«Nas mesas, onde uma turba espessa se coagulava, corria um dar de cotovelos, um cruzar de olhos, um rastilhar mexeriqueiro. / -- Olha. Lá vem o Chumbo. Aquele é o Antero Chumbo. O que escreve. O tipo parece que tem valor. / E era verdade. Isto é, ali ia ele.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)
«Esfregaram a cara e os cabelos molhados da transpiração com o lenço verde do regulamento, ou mesmo com o quico camuflado, um bonezinho em feitio de canoa, de aba curta e quebra-nuca para proteger a cabeça dos ardores do sol. / Abriram as latas de conserva das rações E que a Manutenção Militar distribuía para alimentação das tropas em operações.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
«Do lado oposto à cidade a estrada descrevia uma curva ao longo de muros e cerrados, onde os grilos pareciam, de Verão, o queixume da ilha abafada e em que pairava agora um pasmo solto de tudo menos de mar. As lâmpadas da rede, lá para Porto Pim, faziam mais escura a massa de água que devia rolar enrefegada a um começo de vento levantado, pouco e já duro.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)
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1 comentário:
«Atente-se agora à maneira natural, nunca exclamativa, como fala de Lisboa. Os seus epítetos jamais significam surpresa, mas sim afecto constante e cursivo. Contribui tal clima, de par com assinalados tópicos, para estabelecer que a capital foi o seu berço e as demais terras ocasionalmente a sua estalagem. Por exemplo:
"Levantai, minhas Tágides, a frente
Deixando o Tejo às sombras nemurosas..."
As Tágides podem significar as filhas da sua fantasia poética, «minhas» pois. O mais aceitável porém é que envolvam uma inferência de lugar. Na mesma ordem de ideias procurou tirar-se das adjectivações de tal e tal nome, como pátrio, pátrio Tejo, a mesma significação. Supomos que se procedeu abusivamente. Se pátrio em Camões tem a significação de natalício, comum à terra em que cada um nasce, também assume a sua mais lata significação aqui e além. Assim, se pátrio Tejo quer exprimir o rio que banha a terra que lhe foi berço, não restringe a sua propriedade só aos habitantes, seus ribeirinhos. A essa altura a palavra pátria tinha já o duplo poder de compreensão, a particular e a absoluta:
"Esta é a ditosa pátria minha amada..."
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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