sábado, setembro 15, 2007

Antologia Improvável #252 - Gil Nozes de Carvalho

IMPRESSÕES DA RETINA

Feito no corpo, o gesto de amor,
excede a intuição das pálpebras:
a janela d'água, o coito, a tradição hermética.
E a rapariga caminha do canavial
para o lápis do dia.
Desenha na íris o furo da mais alta cana
desce a salamandra
no sentimento, trai o voo
em traços cada vez mais nítidos.

Alba

sexta-feira, setembro 14, 2007

kill the gun



Do Blog 19
Eu, a propósito da seca do «caso» Scolari, só tenho a dizer isto: o jogador sérvio deu uma palmada na mão do treinador, com idade para ser seu pai; este respondeu-lhe com uma pêra no focinho. Acho magnífico, só tenho pena que fosse uma perinha. Quanto ao resto, federação, telejornais e outras porcarias, estou-me a cagar.

O Vale do Riff - The Who, «Baba O'Riley»

quarta-feira, setembro 12, 2007

Por um Tibete livre

Percebe-se o melindre que provoca a visita do Dalai Lama a Portugal, mas o país deveria enviar um sinal muito mais forte aos tibetanos e aos chineses. Em especial este país, que tanto pugnou nos areópagos internacionais pela autodeterminação de Timor-Leste. Uma audiência com a comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros é claramente insuficiente, e, por isso, não ficamos lá muito bem na fotografia.


O Vale do Riff - Fleetwood Mac, «Albatross»

terça-feira, setembro 11, 2007

Antologia Improvável #251 - Armando Silva Carvalho

Tu tinhas esse lindíssimo timbre
das primas-donas espanholas.
Preparavas todas as manhãs o branco
da garganta com vários goles de vinho
e praguejavas alto para que os teus filhos
(cada um de seu pai)
te fossem por recados e merendas.
O teu ofício era vender pedras de cal
aos gordos fazendeiros
que te percorriam o ventre inchado
nas noites de dezembro
e iam mijar depois dentro das bilhas
de água.
Ainda não morreste no meu tempo
mulher de cal e mágoa.
Cada casa caiada é a pele do teu corpo.



Alexandre Bissexto

O Vale do Riff - Lester Young, Jo Jones, Barney Kessel et allii, «Jammin' The Blues» (excerto)

segunda-feira, setembro 10, 2007

estampa CXVIII

Henri Rousseau, Eu Próprio, Retrato-Paisagem
Galeria Naródni, Praga

O coração é imenso: a campa fria / É pequena de mais para contê-lo.
Soares de Passos

O Vale do Riff - Erroll Garner, «All The Things You Are»

Sobre o livro de Zita Seabra



Zita Seabra está longe de ser uma escritora aceitável, mas foi uma memorialista competente.
O seu livro não me desapontou, em especial na parte que mais curiosidade me suscitava, a época do prec. Responsável máxima da UEC, vinda da clandestinidade, mais tarde elevada à Comissão Política do Comité Central, o seu testemunho confirma como as cúpulas do PCP encaravam a democratização do país com reserva mental, sendo porém alheias aos desmandos da extrema esquerda, cujo radicalismo assustava a maioria silenciosa, que pouco distinguia uns dos outros. A ideia de que os esquerdistas seriam uma espécie de cães-de-fila servindo objectivamente uma estratégia do Partido, como por vezes se diz, não me parece ser sustentável, a partir deste depoimento.
Também me impressionou o relato da clandestinidade -- boa parte dela passada a desempenhar o papel de doméstica inofensiva, conspirando dentro de portas --, bem como a fibra obstinada que revelou nesta situação de grande pressão psicológica e isolamento dos familiares e amigos mais próximos, fortaleza que se fará sentir já no caminho da dissidência.
Estas são igualmente memórias do choque com a realidade, quando, já dissidente, percebe a miséria moral do embuste que foi o «socialismo real». Só em ruptura com o Partido, na sua última viagem à União Soviética -- e também mercê da glasnost de Gorbatchev --, Zita Seabra esteve disponível para verificar o que de facto se passava dos países ditos socialistas. A admissão da recusa em ver, com a constatação do logro que fora o seu percurso até aí, é exposto com uma clareza e uma coragem admiráveis.
Os relatos dos dois «julgamentos» que conduziram à expulsão da Comissão Política e depois do Comité Central, são, apesar do dramatismo, hilariantes, pela feição de tragicomédia de que se revestiram: a natureza humana em todo o seu esplendor. Porém o tom muda, quando Cunhal, no decurso do segundo conclave que conduziria a militante à expulsão, interpela todo o C.C., perguntando a quem ali se encontrava, quantos teriam a coragem de Zita Seabra, de estarem sozinhos naquele confronto....
O retrato de Cunhal é outro dos aspectos mais interessantes do livro. Zita Seabra trata a generalidade dos antigos camaradas -- em especial os velhos resistentes dos cárceres da pide -- com o devido respeito. Pressente-se, para quem está de fora, um ou outro remoque, em relação aos quais a consideração já não será tão grande, como parece passar-se com o actual secretário-geral, referido duas vezes de raspão, mas com significado. Mas o tom geral do livro é elevado. Cunhal, que obviamente a marcou, aparece com as qualidades que geralmente lhe são reconhecidas, mas também com defeitos -- os defeitos de quem, pela sua própria biografia e pela cultura e brilho intelectual, detém sobre os outros um ascendente que não deixa de ser exercido, com crueza e desprendimento se necessário. O histórico líder do PCP apareceu-me aqui desmitificado como eu nunca vira a partir duma fonte directa; e, ao mesmo tempo, humanizado, na sua grandeza como nas suas pequenas misérias. E isso, por paradoxal que pareça, é ainda uma forma de homenagem.

