sexta-feira, abril 03, 2026

o que está a acontecer

«um povo assim, está a perceber. pousou a caneta. queria tornar inequívoca aquela ideia e precisava de se assegurar da minha atenção. não tenho muita vontade de falar, sabe, senhor, estou um pouco nervoso, respondi.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Soriano e o filho ergueram-se também. O taque-taque do relógio parecia mais nítido, mais corajoso, à medida que o iam deixando sozinho. Os dois detiveram-se no corredor. Paco comentava os numerosos palacetes que estavam a ser construídos em San Rafael, para elementos do Partido Radical.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

« -- O filho da mãe que fez as correias tão estreitas é que devia andar aqui no mato a amargá-las com um saco às costas -- resmungou um soldado. / -- De-de-ve ser pa-pa-ra pou-pou-par -- gaguejou outro em resposta. / -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: vamos lá a falar baixo.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

1 comentário:

Manuel M Pinto disse...

«Mas, saltando do tom solene para o jocoso, no mesmo Camões vamos encontrar passagens de irreverência quanto às imunidades, sobrancerias, exempção e falácia dos fidalgos. Assim nos 'Disparates da Índia' 
    "Achareis rafeiro velho
    Que se quer vender por galgo...
    Diz que o dinheiro é fidalgo,
    Que o sangue todo é vermelho."
E mais adiante:
    "Ó tu, como me atarracas,
    Escudeiro de solia,
    Com bocais de fidalguia 
    Trazido quase com vacas!"
Quer dizer: como procuras deslumbrar-me, ó tu, escudeiro da trama, com histórias de fidalguia, quando vieste de guardar vacas...?!»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)