sábado, março 07, 2009

caderninho

Em geral não se imagina Platão e Aristóteles senão com grandes togas e como personagens sempre sérias e graves. Eram pessoas corteses, que riam como os outros com os seus amigos: e quando fizeram as suas leis e os seus tratados de política foi a brincar e para se divertirem. Era a parte menos filosófica e menos séria da sua vida. A mais filosófica era viver simples e tranquilamente. Blaise Pascal
Do Livro dos Amigos, de Hugo von Hofmannsthal (tradução de José A. Palma Caetano)

sexta-feira, março 06, 2009

O Vale do Riff - Patricia Barber, «White World»

Figuras de estilo - Fernando Lopes-Graça

É contra os meus princípios citar as Autoridades, porque as Autoridades, regra geral, tudo autorizam -- é questão de jeitinho; e porque prefiro errar por minha conta a fazê-lo por conta dos outros.


A Caça aos Coelhos e Outros Escritos Polémicos

quarta-feira, março 04, 2009

Antologia Improvável #360 - Fernando Pessoa Ferreira

PEQUENA ODE DOMÉSTICA

Calor do pão na manhã,
crescendo manso e dormente.
No soalho se desmancha
doce luz inconsistente,
com suas facas de mel
cortando o silêncio quente.

Os ombros dela na cama,
como narcisos cansados
num florescer transparente.

Os Instrumentos do Tempo / A Nova Poesia Brasileira
(edição de Alberto da Costa e Silva)

O Vale do Riff - Joe Jackson, «One More Time»

terça-feira, março 03, 2009

capismo

ilustração de Aldemir Martins. Capa de A Bola e o Goleiro, de Jorge Amado
Contexto, Lisboa, 1986

caderninho

Uma vez que não se pode ser universal e saber tudo o que se pode saber sobre tudo, é necessário saber um pouco de tudo. Porque é muito mais belo saber qualquer coisa de tudo do que saber tudo só de uma coisa. Esta universalidade é a mais bela. Se se pudesse ter as duas, melhor ainda, mas, se há uma escolha a fazer, tem de se escolher aquela, e o mundo sente-o e assim o faz, porque o mundo é um bom juiz muitas vezes. Blaise Pascal
Pensamentos (tradução de Américo de Carvalho)

O Vale do Riff - Hands On Approach, «A Chance»

segunda-feira, março 02, 2009

domingo, março 01, 2009

Clube de leitura - A Viagem do Elefante

José Saramago, A Viagem do Elefante, Caminho, Lisboa, 2008.
Muito tempo depois, desde A Jangada de Pedra -- e não contando com alguns textos laterais, como o muito interessante -- As Pequenas Memórias --, regresso a José Saramago e deparo com um escritor na plenitude das suas capacidades estilísticas. Tive uma impressão semelhante quando li o magnífico Para Sempre, de Vergílio Ferreira: era preciso ter-se escrito muito e menos bem, anos e anos de prosa acumulada, para vir a público com um romance como aqueles.
N'A Viagem do Elefante, o escritor tinha o fio de uma história: o percurso de um paquiderme indiano da corte de D. João III, Lisboa, à do arquiduque Maximiliano, Viena. A narrativa dá-nos uma figura inesquecível, a do cornaca Subhro (rebaptizado Fritz, por Maximiliano...), personagem coadjuvada pela não menos interessante do comandante do destacamento que tem por missão conduzir Salomão, o elefante, e respectivo cornaca à fronteira, em Figueira de Castelo Rodrigo (a passagem de testemunho aos enviados do arquiduque é saborosíssima). Ora, neste belo livro, o que mais me agradou foi a sageza de autor, em que nada parece estar a mais ou a menos, servido por uma ironia e uma graça que me surpreendeu, a que se juntam delicosos anacronismos e inúmeras piscadelas de olho ao leitor, que, se não estou errado, têm no Almeida Garrett das Viagens na Minha Terra a sua principal fonte.
Depois do soberbo Levantado do Chão, de Memorial do Convento, de O Ano da Morte de Ricardo Reis e do até certo ponto decepcionante A Jangada de Pedra, este périplo elefantino -- Salomão entra no panteão bestial da nossa literatura ... -- foi para mim um feliz reencontro e abriu-me o apetite para quatro livros seus que tenho de há muito em carteira: História do Cerco de Lisboa, Ensaio sobre a Cegueira, O Evangelho segundo Jesus Cristo e Ensaio sobre a Lucidez, aos dois últimos acrescendo um interesse não exclusivamente literário.
A capa, de Rui Garrido, é uma festa para os olhos.

