terça-feira, novembro 12, 2019

criador & criatura

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Dupa e Cubitus

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«Leitor de BD»


sobre Undertaker - 1. O Devorador de Ouro, de Xavier Dorison e Ralph Meyer,
e O Amor Infinito que Te Tenho, de Paulo Monteiro

estampa CCCLXXXIII - Boccaccio Boccaccino


Rapariga Cigana (1516)

segunda-feira, novembro 11, 2019

do que eu gostei mesmo nas eleições espanholas

foi a ERC-Esquerda Republicana da Catalunha, cujo líder, Oriol Junqueras, está preso com uma condenação a treze anos de cadeia, ter obtido mais três deputados que o partido do patife do Rivera.

domingo, novembro 10, 2019

orquestrais & concertantes: Beethoven, SINFONIA #5 (1808) - I. Allegro con brio / Muti

comunismo e nazismo, uma equiparação idiota, ou o Gulag não é Auschwitz

O tema já tem semanas, mas este post de Jorge Carreira Maia, em que faz muito bem o distinguo entre nazismo e comunismo, levou-me a alinhavar o que segue, na esteira do que ali ficou escrito.

Uma cabazada de eurodeputados maioritariamente de países do antigo Pacto de Varsóvia, e que hoje tão válidas lições de democracia e direitos humanos nos dão, esmagadoramente pertencentes aos grupos conservadores, com meia dúzia de liberais e quatro socialistas, entre os quais uma luminária do PS, subscreveram uma moção, aprovada por esmagadora maioria, que o nazismo / fascismo e o comunismo eram equiparáveis. (Está aqui o pastelão, para quem tiver pachorra; eu não tive, fio-me na imprensa.)

Há ali uma compreensível motivação de ajuste de contas com o passado recente e ressentimento por parte dos países que foram ocupados pelos soviéticos, boa parte deles, de resto, aliados da Alemanha nazi, o que não justifica essa ocupação disfarçada, é claro, e muito menos o esmagamento da insurreição húngara de 1956 ou da Primavera de Praga, liderada pelo eslovaco Alexander Dubceck, um dos meus heróis, secretário-geral do PC checoslovaco, e que bem caro pagou a coragem e audácia à mão dos apparatchiks do Partido.

Então, por que razão comparar nazismo e comunismo é duma estupidez crassa? Não matou o comunismo ainda mais gente que o nazismo? Sim, tal não me oferece dúvidas, atendendo ao tempo que se mantiveram no poder, do sátrapa Stálin (nem falo do megalómano Mao, no psicopata do Pol Pot ou na monarquia comunista norte-coreana, pois são realidades um bocado chinesas para nós -- não os percebemos...). Não foram (e são) o comunismo soviético um monstruoso embuste, que caiu de podre como a URSS e satélites? Sim, o comunismo soviético foi uma vergonha e um embaraço para qualquer pessoa intelectualmente honesta.

No entanto, ah, no entanto, aqui vai o diabo do pormenor: as palavras têm peso e correspondem a ideias. Na esteira do que bem escreveu Jorge Carreira Maia, em especial no segundo parágrafo, o factor da irracionalidade do nazismo, faz com que o mal seja assumido sem ambiguidade, na desumanização dos não-(ditos)arianos; enquanto que, o lastro racionalista do marxismo-leninismo, filho do iluminismo, nunca poderá acomodar qualquer espécie de opressão étnica, nem tal pode ser admitido, sob pena de autodesclassificação, mesmo quando episodicamente o tenham feito, no tempo de Stálin, sob pretextos fantasiosos (a chamada "conspiração judaica" e outras paranóias do Zé dos Bigodes).

