domingo, março 18, 2007

Falemos do que importa o poema / não serve para o curto relato / do dia
Gastão Cruz

sábado, março 17, 2007

...e a Europa vê.

Parece que Israel não vai dialogar com o novo governo de unidade nacional da Palestina.
Os Estados Unidos, atolados no Iraque, provavelmente já nem têm força para impor nada ao maior aliado do Médio Oriente, principalmente com eleições presidenciais à vista (e partindo do princípio que tal passasse pelas cabeças daquela administração).
O Irão continua o caminho para o nuclear. Talvez os sectores que em Israel advogam uma posição de força se resolvam a agir, quem sabe se com um ataque nuclear preventivo. Os resultados seriam espantosos.
O Afeganistão vai ser mais um atoleiro, desta vez para a Nato. As consequências disso não serão boas para a Nato -- para nós, portanto.
A Europa, minada pelos ideólogos islâmicos, em França, no Reino Unido, na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, em Espanha, vê (Israel a dizer que não).

Caracteres móveis - La Rochefoucauld

Aquilo a que os homens chamam amizade, não é mais que uma sociedade, uma administração de interesses recíprocos e uma proveitosa troca de serviços; enfim, nada mais que um comércio com o qual o amor-próprio tem sempre qualquer coisa a ganhar.


Máximas
(tradução de Cristina Proença)

Acordes nocturnos


Tsvangirai



Quando vi Morgan Tsavngirai sair do hospital, após o espancamento a que foi sujeito pelos agentes de Mugabe, não pude deixar de sentir um profundo asco por este velho crápula agarradíssimo ao mando.
Mugabe ascendeu ao poder por uma justíssima causa, a de acabar com o domínio branco e com a segregação na antiga Rodésia. Mas percebia-se, já na luta armada, o autoritarismo do homem.
Tsvangirai, antigo mineiro e dirigente sindical, líder do MDC, tem mantido uma pertinaz oposição ao repugnante ditador, que utiliza os mais baixos instintos humanos, como sejam o racismo e a cupidez, para compensar uma política interna desastrosa. E Tsvangirai fá-lo em nome da liberdade. Espero que triunfe, e seja digno desse triunfo, como está a sê-lo agora, magnificamente, neste combate desigual.

quinta-feira, março 15, 2007

Antologia Improvável #208 - Alberto de Serpa

CÁ E LÁ

Senhor, lá longe há homens que se matam sem saberem porquê!
Lá longe, o céu tem nuvens que a maldade dos homens lá pôs!
Lá longe, há cidades que sobem para ti em chamas!
Lá longe, defazem-se nos campos cadáveres e frutos!
Lá longe, vão pelas estradas fugitivos curvados!
Lá longe, crianças conhecem, antes da vida, a morte!
Lá longe, não há lembrança nem sonho!

Aos meus ouvidos chegam os lamentos inúteis dos agonizantes.
Os meus olhos fitam o sol mais forte e não se fecham.
Na geada fria da manhã há fogo.
O vento traz-me o cheiro nauseante dos corpos apodrecidos.
Meus passos doem-me como se a carne pousasse sobre pedras afiadas.
E nunca me senti tão pai de todas as crianças que choram.
Onde, o meu sonho e a minha memória?

A Tua companhia, Senhor, mata todas as distâncias,
E lá longe é aqui na minha alma...

Drama -- Poemas da Paz e da Guerra


(da esq. p.ª dir.) João Alves, Sant'Ana Dionísio, Carlos Sanches,
José Régio, Jorge de Sena, Alfredo Pereira Gomes, Adolfo Casais Monteiro
e Alberto de Serpa
Café Palladium, Porto, Outubro de 1941

Acordes nocturnos



quarta-feira, março 14, 2007

máxima

tudo a dizer, nada a dizer

estampa XCVIII

Otto Mueller, Duas Irmãs
Museu de Artes de St. Louis

a gaita

...é que não consigo pôr a música!

terça-feira, março 13, 2007

Caracteres móveis - Epicteto

Não foste convidado para determinado banquete? É porque não pagaste ao anfitrião o preço que cobrava pela entrada. O preço era o elogio, a dedicação. Paga-lhe então o preço devido se é do teu interesse. Mas se queres ambos, receber uma coisa e não gastar a outra, então és insaciável e ignorante. Nada ganhaste em vez desse jantar? Ganhaste de facto: o não ter que adular o homem que não desejas adular, o não ter que aturar os seus porteiros.

A Arte de Viver
[Manual de Epicteto]
(tradução de Carlos A. Martins de Jesus)

O Vale do Riff - Pink Floyd, «Comfortably Numb»

segunda-feira, março 12, 2007

Antologia Improvável #207 - António Ramos Rosa (4)

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração



Viagem Através duma Nebulosa

O Vale do Riff - Neil Young, «Heart of Gold»

domingo, março 11, 2007

Rosinski (desenhos) e Van Hamme (texto)
Thorgal -- O País Qâ

Esta semana n'O Vale do Riff



Correspondências #83 - Fernando Pessoa a João Gaspar Simões

26 de Junho de 1929.
Meu Querido Camarada:
Venho agradecer-lhe o seu livro Temas e não saber como agradecer-lhe o estudo, com que nele me honra.
Esta carta, ou arremedo de carta, é o prefácio incaracterístico a outra, que conto não demorar muito em escrever-lhe, em a qual tratarei mais extensamente do seu livro, no conjunto crítico que representa.
Escreverei, por ora, só do coração, e para assinalar o quanto me comoveu o estudo em que me analisa. Sou, como é de ver, incompetente, pelo desconhecimento íntimo que cada um, por lúcido que seja, tem de si mesmo, para medir, com metro objectivo, qual seja a porção de justeza abstracta com que concluiu a meu respeito. O que é certo é que me circum-navegou com uma atenção vigilante, e que muitos pormenores do seu estudo, eu mesmo (sem reserva de equação pessoal) os reconheço por fotográficos. É sobre o honroso conceito de valia que não poderei falar decentemente.
Comoveu-me, digo, o seu estudo porque me trata como realidade espiritual, e, por assim dizer, reconhece a minha existência como nação independente.
Até à próxima carta, que farei por escrever com o cérebro! Esta, como lhe disse, deflagra do coração, no abraço reconhecido que lhe envia o
camarada muito dedicado
Fernando Pessoa



Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões

sábado, março 10, 2007

Criar mais vida -- eis a missão da vida.
Francisco Costa

«Grandes Portugueses»

Se eu fosse goês, talvez votasse nele.