sábado, dezembro 31, 2022

os meus votos para 2023

que a Rússia dê uma lição aos patifes dos americanos, como está a dar, e que os palhaços que andaram a envenenar a opinião pública mundial sejam apontados a dedo, sem contemplações para os patetas dos nossos políticos, sem vergonha na forma como se mostram vassalos obedientes desses mesmos poltrões; 

que o grande Lula salve o Brasil (e a Amazónia);

saúde para todos, a começar por mim.

12 músicas de 2022 - #12. «Warning Signs» (Band of Horses)

quinta-feira, dezembro 29, 2022

uma III República doentíssima

 É fácil dizer que isto  está podre (eu próprio sou um dos que). Podre, o sistema político, não sei se já estará -- afinal, uma imprensa mais ou menos livre ainda comete estragos, viva o Correio da Manhã (!), mas que está doentíssimo, creio ser uma evidência.

De há muito que os partidos do sistema (PS, PSD, CDS) são cliques de interesses particulares, e os elementos saudáveis que por lá ainda andam não têm força para que aquilo se auto-regenere -- são, de resto, os primeiros a levar um encosto. O resto: o PCP, partido de nicho, cada vez mais, tem pelo menos o mérito de ser a consciência crítica do regime; o Bloco de Esquerda anseia por ser sistémico; a Iniciativa Liberal poderia ser uma boa ideia de refrescamento do espectro partidário, noutro enquadramento jurídico-político; um aborto como o Chega não passa de um sintoma do estado da questão.

Ninguém acredita que o sistema tenha em si os anticorpos que lhe permita sair desta mistela de políticos profissionais saídos das juventudes -- de Costa a Passos Coelho --, deste conúbio execrável entre profissionais da política, escritórios de advogados e jornalismo de maus costumes, que deu nisto.

É pena, pois em nome da democracia e da comunidade (do povo, da nação o que quiserem), o melhor seria fechar esta III República e inaugurar a IV, expurgando o que nos últimos quase 50 anos concorreu para que, por exemplo, existam este casículos de técnicas de despedimentos alçadas a secretárias de estado com indemnizações milionárias -- tudo na estrita legalidade orquestrada pelos escritórios de advogados que gerem o país -- pagas pela mesma empresa, em falência, em que a dita senhora cortava vencimentos. Já para não falar em todas as outras embrulhadas, do secretário de estado de Caminha aos pés-pelas-mãos do ministro Cravinho, que tem muito o que se explicar. 

"um soalho grande como uma província"

«Embalado pelo chouto da burra, nas horas de caminho que nos separavam da aldeia eu fantasiava um soalho grande como uma província, atravessado por dezenas de linhas, com comboios e estações, um mundo de gente. Tudo isso em movimento, luzindo de cores, a correr, a apitar, a resfolegar, a deitar fumo, obedecendo ao meu desejo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

12 músicas de 2022 - #9. «Nas Noites de Lisboa» (José Cid)

quarta-feira, dezembro 28, 2022

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«E na confusão uns tantos, de exaustos, se deixaram ficar no cais, a ver o barco sumir-se pelo mar dentro, como se deles se houvesse despegado a derradeira fé na vida.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«É uma terra ainda assim grande, se formos comparar, primeiro em corcovas, alguma água de ribeira, que a do céu tanto lhe dá para faltar como para sobejar, e para baixo desmaia-se em terra fita, lisa como a palma de qualquer mão, ainda que muitas destas, por fado de vida, tendam com o tempo a fechar-se, feitas ao cabo da enxada e da foice ou gadanha.» José Saramago, Levantado do Chão (1980) 

«Perturbavam-se de prazer a trepidação da partida, o halo da novidade e sobretudo o apelo intrínseco e doce de todas as pequenas coisas que ficavam mais perto de mim, como o fato novo, estreado esse dia, e o farnel da merenda para comer no comboio.»  Vergílio Ferreira Manhã Submersa (1954)

12 músicas de 2022: #8. «Must Have Been New» (dEUS)

terça-feira, dezembro 27, 2022

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 «É bem certo que conduzimos ao longo da vida muitos cadáveres de nós próprios.» Ferreira de Castro, do "Pórtico" de A Selva (1930)

«Nós não queremos morrer! Nós não queremos morrer!» Ferreira de Castro, do "Pórtico" de Eternidade (1933)

«Os homens transitam do Norte para o Sul, de Leste para Oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor.» Ferreira de Castro, do "Pórtico" de Emigrantes (1928)

12 músicas de 2022 - #7. «Love Earth» (Neil Young with Crazy Horse)

segunda-feira, dezembro 26, 2022

12 músicas de 2022: #6. «In These Times» (Makaya McCraven)

" recto como a luz rectilínea dos seus olhos"

«Ana Paula refugiara-se num súbito mutismo, como receosa de se ter expandido em demasia naquela espontânea declaração que nenhum mau pensar inspirara e que só reproduzira a singeleza do seu sentimento, recto como a luz rectilínea dos seus olhos, leais e profundos.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

"o trabalho persistente do caruncho"

 «Silêncio. Ponho o ouvido à escuta e ouço sempre o trabalho persistente do caruncho que rói há séculos na madeira e nas almas.» Raul Brandão, Húmus (1917)

'o nada que é tudo'

«Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra grega e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se explica tudo... quanto se não sabe explicar.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

12 músicas de 2022 - #5. «I'll Love You Till The Day I Die» (Willie Nelson)

o "arrojo da gatunagem"

«A cercar os mimos viçosos da natureza a a muitos deles servindo de dossel, corria a vinha, toda armada em carvalho e arame, com espigões no muro branco que ele sozinho erguera, aos domingos, desde os alicerces à dentadura de vidros partidos -- veto indispensável ao arrojo da gatunagem.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

12 músicas de 2022: #4. «Dilúvio» (A garota não)

domingo, dezembro 25, 2022

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 «A glória de não consentir que a mentira e a ingratidão mandem nos homens e nos povos sempre valerá o mesmo ou, porventura, um pouco mais do que a triste vanglória dos incitadores da guerra e dos vendedores de canhões.» João de Barros, «Lealdade» (1948), Adeus ao Brasil (s.d. - póstumo)