segunda-feira, março 10, 2008

Antologia Improvável #292 - Sophia de Mello Breyner Andresen (4)

ONDAS

Onde -- ondas -- mais belos cavalos
Do que estes ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais longas crinas sacudidas
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia

Dezembro 89


Musa

domingo, março 09, 2008

sábado, março 08, 2008

O Vale do Riff - Jethro Tull, «We Five Kings»


The Jethro Tull Christmas Album (2003), originais e versões, como esta, excelente, de «We Three Kings Of Orient», do Reverendo John Henry Hopkins. Festival de Jazz de Lugano, Julho de 2005. (1.ª postagem: 21-XII-2007)




sexta-feira, março 07, 2008

Joel Serrão



Joel Serrão, que morreu ontem, era um dos maiores historiadores portugueses da segunda metade do século XX -- período aliás riquíssimo da historiografia nacional: Vitorino Magalhães Godinho, António José Saraiva, Jorge Borges de Macedo, Joaquim Veríssimo Serrão, Oliveira Marques, José-Augusto França, António Borges Coelho, José Mattoso, só para falar em alguns dos grandes. O seu Dicionário de História de Portugal é mesmo um dos dois pilares do que neste campo se fez em Portugal na centúria passada (o outro é a famosa "História de Barcelos", a História de Portugal dirigida por Damião Peres).
Se o Dicionário seria suficiente para creditar o seu nome como um dos maiores historiógrafos do seu tempo, a obra vasta que deixou mais não faz do que fixá-lo como um dos mais notáveis de todas as épocas. Recordo a relação de fontes de história contemporânea, que publicou com Miriam Halpern Pereira, trabalho de sapa, tão ingrato quão necessário; os notáveis temas oitocentistas, sobressaindo um forte pendor ensaístico -- dos estudos sobre a experiência oitocentista do tédio às reflexões sobre a noite natural e a noite técnica, os estudos sobre emigração, as magníficas abordagens à obra de escritores como Cesário, Antero, Bruno, Pessoa, Eça... (O Primeiro Fradique Mendes é um título absolutamente referencial, pela argúcia crítica e informação erudita, na selva da bibliografia queirosiana.) E muito mais, que nem sei nem caberia aqui se o soubera
Além do mais, era o meu historiador preferido.

O Vale do Riff - Jethro tull, «Velvet Green»


Songs From The Wood (1977), o primeiro encontro com os Tull, um dos meus álbuns preferidos. Continuamos no programa de John Peel, desse mesmo ano. Acho que Anderson nunca cantou tão bem. A vodca terá ajudado. (1.ª postagem: 9-II-2007)




quinta-feira, março 06, 2008

Antologia Improvável #291 - António Quadros

POÉTICA CONTRADITÓRIA

Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.

Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus medos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não ignoto e só, não louves.

Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heróica dos teus prantos.

Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.


Viagem Desconhecida /
/ Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa
(edição de Ana Hatherly)

O Vale do Riff - Jethro Tull, «Skating Away On The Thin Ice Of A New Day»




De War Child (1974), uma toada folk. Os músicos são eclécticos: Barlow, baterista, no xilofone -- enfim, é um instrumento de percussão, não sai da família; ao contrário de Barre, guitarrista, e Evans, que do acordeão passa para a bateria. Ao vivo no Golders Green Hippodrome, em Londres (1977), apresentados por John Peel. (1.ª postagem: 7-XI-2006).

quarta-feira, março 05, 2008

caderninho

Algumas vezes tenho ouvido da boca de pessoas que estimo e considero palavras agradáveis ao meu orgulho. Deleita-me ouvi-las. Mas estou em jurar que, se elas mas recusassem, o prazer que isso me daria não seria menos profundo, nem menos agudo do que o que me concedem -- dispensando-mas. A sensação de que se é vítima de uma grande injustiça é uma forte doce volúpia. Bourbon e Meneses
Novos Solilóqios Espirituais

O Vale do Riff - Jethro Tull, «Wond'ring Aloud»




Também de Aqualung (1971), uma "quase canção de amor" do menestrel Anderson ,em Tampa, Florida, 31 de Julho de 1976. (1.ª postagem: 6/VI/2007)

estampa CXXIX

Gregório Lopes (?), retrato de Vasco da Gama (?)
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

terça-feira, março 04, 2008

respeito

O país não se dá ao respeito. Batemos no fundo quando o Estado não assume as suas responsabilidades. Uma ponte caiu, morreram pessoas. Um país decente indemniza as vítimas e depois tenta apurar responsabilidades. Se fôssemos um país decente. Como não o somos, alguns dos nossos concidadãos, os familiares das vítimas da tragédia de Entre-os-Rios, dão ao Estado e a todos nós uma verdadeira bofetada. O país não se dá ao respeito. Eles sim.

