quinta-feira, fevereiro 08, 2007
Antologia Improvável #200 - António Ramos Rosa (3)
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses
Cada Árvore É um Ser para Ser em Nós / O Poeta na Rua
(edição de Ana Paula Coutinho Mendes)
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Figuras de estilo - Manuel Ribeiro
Faz-de-conta
terça-feira, fevereiro 06, 2007
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Antologia Improvável #199 - José Rui Teixeira
Falo da inclinação do violoncelo, da imaterialidade
do teu sorriso se me sorris, dos teus olhos quando
as tuas mãos se enchem de uma qualquer verdade
anímica e indizível; dos teus olhos se te dás à chuva
no princípio do outono.
Para Morrer
domingo, fevereiro 04, 2007
Correspondências #78 - D. Francisco de Portugal a D. Rodrigo da Cunha, bispo do Porto
sábado, fevereiro 03, 2007
Acordes nocturnos
Plato's spawn cold ivyed eyesSnare truth in bone and globe.
Harlequins coin pointless games
Sneer jokes in parrot's robe.
[...]
Heroes hands drain stones for blood
To whet the scaling knife
Magi blind with visions light
Net death in dread of life.
Their children knill in Jesus till
They learn the price of nails:
Whilst all around our mother earth
Waits balanced on scales.
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Não
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Antologia Improvável #198 - Ana Luísa Amaral (2)
Do not go gently into that good night
Dylan Thomas
Não permitas que a noite se desabe,
habituada e negra. Antes confunde
as regras e as sombras que lhe obedecem,
cegas. Não descanses olhar sobre
o vazio, nem no silêncio seduzindo
em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,
ou tampas de barulho avesso a almofada.
Grita, blasfema, geme em timbre agudo,
mas não deixes a lua, com passos de veludo
entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.
Nem lhe ofereças um lar de cabeceira
e penumbra doente. Argumenta-a de frente
e à seda roçagante dos seus passos;
numa filosofia de algibeira,
resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga
a sua máscara ausente de suor. Não entres
docemente nessa noite. Não entres
tão depressa.
E Muitos os Caminhos / Poesia Reunida
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Figuras de estilo - José Régio
[...] desde menino que tenho o gosto da vida monástica e muitas vezes me refugio na solidão. Viagens, não consigo fazê-las senão em pequena área: Agarro-me à casa, à rua, à terra em que vivo; e mudar exige-me um doloroso esforço!
Confissão dum Homem Religioso
terça-feira, janeiro 30, 2007
Uma leitura da «presença» #14 e final

segunda-feira, janeiro 29, 2007
Antologia Improvável #197 - Joaquim Manuel Pinto Serra
corria-nos a vida ao sabor daquelas pequenas coisas
que põem a vida a correr. uma graça no olhar. dois
dedos a afagar. junto às rugas dos teus olhos. bem
perto dos teus segredos. como uma toalha de linho
desenhada a ponto de cruz. escondida e solitária nas arcas
da nossa memória. onde os desenhos sobravam.
onde os anos de tão curtos ficavam apenas voando nas
virtuosas verdades. aguardando a serenidade
de passarem para a outra margem.
Pelas Margens da Serenidade
Correspondências #77 - Antero de Quental a Oliveira Martins
domingo, janeiro 28, 2007
Uma leitura da «presença» #13
sexta-feira, janeiro 26, 2007
quinta-feira, janeiro 25, 2007
Caracteres móveis - Vladimir Korolenko
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Antologia Improvável #196 - Jorge Gomes Miranda
Uma reserva humilde nos gestos,
um resguardo nas palavras,
o oferecimento das mãos
onde os outros, muitas vezes,
depunham pedras.
Requiem
terça-feira, janeiro 23, 2007
Uma leitura da «presença» #12
Explica-se por isso o ataque que desde finais da década de trinta a revista passou a sofrer por parte de sectores neo-realistas alinhados com o PCP. Está adquirido que o labéu redutor da «arte pela arte» imputado à presença e objurgatórias do género da «torre de marfim» e do «umbilicalismo», que alegadamente procuravam denunciar uma atitude estética de alheamento dos homens e dos seus problemas mais ingentes -- denúncia que continha em si uma reprovação ética --, não foi mais do que um pretexto para fustigar o fervoroso apoliticismo artístico de Régio e Simões (que não de Casais) e separar as águas entre duas formas de conceber a arte. (42) Numa missiva dirigida a Simões, o futuro autor de Davam Grandes Passeios aos Domingos notava a divergência assumida por um aguerrido sector de novos escritores em oposição à presença: «Uma geração começa a mexer-se contra nós, é certo -- mas contra o que em nós é melhor só pode mexer-se pelo que nela é pior.» (43)segunda-feira, janeiro 22, 2007
Na morte de Elena Muriel
domingo, janeiro 21, 2007
Correspondências #76 - Agustina Bessa Luís a Marcelo Caetano
sábado, janeiro 20, 2007
Fiama Hasse Pais Brandão
sexta-feira, janeiro 19, 2007
Uma leitura da «presença» #11
Esta a diferença essencial que os separava do reaccionarismo pessoano e de outros afins. (39). Transcreva-se, a propósito, parte de uma carta de Régio enviada a Gaspar Simões, em 1935:quinta-feira, janeiro 18, 2007
Antologia Improvável #195 - Alexandre O'Neill (5)
Enxúndias ensacadas no cotim da farda,
papel de cartucho que quase se rasgava,
repressor-burocrata, descansavas à porta
do teu posto de escrita e de porrada.