Incipit -- Por muito incongruente que possa parecer a quem não ande ao tento da importância das alcovas, sejam elas sacramentadas, laicas ou irregulares, no bom funcionamento das administrações públicas, o primeiro passo da extraordinária viagem de um elefante à áustria que nos propusemos narrar foi dado nos reais aposentos da corte portuguesa, mais ou menos à hora de ir para a cama.

P.S. - Graças à bloga, podemos sempre ler, quase em primeira mão, as anotações de Saramago no seu Caderno, privilégio que normalmente não dispenso, em acordo ou desacordo.

«Por Amor e Outros Poemas», de Torquato da Luz

Torquato da Luz autografa o novo livro Por Amor e Outros Poemas (Papiro),
e eu aguardo pacientemente na fila, com a nova obra e também as tiras do Penadinho...

músicas grandes - Ludwig van Beethoven - adagio sostenuto / presto da sonata #9 para violino e piano, «Kreutzer»


Nathan Milstein (violino) e Georges Pludermacher (piano)

sábado, fevereiro 28, 2009

quadrinhos

Edgar Pierre Jacobs, O Segredo do Espadão 1 - A Perseguição Fantástica
Livraria Bertrand, Venda Nova, 1979

Figuras de estilo - José Saramago

O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há por baixo delas.


A Viagem do Elefante

Outros tons - Mafalda Arnauth, «Para Maria»

bons rapazes

Marie pediu mais disto e eu torno a dar-lho, aqui, aqui e aqui.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Antologia Improvável #359 - Cecília Meireles (3)

4.º MOTIVO DA ROSA


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.


Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando em mim.


E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.




Mar Absoluto / Antologia Poética
(desenho de Arpad Szenes)

O Vale do Riff - Greg Osby, «Sanctus»

Pois assino

A mim, falta-me a pachorra para comentar o dia-a-dia deste país idiota, da idiotia de alguns dos seus líderes políticos e do oportunismo dos restantes, do analfabetismo dos magistrados e dos polícias, da falta de vergonha duns banqueiros-larápios (olha, que engraçado, "larápio", um substantivo que fica bem nas caras de fuinha desses banqueiros, uns já dentro, outros por enquanto ainda fora). Enfim, não tenho cu, como dizia Fernão Lopes.
Mas estimo uns quantos que se dão ao trabalho, nomeadamente João Paulo Guerra. É um prazer ouvir a sua revista da imprensa nas manhãs da Antena 1.
Graças ao Sorumbático, leio-lhe a crónica do Diário Económico, e assino por baixo.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

estampa CL

Pierre-Auguste Renoir, Dança no «Moulin de la Galette»
Museu d'Orsay, Paris

caderninho

As palavras amáveis são como um favo de mel; doçura para a alma e saúde para o corpo. Colecção Salomónica
Biblia Sagrada (Missionários Capuchinhos)

O Vale do Riff - David Bowie, «Watch That Man»

terça-feira, fevereiro 24, 2009

capismo

capa de António Pedro para as Obras Completas de Agatha Christie, vol. 3
Livros do Brasil, Lisboa, s.d.

Figuras de estilo - Maria Gabriela Llansol

ler é nunca chegar ao fim de um livro, respeitando-lhe a sequência coercitiva das frases, e das páginas. Uma frase, lida destacadamente, aproximada de outra que talvez já lhe correspondesse em silêncio, é uma alma crescendo.


Amar um Cão

O Vale do Riff - Creedence Clearwater Revival, «I Put A Spell On you»

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Antologia Improvável #358 - Carlos Nejar (6)

ADÃO DEPOIS DA QUEDA


A paz me amava.
E o paraíso era
gozar a fonte
e a larva da criação.
Eva e eu estávamos
vestidos na palavra.


E desobedeci.
O conhecimento do mal
eu quis. E sou um odre
de carne e dúvidas,
um odre de pó, som,
úmidas fendas pela alma.
Um odre, um odre
que se esconde:
ora no côncavo da rocha,
ora no bosque, ora neste
vazio de quem se achando
rico, é pobre, pobre.