Caracteres móveis - Emilio Salgari

Via-se que o Corsário Negro não renunciara a todas as comodidades.
As paredes da câmara estavam forradas de seda azul bordada a ouro e adornadas de grandes espelhos de Veneza; o pavimento ocultava-se sob um macio tapete oriental, e as amplas janelas que davam para o mar eram resguardadas por leves cortinas de cassa.
Aos cantos havia quatro prateleiras cheias de baixelas de prata, no meio, uma luxuosa mesa preparada e coberta com uma rica toalha de Flandres, e à volta cómodas cadeiras estofadas de veludo azul, com ornatos de metal.
Dois grandes e artísticos candelabros de prata iluminavam a saleta, fazendo cintilar os espelhos e um feixe de armas cruzadas sobre a porta.


O Corsário Negro
(tradução de A. Duarte de Almeida)

O Vale do Riff - Jethro Tull, «Aqualung»

Taa-tatatata-taa, riff de bronze das crónicas do rock, de Aqualung (1971). A actuação é de 77, com um line up de referência: Ian Anderson (voz e guitarra acústica), Martin Barre (guitarra), John Evan e David Palmer (teclas), o malogrado John Glascock (baixo) e o incrível Barriemore Barlow (bateria). (1.ª postagem: 3-X-2006).


segunda-feira, março 03, 2008

acordes nocturnos

O Vale do Riff - Jethro Tull, «A Song For Jeffrey»

Do primeiro álbum, This Was, de 1969, os Jethro Tull na sua faceta inaugural de banda rythm & blues. A formação foi variando até hoje. Martin Barre, guitarrista histórico, ainda não aparece. Aqui um outro, de recurso, que viria a fulgurar com os Black Sabbath: Tony Iommi. Ian Anderson, o mentor, figura impressionante, verdadeiro leprechaun. Os Tull são ele. Mick Jagger apresenta. (1.ª postagem: 13 de Setembro de 2006).

leprechaun

domingo, março 02, 2008

Nada na minha poesia é meu / juro por Deus dizer toda a verdade
Ruy Belo

Jethro Tull

O Céu, esta semana n'O Vale do Riff: só Jethro Tull e quase 40 anos de Ian Anderson para comparar.

hype, hype...

The Builders And The Butchers, Black Dresses

sábado, março 01, 2008

acordes nocturnos

Antologia Improvável # 290 - Jorge de Sena (4)

«SINAIS DE FOGO...»

Sinais de fogo, os homens se despedem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é quem reacende
outros sinais ardendo na distância
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.

Julho/Agosto 1967


Visão Perpétua

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

acordes nocturnos

6insignificâncias6

O meu velho amigo Paulo Cunha Porto quer que revele 6insignificâncias6 a meu respeito. Como não me posso eximir à solicitação deste meu amigo velho, aqui vão elas, que remédio!
1) Tenho uma predilecção, há quase 40 anos, por cães da raça boxer (um deles tomou conta da minha irmã bebé, outro tomou conta da minha filha mais velha bebé, outro ainda tomou conta da minha filha mais nova bebé).
2) Assino os meus livros no frontispício e nas páginas 25 e 101.
3) A BD sabe-me melhor com um chocolate e o chocolate sabe-me melhor com uma BD (os dentes ressentem-se).
4) Tenho a mania dos descapotáveis (sou encalorado).
5) Dou alcunhas, cognomes, títulos aos meus cães. O actual, Charlie, é conhecido cá em casa por Carlinhos Theron (uma homenagem).
6) Costumo fumar uma cigarrilha à noite no terraço, chova ou faça sol (de preferência na companhia do Carlinhos).