domingo, setembro 09, 2007

acordes nocturnos


capismo

Raquel Roque Gameiro
capa para A Minha Pátria, de Ana de Castro Osório
Livraria Editora «Para as Crianças», Setúbal, 1906

esta semana n'«O Vale do Riff»






sábado, setembro 08, 2007

Caracteres móveis - Joseph Conrad

Conheceu a mágica monotonia de uma existência passada entre o céu e o mar: teve de suportar as censuras dos homens, as exigências do mar e o rigor prosaico do trabalho diário que dá o pão -- mas cuja única recompensa se encontra no amor total pelo que se faz.


Lord Jim
(tradução de Carmen González)

sexta-feira, setembro 07, 2007

o nome e a coisa

Os anarquistas sempre tiveram um grande respeito pela classe política, globalmente considerada. Vejo essa consideração devidamente impressa no último número do jornal A Batalha -- título histórico do anarco-sindicalismo que editava um excelente suplemento cultural hebdomadário, colaborado por nomes como Ferreira de Castro, Jaime Brasil, Roberto Nobre, Julião Quintinha, Mário Domingues ou, mais esporadicamente, Raul Brandão, Rocha Martins, Assis Esperança e José Régio, entre muitos outros.

Fiel aos seus pergaminhos, A Batalha, agora publicado pelo Centro de Estudos Libertários, traz nesta edição de Julho-Agosto -- mais estival, portanto --, uma curiosa lista de anagramas de actuais e antigos dirigentes partidários de todo o espectro parlamentar.

O PSD, não sendo o mais votado, ocupa a Presidência da República. Antes do primeiro magistrado, refira-se um dos seus dirigentes mais emblemáticos, PEDRO SANTANA LOPES, com direito a dois anagramas: «SATANÁS PLENO» e «ASNAL ESPANTO»; ANÍBAL CAVACO SILVA dá «LAVABO NA CASA CIVIL».


Passemos ao PS, de todos os partidos, o menos antipático a uma boa parte dos libertários. O PS surge com quatro nomeações: MÁRIO SOARES, «ISSO ERA AMOR»; JORGE SAMPAIO, «O MAJOR PIEGAS»; ANTÓNIO GUTERRES, «OUTRO RESIGNANTE»; e ALMEIDA SANTOS, com direito, tal como Santana, a um carinho especial, com duas possibilidades gostosíssimas: «SALADA SEM TINO» e «MISTELA DANOSA».

Segue-se um arqui-inimigo, o PCP, que surge com a única mulher da lista, justa presença para os animadores do MDM: ODETE SANTOS, também ela com duas combinações, relativamente benignas: «TESTA DE SONO» e «DOTE SENSATO».

Uma outra espécie de inimigo, a beatice e o ultramontanismo eclesial, têm no CDS o melhor encaixe: não propriamente TELMO CORREIA, que surge na lista como «O MOLE RECITAR», mas sim PAULO PORTAS, magnificamente mudado para «O SURTO PAPAL».

