Berlin»


 

5 versos de Rui Pires Cabral

«Contra o frio que nos ronda, / resta o lume que ateamos / por ternura, desfastio / ou vontade de vingar / o dissabor de viver.» 

Oráculos de Cabeceira (2009) - «"We are flint and steel to each other"»

domingo, julho 05, 2026

101 poetas e um verso só

7. Camilo Pessanha «Morre-me a boca por beijar a tua.»  Camilo Pessanha (Clepsidra)


António Barahona - «Nas minhas mãos o violino alado percorre distâncias incalculáveis no sonho.» (Pássaro-Lyra)

Francisco Alvim - «Encostei meu ombro naquele céu curvo e terno» (Hora)

João de Barros - «Vão, sem destino, errando ao sabor da corrente.» (Algas)

Manuel de Freitas - «Falta-me a técnica, mas tenho o rancor» (Esplanada, Game Over)

Ruy Belo - «A morte é a verdade e a verdade é a morte.» (Quasi Flos, O Problema da Habitação -- Alguns Aspectos)

Sophia de Mello Breyner Andresen - «O corpo a corpo do espaço e da escultura» (Roma, Musa)


o que está a acontecer

«Ter andado de Herodes para Pilatos, batendo todo o sertão do Ceará no recrutamento dos tabaréus receosos das febres amazonenses e tranquilos sobre o presente, porque há anos não havia secas, e afinal, depois de tanto trabalho, de tantas palavras e canseiras, fugirem-lhe nada menos de três!» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário. O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a influências políticas, e o jornal de Leiria, «A Voz do Distrito», que estava na oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte e na reacção clericalEça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/1880)

«O papagaio salta-lhe à mão, e esta mão não é pequena, dedos longos, rosados na extremidades, transparentes como o colo de sua dona, onde o próprio Lúcifer de Gautier choraria uma segunda lágrima, por se ver impossibilitado de armar às boas mulheres (quando é de supor que lhe não vão lá ter as piores.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854) 

«Working Class Hero» (Noir Désir)


 

sábado, julho 04, 2026

Estados Unidos da América, 250 anos: 30 boas razões para celebrar, para além dos genocídios, da escravatura e da pilhagem global

 Aaron Copland (Brooklyn, Nova Iorque, 14-XI-1900)

Abraham Lincoln (LaRue County, Kentucky, 12-II-1809)

Benjamin Franklin (Boston, Massachusetts, 17-I-1706)

Billie Holiday (Filadélfia, Pensilvânia 7-IV-1915)

Bob Dylan (Duluth, Minnesota, 24-V-1941)

Charles M. Schulz (Minneapolis, Minnesota, 26-XI-1922)

Charlie Parker (Kansas City, 29-VIII-1920)

Duke Ellington (Washington D. C., 29-IV-1899)

Ella Fitzgerald (Newport News, Virginia, 25-IV-1917)

Edward Hopper (Nyack, Nova Iorque, 22-VII-1882)

Emily Dickinson (Amherst, Massachusetts, 10-XII-1830)

Frank Zappa (Baltimore, Maryland, 21-XII-1940)

Franklin D. Roosevelt (Hyde Park, Nova Iorque, 30-I-1882)

Henry D. Thoreau (Concord, Massachusetts, 12-VII-1817)

Herman Melville (Nova Iorque, 1-VIII-1919)

Jack London (São Francisco, Califórnia, 12-I-1876)

Jean-Michel Basquiat (Nova Iorque, 22-XII-1960)

John Ford (Cape Elizabeth, Maine, 1-II-1894)

John Steinbeck (Salinas, Califórnia, 27-II-1902)

Leão XIV (Robert Prevost) (Chicago, Illinois, 14-IX-1955)

Louis Armstrong (Nova Orleães, Louisiana, 4-VIII-1901)

Mark Twain (Florida, Missouri, 30-XI-1835)

Martin Luther King Jr. (Atlanta, Geórgia, 15-I-1929)

Martin Scorsese (Queen, Nove Iorque, (17-XI-1942)

Neil Armstrong (Washington Township, Ohio, 5-VIII-1930)

