sábado, dezembro 31, 2005

Correspondências #27 - Nicolau Kopke a Frei José Mayne

Illmo Snr Fr: Joze Mayne
Dezejo que nesta encontre a VS.ª de todo restabelecido das suas molestias, e que esteja gozando da mais perfeita saude acompanhada de todas as mais felicidades, assim como o meu sincero affecto lhe apeteçem.
Chegou a occaziaõ de poder remeter a VS.ª as coriozidades que me vieraõ da Russia, mandadas pello Primo Joze Severin, as quais vaõ em 3 Caixoens marcados K n.º 7, n.º 8, e n.º 9, carregados no Patacho Paquete do Porto Mestre Francisco Joze Vianna, que está promto a partir dezejando que cheguem bem acondicionadas, pª o que naõ deixei de fazer as devidas recommendaçoens ao dito Mestre p.ª que uzasse de toda a cautela com ellas, e bom será que VS.ª também mande uzar da mesma na descarga nessa, p.ª que os Caixoins naõ levem algum tombo, servindo p.ª governo de VS.ª que no Nº 7 vaõ Pasaros e Annimais Seccos, nº 8 vay a Colluna de Minerais do Monte Caucaze, e nº 9 com os Minerais da Siberia, como tudo milhor constará dos dous Catalogos que incluzos remeto a VS.ª que saõ os mesmos que me vieraõ da Russia, e dis o Primo Jozê que entre os Minerais, vem pedassos rarissimos segundo o parecer dos Proffesores da Estoria Natural que os viraõ e examinarao. E agora o que estimarey he que tudo seja do gosto e agrado de VS.ª, e mereça a sua aprobacaõ.
de toda a nossa Familia queira VS.ª aceitar, hua saudoza recomendacaõ, e pª tudo o que eu prestar, queira tambem comferirme as Suas ordems, que promtam.te executarey como sendo com todo o respeito.
De V. S.ria
Primo mto am.te do C. do Cr.do obrigmo
Porto em 21 de Mayo de 1788
Nicolau Cópque
In Rómulo de Carvalho, Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII

Frei José Mayne

sexta-feira, dezembro 30, 2005

estampa II

Visconde de Meneses, Retrato da Viscondessa de Meneses
Museu do Chiado

Antologia Improvável #89 - Tomaz Kim

2.º SOLILÓQUIO

Quem saberá o que vale a pena
Se os mortos se amortalham em segredo;
E o que dos astros vem nada diz,
E os vivos ignoram ou escondem,
Para além da curva do céu,
O que nem o tempo nem o amor
Pode sarar.

Ah, se a morte vale a pena,
Nem os mortos o dizem!
E mudos são o pranto e o luto
E a flor que dedos convencionais desfolham
No mausoléu impessoal e réplica d'outros.

E a Morte,
Como primavera de negro, dominando o pomar,
Ano após ano,
Nada responde.

Flora e Fauna
In Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa

Estampa I

Giorgione, Festa Campestre
Museu do Louvre

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Figuras de estilo #18 - Camilo Castelo Branco

Oh céus, onde estão os vossos raios que não caem sobre a cabeça deste infame, que pede a uma amante que mate sua mãe, para mais a salvamento gozar os seus escandalosos e torpes desejos! Oh céus! como quereis que um homem vos insulte tão claramente, atrevendo-se a proferir estas palavras: ó filha mata tua mãe!... Meu Deus, eu sou um fraco bichinho na terra, e atrevo-me a interrogar a vossa alta sabedoria! Perdoai-me, meu Deus!
Maria! Não me Mates que Mates que Sou Tua Mãe!

Camilo




















Era porreiro ter na algibeira uma nota de 100 paus.

