segunda-feira, setembro 05, 2005

Simca 1000

Posted by Picasa Tenho para aí uns três anos, sinto-me sentado e mínimo no banco de trás do Simca 1000 da minha Avó Zé, uma das primeiras mulheres a conduzir no Estoril. Era deste tom, azul-bebé a coincidir comigo, o primeiro neto.

Antologia Improvável #48 - Levi Condinho

DEBILIDADE / SUPERFICIALIDADE

Sem génio nem poder nem coragem
desprovido de força de vontade
rente ao abismo mas só na sua margem
nele aceitando a segura metade

em que o pé assente em chão bem firme
medo do caos do vácuo ou ousadia
ainda que esse apelo alto o afirme
em retórica frágil sem substância

já foi amado por credulidade
ou paixão talvez mal correspondida
por um halo abstracto de idealidade

que amor de fogo e sangue nunca foi
balanço feito dessa meia vida
inapto a outro Ser este lhe dói

Roteiro Cego

domingo, setembro 04, 2005

António Dias Lourenço

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Correspondências #11 - António Dias Lourenço a seu filho Tóino

Peniche, 5-IV-1966
Meu filhito muito querido
O paizinho vive ainda a bela alegria de te ter beijado e à Lelinha e ter visto como os meus filhitos pequeninos são bonzinhos e muito amigos. Alegrias que nunca hão-de ser esquecidas.
Foi pena, por estar tanta gente, não podermos conversar ainda mais um bocadinho pois eu gostava muito de saber coisas da tua escola e das tuas brincadeiras. Estou muito grato aos Padrinhos pelas valiosas lembranças enviadas embora se me parta o coração pela despesa suplementar que tudo isso acarreta. Claro, meu Toinito, cá tivemos nesse dia uma grande festa com tudo isso. É pena, porém, que cada «festa» destas signifique um ano mais na idade do pai e um de menos nas possibilidades de viver mais perto de ti, da Lelinha, da Mãe e de todos de quem gostamos.
Fiquei preocupado com a informação do ortopedista quanto aos teus pezitos. Não abriu nenhuma perspectiva de melhoria e cura futura, incluindo por meios cirúrgicos? Apesar de tudo o que é preciso é fazer o que ele recomenda: os tratamentos, os exercícios e, ora!... correr na praia e no parque sem atrapalhações! Já enviei o garrafão e seguirá em breve a marmita. As caixas de cartão serão precisas? Então e já fazes o «puzzle» sozinho? Gostei muito da tua cartinha. Hoje vai aqui outra máquina em que o pai trabalhava -- uma fresadora. Já há quase 25 anos que não lhe pego mas é mais ou menos assim. O Padrinho um dia mostra-te uma a sério... Para eles, com renovados agradecimentos e desejos de boa saúde vai um afectuoso abraço para ti, meu queridito, vão beijinhos ternos e um abraço apertado do
Pai
É uma máquina bonita, não é?
Se estudares para engenheiro és depois capaz de fazer máquinas como esta e até mais bonitas!
Olaré!
Saudades... Não Têm Conto -- Cartas da Prisão para o Meu Filho Tóino

sábado, setembro 03, 2005

Antologia Improvável #47 - Teresa Rita Lopes

ÁRVORES

As árvores desprezadas
ganham espinhos.
Uivam de solidão

A Fímbria da Fala

Teresa Rita Lopes

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sexta-feira, setembro 02, 2005