Ray Charles (Albany, Geórgia, 23-IX-1930)

Robert Crumb (Filadélfia, Pensilvânia, 30-VIII-1943)

Ta-sunko-witko / Crazy Horse (Colinas Negars, Dacota do Sul, c. 1840)

Walt Disney (Chicago, Ilinóis, 5-XII-1901)

Walt Whitman (Huntington, Nova Iorque, 31-V-1819)

é irresistível: jornalistas da cnn-Portugal a fazerem figura de parvos

Havia já aquele antecedente de circo com a criatura que interpelou Carlos Branco. Veja-se o tipo de perguntas que são feitas aqui ao coronel José Carmo, antiputinista. O homem nem sabe o que e como há-de responder, quando é-questionado sobre a possibilidade da "consolidação da vantagem" (sic) da Ucrânia no próximo Inverno....

Pois se a estação há semanas que anda a vaticinar o extraordinário momentum ucraniano e o desespero russo -- levando até ao curto-circuito do pobre Azeredo Lopes, para quem "A Ucrânia já ganhou a guerra"... Então não já?... É a Ucrânia triunfante, embora destruída e morta ao serviço dos neocons americanos, primeiro, e dos países que mandam na UE, depois. Acho mesmo que a grande vitória da Ucrânia nesta guerra será ainda mais retumbante do que a "Fúria Épica" do Trump, no Golfo Pérsico. 

Por falar em Trump, já me rio bastante menos quando um canal de televisão usa a concessão pública para aldrabar as pessoas e fazer o jogo das potências a quem esta guerra aproveita. Tem largos dias, mas é impossível não denunciar a manipulação grosseira praticada pelos "jornalistas" (espero que não todos) da cnn-Portugal: o que Trump diz a propósito do grande número de baixas sofrido por ucranianos e russos (não só qualquer um percebe que Trump está a falar de ambos os contendores, além de ser este o modo como ele aborda a questão desde antes da sua eleição), não tem correspondência no título, que é o seguinte: «Trump sobre a Rússia: "Eles perdem tantos soldados. Desde a Segunda Guerra Mundial que não se via nada assim"». 


Volta a Portugal em escritores: Amares


Vergílio Alberto Vieira
(Amares, 1950)








 

sexta-feira, julho 03, 2026

3 versos de Rui Knopfli

«senhoras, como estatuetas de arte déco, / roupas de musselina leve, botinas de clara / pelica (entre elas minha mãe, jovem» 

O Monhé das Cobras (1997) - «No princípio» 

quinta-feira, julho 02, 2026

David Bowie, «Up the Hill Backwards»


 

um ateu católico

Racionalista e ateu, sou, como a maioria dos portugueses, cristão e católico por formação e cultura.

Diria até que, num ecossistema financismo capitalista abominável e predatório, considero que o papel dos três últimos papas, Bento XVI, Francisco e Leão XIV (poderia falar também de líderes religiosos distantes como o actual Dalai Lama, Tenzin Gyatso) torna(ra)m o mundo um pouco mais respirável, no meio desta lixeira abjecto-comunicacional-argentária.

Valorizo o apelo a uma espiritualidade, que em mim terá correspondência numa necessidade metafísica (Schopenhauer), precisamente porque despojada de fantasmagorias e sempre ancorada na realidade.

Enquanto ateu, as questões internas da Igreja dizem-me pouco, são curiosidades; enquanto homem e cidadão, aprecio uma mensagem emancipadora que possa elevar-nos do lodo merdiático-reticular em que esbracejamos. 

Vem isto a propósito daqueles reaccionários do Lefebvre, que desafiaram o Papa. Esteticamente, acharia muito mais piada à missa em latim; mas não frequento missas e ,de fora, prefiro uma Igreja apesar de tudo emancipadora e não uma que sirva para enquadrar a carneirada no rebanho. Já tivemos disso durante muitos séculos -- da Santa Inquisição a cumplicidade com o Salazar -- com todas as honrosíssimas e dignificantes excepções, do fantástico Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes ao extraordinário Padre Mário Oliveira, cuja evocação num livro recente de Luís Reis Torgal -- camarada de armas na Guiné, ao tempo em que o primeiro serviu como capelão-militar anticolonialista na Guiné, até ser recambiado --, me sensibilizou imenso.

