quarta-feira, abril 17, 2019

"um conflito entre entidades privadas e os motoristas"

Não faço ideia se os motoristas têm razão ou não; por feitio, pendo sempre para os trabalhadores contra os patrões associados, mesmo quando me lixam o programa da Páscoa, como será o caso.
No entanto, há coisas um pouco mais importantes do que as disputas entre trabalhadores e patrões, e uma delas é o funcionamento do Estado. Por isso, é sem paciência que ouço o primeiro-ministro dizer que a luta laboral em curso se trata de "um conflito entre entidades privadas e os motoristas", o que, não sendo mentira, não chega para um político que se assume socialista. O que deveria dizer é que o país não pode estar à mercê de privados, e que a política tem agir em conformidade.
É um socialismo de caricatura, sem outro rasgo que não seja a conquista e manutenção do Poder, e por isso condenado (a indigência dos cartazes às eleições europeias, tratadas como se fossem legislativas é um eloquente exemplo da falta de rasgo da politicalha aparelhística).  O problema é que para lá dele, PS, a nível macropolítico não há nada, ou o que há -- com excepções de escasso peso eleitoral --, é feio: os partidos à direita são meros títeres dos interesses e do financismo prevalecente; à esquerda, os mortos-vivos do marxismo e os inconsistentes das chamadas políticas de inclusão ["a todos e a todas", e outras parvoíces] -- algumas, só algumas, porém válidas.
Para além disto, um lúmpen primário e silvestre que se alimenta e alimenta a boçalidade mediática,  sempre aproveitada por espertalhões.
António Costa limitou-se a repetir o que Rui Rio disse ontem, com a agravante de ter o menino nos braços.  É pouquíssimo como discurso, e revelador do impasse político e ideológico a que chegámos.

5 comentários:

Jaime Santos disse...

O PS há muito que não é socialista, nem sequer tem um programa verdadeiramente social-democrata, desde logo por uma razão bem simples, o País faliu às mãos de José Sócrates (e não apenas por culpa do próprio).

Se quisermos ser justos, temos também que pôr a culpa onde ela está, numa moeda demasiado cara para o País, que lhe enquistou o desenvolvimento e tornou o endividamento, público e privado, demasiado fácil.

Mas também nas escolhas de políticos e empresários medíocres ou mesmo corruptos com o lindo resultado de que empresas como a PT e a CIMPOR acabaram como uma sombra do que eram, descapitalizadas pelos seus donos, Portugueses ou Estrangeiros... Guterres falava em tempos em internacionalização da Economia Portuguesa. Acho que não era ao atual cenário que ele se referia...

A isto junta-se o recurso excessivo ao crédito referido acima (João Salgueiro recentemente lembrava que as empresas se vão financiar aos bancos e não ao mercado de capitais, até porque lá não há dinheiro) e investimentos nos setores ditos não-transacionáveis, onde é mais fácil ganhar dinheiro e a concorrência é menor (as coisas mudaram durante a crise, que remédio).

Junte ainda à mistela um País de gente pouco qualificada e a ganhar por isso pouco e o cozinhado não é brilhante. De facto, não fosse o cinismo dos Portugueses em relação ao Poder, e já cá teríamos os nossos coletes amarelos...

Fazer diagnósticos é, claro, muito fácil, o pior é dispor de planos alternativos e aí, como diz, o deserto à Esquerda é absoluto, dizem o mesmo desde 2012. Imagino que o PCP espere que seja Centeno a desenhar o plano de saída do Euro e a assumir o ónus dos sacrifícios que serão inevitavelmente necessários.

Tal como com o Brexit, o nível de demagogia raia os limites do impensável... Felizmente que por cá também disso o nosso povo parece que desconfia...

Posto isso, o que há a fazer? O que se pode... Pagar a dívida depressa como quer Centeno, e manter a administração pública sob estrita vigilância para que não se façam mais asneiras. E gastar o pouco que há de maneira inteligente...

Se isto não o entusiasma e se parece com uma TINA, eu diria que é mesmo. Uma TINA por falta de comparência... A Direita transformou-se no títere de que fala e a Esquerda há muito que parece ter parado de pensar em face das dificuldades do tempo presente, e não de modelos que deveriam estar, também em face dos resultados passados, confinados ao caixote do lixo da História.

A crise presente e o risco de ascensão da Extrema-Direita e do seu Nacionalismo Mafioso também se devem a uma falência geral do pensamento político e económico... O que se passa por cá é um mero reflexo disso...

Ricardo António Alves disse...

Sim, não entusiasma, mas eu também já devia tenho idade para não me deixar levar pelos entusiasmos. O que me aborrece mais talvez seja este comprazimento, esta resignação -- para não dizer em muitos casos aceitação e oportunismo -- do Tina.
Uma coisa será realismo outra o encolher de ombros, na hipótese mais benévola.
E se o slogan do PSD é vazio ("fazer a diferença em Portugal e na Europa"...) como o discurso do seu cabeça de lista, o do PS marimba-se olimpicamente na União Europa e anuncia "mais emprego / mais igualdade / contas certas". E estamos assim...

Kodak Khrome disse...

Como se comprovou o governo socialista não virou as costas ao problema.

Jaime Santos disse...

Considerando que o manifesto do PSE até diz pelos vistos umas coisas interessantes, não se percebe esta vontade do PS em se mostrar bem comportado. Duvido que quem vota PSD se mostre disposto a dar o voto a Costa. Ele deveria virar-se para o outro lado. No meu tempo dizia-se que não é com vinagre que se apanham moscas...

Se calhar é mesmo só provincianismo, em Portugal nunca se discutiu a Europa, que é aquele lugar de onde vêm os fundos e (de vez em quando) uns senhores de fato e pasta para nos meterem na ordem...

Deveríamos aprender com os italianos, mas parece que mesmo eles hoje andam a olhar para o umbigo... Macron é fogo de vista e Merkel claro que não quer falar da Europa, porque não quer abrir os cordões à bolsa...

Ricardo António Alves disse...

Kodak Khrome, sim, parece que nos salvou a Páscoa.

Jaime, não percebo como o PS põe a governação em avaliação nestas eleições. Mas é muita táctica lá dos directórios partidários, que a gente não alcançamos.