terça-feira, outubro 24, 2017

escrever sobre o cromo

Não, não vou gastar o meu latim com o cromo; já lhe caiu o céu em cima da cabeça, merecidamente. Sabe Nosso Senhor quão bem apetrechado doestos é o meu alfobre, e como me apazigua a eles recorrer; mas se passados uns anos aqui vier tropeçar, faço questão de nem saber a quê ou a quem estou agora a referir-me. 

segunda-feira, outubro 23, 2017

domingo, outubro 22, 2017

1147 -- A Conquista de Lisboa na Rota da Segunda Cruzada, de Miguel Gomes Martins (Esfera dos Livros)
Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água, de António Lobo Antunes (Dom Quixote)
DesAparições, de Alexei Bueno (Exclamação)
A Revolução Russa, de Sheila Fitzpatrick (Tinta-da-China)
A Última Viúva de África, de Carlos Vale Ferraz (Porto Editora)







YOUR SONG

sábado, outubro 21, 2017

Sócrates: isto está a ficar cómico

Correndo o risco de me chamarem socrático -- para o que, devo dizer em bom português, me estou a cagar --, a trágica semana que passou teve, pelo menos, dois afloramentos sobre Sócrates plantados nos noticiários, particularmente cómicos pelo que parecem revelar duma certa aflição do Ministério Público em fazer prova das acusações em que "acredita" (entre aspas, porque é um termo muito utilizado pelo jornalistas a quem têm sido servidas fatias do processo, ao longo dos último meses):~

a primeira que li por aí é que -- para responder à perplexidade de Sócrates ser acusado de corrupção nos casos Parque Escolar, PT, TGV e Vale do Lobo, enquanto os ministros das respectivas pastas saíram incólumes -- dava-se conhecimento à opinião pública de que os governantes foram manipulados, não tendo consciência do que estavam a despachar. Fui ver a composição dos governos, e verifiquei que nas pastas das Finanças, Ambiente, Economia, Educação e Obras Públicas, Transportes e Comunicações, estiveram: Campos e Cunha (o único que se pôs ao fresco), Teixeira dos Santos, Nunes Correia, Dulce Pássaro, Manuel Pinho, José Vieira da Silva, Maria de Lurdes Rodrigues, Isabel Alçada, Mário Lino e António Mendonça. É capaz de ser gente a mais a revelar-se tão ingénua e/ou impreparada. Enfim, parece-me difícil;

a segunda, típica campanha orquestrada, foi a de ontem: "Sócrates não é engenheiro", titularam todos os media, a partir de um esclarecimento difundido pela respectiva Ordem, vindo, obviamente,  confundir a opinião pública (ah, o curso...). Ora acontece que Sócrates é mesmo engenheiro por formação académica, um engenheiro que não exerce, como sucede a tanta gente: Fialho de Almeida era médico, médico era Jaime Cortesão, enquanto que o seu irmão, Armando Cortesão, foi engenheiro agrónomo, ou Jorge de Sena, engenheiro civil. Nada disto é extraordinário, mas percebe-se o objectivo, o que leva-me a perguntar: está o MP assim tão inseguro? E, já agora: giro, giro teria sido a distinta Ordem dos Engenheiros pronunciar-dr quando Sócrates era primeiro-ministro. Agora, presta-se ao pouco dignificante papel de vir ajudar a malhar em quem, com razões ou sem elas, está no chão. 

sexta-feira, outubro 20, 2017

quinta-feira, outubro 19, 2017

ainda não ouvi, e já gostei


Ana Bacalhau, com Amália Rodrigues e Janis Joplin

WOULDN'T IT BE NICE

quarta-feira, outubro 18, 2017

O discurso do PR e outras coisas acessórias

Marcelo Rebelo de Sousa proferiu uma declaração política sem mácula para o momento que se vivia, justificando plenamente as funções que exerce e a existência do próprio cargo na forma como é moldado pela constituição. Talvez tenha de recuar ao mandato de Ramalho Eanes para encontrar momentos tão substantivos da actuação presidencial. Nem Soares nem Sampaio, que me recorde, tiveram um momento com estes contornos, pelo menos em público. (Nem vale apena falar de Cavaco, um indivíduo que nunca teria dimensão para ir além de secretário-de-estado, e cuja investidura como chefe de governo e do estado exibe a indigência das elites políticas.).