E Deus me chamou e indagou:
"Por que te ocultas?"
Mas Ele sabe e sua pergunta
aumenta esta vergonha
de ser homem e desterrado,
esta peçonha que a serpente
inoculou e ainda ressonha,
letal, com o sofrimento
que me agarra, o suor,
o braço do agravo.

Em Deus aguardo.
Pelos séculos, aguardo,
com meu odre quebrado.


Arca da Aliança

acordes nocturnos

O Vale do Riff - Budy Holly, «Modern Don Juan»

domingo, fevereiro 22, 2009

clube de leitura - O Dilúvio, de Assis Esperança

Assis Esperança, O Dilúvio, Sociedade Contemporânea de Autores, Lisboa, 1932. Inclui as narrativas breves «O senhor Morgado-Martins», «Uma aventura peregrina», «Três aspectos e uma só personagem», «O homem que perdeu o passado» e «O dinheiro».
Contos contra a quietação e a indiferença, o egoísmo e a pulsão interesseira: «Pertencem ao número dos inconscientes que se entregaram à mercê da corrente, as personagens destas novelas.» (da «Introdução»). Desfile de caracteres a quem a vida interpela: simples e ingénuos caídos nas armadilhas urdidas por outrém, fura-vidas que tiram partido da cupidez dos que com eles interagem, hipócritas prontos a trocarem os alegados padrões morais por bens bem mais materiais, preconceituosos que sacrificam à conveniência social a felicidade possível, derrotados que em vez do impulso libertário e libertador se quedam pela resignação amarga.
Personagens como o Sebastião Rodrigo de Melo e Castro, o fidalgo algarvio de velha cepa de «Uma aventura peregrina», ansiando pela tranquilidade que lhe permitem os rendimentos da venda das terras na província natal e no Alentejo para se dedicar ao estudo do árabe, o verdeiro interesse da sua vida; ou Rui de Albuquerque, ausente no estrangeiro por seis anos, vindo a encontrar família e amigos outros que não os deixados quando da expatriação, introduzindo nele próprio um factor de estranhamento, são figuras psicologicamente encorpadas. Estamos no mesmo ano do Elói ou Romance numa Cabeça, de João Gaspar Simões e na década do Jogo da Cabra Cega (1934), de José Régio. Ver-lhes as aproximações e as distâncias seria um exercício curioso.
A capa, com um Noé macróbio e bicharada da criação em arca de proa bem lusitana, é de Roberto Nobre e ilustra a magnífica introdução de Esperança.

sábado, fevereiro 21, 2009

caderninho


ARQUITECTOS -- Todos uns imbecis. Esquecem-se sempre das escadas dos prédios. Gustave Flaubert
Dicionário das Ideias Feitas (tradução de João da Fonseca Amaral)

outros tons - José Afonso, «Venham Mais Cinco»

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

quadrinhos

Edgar Pierre Jacobs, O Raio U
Livraria Bertrand, Venda Nova, 1978

Es obvio que los aviones / Vuelan más alto que los profetas
Mario Benedetti

O Vale do Riff - Eric Dolphy, «Blues Improvisation»

estampa CXLIX

Júlio Pomar, Resistir
Colecção particular

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Figuras de estilo - Cyro dos Anjos

As moças não me notavam, mas eu bem as via, para festa dos olhos e malinconia do espírito. Traziam-me uma imagem da vida que foge, e foge sem dó. Nada mais depressivo que sentir outras gerações surgirem depois da nossa e nos disputarem o espaço.


O Amanuense Belmiro

O Vale do Riff - Yes, «Beyond And Before»

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

acordes diurnos

Antologia Improvável #357 - Bernardo de Passos

O BAILARICO

P'las tuas mãos bebi água,
Mas vê que coisa, Maria!
A minha sede aumentava
Quanta mais água bebia

A minha sede aumentava,
Cada vez era maior,
Que a água não mata a sede,
quando essa sede é de amor.

Truz que truz, bati à porta,
Já meia noite era dada.
E a neve sempre a cair,
E a porta sempre fechada.