O Vale do Riff - Genesis, «Carpet Crawl»

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

capismo

ilustração de José Ruy para A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca
Publicações Europa-América, Mem Martins, 1973

fala do homem falhado

pedes-me palavras
(só tenho as sílabas do desespero para te dar)
pedes-me amor
(nada mais vislumbro senão carne faminta a saciar)

pedes-me a imortalidade
e eu ergo o muro da descrença de alguma vez te ter

dos jornais

Portugal é hoje um país autofágico, dobra-se sobre o peso das infraestruturas de que ninguém precisa. Quantas casas estão hoje vazias, e sem qualquer possibilidade de virem a ser habitadas? Quantas centenas de quilómetros de autoestradas inúteis já existem? Quantas centenas mais se irão construir? Os estádios abandonados do Euro 2004, são um símbolo desta economia que tem governo, mas não tem estratégia nem estadistas. Viriato Soromenho Marques, no JL de ontem.

O Vale do Riff - Lee Morgan, «I Remember Clifford»

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

caderninho

A sedução é um dom: como o da poesia. Também tem muito a ver com a música. A pintura e a própria escultura vêm depois. David Mourão-Ferreira
Jogo de Espelhos

O Vale do Riff - Carla Bley Big Band, «Pink Panther»

estampa CXXVIII

Aurélia de Sousa, Auto-Retrato
Colecção particular, Porto

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Figuras de estilo - Maria Archer

Maria aceitava-o por marido! Ia casar-se, ter casa, ter mulher! Já não se calaria, cabisbaixo, diante dos outros, dos amigalhaços, que, abancados na taberna, blasonavam de conquistas e amores. Agora, já tinha uma rapariga, como todos os homens! E em breve haveria filhos, e casa sua, e o direito de berrar em casa, e os outros privilégios dos casados.


«Entre duas viagens», Ida e Volta duma Caixa de Cigarros

O Vale do Riff - Lene Lovich, «Lucky Number»

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Toda a árvore velha é catedral erguida sobre o chão
Joaquim Gomes Mota

O Vale do Riff - The Stranglers, «No More Heroes»

BD


Raul Castro Ruiz, que acaba de ser eleito pela Assembleia Nacional de Cuba com 100% dos votos (609 dos 609 deputados), aparece-me aqui com um ar jacobsiano, pelo traço de Edel Rodríguez, publicado na Time. Tem ar do tipo que transmite directamente instruções ao coronel Olrik.
Mas aquelas rugas na testa denotam preocupação. O paradeiro do Capitão Francis Blake é desconhecido, e Philip Mortimer, da última vez que se soube dele, estava com o cientista cubano dissidente, Professor Nicanor de Los Ríos Embid.

domingo, fevereiro 24, 2008

acordes nocturnos

Antologia Improvável #289 - Sebastião da Gama (2)

O IMPOSTOR

Lá porque eu tinha os loiros na cabeça
(os loiros que Ele deixara
cair ao chão de onde sou),
deram-me abraços na praça,
chamaram-me Poeta
e até fizeram discursos...

Ele, do Alto, sorriu
e riu
daquela tragicomédia,
dos meus ares de arlequim,

Mas consegui fugir ao seu olhar...

Por fim
acreditava, tanto como os outros,
que as palmas era pra mim.

Serra-Mãe

The Stranglers

esta semana n'O Vale do Riff + Lene Lovich, Carla Bley, Lee Morgan e, olha... é singular!..., Genesis

hype,hype...

Mary Lou Lord, Jump

sábado, fevereiro 23, 2008

caderninho

Aqueles que estão acostumados a julgar pelo sentimento nada compreendem das coisas de raciocínio, porque querem logo penetrar de relance e não estão habituados a procurar os princípios. E os outros, ao contrário, que estão acostumados a raciocinar por princípios, nada compreendem das coisas de sentimento, procurando nelas princípios e não podendo alcançá-las de relance. Blaise Pascal
Pensamentos (tradução de Américo de Carvalho)

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

O Vale do Riff - Genesis, «Los Endos»