O governo de António Costa merece censura? Merece-a toda, neste particular. São dois anos de executivo, é inútil argumentar com a pesada herança de Passos, que, tendo governado contra os portugueses, não se lhe podem ser assacadas responsabilidades pela balbúrdia na Protecção Civil.

Merecendo ser censurado, a reprovação já foi feita pela opinião pública, que felizmente tem cada vez menos pachorra para deixar-se iludir. Daí que seja também com justificado asco que as pessoas olhem para o oportunismo político de uma Assunção Cristas, anterior ministra da Agricultura -- a tal que recorria à 'fé' para enfrentar a seca, fé certamente emponderada (para usar uma palavra horrível) com muitas orações e genuflexões. Portanto, não será por aqui que o governo cairá, só se o PCP e o BE não tiverem também eles pudor.

Finalmente, sem ter pretensões a conselheiros político, será bom que a escolha do próximo MAI recaia em alguém com arcaboiço político suficiente para enfrentar a matilha da direita parlamentar. Esta faz lembrar aqueles documentários do David Attenborough: os chacais rodeando a manada de búfalos, à espera que uma mãe se distraia com a cria ou que um indivíduo velho ou doente fique para trás, esgotando-o pela fadiga. Tentaram-no com os ministros das Finanças, da Economia e da Educação, que chegaram bem para eles, cada um com o seu estilo; estão-no a fazer com o da Defesa, que tem também cabedal, mas que talvez não consiga resistir à enxurrada. Isto não é para ministros sem experiência política (lembremo-nos do desastre da ministra de Passos, que, sabe-se lá porquê, foi buscá-la à Universidade de Coimbra e, apesar da fachada de màzona, saiu trucidada), não é para carne tenra, é para ursos como, por exemplo, Carlos César ou outros do mesmo tipo, com experiência e peso político. Aliás, se há coisa que me dá gosto ver é quando o líder parlamentar do PS, com a brutalidade, sempre necessária mas nunca vulgar, para os que não têm vergonha, deixa knockout a direita parlamentar. 

segunda-feira, outubro 16, 2017

a falência do Estado

Não me apetece nada escrever em cima do acontecimento, mas ver as imagens do centro e norte do país a arder, nas cidades, vilas e aldeias, nas autoestradas e vias férreas provocam uma angústia indizível.

Décadas de abandono do interior, envelhecimento populacional, regime de propriedade obsoleto não alterado por cobardia ou cálculo político, falta de civismo das populações (o analfabetismo e o atraso com que o país foi governado até ao 25 de Abril de 1974 pagam-se caro e reflectem-se na indigência das chamadas elites políticas deste país, de Norte a Sul).

Sim, pois, as alterações climáticas, ah, e os eucaliptos também. Há pouco ouvi o meu conterrâneo Eugénio Sequeira afirmar que temos dez vezes mais ignições do que o resto da Europa, e não será por sermos dez vezes mais estúpidos. Pois não, provavelmente será por sermos dez vezes menos qualificados, por termos uma administração miserável, sempre em reestruturações, com a criação de múltiplos centros de decisão intermédios, cargos de chefia e papelinhos a subir e a descer, em que aos bombeiros se veda a acção antes da decisão dos coordenadores da protecção civil, com as suas parvas boinas militares e as aldrabices nas habilitações de cursos tirados à pala das equivalências, uma das muitas burlas que grassa por este país, a somar à legislação imbecil parida uns tipos quaisquer a partir dos gabinetes para somar à pobreza e à velhice das populações rurais.