No coldre, a pistola; na pança, a feijoada;
na perna, a polaina; no cérebro, o corrimento
que é mais que sensação, menos que pensamento.
E sob o teu rabo, a cadeira gemia
ao compasso da nalga que se descolava
do suor que sobre o tampo produzia.
Nos campos, a manada trabalhava.
Quem te fotografava, de longe é que o fazia.
Estava de passagem para uma outra vida.
A Saca de Orelhas / Poesias Completas
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Mais «Grandes Portugueses»...
Caracteres móveis - Jaime Brasil
terça-feira, janeiro 16, 2007
Uma leitura da «presença» #10
da Fonseca

Em 1927, a presença já tem a distância suficiente para verificar que a Grande Guerra, com os seus milhões de mortos, não havia tornado o mundo nem mais regenerado nem mais higiénico, como, em 1909, estética e politicamente pretendera o futuro fascista Marinetti; e a vida moderna fazia suficientemente parte do quotidiano para que suscitasse comparações histéricas entre o automóvel e a Vitória de Samotrácia (aliás, a revista fazia o prosaico réclame à «Garagem Simões», da Figueira da Foz...), ou provocasse entusiasmos como os de Maiakovski, que perdera o interesse pela natureza desde que vira a luz eléctrica. Não tinha cabimento um epigonismo -- aqui sim -- como o que claramente se verifica nos manifestos de Almada, ou as influências patentes em Álvaro de Campos (37), em especial no Portugal Futurista, exemplos de um contexto ideológico de revolta contra as ideias que atravessaram o «estúpido século XIX» -- como lhe chamou Léon Daudet, um dos executores morais de Dreyfus --, um século, apesar de tudo, do triunfo do liberalismo político, de que os mais importantes presencistas foram inteligentes e notáveis partidários. (38)
segunda-feira, janeiro 15, 2007
Ainda os "Grandes Portugueses"
Antologia Improvável #194 - Maria Augusta Silva
Andamos com um arco e uma flor
à roda
dos imbondeiros. Descalços
porque
queremos estar descalços.
Sobe
ao arco a alegria com muitas
cores
dependuradas dos nossos cabelos.
Nada
disto se dissolve em metafísica.
Temos
um arco e uma flor. E isso é que é
divino
Dança de Matisse
Os Grandes Portugueses
domingo, janeiro 14, 2007
Correspondências #75 - Carlos Drummond de Andrade a Sérgio Telles
sábado, janeiro 13, 2007
Uma leitura da «presença» #9
sexta-feira, janeiro 12, 2007
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Antologia Improvável #193 - Isabel de Sá (2)
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Uma leitura da «presença» #8
Sobre a incomunicação
terça-feira, janeiro 09, 2007
segunda-feira, janeiro 08, 2007
Antologia Improvável #192 - António Carlos Cortez
que o poema salva quem o lê abandonado
quando se pressente a voz enlouquecida
de alguém que nos olhou e descobriu
é quando a noite rouba a luz do dia
para construir suas altas fragas de silêncio
e um galope de lábios na sua verdura
nos invade ou nos recolhe em suas crinas
é quando a linha de sombra é o azul da chama
ainda antes de ser contra a pureza nua
o edifício das palavras com dois gumes
é quando sabemos que nos encontramos
num café numa esquina que então escutamos
a pedra angular da nossa vida o poema escrito
A Sombra no Limite
domingo, janeiro 07, 2007
Uma leitura da «presença» #7
sábado, janeiro 06, 2007
Correspondências #74 - Ferreira de Castro a Horácio Bento de Gouveia
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Uma leitura da «presença» #6
quinta-feira, janeiro 04, 2007
talvez
quarta-feira, janeiro 03, 2007
Uma leitura da «presença» #5

Na «beleza emotiva» (19) procurada pelos poetas da presença não havia também lugar para o formalismo, para a habilidade dos vates de academia, para o tecnicismo, espartilho de muito razoável poeta que dele não logrou libertar-se. E se para Gaspar Simões -- o mais assertivo dos teóricos presencistas, cujas tiradas terão contribuído o seu quê para dar da revista a imagem duma certa irredutibilidade («a história da arte é a história da luta dos artistas com a realidade exterior» (20)), não se seguia -- pelo menos para os restantes co-directores -- que o artista se devesse encasular, umbilicalizar, torredemarfinizar. A poesia-pura, na acepção de Casais, rejeitando a submissão à forma e às escolas, não se afastava dos grandes problemas do homem -- fazia-o, porém, apenas «como expressão directa do seu debate interior.» (21)
terça-feira, janeiro 02, 2007
Antologia Improvável #191 - António Ramos Rosa (2)
que me corrói.