De A Trick Of The Tail (1976). Sem voz, sem Gabriel, mas completamente Genesis, aqui auxiliados por Bill Bruford, baterista dos Yes e dos King Crimson. Rutherford nunca esteve tão exuberante, e, olha!..., Hackett toca de pé. (1.ª postagem: 22/V/2007)

acordes nocturnos


capa daqui

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

O Vale do Riff - Genesis, «Dancing With The Moonlit Knight»

Selling England By The Pound (1973), o meu primeiro álbum dos Genesis, o contacto inicial feito através desta primeira faixa, «Dancing With The Moonlit Knight», épica. Sei trauteá-la até a dormir. Há quem considere o melhor álbum deles -- e talvez o seja. É pena o realizador andar a apanhar bonés, e não ter percebido de onde vinham os riffs alucinantes de Steve Hackett, sempre sentado. (1.ª postagem: 12/II/2007)

acordes nocturnos

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Figuras de estilo - Eça de Queirós

Olhemos agora a literatura. A literatura -- poesia e romance -- sem ideia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsíssima, não exprime nada; nem a tendência colectiva da sociedade, nem o temperamento individual do escritor. Tudo em torno dela se transformou, só ela ficou imóvel. De modo que, pasmada e alheada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela. É como um trovador gótico, que acordasse de um sono secular numa fábrica de cerveja.
Fala do ideal, do êxtase, da febre, de Laura, de rosas, de liras, de Primaveras, de virgens pálidas -- e em torno dela o mundo industrial, fabril, positivo, prático, experimental, pergunta, meio espantado, meio indignado:
-- Que quer esta tonta? Que faz aqui? Emprega-se na vadiagem, levem-na à polícia!


Uma Campanha Alegre

acordes nocturnos


O Vale do Riff - Genesis, «The Return Of The Giant Hogweed»

Também de Nursery Crime (1971), «The Return Of The Giant Hogweed». Rock progressivo, chamaram-lhe, música elaborada, em crescendo tendencial, com margem para o improviso, por vezes só instrumental, outras com letras que fugiam do real banal. Eles foram dos seus melhores cultores.

Gravado em 1973, no Bataclan de paris. Repare-se que Steve Hackett levanta-se. (1.ª postagem: 9/IX/2006)


terça-feira, fevereiro 19, 2008

Antologia Improvável #288 - José Craveirinha (4)

EM QUANTAS PARTES?

Em quantas partes se divide um grito
em quantos corações se parte uma terra
em quantos olhos se come o sol
e em quantos pães se mata um sonho?

E se uma mulher despida é sempre um desejo
mais aperfeiçoado do que todos os milagres
o que significa neste Mundo o miolo
de um pão obsceno às metades
na mesa de seis bocas?

E quando é certo que um negro
dorme os velhos sonos tão completamente
só imitando outra pessoa a dormir quando já não pode
carregar um saco
ou levar o menino à escola
em quantas partes se divide um riquexó na ilha
em quantas partes se divide uma chávena de chá
em quantos sofás de mandioca se deita a filha mais nova
e em quantas partes se morde um bife de nervo
até ao delírio do osso no espaço tenro
do mundo na lua espetada num tronco
de imbondeiro no jantar engendrado no mato?

E neste poema em quantos trapos
se esconde o rei da fome de cada um
e levanta a cabeça o preciso
verso da fome de cada lei?
Karingana ua Karingana / Obra Poética I

acordes nocturnos

O Vale do Riff - Genesis, «Musical Box»


Uma jóia, uma obra-prima «Musical Box», de Nursery Crime (1971). Gravado em 1972 na tv belga. Gabriel canta e representa de forma magnífica; Banks, na guitarra acústica e nos teclados, soberano; Collins, percebe-se porque é um dos maiores bateristas da sua geração, e porque acabará por ocupar o lugar deixado vago por Gabriel; Hackett, com uma fleuma assombrosa, um dos grandes guitarristas do seu tempo; Rutherford, a discrição em pessoa, pouco se dá por ele, mas sabemos que tem de lá estar. (1.ª postagem: 26/IX/2006)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

