quarta-feira, fevereiro 14, 2024

quadrinhos


 

os debatentes, so far e até agora

Pedro Nuno Santos - parece que ainda não encontrou largueza suficiente para este estúpido modelo comprimido de entrevistas paralelas.

Luís Montenegro - Bastante melhor do que estava á espera, especialmente quando fez gato-sapato do pobre Ventura, e com visível gozo. Ri-me.

André Ventura - Excrescência. Não serve para nada, a não ser excitar o medo e os instintos primários da populaça -- só a populaça vota no Chega (populaça, independentemente do estatuto social que tenham).

Rui Rocha - Pertencem-lhe os melhores desempenhos, com Mariana Mortágua.

Paulo Raimundo - Melhora o desempenho de debate para debate. Dicção a melhorar também. O debate com Tavares foi o melhor até agora.

Mariana Mortágua - Pertencem-lhe os melhores desempenhos, com Rui Rocha. No final do confronto com Ventura, deixou-se afogar pela bruteza do catterpilar, o que não deve causar estranheza. Até para evitar equiparar-se.

Inês Sousa Real - Eloquente, mesmo prejudicada por razões de saúde. Mas no entanto, repetitiva. A ideia de um partido "útil á democracia" é bem sacada.

Rui Tavares - O mais criativo e surpreendente. Tanto, que até alinha com a Nato, quando deveria ser, especialmente em relação à miséria da política da UE, o tal grilo falante que almeja.  Quer a autodeterminação dos povos, mas não se preocupa com os russos do Donbass e da Crimeia, e até se esquece dos catalães. 

curtas

«Era como um lírio ou como a neve a impressionar-se de vincadas recordações -- ninguém se apercebera daquela sua aventura -- mas D. Branca não podia ficar toda a vida com a mesma cor -- é tão difícil conservar uma coisa completamente branca!» Ruben A., «Branca», Cores (1961) / «O pai da parturiente, um homem resignado, esperou-me com uns olhos em que havia prece.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «-- [...] O senhor já pensou que poderiam perfeitamente existir bosques aéreos e que o homem deveria andar no fundo dos mares ou no espaço celeste com tanta facilidade como anda aqui na terra?» Ferreira de Castro, O Senhor dos Navegantes (1954)

segunda-feira, fevereiro 12, 2024

Bob Marley & The Wailers, «Real Situation»

"dois pobres diabos em Kiev" - ucranianas CCXXIV


Mão amiga fez chegar-me este texto de Carlos Matos Gomes.  Eu não o diria melhor, e uma das razões prende-se com o facto de Matos Gomes, além de militar experimentado, historiador da Guerra Colonial -- em que participou como oficial-comando -- é também o romancista Carlos Vale Ferraz. Aliás basta ler as declarações transcritas pelo pobre ministro da Educação no portal do Governo (agora com logo modernaço) para perceber-lhe a indigência.


«A reportagem do passeio de dois tristes que são ministros da República Portuguesa

deixou-me naquele estado em que perguntamos se nos devemos rir ou interrogar se é verdade o que vemos. Aqueles dois tristes são ministros do governo português? Que raio foram fazer? Anunciar que vão dar uns euros para reconstruir uma escola?

Ninguém acredita que aquelas pungentes figuras de quase sem abrigo tenham ido a Kiev fazer um anúncio que não é mais do que uma promessa que diariamente fazem os mais ignorados presidentes de juntas de freguesia em Portugal. Aquelas duas sombras vagueantes foram em peregrinação a Kiev cumprir ordens. 

A guerra na Ucrânia está num atoleiro de várias lamas, a da corrupção, a das dissidências internas típicas das épocas de derrota, de degradação da sociedade civil, de incapacidade militar, de reconhecimento do que desde o início da aventura se sabia: não se deve provocar o leopardo com uma vara curta e a Rússia era um leopardo, uma superpotência; e por fim há a degradação da boa vontade dos benfeitores que meteram a Ucrânia na encrenca em que está. 

A solução da vivaça Ursula Van der Leyen, do inteligente Borrel, do senhor que está agora de primeiro-ministro em Inglaterra, o quarto ou quinto da mesma peara do Brexit, dos estrategas de Washington, agora ocupados com Israel, foi o de mandar uns pobres diabos a Kiev animar a família de Zelenski. De Portugal zarparam dois espécimes, o habitual viajante Cravinho e o quase desconhecido interlocutor do fero Mário Nogueira dos professores e do assanhado e quase sempre desgrenhado compère que dirige o STOP. A sério: em tempo de eleições, o Partido Socialista entende que é boa propaganda enviar dois figurantes de segunda linha a Kiev, para promover uma criatura desacreditada, uma guerra cada vez mais criticada e cada vez mais identificada com os interesses americanos e menos com os interesses europeus, uma guerra que já é apresentada como a responsável pelas dificuldades de apoio à agricultura e à indústria europeia, responsável pela inflação e pela crise económica?»

