sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Antologia Improvável #99 - José Carlos Ary dos Santos (3)
INFÂNCIA
Não minha mãe. Não era ali que estava.
Talvez noutra gaveta. Noutro quarto.
Talvez dentro de mim que me apertava
contra as paredes do teu sexo-parto.
A porta que entretanto atravessava
talhada no teu ventre de alabastro
abria-se fechava dilatava.
Agora sei: dali nunca mais parto.
Não minha mãe. Também não era a sala
nen nenhum dos retratos de família
nem a brisa que a vida já não tem.
Talvez a tua voz que ainda me fala...
... o meu berço enfeitado a buganvília...
Tenho tantas saudades, minha mãe!
VIII Sonetos / Obra Poética
(edição de Francisco Melo)
Não minha mãe. Não era ali que estava.
Talvez noutra gaveta. Noutro quarto.
Talvez dentro de mim que me apertava
contra as paredes do teu sexo-parto.
A porta que entretanto atravessava
talhada no teu ventre de alabastro
abria-se fechava dilatava.
Agora sei: dali nunca mais parto.
Não minha mãe. Também não era a sala
nen nenhum dos retratos de família
nem a brisa que a vida já não tem.
Talvez a tua voz que ainda me fala...
... o meu berço enfeitado a buganvília...
Tenho tantas saudades, minha mãe!
VIII Sonetos / Obra Poética
(edição de Francisco Melo)
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José Carlos Ary dos Santos
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
Lugares-comuns
josé manuel durão barroso
josé manuel torres couto
josé manuel mário soares
josé manuel torres couto
josé manuel mário soares
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da impaciência,
do indizível
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Figuras de estilo #20 - Manuel Poppe
Eugénia esfrega os braços -- Está frio! Ainda por cima, isto não tem aquecimento! [...] Era um desgraçado?
Artur -- Pior que isso: era um homem que a vida não deixava em paz.
A Aranha
terça-feira, janeiro 31, 2006
Antologia Improvável #98 - Maria Teresa Horta (2)
À TUA ESPERA
Tranquila e serena
a nossa casa
nos quatro cantos
o sol do meio-dia
à tua espera alegre
e descansada
injecto-me de amor às
escondidas
Sobre a garganta passo
os dedos espessos
e a roupa uma a uma
vai caindo
para que então amor
com os teus dedos
quando vieres me vás
depois vestindo
Candelabro / Poesia Completa - 1
Tranquila e serena
a nossa casa
nos quatro cantos
o sol do meio-dia
à tua espera alegre
e descansada
injecto-me de amor às
escondidas
Sobre a garganta passo
os dedos espessos
e a roupa uma a uma
vai caindo
para que então amor
com os teus dedos
quando vieres me vás
depois vestindo
Candelabro / Poesia Completa - 1
segunda-feira, janeiro 30, 2006
O Haydn de Armstrong?
Acontece-me estabelecer um paralelismo, muito pessoal e sem nenhum rigor, quando oiço ou penso em Sidney Bechet -- crioulo de Nova Orleães, figura cimeira das primeiras décadas do jazz, como músico principal ou acompanhante (no sax soprano ou no clarinete) e compositor (Petite Fleur é um tema conhecido em todo o mundo). Quando oiço Bechet, lembro-me de... Haydn, desse outro compositor de excepção, austríaco e cerca de século e meio mais antigo, com as suas cento e algumas sinfonias, além de muitas outras obras, das sonatas aos quartetos, concertos e oratórias.
Para nosso bem, mas póstuma desvantagem (?) sua, Haydn e Bechet foram, respectivamente, contemporâneos de Mozart e Armstrong.
E como as genealogias em arte se constroem (im)pacientemente, sem que se saiba quando o génio toca algum dos rebentos nos ramos das suas árvores, eis que um discípulo directo de Haydn surge e, milagre!, é dos poucos escolhidos que em toda a história da música conseguirá ombrear com Amadeus: Beethoven.
No jazz as coisas então passavam-se de modo diferente, a transmissão de conhecimento era informal nas academias dos pobres. Teve Bechet o seu Beethoven no mundo da música improvisada afro-americana? Se ele for o Haydn de Armstrong, quem terá sido o seu Beethoven? Coltrane?
domingo, janeiro 29, 2006
Correspondências #31 - Teófilo Braga a João de Barros
Lisboa, 2 de Janeiro de 1900
Caro Poeta
Ha já alguns dias que recebi o seu primeiro livro de poesias -- Algas -- tendo é certo lido logo e immediatamente. Leio sempre com curiosidades diversas as composições poéticas que me cáem debaixo dos olhos; quando não acho conhecimento de fórma, appéllo para a originalidade ou novidade da idéa; quando falha qualquer d'estes aspectos procuro ainda descobrir o temperamento ou organização do Poeta, que às vezes póde estar abafado pelas correntes batidas de um gosto dominante que o prejudique.
Só no fim d'este inquerito é que deixo o livro ou a composição poetica. O seu livro das Algas tambem passou por este crivo; ha alli conhecimento das fórmas, e ha temperamento poetico; e é muito, e por isso que promette largas esperanças é que não é já tudo. Para ir mais longe é questão da edade, que lhe hade dar o contacto da realidade da vida, e de uma philosophia que dê ao seu espirito a visão universal.
Felicita-o com um abraço o seu
admirador e am.º At.º
Theophilo Braga
T. S. Gertrudes, nº. 70.
Cartas a João de Barros
(edição de Manuela de Azevedo)
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sábado, janeiro 28, 2006
Antologia Improvável #97 - José Alberto Oliveira
A SEDE DO GADO
Pernoitou nos arrabaldes de uma cidade estranha
e reviu sem gosto o princípio da matéria dada,
escuma de lembranças em licitação de salvados
e versos que mal dobravam a mágoa,
poucos, rasteiros, à boca do solo relidos
com a gratidão de quem recorda mão mais firme
e postura que se tingiu de barro, como neve de dois dias.
Viagens mal ensinadas: o caminheiro descansa no albergue,
o cavalo que suou a insensatez da jornada morde, contrito,
a aveia e o receio de partir tarde. Soam no alpendre
os passos do cão da casa. Fareja a pequenez de tal destino,
desarrumar os livros, com a paixão e os enganos
do seu caminho, talvez um dia, que esteja perto,
a vida escolha de se acolher no desabrigo de versos lidos.
O que Vai Acontecer?
Pernoitou nos arrabaldes de uma cidade estranha
e reviu sem gosto o princípio da matéria dada,
escuma de lembranças em licitação de salvados
e versos que mal dobravam a mágoa,
poucos, rasteiros, à boca do solo relidos
com a gratidão de quem recorda mão mais firme
e postura que se tingiu de barro, como neve de dois dias.
Viagens mal ensinadas: o caminheiro descansa no albergue,
o cavalo que suou a insensatez da jornada morde, contrito,
a aveia e o receio de partir tarde. Soam no alpendre
os passos do cão da casa. Fareja a pequenez de tal destino,
desarrumar os livros, com a paixão e os enganos
do seu caminho, talvez um dia, que esteja perto,
a vida escolha de se acolher no desabrigo de versos lidos.
O que Vai Acontecer?
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sexta-feira, janeiro 27, 2006
quinta-feira, janeiro 26, 2006
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