O que espero do conselho de ministros especial de sábado é a extinção desta coisa da Protecção Civil e a criação para ontem de um novo organismo, aproveitando o que houver a aproveitar, a partir dos relatório dos peritos; é a eliminação das negociatas com os privados; é a reforma da propriedade rural, o fim do nanofúndio; é o fim da 'época de incêndios' com folha no calendário. E que essa comissão de peritos prossiga o trabalho, cooptando peritos em áreas não representadas, se for caso disso e reforme o Portugal rural. Aliás, o PR, pelo poder de influência política decisivo que possui, pode exercer um papel decisivo, se não se limitar a visitas de condolências, que também são precisas, mas não chegam.

a propósito dos livros de Sócrates

Não li nenhum dos livros de Sócrates porque não fazem parte das minhas prioridades; aliás, nem às minhas prioridades de leitura consigo dar vazão, quanto mais...

A história do ghost writer dos livros de Sócrates é outra das que me parece bastante, digamos, problemática. Sabemos que sujeitou versões dos livros a várias pessoas -- Vital Moreira assumiu ser uma delas --, o que nada tem de extraordinário: duvido que Sócrates tenha um estilo imaculado, pelo que o recurso a alguém que ponha em linguagem uma prosa eventualmente árida, parece-me normal; além disso, tratando-se de obra académica na sua génese, a submissão dos textos a professores universitários das suas relações é algo de trivial. (Por mim, pode até revelar uma excessiva prosternação pela Academia, mas isso será lá com ele). Por outro lado, até os inimigos mais viscerais lhe reconhecem inteligência e capacidade de trabalho, por isso as minhas perplexidades são:
 
1) precisava Sócrates de alguém que lhe escrevesse as obras? Por muito aldrabão que o homem possa ser, parece-me uma suspeita infantil de quem toma os revisores dos livros -- a título gratuito ou remunerado, é indiferente -- pelos seus autores;

2) o 'suspeito' destes cometimentos é um professor de Direito da Universidade de Lisboa, com um nome a defender, Domingos Farinho. Um ghost writer? Enfim, haverá gente para tudo...

3) leio nos jornais que o apresentador do último livro de Sócrates foi Pedro Bacelar de Vasconcelos, uma das figuras mais respeitáveis e respeitadas da vida pública portuguesa. Como Vasconcelos não é propriamente um boy partidário (e se o fosse, de certeza que não estaria ali, com medo de sair chamuscado), a sua intervenção tem um evidente significado, o primeiro dos quais é a de que tem o hábito de pensar pela sua cabeça, ao contrário, de resto, do jardim zoológico mediático.

Não sei o que move Vasconcelos; talvez seja como eu (embora em muito maior grau, dadas as suas  categoria e exposição pública): talvez prefira correr o risco de enganar-se ou ser enganado, a integrar as hordas de linchamento; e também não deve ser um videirinho da política, dos que estão quietos para não se comprometerem.

domingo, outubro 15, 2017

sábado, outubro 14, 2017

Piotr Riabov: historiador anarquista preso na Bielorrússia, em greve de fome


Historiador do movimento anarquista russo, Piotr Riabov, detido na Bielorrússia, entrou em greve de fome. Notícia aqui.

a entrevista de José Sócrates

Acabei de vê-la há pouco, depois de vir do cinema. Um filme que está aí a passar sobre o Django Reinhardt (um papelaço de Reda Kateb). Recomendo.

E então que vi eu? Um combate desigual, em que o animal feroz desfez o jornalista. Não deve ser fácil entrevistar Sócrates, mas também não estou a ver em televisão um profissional com suficiente arcaboiço para, com firme serenidade e correcção, não se deixar intimidar, nem por Sócrates nem pela opinião pública e pela opinião publicada. O nosso homem, com medo do que viessem a dizer dele cá fora, pôs-se com apartes e observações sonsas, que quase fez lembrar aquele pateta que uma vez o confrontou no Telejornal, no espaço de comentário que o antigo primeiro-ministro tinha, como se estivesse ali a debater de igual para igual. De qualquer modo, a RTP prestou um serviço público, e é para isso que ela serve.