Deixo para o fim mais um arqui-inimigo, o trotskismo, aqui personificado por FRANCISCO LOUÇÃ; «LUFAR CONCISO».


O Vale do Riff - Gene Krupa, «Sing Sing Sing»

quinta-feira, setembro 06, 2007

Antologia Improvável #250 - paulo da costa

GELO CANADIANO

uma década decorrida, a noite ainda prometedora e eu, mais delapidado, recordo os primeiros passos no gelo canadiano -- acácias da rússia à esquerda, árvore do lis dobrada ao vento -- subi os frios degraus de pedra, 238 avenida scarboro, números e letras mudos sob o xaile de dezembro ao pousar o saco verde no soalho de cerne; uma década a reiventar alento, esse saco vazio e desfalecido no canto obscuro, lágrimas a espalhar pedras preciosas, amigos, irmã, bolinhos de bacalhau, pai, mãe, um búzio, a língua abandonada num aeroporto de confusões, voltas intermináveis sem música no carrossel da bagagem, os dentes a apodrecer pela raiz, a dor de me exprimir, esta miragem de voar através de continentes e crenças, o caloroso braço erguido, uma asa que se estende do topo da figueira à árvore do lis, aterrando, acreditando que a terra chega tão longe, tão perto de algo sonhado


Notas de Rodapé

O Vale do Riff - Phil Woods, Clark Terry et allii, «Straight No Chaser»

quarta-feira, setembro 05, 2007

Caracteres móveis - Charles Baudelaire

A vida apenas possui um encanto verdadeiro: é o encanto do Jogo. Mas se nos for indiferente ganhar ou perder?


O Meu Coração a Nu precedido de Fogachos
(tradução de João Costa)

O Vale do Riff - Eric Clapton, «Cocaine»

estampa CXVII

Jean-Léon Gérôme, A Acendedora de Narguilé
Colecção particular, Genebra
tirado daqui

segunda-feira, setembro 03, 2007

Antologia Improvável #249 - Miguel Torga

VOZ

Era uma voz que doía
Mas ensinava.
Descobria
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.

Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia
Lá na terra onde morava.

E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.


Libertação / Líricas Portuguesas. 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

O Vale do Riff - Fairport Convention, «Walk Awhile»

domingo, setembro 02, 2007

Figuras de estilo - Almeida Garrett

Não me lembra que Lord Byron celebrasse nunca o prazer de fumar a bordo. É notável esquecimento no poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjoo, a mais prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água, enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo.
Fumemos!


Viagens na Minha Terra
(retrato de Garrett por Columbano Bordalo Pinheiro, pormenor)

esta semana, de novo O Vale do Riff






óyeme oye / muchacha transeunte / bésame el alma
Mario Benedetti

sexta-feira, agosto 31, 2007

Na morte de Alberto de Lacerda

Do muito que se passou nestes dias de férias, a morte de Alberto de Lacerda foi o que mais me tocou. Era o meu poeta preferido, dos vivos, & agora um entre os mortos. Autor da palavra justa, precisa, essencial, musical, oficinal como encaixes perfeitos. As palavras, «quase todas a mais» no meio da adiposidade verbal contemporânea, da banalidade, do lugar-comum que carregamos, como um castigo. Tive a honra de o antologiar, com José Duarte, no Poezz ; e a desfaçatez de incluí-lo aqui, na «Antologia Improvável», onde continuará a aparecer, e um pouco por todo o blogue.

sexta-feira, agosto 17, 2007

()

(Fechado para parêntesis.)

sublime porta

Amolece-te a vontade
o vapor do banho turco.
A memória de há pouco
todo o querer já passou.

O Vale do Riff - Eagles, «New Kid In Town»

quinta-feira, agosto 16, 2007

A vida chega para me encher / o peito de tumulto e os olhos de lume
Armindo Rodrigues

O Vale do Riff - J. J. Cale, «Magnolia»