O Kosovo e a União Europeia

Temo que a secessão do Kosovo, promovida pelos Estados Unidos (cereja em cima do bolo duma administração de rapaces encabeçada por um pateta), temo que ela venha a marcar o princípio do fim da UE, definitivamente entregue aos bichos. Não são apenas os políticos risíveis da Comissão, como Barroso e Solana, mas os líderes dos grandes países europeus. Bernard Kouchner, por exemplo, um cretino que ainda há pouco ameaçou o Irão com uma guerra, provocando uma gargalhada geral; o insignificante Miliband, digno ministro dum Gordon Brown tacticista e politicamente cobarde, que muito justamente deverá perder as eleições; os italianos, que constituem a classe política mais ridícula da Europa, useiros e vezeiros em baterem o pé às desconsiderações que os outros «grandes» da União Europeia sistematicamente lhes fazem. Enfim é isto que está à frente da Europa, é isto que provável e desgraçadamente a irá enterrar: o fazer de conta de que os problemas não existem, disfarçando-os, dando-lhes a volta. Disfarça com o Tratado, assobia para o ar com o Kosovo.
Entretanto, com o Reino Unido com os dias contados, e a Espanha também -- duvido seja o que é hoje a breve trecho --, espero francamente que a Córsega também declare unilateralmente a independência. Seria bonito.
Finalmente, para completar a farsa, parece que Israel, país respeitável, mas que não se livra de efectivamente ser uma potência ocupante, também vai reconhecer um país de ficção.
Já agora, alguma lucidez neste comentário.

O Vale do Riff - Genesis, «The Knife»

Segundo álbum de originais, mas o primeiro que realmente conta, é este Trespass, de 1970. «The Knife» é daqui retirado. O filme mostra o excerto de uma actuação no «Bataclan» de Paris, em 1973, com a formação de referência dos Genesis: Peter Gabriel (flauta, voz e percussão), Tony Banks (teclados), Mike Rutherford (baixo), Steve Hacket (guitarra) e Phil Colins (bateria, 2.ª voz e ... apito). Aliás é a partir desta experiência vocal que ele se chega à frente, após a saída de Gabriel, sucedendo-lhe, ponto de partida para uma carreira a solo de grande sucesso comercial, embora muitos furos abaixo dos Genesis, e também do percurso a solo de Gabriel, este com uma audiência mais restrita. (1.ª postagem, 1/XI/2006)

acordes nocturnos

domingo, fevereiro 17, 2008

Darkness On The Edge Of Town




Que têm em comum John Ford e Raoul Walsh, Nicholas Ray e Elia Kazan, Sam Peckimpah e Samuel Fuller, Robert Altman e Martin Scorcese -- para além do cinema e da condição de americanos, por naturalidade ou adopção? Que pontos de contacto existem entre John Steinbeck, Dashiell Hammet e Jack Kerouac -- apesar do destino comum de diferentes escritas na Norte-América? E em Woody Guthrie e Bob Dylan, Elvis Presley e Eddie Cochran, John Fogerty, Neil Young e Tom Petty, trovadores e heróis da guitarra do folk-rock no Novo Mundo? Correspondem todos e cada um a uma certa ideia que fazemos da América -- e todos eles (e mais alguns), uma e outra vez, foram trazidos à baila de cada vez que um crítico se referiu ao trabalho do Boss.
A música de Springsteen, compromisso entre a tradição guthriana de intervenção e o rock and roll expressão do som e da fúria, é autêntica e viril. Expressões como «realismo social» (David Sinclair, Rock on CD, Greenwich, 1995) podem aplicar-se-lhe perfeitamente; e talvez o melhor exemplo seja este disco, de 1978, editado entre o também ele admirável Born To Run (1975) e o excessivo, e quanto a mim, parcialmente falhado The River (1980).
As palavras, nunca são despiciendas neste autor. Em Darkness on The Edge Of Town estamos em pleno imaginário norte-americano: os grandes subúrbios pejados de rebeldes desenquadrados (Badlands, you gotta live it everyday, / Let the broken hearts stand / As the price you've gotta pay, / We'll keep pushin' till it's understood, / And these badlands start treat us good -- «Badlands»); as autoestradas dos convertibles, do on the road, coast to coast (On a rattlesnake speedway in the Utah desert / I pick up my money and head back into town /Driving cross the Waynesboro county line / I got the radio on and I'm just killing time / Workin all day in my daddy's garage / Driving all night, chasing some mirage / Pretty soon littke girl I'm gonna take charge. -- «The Promised Land»); as fábricas e o struggle for life do operariado, certas composições de Springsteen transportam-nos para uma atmosfera pré-New Deal... (End of the day, factory whistles cries, / men walk through these gates with death in their eyes, / And you just better believe, boy, / Somebody's gonna get hurt tonight, / It's the working, the working, just the working life. -- «Factory»). O «vício estético» de Springsteen -- na feliz expressão de Laurent Chalumeau, crítico da Rock & Folk -- está também presente em textos de pulsão erótica (I've been working real hard, trying to get my hands clean, / Tonight we'll drive that dusty road from Monroe to Angeline, / To buy you a gold ring and pretty dress of blue [...] -- «Prove It All Night». «Noite» e «trevas» são presenças constantes na estesia springsteneana. Numa das faixas mais interessantes do álbum, «Candy's Room», a tensão inicial da música atinge os limites do suportável na voz cava e espectral de Springsteen, acompanhada apenas das percussões do piano e dos pratos da bateria (In Candy's room, there are pictures of her heroes on the wall, / But to get to Candy's room, you gotta walk the darkness of Candy's hall [...]), tensão abafada até à explosão da guitarra, seguida da dos tambores.
Muito bem acompanhado pela E Street Band, com destaque para o saxofonista Clarence Clemons e o pianista Roy Bittan. Steve Van Zandt surge como segundo guitarrista, em apoio do Boss. «Adam raised A Cain» e «Candy's Room» são dois exemplos de como o álbum está bem servido neste capítulo.
Um verdadeiro clássico, em suma.

