sábado, abril 29, 2023
a arte de começar
«Na Primavera de 1859, comprei na estação de Santa Apolónia, um bilhete da via-férrea para a Ponte da Asseca. Saudades do campo, ânsias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima disto, o meu dorido amor a quantos sítios guardavam para a minha memória do coração vestígios da infância, que tão depressa passara com as flores outra mais formosa Primavera... A que vem isto?!... É a saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdoe-me.» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)
sexta-feira, abril 28, 2023
sobre os aeroportos
Registei a ocorrência dum economista na Comissão Técnica Independente. Mas que raio faz lá um economista? E um médico, nâo?, ou quem sabe um veterinário. De qualquer modo, só me interessa ouvir o que tem para dizer João Joanaz de Melo.
quinta-feira, abril 27, 2023
quarta-feira, abril 26, 2023
150 portugueses: #4. Gualdim Pais (Amares, c.1118/1120 - Tomar, 1195)
terça-feira, abril 25, 2023
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«A ambição não avança um pé sem ter o outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos.» Raul Brandão, Húmus (1917) «A melancolia perturbante do Ofício, os sons plangentes dos órgãos, os incensos e o cantochão, as sumptuosidades do rito nas cerimónias pontificais, todo esse inquietante atavismo das religiões actuava como ópio na imaginação do novel artista.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) «Aquele espelho barato, aquela novidade sensacional e aquela fotografia lúbrica exasperavam-me, embora ao meu exaspero se misturasse um pouco dessa piedade que me inspiram as coisas pretensiosas e miseráveis.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) «Dando à cabeça, arregalando os olhos, encrespando as sobrancelhas, mostrava Feliciana o ar entupido dum curandeiro, chamado a decifrar récipe de facultativo.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926) «Um raio de sol envolvia a mão rústica e calejada que ele poisara no peitoril da janela.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
segunda-feira, abril 24, 2023
domingo, abril 23, 2023
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«A princípio, esse novo cenário, todo fofo e confortável, perturbava-o; em breve, porém, Soriano se adaptara, que nem por mudar de leito os rios deixam de correr.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950) «Cálido também, despiu a loba, arremessou o cabeção, descalçou os sapatos de fivela e refocilou os amplos pés vermelhos nos propícios chinelos do escarlate mercador de panos.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854) «Marcha! Ele recomeçou o andamento, mas os seus olhos volviam, teimosos, ilegais, à fachada e à praça, como ao horizonte onde se espera que uma terra se defina sob o nevoeiro do litoral.« Ferreira de Castro, A Experiência (1954) «O que eu, sem saber explicá-lo, não compreendia e invejava, não era o que ele queria ser, mas a constância do seu desejo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2002) «O Taveira, com todo o seu génio, era um advogado pobre no fundo de Trás-os-Montes, e o Chouriço, proprietário, ia em primeira classe ouvir Meyerbeer...» Eça de Queirós, A Capital! (póstumo, 1925)
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«Ao contrário no campo, entre a inconsciência e a impassibilidade da Natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo, 1901) «D. Rita pasmava da transfiguração, e o marido, bem convencido dela, ao fim de cinco meses consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862) «No momento em que nos associamos ao cavaleiro, caíra ele num desalento profundo, num quase convencimento de próxima aniquilação, do qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como era, de pragas eloquentes e de cantigas pouco edificantes, o conseguia arrancar.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
a miúda que veio para ficar
As crianças estão na BD desde o princípio, e com momentos altos – lembremos os Peanuts, de Charles M. Schulz. Para o franco-sírio Riad Sattouf (Paris, 1978), criador do auto-referencial O Árabe do Futuro (2014) e também realizador, nomeadamente da excelente comédia Les Beaux Gosses (2009), o mundo da infância e da juventude é um tema persistente.
