quinta-feira, agosto 29, 2013

uma epígrafe de Sá de Miranda

«Logo os meus olhos ergui / à casa antiga e à Torre / e disse comigo assi: / 'Se Deus não val aqui, / perigoso imigo corre!» -- n'A Torre da Barbela, de Ruben A. (1964)

M. Teixeira-Gomes, ou da estética à coisa

«O autor escreve para se entreter», afiança M. Teixeira-Gomes na nota final à peça  Sabina Freire (1905). Teixeira-Gomes, que é um dos Grandes. Descontando alguma pose do esteta que foi PR (1923-25), a quem chamavam Lorde Polainas, quem, com igual desprendimento e implícito auto-reconhecimento do seu real valor, se atreveria a dizê-lo desta forma? Nenhum grande escritor o faria hoje, a não ser como salutar provocação. Aliás, nem grande nem pequeno;  e refiro-me, naturalmente, a verdadeiros escritores, maiores ou menores,  não a coisos que publicam.  

MTG, embaixador em Londres (fonte:http://relogiodaguaeditores.blogspot.pt/2013/05/)

quarta-feira, agosto 28, 2013

cantante

Sabina Freire, a arguta e capitosa protagonista da peça homónima de Teixeira-Gomes, "é uma cantante!"

terça-feira, agosto 27, 2013

Machado de Assis tem estilo, e cargas de profundidade (DOM CASMURRO #2))

 «Do título». Por adormecer enquanto ouvia um poetastro, que conhecia «de vista e de chapéu», recitando banalidades, o narrador-protagonista ganhou do mimoso poetiso a alcunha de casmurro, acrescido do dom , honorífico irónico. Por todos se viu assim crismado, já que, meditabundo, não granjeou grandes amizades na vizinhança. Os próprios amigos acharam que lhe servia.
Sou advertido, eu, leitor -- e gosto deste humor desprendido que me interpela --, para não procurar em dicionários: casmurro aqui não é sinónimo de teimoso; e fico desde logo a saber: "[...] se não tiver outro [título] daqui até ao fim do livro, vai este mesmo.» Benévolo para com o "poeta do trem" ao ver a capa, "poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seu autores; alguns nem tanto." Serve para escritores-fantasma, ou homens-públicos que publicam...
A fluidez do estilo de Machado, apanágio só dos predestinados, menos pela desenvoltura que por algo ainda mais importante para o escritor do que o próprio estilo, a profundidade.

segunda-feira, agosto 26, 2013

Rorschach


fonte
13-VIII-2013

Acabei a madrugada a ler Watchmen (1986) de Alan Moore & Dave Gibbons. Não sou um indefectível dos comics, Batman (dos grandes autores) e The Spirit (do Eisner) à parte, entre poucos outros.
Tour de force que deu mais densidade às narrativas de super-heróis (apesar de Bruce Wayne ou Peter Parker...), touxe-nos também um fantasmagórico Rorschach. Walter Kovaks de seu nome civil, filho de prostituta e produto do que se julga poder ser o crescimento infantil, dos alcoices até à institucionalização, traumas de cuja existência se adivinha.
Chapéu, gabardine amarrotada, tanto quanto o gorro que exibe variáveis imagens de Rorschach, a cujo autor o anti-herói vai buscar o nome. Intuitivo, inteligente, Rorschach odeia os maus visceralmente, infligindo-lhe provações de violência e quase sádica, inflingindo terror aos delinquentes, como se fosse um Hannibal Lecter do bem, descontando-se a desordem canibal.
Capturado na sequência de uma cilada, cuja orquestração remete para o nó da narrativa, Rorschach é encarcerado numa prisão com mais de um recluso a querer ajustar contas passadas. Em anotações de trabalho, o psicoterapeuta da cadeia -- excelente momento do cap. VI -- resume um grave incidente ocorrido no refeitório, entre o mais fascinante watchman e outros companheiros de cárcere: "Vocês não estão a perceber. Eu não estou aqui fechado convosco, são vocês que estão aqui fechados comigo."