Que são ambos regimes totalitários, é indesmentível; que um aponta para o Céu e outro para o Inferno (para os sub-homens, não "arianos"), é-o também. Não há que admirar: o marxismo-leninismo, ao tornar os cidadãos funcionários e dependentes do Estado, criou de imediato as condições para que o sistema criasse entropias que estão na base da sua futura desagregação, que só não se deu mais cedo graças à criação dum estado policial e perversamente repressivo -- a negação e repressão da liberdade como instrumento de manutenção do poder. Dessa funcionalização surgiu o que é previsível e surge sempre nestas circunstâncias: os carreiristas, os oportunistas, os desavergonhados e os alienados inofensivos completamente inseridos no sistema, que viviam a sua vida e achavam que era assim e teria de ser assim para todo o sempre. A RDA, no seu desmoronamento de há trinta anos aí está para comprovar isso e o seu contrário: andava o Muro a cair e ainda havia polícias e burocratas a tentar parar o vento com as mãos. No entanto, prometendo sempre o Sol e as bem-aventuranças neste mundo.

(Claro que no comunismo houve e há muita gente de bem; mas a sua adesão a esse ideário é do domínio da, não do racional; mas, que diabo!, não há gente a  acreditar na existência de "Deus", na imortalidade da alma e coisas assim?...)

Uma subtileza, pois, que não interessa nada, aqui no rectângulo, à direita democrática com reserva mental, saudosa do salazarismo e que à boca pequena execra a abrilada, como carinhosamente chama ao 25 de Abril, nem perdoa a descolonização, além de tudo o que cheira a esquerda (ainda ontem vi um pacóvio a torcer-se todo por causa da libertação do Lula e com vergonha de defender o Bolsonaro, que só sabe contar até 9).

Subtileza que de facto o não é; que entra pelos olhos dentro de qualquer pessoa com informação suficiente e tenha por hábito pensar, a diferença abissal entre comunismo (mesmo que soviético, pois há outros) e nazismo; e que chateia ver o PS embarcar em tão más companhias, por desleixo ou estupidez, não interessa. 

Por muito que lhes custe, e, principalmente, por muito que tenha custado ás vítimas, o Gulag não é Auschwitz; há toda uma diferença de escala na maldade e na perversidade, cuja avaliação nunca poderá ser quantitativa. Qualquer pessoa de boa-fé e com dois dedos de testa percebe isso. Quem não percebeu foram as criaturas que votaram a equiparação da pêra rocha com a pirite alentejana. Um mistela intelectual que me lembra uns turistas chineses no restaurante em que costumo almoçar, que misturam azeitonas na mousse de chocolate.

sábado, novembro 09, 2019

a grilheta da escrita

«Vim : -- e a pena, asa sublime do Sonho, transformou-se em instrumento de suplício : e a mesa de trabalho em cadafalso inexorável.» Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (em colaboração com Eduardo Frias),  «A Legenda do Pórtico» (1924)

orquestrais & concertantes: CONCERTO DE BRANDEMBURGO #4 (C. 1718-21) - I Allegro / Richter

Lula livre!



https://lulalivre.org.br/blog/2019/11/07/stf-decide-em-defesa-da-constituicao/

sexta-feira, novembro 08, 2019

«Off The Ground»

lixo

Foi presa a mulher que deitou o filho que acabara de parir, sozinha numa tenda, para dentro de um contentor de lixo. Deve haver por aí muitos alvitres, eu não tenho nenhum. Só me parece que quem se sente e toma por lixo aí deposita o sangue do seu sangue.

"a possibilidade vocálica de Deus"

«Talvez a realidade possa ser apreendida na forma estranha da arte, mas eu, fincando em espaços divinos, lembro-me destas palavras: Floresta -- Dália -- Medusa -- Silvalde -- Maresia -- Saudade -- Sonho e cheiro do mar na onda da praia na concha da espuma quando também me lembro do cheiro misterioso em castanhos efeitos a sair da terra molhada. E... vejo o céu na nuvem passeante adormecida na cor sem forma de adeus. O ritmo de palavra é como se pode ver uma expressão musical -- quanto mais afinado está o ritmo harmónico mais sensível aparece o estado de alma dado em pormenor pelo som silábico. Os meus estudos imaginativos têm-me levado a estas novas possibilidades onde a alma consegue definir-se estaticamente, o verbo é a criação e o ritmo é a necessidade de agitação de sonho para o homem -- As palavras são essência da vibração como folhas de árvore são necessidade de vento. Toda a religiosidade da natureza é dada pela interpretação ritmada do verbo -- o verbo divino nada mais é do que a possibilidade vocálica de Deus!» Ruben A., Páginas I (1949)