Boas maneiras

Joe Cocker
Woodstock, 1969

quarta-feira, dezembro 28, 2005

«O desprestígio da República»

No Diário de Notícias, VGM no seu melhor.
http://dn.sapo.pt/2005/12/28/opiniao/o_desprestigio_republica.html

[Tentame]

As palavras são como as mulheres: há que saber pegar nelas da melhor maneira. O que nem sempre sucede.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Antologia Improvável #88 - Alberto de Lacerda (4)

APARIÇÃO

Tem sobre a música certas vantagens
E nunca me dirigiu a palavra

Tem os dedos longos
Os olhos rasgados
Um perfil que transformou a sala onde eu estava
E nunca me dirigiu a palavra

Tem os cabelos louros
Angelicamente revoltos
E nunca me dirigiu a palavra

Tem dezoito anos
Ou dezassete anos
E nunca me dirigiu a palavra

Tem um olhar profundo e natural
De rio sem grandes acidentes
Tem o olhar directo
E nunca me dirigiu a palavra

Tem os gestos mais belos que eu sonhei
Antes de ver os seus gestos
Tem a graça da luz de Maio
Tem qualquer coisa de Maio que a Primavera esqueceu
Tem os ossos do rosto cinzelados
Duma forma que teria perturbado
Fídias e perturba certamente
Todos os dias o ar a luz a noite e o dia
E nunca me dirigiu a palavra

Agita quando anda
Os mantos do invisível
E nunca me dirigiu a palavra

Tem uma voz incomparável
Tem uma doçura de ave no olhar
E nunca lhe dirigirei uma palavra

25.5.62
Oferenda-I

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Figuras de estilo #17 - Júlio Dantas

Viajar, -- que horror! O que é, às vezes, agradável e útil, é ter viajado. Os incómodos passam -- e as boas recordações ficam.

Páginas de Memórias

Dantas

sábado, dezembro 24, 2005

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Antologia Improvável #87 - Natércia Freire

O SONHO SEM DESTINO

Se os caminhos são breves
e os dias tão compridos,
e as tuas mãos mais leves
que a espuma dos vestidos;

se é de ti que me ondeia
uma brisa subtil...
E a vaga diz: -- Sereia!
E o sonho diz: -- Abril!

Se cresces e dominas
os campos que acalento,
e inundas as colinas
de fontes que eu invento;

se tens na luz dos olhos
o misterioso apelo
das cidades de fogo,
das cidades de gelo;

se podes bem guardar
na tua mão fechada
o meu altivo Tudo
e o meu imenso Nada;

se cabe nos meus braços
a bruma que tu és,
e em algas e sargaços
te abraço nas marés;

se, puro, na presença
da nossa grande Casa,
pões na voz de horizonte
um lume de asa e brasa.

Não sei porque te sonho
na sombra matinal,
e ao meu lado te vejo,
real e irreal.

Sabeis -- adaga fria,
que ao meu peito cintilas --
onde se oculta o dia
das aragens tranquilas?

Se tudo sabes, mata
com dedos de oiro fino,
ou com gume de prata,
o sonho sem destino!

Anel de Sete Pedras

In Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa

Natércia Freire

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Flopbuster


Admito que o telefilme dos Beatles não tem pés nem cabeça, e que quarenta anos depois, ou quase, será só mais um testemunho da passagem dos fab-four por este mundo de Cristo. Mas isso é, quanto a mim, duma irrelevância a toda à prova, uma vez que o devaneio foi pretexto para que Lenon - a Morsa e McCartney - o Hipopótamo nos dessem temas como o «Magical Mystery Tour», «The Fool oh the Hill» e «I Am the Walrus», além de duas composições menores: uma de Harrison-o Coelho e outra assinada pelos quatro, Ringo vestindo aqui a pele do Galo.
Flop, um filme que deu 3 canções 3 que acrescentaram o património artístico ocidental?...
O lado B, já fora do filme, com «Strawberry Fields Forever», é superlativo.

A propósito:

e o que seria do filme de Michael Curtiz, Casablanca, sem As Time Goes By?

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Figuras de estilo #16 - Teixeira de Queirós

Tinha o ofício de alfaiate e trabalhava assiduamente. Excelente mestre; boa tesoura e um ponto para a eternidade.
«O Tio Agrela», Os Meus Primeiros Contos
In Comédia do Campo e Comédia Burguesa (Antologia)
(edição de Maria Saraiva de Jesus)

terça-feira, dezembro 20, 2005

Os 15 capítulos de Mário de Carvalho a favor de Alegre


A ler n'O Quadrado[ http://oquadrado.blogs.sapo.pt/]
um dos textos mais notáveis de campanha
de um dos grandes escritores portugueses dos nossos dias.

[não, não se trata dum comentador de meia-tigela, nem dum pivot da sic-notícias; é um texto de 15 pontos DO Mário de Carvalho (em português de lei) sobre O Manuel Alegre (um português de lei).