num inferno branco de neve e solitude

Um mapa centrado no Indocuche, abre a primeira prancha de O Avião do Nanga (1987) O Indocuche tem uma sonoridade com o peso de séculos, tempo que lhe empresta uma aura de terra mítica ou inventada, uma Camelote, ou coisa assim. E no entanto, o Indocuche existe; e ao contrário doutros topónimos congéneres -- Samarcanda, Bagdade, Cartago, Timbuctu... --, cujo prestígio lendário pretérito não aguenta o confronto com a realidade presente, o Indocuche -- por onde passou um raio chamado Alexandre, o Grande, e hoje brotam talibãs como as papoilas autóctones -- persiste em nos desinquietar, como uma vinheta de Hermann para um argumento de Greg...
Nessas montanhas, nesse "inferno branco" de neve e solitude, despenha-se um monomotor pilotado por um ex-desertor da Luftwaffe (já estamos em 1948), como viremos a saber adiante. Ileso, porém sem rádio e poucos víveres. 
Ao longe, um carreiro de formigas, que é uma caravana de camelos da Bactriana. Um tiro despedido por Adler ecoa por entre as fragas himalaicas. Se ouviram, não se sabe. A meio caminho entre duas cidades, Gilgit e Laore, Adler exclama: «Desta vez é o fim... Estou perdido!»

René Sterne, O Avião do Nanga, pranchas 1-2.

terça-feira, agosto 06, 2013

Manuel Ferreira: "as bocas famintas, senhor"

Empurrados do interior, os povos buscavam o litoral na esperança de uma mandioquinha, de um caldinho de peixe, de um cana para chupar, ou de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrasados pelos ventos da miséria. Nem a sopa da Assistência evitava que no alvor da madrugada a carroça da Câmara levasse os que haviam tombado, de noite, na rua, inteiriçados, frios. Nem a sopa da Assistência o evitava, bem se pode dizer: as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar. 

início de Hora de Bai (1962), de Manuel Ferreira

domingo, agosto 04, 2013

é noite em Notre-Dame-des-Lacs

Uma noite calma, enluarada, talvez primaveril, talvez estival; semi-panorama da aldeia de Notre-Dame-des-Lacs, no Quebeque; apenas uma casa com luz, numa água-furtada. Vinheta a vinheta, vamo-nos aproximando, entrando na casa, franqueando a loja, com a salamandra ao centro, apagada -- enquanto o narrador, Félix Ducharme, nos fala da sua vida parada nessa casa-armazém que foi dos pais e agora é sua, e no único desvio que essa existência parece ter conhecido -- Marie Coutu, rapariga que trouxe doutra aldeia. Vamos subindo as escadas, vemos uma foto de casamento, até nos aproximarmos, na última vinheta da segunda prancha, duma porta entreaberta, que dá para um interior iluminado -- a luz que se via na água-furtada nessa noite, enluarada e calma.

Lido pela primeira vez nas páginas da BoDoï, com gáudio (como assinalei aqui).

Loisel & Tripp, Armazém Central (2006), pranchas 1-2.

sábado, agosto 03, 2013

acordes nocturnos

José Mário Branco, Resistir É Vencer (2004)
capa: Resistência (1946), de Júlio Pomar

sexta-feira, agosto 02, 2013

Júlio Dinis: "a quadrupedante alimária"

Um, o mais moço e pela aparência o de mais grada posição social, era transportado num pouco escultural, mas possante muar, de inquietas orelhas, músculos de mármore e articulações fiéis; o outro seguia a pé, ao lado dele, competindo, nas grandes passadas que devoravam o caminho, com a quadrupedante alimária, cujos brios, além disso, excitava por estímulos menos brandos do que os de simples e nobre emulação.

A Morgadinha dos Canaviais (1868)

uma ilustração

creio que de Bernardo Marques (a assinatura
terá sido comida), para a capa da 2.ª edição de Pântano
de João Gaspar Simões (1946)

quinta-feira, agosto 01, 2013

O vale do Riff - Emerson, Lake & Palmer, «Knife-Edge»


"Aquela era uma noite diferente e angustiante."