Genesis

esta semana, repostagem

hype, hype

Lynn Williams, Dont Be Surprise
(tirado do Soul Sides)

sábado, fevereiro 16, 2008

caderninho



ALABASTRO - Serve para descrever as mais belas partes do corpo feminino. Gustave Flaubert
Dicionário das Ideias Feitas (tradução de João da Fonseca Amaral)

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

acordes nocturnos

Caracteres móveis - Miguel de Unamuno

Se na morte do corpo que me sustenta, e a que eu chamo meu para o distinguir de mim mesmo, a consciência volta à inconsciência absoluta donde ela saiu, e se o mesmo acontece à de todos os meus irmãos em humanidade, então a nossa laboriosa raça humana não passa dum fatídica procissão de fantasmas, que vão do nada ao nada, e o humanitarismo é o que de mais inumano nós podemos conceber.


Do Sentimento Trágico da Vida
(tradução de Cruz Malpique)

O Vale do Riff - Mahalia Jackson & Dinah Shore, «Down By The Riverside»

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Coisas, e a morte que existe nelas
Murilo Mendes

O Vale do Riff - John Lennon, «Imagine»

estampa CXXVII

Eduardo Malta, Auto-Retrato
Colecção particular

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Antologia Improvável #287 - José do Carmo Francisco (2)

A MENINA

Voltava-se e já não era criança.

Pouco tempo depois dum atravessar tímido na aldeia
em fim de tarde era o circuito da cidade, o rio à esquerda,
as ruas a transbordar.

As lágrimas leves sossegam a almofada adolescente -- sombras
e sorrisos em esboço numa janela a ver passar o tempo.

Voltava-se e já não era criança.

Medo enquanto se fazia já rapariga, um obscuro quarto de casa
com serventia de cozinha, os mesmos frangos e as batatas de
pacote, a melancolia.

Saudades da outra vida sem perigos nem sonhos presos a grandes
expectativas -- embora lento era um território conhecido,
era o passado e não custava percorrer os seus aromas e os
espelhos pequeninos comprados nas feiras entre pó e luz.

Voltava-se e já não era criança.


Leme de Luz

Emerson, Lake & Palmer, «Lucky Man»

terça-feira, fevereiro 12, 2008

dúvida

bolos á fatia ou bolos há fatia?

capismo

capa de Ilda David para História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges
Assírio & Alvim, Lisboa, 1982

O Vale do Riff - Squeeze, «Cool For Cats»