sexta-feira, março 09, 2007

Figuras de estilo - Manuel Alegre

(Zanguei-me com toda a gente, não me deixes agora, é em momentos assim que um homem precisa do seu cão.)

Cão como Nós

O Vale do Riff - Joe Jackson, «Is She Real Going Out With Him?»

Diário de um Escândalo: a vida como ela é

Já se sabe, Judi Dench é uma actriz de encher um ecrã. Não por acaso, um papel minúsculo chegou-lhe para ganhar um oscar (Isabel I, em A Paixão de Shakespeare). Cate Blanchett é também muito mais que uma beleza. Em Elizabeth (céus, que personagem!) fiquei completamente rendido ao seu encanto e ao seu talento.
Neste Notes on a Scandal não vem nenhuma surpresa: os predadores e os incautos, os puros e os perversos, os ocasionalmente irresponsáveis ou ligeiramente desmiolados e os poços de ressentimento e maldade. Duas grandes actrizes, e a vida como ela é.

quinta-feira, março 08, 2007

Da pedagogia

Condescendentes
com os descendentes.
Terrível destino / o de quem é nocturno à luz solar.
Rui Knopfli

O Vale do Riff - The Moody Blues, «Question»

estampa XCVII

Pieter Brueghel, o Velho, Dança de Camponeses
Museu de História da Arte, Viena

quarta-feira, março 07, 2007

Antologia Improvável #206 - Rui Ferreira Bastos

WINDOWS 95

Castiga o vento a palmeira,
que ronda a minha janela.
Antes esta, que aquela,
cerrada dentro de ti.

O vento fá-la dançar,
gingando à volta dela
e, não subindo a janela,
também não chega aqui.

Ó vento, larga a palmeira!
Mais veloz que o pensamento,
corre, voa, vai por ela,
tentar chegar à janela,
que eu bem a vejo daqui.

O vento sopra, teimoso,
a palmeira está de partida.
Quem vai abrir a janela,
que se fecha à minha vida?

Oeiras 95

Voz(es)

O Vale do Riff - Van Morrison, «It's All Over Now Baby Blue»

terça-feira, março 06, 2007

O «Churchill» de Karsh, ou o apogeu da vontade

Em Dezembro de 1941, após um discurso no parlamento canadiano, Churchill posou para o grande fotógrafo arménio Yosuf Karsh. O resultado foi esta imagem, um dos ícones mais poderosos alguma vez saídos duma objectiva. Aqui está personificada a resolução em todo a sua majestade, por quem, uns meses antes dissera aos britânicos que nada tinha para oferecer senão sangue, trabalho suor e lágrimas, e cujo programa de governo era assim apresentado:
«Perguntais vós, qual é a nossa política? Responderei que é fazer a guerra, no mar, na terra e no ar; com todo o nosso poder e com todas as forças que Deus nos conceda; fazer a guerra contra uma tirania monstruosa, sem precedentes no catálogo dos crimes humanos. É essa a nossa política.»*
O discurso do velho primeiro-ministro inglês continuava na fotografia de Karsh.
*In Martin Gilbert, Continuem a Moer-lhes o Juízo -- A Liderança de Guerra de Churchill
(tradução de José Miguel Silva)

O Vale do Riff - Billie Holiday, «Fine And Mellow»

Bernet, Snake -- Double Paire
(argumento de Abuli)

segunda-feira, março 05, 2007

A Casa de Salazar

Esta bizarria em torno do projectado Centro de Estudos do Estado Novo não tem ponta por onde se lhe pegue. Dando por boas as justificações do presidente da Câmara Muncipal de Santa Comba Dão, pretende-se estudar o período e não glorificar a pessoa do ditador. Parece-me bastante sensato. O que seria criminoso, crime de lesa-património, era deixar o imóvel apodrecer. Há quem goste do Botas e há quem o deteste. Eu compreendo a repulsa dos resistentes, dos antigos presos, dos torturados, de todos quantos sentiram a humilhação de viver numa sociedade policiada, do medo da delação; já não percebo tão bem que à custa da indignação e dum certo tocar a reunir se acabe por promover o que se quer combater. Salazar governou Portugal por quarenta anos; se a História só perpetuasse os heróis e os santos e não os homens de carne e osso, poucas figuras sobrariam. Cabe ao município de Santa Comba Dão -- ao preservar o seu património histórico -- não permitir que esse mesmo património se anule e menorize, resvalando para uma espécie de santuário. Está na sua mão e está ao seu alcance.

