quinta-feira, junho 25, 2020

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«A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos, a face toda branca da frialdade fina de Outubro, com uma das mãos metida no bolso dum velho paletot cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu de manhã chovera; mas a tarde ia caindo clara, e pura; nas alturas laivos rosados estendiam-se como pinceladas de carmim muito diluído em água e, longe, sobre o mar, para além duma linha escura de pinheirais, por trás de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguínea e orladas de ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos -- que o rapaz magro, comparava às flechas ricamente dispostas num troféu luminoso.» Eça de Queirós, A Capital! (c. 1878, póst., 1925)


«Ele falava lentamente, tristemente, como se falasse de mortos muitos queridos.» Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)




«O andar, cuja morosidade provinha de infidelidades ao pedicuro, convertia-o ele numa altiva pachorra ao singrar entre mesas a caminho do seu cenáculo, como lanchão bojudo coleando no porto em demanda do cais.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

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