Cheia de carisma e adorável criancice, Esther, nascida nas páginas do semanário L’Obs, em 2015, não é só mais uma criança nos quadradinhos; antes da personagem de papel, está Esther A., a menina de carne e osso, informante e filha de amigos do autor. Todo o espanto, toda a fantasia, todos os sonhos improváveis e todos os ‘amores’ impossíveis são maravilhosamente recriados por Sattouf: Esther tem como grandes aspirações ser loura, famosa e possuir um ipad, artefacto que o pai, um professor de ginástica com espírito crítico, lhe nega, por evidente despropósito para quem ainda nem completou os dez anos. Infelizmente para Esther, a maioria dos outros progenitores não têm a mesma opinião. Um pequeno apartamento, em que partilha o quarto com o irritante António, o irmão de 14 anos, é o seu lar. A família, remediada, completa-se com a mãe, empregada bancária e doméstica em regime pós-laboral, por isso muitas vezes cansada, e a avó, cuja casa na Bretanha é local de férias. Outro palco privilegiado é a escola, em especial o recreio. Esther tem duas amigas dilectas: Eugénia, criança rica e por vezes pretensiosa, e Cassandra, menina negra cujo pai certo dia partiu para não mais voltar.
As circunstâncias da série são as expectáveis: a recriação recorrente dos maneirismos dos adultos, a relutância pelas grosserias dos rapazes, cuja missão parece ser a de maçá-las com o seu gozo e a sua má-criação – se bem que por vezes haja qualquer coisa que as desperta. Introduzido com leveza e sempre a propósito pelo autor, a incompreensão do vasto mundo adulto da política, as manifestações incipientes de discriminação social e racial, que ainda não assimilam inteiramente, e as questões de género são alguns tópicos obrigatórios. Esther, contudo, não é a Mafalda do Quino, contestatária no seio de uma família conformista, que muitas vezes parece uma mulher pequena; Esther é sempre criança (o gag sobre o atentado ao Charlie Hebdo é um bom exemplo). A série acompanhará o crescimento da miúda, pelo que teremos oportunidade de assistir à evolução desta família.
Organizado graficamente sob a forma de gag (história humorística de uma prancha), dividido em duas páginas, o livro tem o formato de uma edição de tiras de BD. O texto, além de reproduzir as falas das personagens em filacteras (os ‘balões’), é acrescentado por geniais comentários de Esther em cursivo, que acentuam o tom humorístico.
O Diário de Esther – Histórias dos Meus 10 Anos, vol. 1
texto e desenhos: Riad Sattouf
edição: Gradiva, Lisboa, 2019
(Setembro de 2019)
sexta-feira, abril 21, 2023
Lula e o 25 de Abril: uma estrondosa vitória do populismo alarve, do oportunismo pateta e da cobardia política
As indisposições da direita que não suporta o 25 de Abril deveria ser para o lado em que os democratas dormiriam melhor. Mas não, pelo contrário: os estrebuchos de taberna de André Ventura -- a criatura que teve o gosto refinado de discursar em sessões anteriores com um cravo negro à lapela --, a agitação adolescente (e suspeita) de Rui Rocha, para se pôr em bicos de pés (ou às cavalitas do presidente brasileiro), o enconanço dos dois partidos do centrão, para não falar do enjoo do Bloco e do Livre.
O 25 de Abril perdeu uma oportunidade de brilhar, com a presença de um dos homens (de origem portuguesa, recorde-se, e presidente do Brasil), que melhor encarna o espírito da data. O que irá acontecer no hemiciclo será uma coisa cinzenta, como desde há muitos anos, que não fará jus à maior data da história contemporânea de Portugal.
Nos 50 anos da revolução, todos os países que saíram da descolonização, de Cabo Verde a Timor-Leste, deveriam estar representados ao mais altíssimo nível, convidados a discursar, pois o 25 de Abril representou a sua libertação do jugo colonial e o fim de uma guerra criminosa, com milhares de vítimas, entre portugueses e africanos. É também assim que se faz a CPLP e se dá sentido à lusofonia. Porque o meu maior orgulho com o 25 de Abril é a descolonização; foi principalmente por ela que esta se tornou uma data maior da nossa história. Mas com democratas medrosos de o serem, receosos da raiva pavloviana do salazarismo, envergonhado ou não, não podemos esperar mais do que uma espécie de liturgia de sacristia, como em anos passados.
Se não chover, talvez volte a descer a Avenida este ano, afinal é na rua que o 25 de Abril é mais bonito e faz mais sentido.



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