O Vale do Riff - Kenny Clarke & Francy Boland Big Band, «Sax No End»

domingo, março 04, 2007

estampa XCVI

El Greco, Vista de Toledo sob a Tempestade
The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque

António Sérgio


Correspondências #82 - António Sérgio a Castelo Branco Chaves

[1924]
Meu caro Amigo:
Pensando no caso, acho que é melhor que seja o meu Amigo quem escreva ao Sardinha. Peço-lhe que enuncie as seguintes verdades:
Primeira. Não quero, não quererei nunca atacar o Sardinha. Pretendo defender o o prestígio da secção crítica da «Lusitânia», que o Sardinha atacou, mandando para a revista um artigo que é um desmentido, de lés a lés, do meu artigo na «Lusitânia» sobre o Murias. O Sardinha, se fosse discreto, publicava aquilo na «Nação Portuguesa».
(Aqui para nós, e só para nós: o facto é tanto mais estranhável quanto fui eu que concebi e fundei a «Lusitânia». O Afonso e o Sardinha entrariam para o elenco redactorial da revista porque o Afonso mo pediu. Para ver quanto o acto do Sardinha foi pouco generoso, suponha a hipótese de eu sair vencido na polémica. Eis um homem que entra a pedido numa revista criada por mim, para, uma vez lá, minar o prestígio literário de quem gentilmente o recebeu.) Em resumo: o atacante (sem nenhum necessidade) é o Sardinha. Eu defendo-me, e vou fazê-lo no tom mais amável e amistoso.
Segunda. Não manifestei o desejo, por mim, que o artigo não fosse publicado. Não me obriguem ao ridículo de fazer notar ao Sardinha que não tenho medo da crítica dele. Pelo contrário. Logo disse que, pessoalmente, estimava a publicação do artigo. Para a unidade e prestígio da «Lusitânia», porém, e para evitar os cancans do respeitável público, achei melhor que o artigo do Sardinha fosse publicado na «Nação», e a minha resposta na «Seara». Evitar luta dentro da «Lusitânia». A «Lusitânia» deveria ser reservada para a expressão daquilo que nos é comum; a «Nação» e a «Seara» para a amistosa discussão das divergências. Este meu modo de ver obteve até hoje o assentimento de todas as pessoas que o conhecem, excepto... não sei se realmente há alguma excepção, porque ninguém até hoje, por palavras, mo contestou claramente, depois de eu o explicar com minúcia.
Ora aí está. Não sou inimigo de ninguém, não quero atacar ninguém. Defendo e tenho defendido Ideias que julgo verdaddeiras e úteis a Portugal. Posso achar más certas ideias do Sardinha, ou do amigo do Sardinha, o Sr. Murias, mas sendo e continuando a ser amigo do Sardinha e dos seus amigos. Tenho mostrado bem que não me importo de desagradar e cabe por isso dizer que tenho para com o Sardinha a melhor boa vontade deste mundo, sem que possam duvidar da minha franqueza. Não cuido precisar do Sardinha para coisa nenhuma, não cuido que a inimizade do Sardinha me possa prejudicar, pessoal e literariamente: sou portanto absolutamente sincero quando digo que quero ser amigo do Sardinha, que não tenho o menor desejo de o atacar ou de lhe causar o mais pequenino prejuízo no seu prestígio de historiador. E isto não é virtude; é o reconhecimento intelectual de que há espaço para toda a gente neste mundo, que enfim de contas nos encontramos todos com todos, e não só com os nossos contemporâneos, e que tanta razão tenho para temer que me faça sombra o Sardinha como que me faça sombra o Camões. De mais, não me considero homem de letras: sou um homem que, tendo meia dúzia de convicções, usa da letra redonda como o melhor meio de as divulgar entre os seus compatriotas. Ao próprio Fidelino, que me pretendeu insultar, não me seria, eu só desejo que se emende, e que passe a escrever com mais acerto. Ser inferior a um génio chamado Sardinha, ou chamado Fidelino, não me seria mais doloroso do que ser inferior a um génio chamado Espinosa ou chamado Platão. E por ser verdade o escrevi.
Et nunc et semper
A. Sérgio
Cartas de António Sérgio a Castelo Branco Chaves: 192541955
(edição de Luísa Ducla Soares)

Castelo Branco Chaves


Foto de Rodrigo Dias

sábado, março 03, 2007

Acordes nocturnos


Antologia Improvável #205 - Cristino Cortes

TEMPUS FUGIT (II)

Areia pelos dedos, imperceptível, assim
O tempo passa e no seu imparável passar
Não há questão ou problema -- antes o perguntar
Do feito para mais lindo deixar o seu jardim...

Não a pergunta, claro, mas a resposta possível
Por mais frequente atinge e aflige uma alma
Sensível: parece, bem nítida, uma fuga, algo
Por onde a força se esvai e o resultado é sofrível

Sem saber como, facto é, sempre o ano começa
Em Janeiro e mal damos conta já o Verão
Lá foi, a ampulheta escorreu-nos pela mão
E quantas vezes da obra feita nem vaga promessa!...

Que ao menos na memória um poema nos balize
Esta humana angústia enobreça e sinalize.

Cronologia e Outros Poemas