Seara Vermelha

Posted by Picasa Estou a meio do livro. Leio o Jorge Amado desde a adolescência. Tenda dos Milagres, a deliciosa história de Pedro Archanjo, foi a obra que me introduziu no universo deste grande brasileiro. Hoje quase que lamento não ter a pureza dessa época em que me deixava envolver pela surpresa e pelo estupor que me instilava a crua realidade encerrada nos livros do autor de Jubiabá.
Seara Vermelha data de 1946, da fase comunista militante do seu autor. Dedicado a Luís Carlos Prestes, abre com epígrafes deste, de Castro Alves e de Engels. Trata-se de uma odisseia de retirantes -- desses retirantes imortalizados na tela por Portinari -- através da caatinga até São Paulo, terra de oportunidades. Algum desleixo formal que existe na prosa de Amado é largamente compensado pelo boa oficina romanesca; um estilo poético, podendo resvalar, por vezes, para algum empolgamento épico, é logo corrigido pelo realismo das personagens e das situações narradas e também pela gostosa ironia do romancista. Estou a acompanhar uma família alargada, expulsa pelo novo proprietário das terras em que vivia e trabalhava. Jerónimo e Jucundina são, até agora, os protagonistas principais, além dos filhos sobrantes, três netos de uma filha falecida no derradeiro parto (Tonho, Noca e Ernesto), os irmãos de Jerónimo, a louca Zefa e João Pedro, mais a mulher e a filha deste. Sofrem várias baixas durante a viagem, crianças e adultos. Noca faz uma ferida no pé ao correr atrás da sua gata, Marisca, que, contra a opinião dos adultos, insiste em levar na travessia do sertão, único brinquedo da criança de sete anos; contraindo uma infecção, morre pouco depois. E não será sem problemas de consciência, pelo menos de alguns dos seus membros, que a família virá a comer a gata para enganar a fome. Dina, mulher de João Pedro, morrerá de uma espécie de tifo, já a família exausta tem semanas de caminhada. As suas forças pouco mais dão que para um simulacro de exumação. Afastados poucos metros, percebem que os abutres ficaram para trás:
«Juntaram-se num bando irrequieto e barulhento, trocando bicadas entre si, sobre o cadáver. Adiante, Jerónimo que não os via no céu, a persegui-los, imaginava o que se estava passando. Também João Pedro sabia que eles estavam devorando o cadáver de sua mulher. Mas não tinha coragem de voltar, de perder mais tempo, como não tinha mais forças para sofrer nem lágrimas para chorar.» (5ª ed., p. 102).
A minha realidade é outra, já não tenho esses quinze anos em que ficava esmagado depois de ler Capitães da Areia, Mar Morto ou Terras do Sem Fim. A realidade é outra. Vejo no Público de hoje a fotografia dum miúdo iraquiano a chorar a perda de parentes naquela tragédia da ponte, desastre causado pelo medo dos atentados e pelo ajuntamento de peregrinos; vejo cadáveres, lixo e desespero em Nova Orleães, a cidade de Armstrong inimaginável no grau de destruição e caos. Já não me surpreendem estes dramas humanos, como quando era novo, mas ainda tenho, por vezes, de dobrar o jornal, ou afastar o livro, fechar os olhos e respirar fundo.
Alterado em 5-IX-2005.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Antologia Improvável #46 - Rui Knopfli (2)

O LIVRO FECHADO

Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

O Corpo de Atena

Rui Knopfli

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terça-feira, agosto 23, 2005

Férias

Posted by Picasa Só mais alguns dias...

Tibet (Homenagem ao Tibet - 6 e final)

Posted by Picasa Ei-lo...

Caracteres móveis #34 - Thoreau

Passei pouquíssimos momentos da minha vida sob a alçada do governo. Se um homem é livre, quando pensa, quando imagina, quando fantasia, dando existência a coisas que não existem, não há governante, não há reformador que possa colocar-lhe travões.
A Desobediência Civil
(tradução de Manuel João Gomes)

Thoreau

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Dog Bull (Homenagem ao Tibet - 5)

Posted by Picasa Prepotente, desconfiado, vaidoso, rancoroso... mas também corajoso (por vezes), solidário (nas situações extremas) e bem-humorado (em especial à custa do pobre adjunto, Ordinn)

Pècus

Que estranhos mecanismos de outiva e que atropelos flagrantes à ortoépia levarão a minha filha mais nova, dois anos, a dizer pècus quando quer identificar insectos? Só se salvam as moscas. Aliás, môcass...

Wild thing

Ao ouvir um velho Best of dos Troggs, lembrei-me do título dum livro de ensaios, Obscuros e Marginados, que é o que me parece ser esta banda inglesa da década de sessenta, ainda hoje activa. (O autor desse volume, já desaparecido, foi João Palma-Ferreira, e não me parece que os rapazes o conheçam de nome.) Algo repetitivos, os Troggs deram, contudo, a sua contribuição para a música pop com temas como With a girl like you ou Wild thing, este com prestígio de cover por Jimi Hendrix. Por mim, fico electrizado com um violoncelo irreverente cujo arco desliza desde o princípio em Anyway that you want me. Inesquecível.

The Troggs

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Genesis em Cascais

Posted by Picasa http://genesiscascais75.blogspot.com/

segunda-feira, agosto 22, 2005

Antologia Improvável #45 - Mário Avelar

a Jorge Vaz de Carvalho

Meditação 9.

Lucas 1.26. Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré... A caixa de música



Junto ao velho muro divago p'la casa.
Reconstruo passo a passo seus percursos.
Um sopro. Por favor, fala comigo. Please,
just talk to me... A voz de Gabriel levando-me

para longe: Cascais, o remoto verão
quente de 75. Mês d'Agosto,
talvez. O povo está com o M.F.A.
A rajada de G3... para o ar, diz

com gestos o alferes. Distante, nas tábuas,
um velho cai de joelhos: a caixa de
música. Singulares fumos e odores

envolvem o infante. Feixes de luz cruzam
o espaço dominado pela voz de
Gabriel, um irmão, sob o signo do Touro.

Seduções do Infante



Mário Avelar

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