Adeus... / Obra Poética
(edição de Joaquim Magalhães)

O Vale do Riff - Cousteau, «There She Goes»

terça-feira, fevereiro 17, 2009

caderninho

Desonra-te, desonra-te, oh minha alma! E não mais terás tempo para te tratares com estima! Breve é a vida humana! E quase acabada está a tua, sem que ao menos te respeites a ti próprio, pois fazes depender a tua felicidade do que se passa na alma dos outros! Marco Aurélio
Pensamentos para Mim Próprio (tradução de José Botelho)

O Vale do Riff - The Teardrop Explodes, «Reward»

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Figuras de estilo - Vergílio Ferreira

Ah, viver-se exilado no seu país. De um lado o fascismo, do outro o comunismo, ou seja, outro fascismo. São iguais entre si com mudança de sinal -- de rótulo. Uma reflexão a fazer: antes de sermos o que quisermos em política, somos os pacóvios que a tudo confere pacovice. É-se entre nós fascista, comunista, democrático; mas antes disso é-se poruguês, ou seja, pascácio. O resto que se segue já não interessa à conversa.


Conta-Corrente 1

O Vale do Riff - Lonnie Plaxico, «Second That Emotion»

domingo, fevereiro 15, 2009

clube de leitura - Funâmbulos, de Assis Esperança

Assis Esperança, Funâmbulos, Lisboa, Livrarias Aillaud & Bertrand, 1925. Inclui quatro novelas: «O rebanho», «Ruínas», «A inimiga» e «O vencido».
Dedicatória impressa: «Para /Ferreira de Castro / o grande amigo / estas novelas de símbolos».
Histórias de títeres, de figuras na corda bamba para quem a vida é demasiado grande para que a possam dominar. Vimo-lo n' O Rebanho, que aqui é republicado com alguns retoques. Nestas quatro novelas, Assis Esperança lança um olhar sombrio não apenas sobre a organização social que produz desaustinados como o Pedro de «O rebanho», mas também sobre a célula familiar e o casamento em particular. Em «Ruínas», um ser autoritário e hipócrita inflige terror ao filho, um jovem adulto demasiado débil, física e emocionalmente, para se lhe opor, e também ao velho caseiro, usurpado de um pedaço de terra que lhe fora prometido , de boca, pela antiga patroa, sogra do actual senhor. Filho e criado vergam-se ao despotismo e à insolência, sentindo-se aliados diante do inimigo comum. A oportunidade de suprimi-lo, que um deles cria, não será aproveitada pelo outro. As desinteligências entre ambos resultam num desfecho trágico. Em «A inimiga» como em «O vencido», o consórcio entre pessoas de ideias ou extracções diferentes produzirá vítimas. Num, o marido cerebral e todo devotado à obra intelectual tem nas mãos a vida da mulher -- criatura fútil e dissimulada --, quando esta se apresta a dar à luz; no outro, a ociosidade da mulher, doméstica culta e instruída que se acomoda à preguiça, sustentada pelo marido, propiciará preversões de desfecho fatídico, quando aquele traz para casa um meio-irmão, entretanto órfão, que padece de atraso mental congénito. O tédio da mulher encontra um escape na possibilidade divertidamente embriagante de seduzir o idiota.
Em relação ao romance anterior, Viver! (1919), Assis liberta-se do ouropel estilístico, bem como da minudência naturalista que o afectava. Zola e Abel Botelho estão indo, e surge-me aqui, porventura, a nova referência espectral de Raul Brandão, caso singularíssimo da literatura portuguesa -- ainda hoje, quanto mais ontem!...
Roberto Nobre, na sua capa, interpreta o título literalmente, aliás com acerto, pois Funâmbulos é isso mesmo: um desfile de bufões no circo da existência.

músicas grandes - Béla Bartók, «Allegro» do Concerto #3, para piano e orquestra


Martha Argerich, Orquestra Toho Gakuen / Yuri Bashmet

acordes diurnos

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Antologia Improvável #356 - Helder Macedo

A meio do caminho
a mais de meia vida já vivida
reencontrei-me só na selva escura
da vida indecifrada
e não sei de que lado está a morte
e não sei se é o amor quem a sustenta
no tempo
que chegou
de destruir
para ver o que seja o que me sobra
no certo entendimento
de que as vidas são feitas
no perdê-las
ou nisso só existem
porque há vida somente quando há morte
e porque toda a selva
por mais cerrada e escura
contém o tempo já no seu deserto
na fértil luz difusa que a penetra
para nela executar o seu amor.