Olhar para estes gajos, põe-me diante dos olhos o Estudo a partir de Velázquez, do Francis Bacon.

2 versos de Luís Quintais

«Por escrita densa / o coração expõe-se,» 

Verso Antigo (2001)

o que está a acontecer

«É um barco sério e sisudo que não se mete nessas andanças. / Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, visto de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crónicas.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«O povo, esmagado debaixo do peso dos tributos, dilacerados pelas lutas dos bandos civis, prostituído às paixões dos poderosos, esquecera completamente as virtudes guerreiras de seus avós.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844) 

«Quinta-feira, -- noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual coitados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadam.»  Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

quarta-feira, julho 01, 2026

Louis Lane, «An Outdoor Overture» (Copland)


 

2 versos de Alberto de Lacerda

«O amor, a própria morte nos aumenta / Sua luz obscura que nos alimenta.» 

Átrio (1997)

terça-feira, junho 30, 2026

como disse Sócrates no início, "isto só agora começou"

Continuo sem saber se Sócrates prevaricou, e em que extensão o terá feito, se o fez. Todos os crimes cometidos por titulares de cargos públicos, mas também por magistrados ou agentes da autoridade devem ter moldura penal agravada. No que hoje é notícia, a condenação do Estado a indemnizar José Sócrates, houve alguém das magistraturas que cometeu um crime, mas estranhamente não se apurou quem, como salienta o bastonário da Ordem dos Advogados. 

Faz lembrar o caso dos submarinos, em que o corrupto alemão foi condenado, mas o corrompido português passou por entre os pingos da chuva, ao contrário do colega grego, que foi parar à cadeia.

Sobre Sócrates, já disse tudo o que tinha a dizer, na altura própria (é confirmar na etiqueta, a quem interesse). Só tenho uma ressalva a fazer e penitenciar-me por ter sido ingénuo, para variar: foi quando cedi à curiosidade de ouvir as escutas dos telefonemas com o amigo, a propósito da casa de Paris, plantadas nos media para, obviamente, condicionar a opinião pública. Na verdade, quem as ouvisse desprevenido, como me sucedeu -- a mim e a toda a gente --, teria grande dificuldade em não chegar à conclusão da evidente culpabilidade do antigo primeiro-ministro, pois se o outro é que era o dono do apartamento não faria nenhum sentido o tom com que o novo locatário se dirigia ao senhorio, mesmo sendo amigo próximo...

Mas há aqui um grande mas... Ouvi Sócrates dizer  -- verdade ou mentira, cabe ao tribunal apurar -- que havia arrendado o apartamento ao amigo, e que entretanto eram necessárias obras, que estavam atrasadas, etc. Ora daqui decorre que o tom com que se dirigiu é, nesta precisa circunstância, perfeitamente normal.

Portanto: Se Sócrates prevaricou enquanto PM, é um criminoso -- coube ao Ministério Público prová-lo, teve para tal um tempo infinito; mas se for inocentado, será uma vítima. Tendo eu sido usado, como o resto da comunidade, por quem deveria combater o crime à margem de ambições pessoais e politiquices, esse magistrado não tem outra qualificação senão a de criminoso também.

Descansemos, porém: este lamaçal vai acabar mais ou menos como a história dos submarinos: Sócrates irá receber uma choruda indemnização paga por todos nós; os estúpidos do costume continuarão a vociferar contra ele, esquecendo as asneiras e as trafulhices de quem o quis tramar e que conduziram ao estado actual. Obviamente, não serão incomodados.


4 versos de Pedro Tamen

«Não tenho graves defeitos / nem tão-pouco grandes qualidades. / Leve portanto a barca / vai do lastro mais perigoso.» 

Guião de Caronte (1997) 

segunda-feira, junho 29, 2026

Amália Rodrigues, «Com que Voz»


 

4 versos de Ana Hatherly

«A memória é invisível / por isso tentamos dar-lhe corpo / de cada momento fazendo uma prisão.»

A Idade da Escrita (1998) - «A memória do nome»