50 discos: 9. OS AFRO SAMBAS (1966) - #7 «Bocoxé»



quinta-feira, novembro 07, 2019

"hoje, o artigo do dia é poesia"

«Curiosamente, hoje, o artigo do dia é poesia. Nos bares da moda, nas portas de teatro, nos lançamentos, livrinhos circulam e se esgotam com rapidez. Alguns são mimeografados, outros, em offset, mostram um trabalho gráfico sabido e diferenciado do que se vê no design industrializado das editoras comerciais. Mesas-redondas e artigos discutem o acontecimento. O assunto começa -- ainda que com alguma resistência -- a ser ventilado nas universidades. Trata-se de um movimento literário ou de mais uma moda? E se for moda, foi a poesia que entrou na moda ou foram os poetas? O fato é que a poesia circula, o número de poetas aumenta dia-a-dia e as segundas edições já não são raras.» Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1975)

quarta-feira, novembro 06, 2019

«Pennies From Heaven»

tomem um chá de camomila...


A parvoíce da semana é a conversa fiada da gaguez da deputada Joacine Katar Moreira, enquanto parlamentar.
Sobre o assunto, tenho a dizer: a gaguez é uma deficiência como outra qualquer; e assim como na anterior legislatura o Parlamento teve de adaptar-se à cadeira de rodas do deputado Jorge Falcato, do BE, nomeadamente no que respeita às acessibilidades, aqui vai ter de adaptar-se à gaguez de Joacine. E o melhor, quanto a mim, é estabelecer já um critério, e não deixar ao bom senso ou à boa vontade de quem estiver a presidir à sessão. Os deputados têm um minuto para intervir?; ela terá dois, e certamente saberá acondicionar o discurso ao tempo que lhe está reservado. Aliás, estou convencido que à medida que a actividade parlamentar for deixando de ser uma novidade, a própria deputada ganhará maior à-vontade e maior fluência no discurso.
Quanto ao resto, é conversa comunicacional sem substância, vale zero.
Enquanto não se habituarem, levem um termo com cidreira.
Já agora, a primeira proposta do Livre, apresentada por Joacine, será o da trasladação dos restos mortais de Aristides de Sousa Mendes para o Panteão Nacional. Se há alguém que merece inequivocamente lá estar é ele (eu aristidiano ou aristidiófilo me confesso).
Com uma ressalva: não sei se ele está enterrado com a sua mulher, Angelina, por quem a provação também passou. Se assim for, como provavelmente será, não me parece justo separá-los -- diz-mo o meu incorrigível romantismo; e se fosse descendente, embora satisfeito com a reparação do país, não autorizaria essa separação.

terça-feira, novembro 05, 2019

«Entardecer»

Um poemeto acolhido aqui, com a benevolência de José Pascoal, a quem agradeço.

«Leitor de BD»


sobre O Coleccionador de Tijolos, de Pedro Burgos
e Fora de Boneville, de Jeff Smith

criador & criaturas

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Bonvi e Sturmtruppen

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segunda-feira, novembro 04, 2019

as guerras da água

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Quando, ainda no século passado, se dizia que as guerras deste seriam determinadas pela água, eu imaginava refregas no Médio Oriente e em África e estava longe, na minha ignorância, de suspeitar que o problema se poria com grande acuidade aqui. Claro que não é previsível nenhum conflito grave com Espanha no momento presente, mas esta é uma típica situação de potencial casus belli
Além da seca, assistimos à predação do património que é de todos, com a óbvia cumplicidade dos sucessivos governos, uma vez que estas barragens são exploradas pelas companhias eléctricas, cuja gestão dos caudais é feita com contabilidade merceeira a benefício dos accionistas (shareholders, em estrangeiro). 
Ora aqui está mais uma inadmissibilidade a que urge pôr cobro, independentemente das ameaças e das pressões comunicacionais dos mercenários e putéfias da caneta agenciados, que visam intimidar todos quantos defendem os bens públicos, e de caminho desvirtuar as suas ideias. (E isto também serve para os aeroportos, e para o lítio, de que ainda falarei).