«À procura de Deus, andamos todos nós,»
Desaparecido (1935) - «Obstinação»
RESISTIR É VENCER (Xanana Gusmão / José Mário Branco)
«À procura de Deus, andamos todos nós,»
Desaparecido (1935) - «Obstinação»
Vontade de rir. Quando um oficial da PSP exorta, através do megafone, os "senhores manifestantes" a retirarem as "estruturas não autorizadas" da Praça D. Pedro IV. As "estruturas não autorizadas" eram aquelas lonas, motivo, como toda a gente sabe, para a polícia arrear nos cidadãos, pacíficos e ordeiros.
O maior desordeiro que existe neste país é o Governo, como se tem visto.
Luís Neves, que foi um grande director da PJ e poderia ter sido um grande ministro, revelou-se politicamente um nabo. São situações como estas que mostram a falta que faz a um governante ter substracto político. Por mim, pode vir o Ventura fazer dele gato-sapato na comissão de inquérito na AR, estou-me nas tintas.
Por falar no Ventura, esta semana ouvi incrédulo uma intervenção de um dos muitos alarves do Chega, um neonazi que chamava drogados aos manifestantes, defendendo que a polícia deveria encostá-los à parede. Antes do Chega, nunca se vira cromos destes no Parlamento, a não ser o Calisto Elói. Já imaginaram que o Almeida Garrett foi deputado? Que decadência.
O problema da habitação já passou para segundo plano, graças ao Governo. Neste momento a grande questão é a da liberdade e o da violência do Estado.
Um Governo que merece ser censurado, embora não acredite que nenhum partido à esquerda apresente uma moção de censura no Parlamento. O BE corria o risco de desaparecer, o PCP de perder pelo menos mais um deputado, o Livre passaria a ser o bombo da festa da direita e da extrema-direita. O PS aguarda que o poder lhe caia no colo, outra vez.
«sigo da margem / o rio dos teus versos.»
O País dos Outros (1959) - «Pessoa revisited»
«-- A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis./ É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viagem acudiu ao princípio de ponderação que eu ia involuntariamente fazendo a propósito de Vila Franca.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Novamente o navio apitou rasgando o crepúsculo que envolvia a cidade da Bahia. João estendeu os braços num adeus. Era como se estivesse se despedindo de uma bem-amada, de uma mulher cara ao seu coração.» Jorge Amado, Terras do Sem Fim (1943)
«Vestiam os seus trinta e quatro anos feitos e vividos sempre ali, entre a agressividade dos elementos, um casaco e colete velhos, enodoados, a camisa e a gravata. O rosto mostrava faces crestadas, lábios grossos, e os olhos pestanudos quase se ocultavam sob o boné de pala, que descia até meia testa.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)
«O mal, que fora encubro, ou que desminto, / Dentro, no coração, é que o sustento,»
Poesias
«O braço, porém, falta. Havia o recurso do prisioneiro. A Inglaterra não hesitou em o aproveitar. E, assim, esta magnífica estrada que conduz a Albert tem, como principais encarregados da sua conservação, cativos alemães e austríacos.» Adelino Mendes, «A cidade de Albert» (A Capital, 29-III-1917), Repórteres e Reportagens de Primeira Página, ed. António Valdemar e Jacinto Baptista (s.d.).
«Não ignoro que se me atribui uma tal e tão apaixonada devoção pelo Brasil que muita gente me supõe capaz de me iludir sobre os aspectos essenciais da vida brasileira. Afirmo, porém, de maneira categórica -- e sem o mínimo receio de ser desmentido -- que o Brasil constitui, de facto, uma das maiores e mais impressionantes maravilhas do mundo contemporâneo.» João de Barros, Adeus ao Brasil (póst., s.d.) - «Brasil de hoje» (1946)
«O alto da montanha era um corpo / Um rosto / Um olhar demorado em seu brilho secreto / E perigoso»
Horizonte (2001)
«No paraíso / na idade do ouro, / ouvindo os anjos tocarem alaúde / e flauta, as nuvens acorrem / como ovelhas»
Pedro, Lembrando Inês (2001) - «Beatitude»
António Garcia Pereira explica porque a acção da polícia foi inconstitucional -- e, portanto ilegal. Como a Polícia depende do Governo, não é possível que dali dimanem ordens ilegais. Não é só o direito à resistência que está protegido, mas a necessidade de accionar o Estado. Entretanto, este Governo, ferido de ilegalidade deve ser demitido. (grande depoimento aqui)
Os cidadãos têm não apenas o direito, mas o dever de resistir, sempre em manifestações pacíficas -- e com muita atenção aos infiltrados, da polícia, mas também de indivíduos da extrema-direita.
Acima de tudo, não dar pretexto para justificar a violência do Estado.
«Em minarete / mate / bate / leve / verde neve / minuete / de luar.»
Poemas - «Rondel do Alentejo»
Fica-se com a ideia de que o governo gostaria de recrear um Paris em Lisboa, ou Milão, Tirana, Bruxelas, Barcelona... Nada disso foi Lisboa, graças à civilidade dos manifestantes acossados por um governo arruaceiro.
Estou à espera (não fui procurar) que um constitucionalista credível me diga se o decreto governamental de 1974 é compatível com a Constituição de 1976.
Aos manifestantes (a alguns) só tenho um reparo a fazer: não se picha o património, ó companheiros! Pendurar um cartaz numa escultura é uma coisa (até divertida), grafitá-las com palavras de ordem, ou outras, não.
Nem uma montra partida, um quiosque incendiado, nada. Exemplares, os manifestantes em Lisboa e no Porto, Um orgulho para os concidadãos. Perder a razão é facílimo. Nada me angustiou tanto como ter visto um modesto quiosque a arder, creio que em Bruxelas. O ganha-pão de um trabalhador e da sua família. Nestes casos, nenhuma bastonada se perde.
Aqui, a cidadania esteve com os manifestantes; a prepotência, com o Estado.
O Governo português incomoda-se com meia dúzia de tendas, numa manifestação pacífica e ordeira. Que os jovens portugueses tenham de emigrar para auferir ordenados decentes, e que na sua maioria não tenham dinheiro para pagar rendas obscenas -- aí não há problema, toca a sair da zona de conforto...
Um governo amigo dos especuladores, dos fundos de investimento, dos empresários da hotelaria, e contra os portugueses, expulsos das cidades e do país a benefício da ganância.
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.