Quanto à substância, dificilmente a entrevista poderia ter corrido melhor a Sócrates. Pelo que vi, e com os dados que tenho, que são os de toda a gente, desmontou praticamente tudo: do andar em Paris à questão do primo, a goldenshare da PT e o conluio com o BES, a história do tgv e a outra de Vale de Lobo. A história do quadro do Júlio Pomar foi cómica.E mesmo a questão mais bizarra dos empréstimos em numerário, desembaraçou-se bem da coisa, trazendo o amigo à liça. Cabe a este confirmar ou infirmar Sócrates. Se confirmar, como possivelmente o fará, depois como é? Ah, e se o melhor que têm é a declaração do gajo que está em Angola e que não podia vir a Portugal para não ser preso e afinal veio para fazer o jeito ao MP, esqueçam -- é a palavra de um contra a de outro. E não me parece que a palavra do tal Bataglia tenha uma cotação particularmente alta. (E por favor: não se diz 'Bataguelia', mas 'Batalhia').

O jornalista estava mal preparado? Não, pelo contrário. Voltou-me a ideia fundamentada de que o trabalho do Ministério Público é uma borrada monumental. E se Sócrates, que não é jurista, conseguiu instalar pelo menos fortes dúvidas sobre o trabalho do MP, o que não farão as raposas velhas da barra dos tribunais?

quinta-feira, outubro 12, 2017

quarta-feira, outubro 11, 2017

50 discos: 32. I CAN SEE YOUR HOUSE FROM HERE (1979) - #5 «Survival»



Sócrates acusado

Agora é que se vai ver, aqui ou em instâncias europeias não amancebadas com o tabloidismo.
A ser verdade aquilo a que a defesa de Sócrates já qualificou como romance, há que tirar o chapéu aos tomates dos agentes judiciários, apesar das evidentes práticas pouco católicas na observância da lei (é triste, não é?...). Se for uma obra de ficção, então há que assacar-lhes responsabilidades, porque não chega o depoimento de um qualquer arrependido; a coisa tem de ser mais substancial do que uma regurgitação dum vígaro das offshores. [Sou preconceituoso, e gosto.]
De qualquer modo, Sócrates (e o amigo) têm (terão...) algumas coisas para explicar, sem conversa fiada: as instruções sobre o apartamento de Paris, o alegado papel do primo, etc. Matéria para uns bons anos. No fim, cá estaremos, eventualmente. Até lá, não quero maçar-me mais com o assunto, que só estou interessado na Catalunha, sobre a qual muita tinta ainda correrá.

o terrorismo laboral na PT

Leio a notícia, sem espanto. A astúcia merceeira, a esperteza saloia, a vigarice nos interstícios legais,  uma necrofagia repugnante a erradicar das sociedades decentes, uma flora intestinal do financismo (que tão boa imagem tem dado de si na presente crise da Catalunha, mas isso é outra estória). É verdade, estes saprófitos existem e requerem desinfestação.

No entanto, não devemos deixar de fora os que conduziram a PT, dolosamente, até aqui, em especial os magos da gestão. Cadeia com eles, se deus quiser: e, já agora, não esquecer de execrar os palmas-cavalinhos que na imprensa lhes teciam loas, ou talvez mais. Neste particular, os panama-papers terão algo a revelar, informação que tarda, retida... pelos jornais.

terça-feira, outubro 10, 2017

um estralejar de cometa (Almeida Garrett)

«Qu'il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraître tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main, comme une comète inattendue étincelle dans l'espace!» O incipit da Viagem à Volta do Meu Quarto (1839), de Xavier de Maistre (1763-1852), servindo como epígrafe às Viagens na Minha Terra (1846). Tom paródico, mas também a noção de uma via que Garrett abre, um arejamento na prosa nacional, brisa que chega a este ano de 2017.