Tele-tabloidismo

Passo os olhos pelos telejornais e vejo um alinhamento inane no da RTP1: ao Iraque segue-se a ambulância de Arcozelo, mais o fogo-posto em Macinhata que antecede o alarme do Dow Jones. O da RTP2, depois que liquidaram o interessante projecto de Henrique Garcia (síntese do dia, seguido de tema de desenvolvimento com entrevista), está remetido à irrelevância do seu formato e das suas apresentadoras. Os da RTPN, pese embora o profissionalismo de Ana Fonseca, não descola do pecado original daquela informação do Monte da Virgem, que aos vinte minutos já está a tratar das transferências futebolísticas. Paupérrimo. Depois há o da tvi, que nem sei como é. Quando, à terça, me lembro de Miguel Sousa Tavares, oiço-o, sempre com interesse, faço outra coisa nos intervalos e quando ele acaba desando, que não tenho pachorra para as duas jarrinhas que o pontuam (do Peres Metelo, esqueço-me sempre...). Resta a sic, a negregada sic, com o refocilar na lama das desgraças alheias. E o pior, é que fazem aquilo por puro arrebanhar de audiências, com ar tristonho, cabisbaixo, resignado; sem o entusiasmo grunho da tvi, que julga estar a informar, tal como pensava que podia dar (e deu) notícias do big brother no seu simulacro de telejornal. Mas o que me compunge verdadeiramente é aquela prosápia de grande jornalismo a que a sic-notícias deita mão, para depois se ficar por mais umas mortes no ip3, nas criancinhas maltratadas, nos doentinhos miseráveis. Não fora o Mário Crespo no jornal das 9 (quem (me) diria!?), e não haveria nada apresentável em serviço diário noticioso nos canais portugueses. Mas eu a essa hora estou a jantar, e não vejo televisão.

quarta-feira, agosto 15, 2007

domingo, agosto 12, 2007

Antologia Improvável #248 - Francisco Bugalho

OBSESSÃO

Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.

Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...

Sobre um lago onde, em sossego,
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim.


Margens / Líricas Portuguesas. 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

Esta semana, a meio gás, volta O Vale do Riff





sábado, agosto 11, 2007

Figuras de estilo - Antunes da Silva

As terras, com o decorrer das horas, ficam empapadas de água, sufocadas de um mistério destemido por um largo intervalo, e as nuvens, como que guiadas por um vento de almas, vêm de casco de rolha à desfilada, juntando-se todas por cima da herdade, manchando-a de negume. Fogem os bichos das encostas, acoitando-se na largura da paisagem; encolhem as aves os bicos nas ramagens. Ao longe, com a névoa da tarde o dia fez-se noite por um espaço de minutos, e um vento leonardo regouga ao rés da terra, uh! uh! uh!, num vaivém preverso, inquietante -- e parece que o vento insulta os homens que estão no monte, reunidos num almoço tranquilo.


Suão

quinta-feira, agosto 09, 2007

Antologia Improvável #247 - Armindo Rodrigues (2)

JORNAL

De ponta a ponta do jornal
percorro o mundo de ponta a ponta.

Por toda a parte,
por toda a parte,
há ódios, vergonhas, assassinatos,
traições, misérias, desastres, guerras,
chapadas de sol e pastas de esterco,
pessoas que morrem com medo ou com esperança,
que valem o mesmo à hora da morte,
crianças que nascem alheias a tudo
e em breve andarão no mesmo tumulto.

Por toda a parte,
por toda a parte,
a vida me chama
com milhões de vozes.

Voz Arremessada ao Caminho

Outros tons - Compay Segundo, «Chan Chan»

quarta-feira, agosto 08, 2007

Figuras de estilo - João Sarmento Pimentel

-- Como?!
-- Pois é verdade, Senhor Major. Aquele refinado tratante fez mal aqui à minha filha, e agora, pelos modos, está-se nas encolhas para o que prometeu.
-- Não diga! e voltando-se para a cachopa que, de olhos baixos e lenço embiocado fingia vergonha: a menina como se chama?
-- Casimira, uma sua criada, senhor Major.
-- Boa fazenda, não há dúvida nenhuma, boa fazenda! mas estraga-se muito entre as pernas. Todavia eu vou já mandar chamar esse grandíssimo putanheiro e se ele não reparar o bem que fez, qual mal, nem qual carapuça, que lhes soube, a ambos a favos de mel, adivinho eu e a menina Casimira com essa afoiteza o confirma! leva correccional pelo lombo, olá se leva, pois um bocado destes, quem é o safado que atreve a passá-lo ao estreito sem a vaselina da Santa Madre Igreja?!