Viagem de Inverno

O Vale do Riff - Miles Davis, «Walkin'»

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

caderninho

O ser humano afirma-se pela verdade. Se renuncia à verdade, renuncia a si próprio. Quem trai a verdade, trai-se a si próprio. E isto não significa mentir, mas agir contra as convicções. Novalis
Fragmentos São Sementes (tradução de João Barrento)

O Vale do Riff - Ben Harper, «Jah Work»

Tzipi Livni

Acabo de ver e ouvir o discurso vitória de Tsipi Livni. Um alívio este resultado, pelas suas qualidades pessoais e de liderança. Percebe-se que é feita de outra massa, diferente da dos Olmerts e dos Nethanyaus. A fibra e a inteligência que tem demonstrado na sua curta, mas triunfal, vida política não são de somenos para dirigir os destinos desse país fantástico que é Israel, num cargo que, depois do de presidente dos Estados Unidos, será o mais difícil de ocupar neste tempo incerto.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Caracteres móveis - Octave Mirbeau

Cada palavra é uma bofetada de desprezo, cada gesto faz-nos descer mais baixo do que um animal. E temos de nos calar, de sorrir e agradecer, sob pena de passarmos por ingratas ou invejosas.


Diário de uma Criada de Quarto
(tradução de Adelino dos Santos Rodrigues)

O Vale do Riff - The Who, «Boris The Spider»

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Antologia Improvável #355 - Cecília Meireles (2)

Explicação

A Alberto de Serpa

O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo -- e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
-- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.

Alguém conta a minha história
e alguém mata os personagens.)


Vaga Música / Antologia Poética

O Vale do Riff - The Clash, «English Civil War»

domingo, fevereiro 08, 2009

sábado, fevereiro 07, 2009

caderninho

O imprudente, lastimando-se do seu defeito, daria, diz, tudo para ser prudente; o prudente, vê a todo o momento o precário valor da prudência. Dá-se o mesmo com outras virtudes humanas: são apenas consideradas e estimadas daqueles que as não possuem. José Marinho
presença, n.º 31-32, Coimbra, 1931

quadrinhos

André Franquin, Os Herdeiros
Editora Arcádia, 1975

acordes nocturnos

Caracteres móveis - Tenzin Gyatso, o Dalai Lama

Penso que há uma importante distinção a fazer entre religião e espiritualidade. Considero que religião diz respeito à crença numa forma de salvação específica a cada tradição, um aspecto dessa religião consiste na crença numa realidade metafísica ou sobrenatural que inclua, por exemplo, a noção de céu ou de nirvana. Ligam-se a ela os ensinamentos religiosos ou dogmas, os rituais, a oração, etc. Considero que a espiritualidade diz respeito ao cuidado a ter com as qualidades do espírito humano como o amor e a compaixão, a paciência, a tolerância, o perdão, o contentamento, o sentido da responsabilidade e da harmonia, que trazem felicidade para si e para os outros. O ritual e a oração, bem como o nirvana e a salvação, estão directamente ligados à fé religiosa mas estas qualidades interiores não. Por conseguinte, não há razão para que um indivíduo não as desenvolva, mesmo num grau elevado, sem depender de qualquer sistema religioso ou metafísico. É a razão pela qual afirmo, por vezes, que talvez possamos dispensar a religião. Mas o que não podemos é dispensar estas qualidades espirituais básicas.


Ética para o Novo Milénio
(tradução de Conceição Gomes e Emília Marques Rosa)

O Vale do Riff - Tony Williams, «Civilization»

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

quadrinhos

René Goscinny e Jean Tabary, O Dia dos Loucos
Edições Asa, 2008

por acaso, gostei

do entalanço de Angela Merkel ao Vaticano, a propósito daquele dejecto prelatício que nega o Holocausto. Foi uma alegria ouvi-la. E o pobre do Bento XVI ainda mais fino ficou a falar. Bolas, gostei mesmo.

O Vale do Riff - Jamie Cullum, «I Want To Be A Popstar»

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Antologia Improvável #354 - Torquato da Luz

AMOR / ÓDIO


Umas vezes floresta, outras deserto,
umas vezes cetim, outras cotim,
umas vezes veludo, outras estopa.


Umas vezes de longe, outras de perto,
umas vezes princípio, outras fim,
umas vezes piranha, outras garoupa.


Umas vezes de noite, outras de dia,
umas vezes silêncio, outras ruído,
umas vezes o amor que me alumia,
outras vezes um ódio sem sentido.



Ofício Diário