Amo cada vez mais doído.
A boca fechada sobre as ervas
há tanto tempo.
Os braços a descansar
no pântano do ventre.
A saudade enxuga-me o fogo
longe do mundo.
A saudade torna-me verde.
Tenho no rosto
aquela parte negra do branco.
A vida toda encostada à lembrança
com a comoção das origens
a soluçar-me
instante a instante
na garganta.
Os ossos
neste Inverno da vida
com a noite da saudade por cima.
Brilha nessa escuridão o passado.
Cresce no frio um caule de luz.
Dissolvo pouco a pouco
a sede baça da morte.
Transfiguro-me perplexo.
A saudade seca-me a tristeza.
Cede-me ao céu
e aos raios da sua alegria.
Enxuga-me a mágoa.
Cresce-me no meio do corpo uma flor.
É uma flor matinal
de anil
rebentando por entre as vértebras.
Brilham-me no ser
os braços irradiantes de uma estrela.
A saudade coa-me no sangue um astro.
O meu corpo
é a raiz sombria de um outro sol.
O Poeta na Rua
segunda-feira, janeiro 01, 2007
Uma leitura da «presença» #4
«Nunca será inútil repetir que o que mais interessa numa obra de Arte... é a própria obra de Arte.» (12) Era o primado da arte que Régio defendia nesta sentença; ou como claramente, por outras e mais contundentes palavras, advertiria Casais Monteiro, a propósito da presença: «aqui não se servem causas: faz-se e trata-se de literatura e de arte.» (13) Por demais óbvias que estas posições pareçam, deve, no entanto, dizer-se que eram formuladas num contexto de hegemonia (de poder efectivo ou de influência na acção) de sectores não complacentes com a ideia de a expresão artística dever estar isenta de qualquer subordinação. Afirmações de independência que remetiam o autor presencista para as margens da oficialização cultural do Estado Novo, com uma política nacionalista e de tentativa de domesticação dos intelectuais, afastando-o também do neo-realismo oficial, emergente em meados da década de trinta. Seria, contudo, demasiado simplista e pouco rigoroso inferir que a publicação rejeitasse qualquer manifestação artística de tendência, quer «ascendente» ou «emancipadora» (para empregar termos de Plekhanov, posteriormente vulgarizados pela teorização neo-realista (15)) quer o seu oposto, alinhadamente reaccionária:(12) José RÉGIO, «Uma peça de Pirandello (sei personaggi in cerca de auctore)», presença, n.º 7, Coimbra, 8 de Novembro de 1927, p. 7.
(13) Adolfo Casais MONTEIRO, «Nós, os porta-vozes de uma estética subjectiva até à desumanização...» [s. d.], O que Foi e o que Não Foi o Movimento da Presença, p. 31.
(14) Ver Jorge Ramos do Ó, «Salazarismo e cultura», in Joel SERRÃO e A. H. de Oliveira MARQUES, Nova História de Portugal, vol. XII, Fernando ROSAS (coord.), Portugal e o Estado Novo (1930-1960), Lisboa, Editorial Presença, 1992, p. 409.
(15) «[...] o talento de qualquer verdadeiro artista é grandemente reforçado se for penetrado pelas grandes ideias emancipadoras do nosso tempo.» PLEKHANOV, A Arte e a Vida Social, trad. de Ana Maria Rabaça, Lisboa, Moraes Editoes, 1977, p. 72.
(16) José RÉGIO, carta a Roberto Nobre, Portalegre, Junho de 1936, Boletim, n.º 4-5, Vila do Conde, Câmara Municipal / Centro de Estudos Regianos, 1999, pp. 31-32.
(17) A propósito de A Revolução de Maio, de António lopes Ribeiro, o director da revista escreveu: «A propaganda e a arte podem não ser inimigas. Basta que profundamente se conjuguem na obra realizada a crença numa doutrina e a emoção artística.» José RÉGIO, «Cinema português», presença, n.º 50, Coimbra, Dezembro de 1937, p. 12.
(18) José RÉGIO, «Literatura livresca e literatura viva», presença, n. 9, Coimbra, 9 de Fevereiro de 1928, p. 1.
(continua)



























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