Memórias do Capitão

Outros tons - Amália Rodrigues, «Zanguei-me com Meu Amor»

terça-feira, agosto 07, 2007

Esta luta pelo poder no bcp entre dois membros do opus dei -- os tais que procuram alcançar a santidade pelo trabalho -- é tudo menos beatífica. Se houvesse dúvidas a respeito da natureza humana, o espectáculo que dá o banco, urbi et orbi, no meio de muitas persignações e genuflexões, calculo, seria suficientemente esclarecedor. O mando, o doce mando é que nos move; nas tintas para nosso senhor, ámen. Se calhar foi ELE, enjoado, que deu cabo do sistema informático na ag de ontem. Muita vez terão de cingir o cilício para remissão, deus lhes valha.

Outros tons - Realejo, «Olo Olo Olo»

segunda-feira, agosto 06, 2007

estampa CXVI

Claude Monet, O Cabo de La Hève na Maré Baixa
Kimbell Art Museum, Fort Worth, Texas

Depois que se romperam os sapatos, / e deixei a gravata pior que uma rodilha no caixote do lixo / é que vi bem o céu.
Mário Dionísio

Outros tons - Eduardo Nascimento, «O Vento Mudou»

domingo, agosto 05, 2007

Antologia Improvável #246 - Sidónio Muralha

ROMANCE

Depois daquela noite os teus seios incharam,
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, falaram...

Porque falaram duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural?
Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval...

Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
-- Os teus seios desincharam,
só a tristeza ficou.

Ficou a tristeza duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural...

-- Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval...


Passagem de Nível
(desenho de Fernando Lemos)

Esta semana Outros Tons






sábado, agosto 04, 2007

Caracteres móveis - E. H. Gombrich

É mais importante conhecer Shakespeare ou Miguel Ângelo do que «fazer investigação» a respeito deles. Pode a investigação não fazer surgir nada de novo, mas do conhecimento brota sempre prazer e enriquecimento. Parece mil vezes lamentável que as nossas universidades estejam tão organizadas que não se dê por esta diferença. Muito do mal-estar das ciências humanas poderia desaparecer do dia para a noite se se tornasse claro que não precisam imitar as ciências exactas para continuarem a ser respeitáveis. Pode haver uma ciência da cultura, mas pertence à antropologia e à sociologia. O historiador cultural quer ser um académico, não um cientista. [...] Podemos ter desconfiança quanto às intepretações actuais de Shakespeare ou ao modo como Bach é hoje executado e querer chegar à verdade nessas matérias. Todavia, em toda esta investigação o que o historiador cultural verdadeiramente ambiciona é servir a cultura, e não alimentar a indústria académica.


Para uma História Cultural
(tradução de Maria Carvalho)
Michel Rodrigue & Bob de Groot (argumento), Élémentaire, Mon Cher Clifton

quinta-feira, agosto 02, 2007

Antologia Improvável #245 - João de Barros (5)

POEMA D'AMOR

Não me andais vós a enganar
olhos que tanto me olhais?
Quase que morro ao pensar
se é meu vosso doce olhar
ou se comigo brincais.

Abandonei meus cuidados
ao ver-vos, Senhora minha;
julguei de todo passados
os dias amargurados,
duma tristeza daninha...
...Que não podia cuidar
que os olhos com que me olhais,
me pudessem enganar,
ou me pudessem matar
não me olhando nunca mais.

Descuidoso e alegre via
só risos no pensamento;
o meu coração vivia
sem sombra de dor sombria,
sem sombra de sofrimento.
Vivia só para amar
vosso olhar com que me olhais,
não me podendo lembrar
que se podiam tornar
vossos olhos desleais.

Um dia -- porquê bem sei --
imaginei-vos traidora;
meus cuidados retomei,
a minha tristeza achei
por vossa causa, Senhora.
Hoje sofro ao duvidar
-- olhos que tanto me olhais --
se é meu vosso doce olhar
ou se me andais a enganar
ou se comigo brincais.


Algas

O Vale do Riff - Eric Burdon & War, «Love Is All Around»

quarta-feira, agosto 01, 2007

capismo

capa de Bernardo Marques

Figuras de estilo - Eugénio de Andrade

Em frente da porta de entrada havia uma arca enorme. Sei que nessas arcas arrumam os pobres tudo o que têm: a roupa do corpo, a roupa da cama, o milho para moer, o pão e a faca embrulhados num pano de linho grosseiro. Lembro-me do cheiro que sai da arca ao abrir -- e é um cheiro forte, são, de frutos naturais que a terra dá.


Prefácio a Os Amantes Sem dinheiro

O Vale do Riff - Sarah Vaughan, «If You Could See Me Now»