Aquela era uma noite diferente e angustiante. Sim, porque os homens tinham um ar de desassossego e o marinheiro que bebia solitário no Farol das Estrelas correu para o seu navio como se o fosse salvar de um desastre irremediável. E a mulher, que no pequeno cais do mercado esperava o saveiro onde vinha o seu amor, começou a tremer, não do frio do vento, não do frio da chuva, mas de um frio que vinha do coração amante cheio de maus presságios da noite que se estendia repentinamente.

Jorge Amado, Mar Morto (1936)

terça-feira, julho 30, 2013

"Uma noite destas..."

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

Machado de Assis, Dom Casmurro, 1900

figuras de estilo - Raul Brandão

Vi não sei onde, num jardim abandonado -- Inverno e folhas secas -- entre buxos do tamanho de árvores, estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos...

Húmus (1917)

sexta-feira, julho 26, 2013

figuras de estilo - Agustina Bessa Luís

«Um dos seus prazeres consistia em analisar-se como conteúdo de todo um passado, elemento onde reviviam as cavalgadas das gerações, onde a contradança das afinidades vibrava uma vez mais, aptidões, gostos, formas que, como um recado, se transmitem, se perdem, se desencontram, surgem de novo, idênticos à versão de outrora.»

Agustina Bessa Luís, A Sibila

quinta-feira, julho 25, 2013

a democracia e os seus carrascos

Um artigo de Maria João Tomás, investigadora e directora da Casa Árabe em Lisboa, no último JL, elucida sobre o que foi o breve consulado da Irmandade Muçulmana no Egipto. Além da extrema incompetência governamental, traduzida pela degradação das condições de vida da população, cortes de energia intoleráveis, abandalhamento do espaço público no que respeita às condições de higiene e problemas afins, os irmãos muçulmanos entretiveram-se não apenas a perseguir as egípcias, como as turistas que não trajavam segundo os critérios considerados decentes pelos mentecaptos de serviço -- o que deve ter deixado muito satisfeitos os milhares (milhões?...) que vivem do turismo e respectivas famílias... Isto sem contar com discussões importantíssimas visando tapar as Pirâmides e a Esfinge (para evitar a idolatria) ou  as partes pudibundas da estatuária clássica.
A estupidez, exponenciada pelo fanatismo, não podia deixar de ter o efeito que se viu, numa sociedade tutelada desde sempre pelo poder militar. Milhões (36, ao que parece) exigiram o derrube de Morsi. Como escreve a autora, de forma lapidar, «Rapidamente, o povo que neles havia votado, e que podia ser analfabeto mas não era estúpido, se apercebeu que era necessário acção, e que ser um bom muçulmano não dependia de apoiar as decisões atabalhoadas de Morsi [...] Afinal os analfabetos tinham mais sabedoria que os seus professores.»
Para mim, há uma fina linha em que o sistema demo-liberal não pode pactuar com os seus carrascos. Foi um problema com que a Argélia se deparou, já nos longínquos anos 90, quando a Frente Islâmica de Salvação venceu as primeiras eleições democráticas do país. Aí, nem chegaram a tomar posse, por pronta acção das forças armadas.
É claro que isto acarreta um problema de legitimidade democrática. Mas pode a democracia liberal permitir-se fornecer a corda com que a irão enforcar?...

quarta-feira, julho 24, 2013

Maria Eduarda, Margarida Clark Dulmo & Leonor

No JL de hoje, José-Augusto França considera a Maria Eduarda de Os Maias (1888), "[...] a heroína do romance português, por excelência sua, do seu autor e no que dramaticamente pode ser entendido no Portugal (ou na Lisboa) do Romantismo [...]" («Maria Eduarda for ever!»)
Em matéria de personagens femininas, o Eça... (Já agora, n'Os Maias, nada me parece tão elevado e dramático como o velho Afonso ou tão seriamente divertido como o Ega, qualquer deles com lugar cativo na nossa pequena memória culta colectiva. A Maria Eduarda? Bah!, humana, demasiado humana -- como deveu ser...
Eu, confesso-me mais transportado pelo que não chafurda, por uma certa idealidade quase etérea, que compreende carácter, nobreza, abnegação -- na lama ou em berço de ouro. Daí a minha paixão por mulheres como a Margarida Clark Dulmo, de Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio, ou a Leonor de Servidão (1946), de Assis Esperança.

O Vale do Riff - Eagles, «Victim Of Love»