domingo, fevereiro 11, 2024

caracteres móveis

«Algumas vezes também o haviam tentado essas estradas líquidas que cortavam a selva imensa, mas sempre um pavor instintivo, amálgama do que se dizia de febres perigosas e de vida bárbara e instável, o detivera em Belém.» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Era o mal ruim da Índia, do Brasil e das outras terras descobertas, todas a porem a teta na boca de quem se habituara a luxar, sem suor que lho merecesse.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Fora, no Largo de S. João, andava o povo de alevante, como se o campanário houvesse soltado voz de franceses à vistaAquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

Bob Seger, «Evil Edna»

sábado, fevereiro 10, 2024

"A Derrota do Ocidente" (2024), por Emmanuel Todd - ucranianas CCXXIII

Emmanuel Todd, La Defaite de l'Occident (Gallimard). Historiador e antropólogo, Todd reflecte sobre a situação desgraçada a que chegámos na guerra entre os Estados Unidos e a Rússia na Ucrânia, num livro que parece suculento, e que boa parte de comentadores, académicos e governantes incompetentes e jornalistas deveriam ler. Em baixo, a entrevista à TV5, de que retirei estes tópicos:

1. Os Estados Unidos caíram na armadilha do nacionalismo ucraniano que ele próprios alimentaram.

2. O Ocidente, que vive num mundo de ilusões económicas, não percebeu, por incompetência, que não podia sustentar uma guerra longa contra a Rússia.

3. A cegueira com que se encarou a Rússia e a sua realidade conduziu o Ocidente à derrota a que se assiste.

4. A derrota da Nato provocará a aproximação entre Alemanha e Rússia.

5. O mundo angloamericano assiste à neutralização e pulverização da moral protestante -- referência a Max Weber -- substituída por um niilismo especialmente destrutivo.

6. Duas Ucrânias: uma russa (Crimeia, Donbass) e russófona, e outra ucraniana propriamente dita, em que os partidos pró-Rússia foram proibidos.

7. No jogo geopolítico europeu deste conflito, os grande actores são: a Rússia, a Alemanha, que controla o centro-leste da do continente e a Inglaterra, em delírio belicista e decadência profunda. Em termos geopolíticos, a França não conta, por não ter adoptado uma posição autónoma em face do eixo Londres-Varsóvia-Kiev. A França equivocou-se completamente, mas isso também não tem importância nenhuma, dadas as suas debilidades.

8. Caracterização da produção intelectual académica norte-americana como medíocre, a que se junta uma prevalência niilista de pulsão conducente à violência e à guerra. Não devemos esperar dos Estados Unidos posições racionais ou mesmo razoáveis, pelo que tudo é possível. O início da guerra em Gaza demonstra-o: a primeira reacção dos EUA. foi a da opção pela violência e cobertura a Israel, dando-lhe a sensação de estar livre para actuar como lhe aprouvesse.

9. Sim, Trump é uma ameaça, mas os Democratas, cujo partido está totalmente corrompido, também o são, 

10. O problema demográfico da Rússia, cuja população está em decrescimento, não lhe permite veleidades imperialistas.

11. A doutrina militar russa continua defensiva, mas mudou: atendendo ao desequilíbrio demográfico desfavorável para a Rússia relativamente ao Ocidente, em caso de ameaça, passou a encarar a possibilidade de emprego de armas nucleares tácticas.

12. Em face da propaganda que sustenta o perigo de uma invasão russa, Todd pergunta-se se estaremos a ser governados por pessoas sérias, que sabem ler, trabalham e analisam os dados...


sexta-feira, fevereiro 09, 2024

vermelho e negro

«Desgraçados os países que caem nos excessos industriais, que consagram aquela teoria política pela qual um governo despreza as necessidades espirituais para só se ocupar dos interesses materiais e positivos!» Eça de Queirós, in Distrito de Évora (1867) / «Hoje para continuares a ser republicano tens que te matricular num partido, tens que te guiar por um programa, tens inevitavelmente que pôr-te em contradição com o teu correligionário de ontem, opondo as tuas ideias às ideias dele -- talvez mesmo a tua browning ao seu revólver.» Manuel Ribeiro, «A um herói da Rotunda», O Sindicalista (1910-11) / «Os governos dum país civilizado, a título de exportarem a civilização, levam-lhes o canhão que os mata e o comércio que os rouba.» Mário Domingues, «Colonização», A Batalha (1919)

Prosas Esquecidas, ed. Alberto Machado da Rosa (1965); ** Na Linha de Fogo (1920) *** A Liberdade não se Concede, Conquista-se. Que a Conquistem os Negros!, ed. António Baião (2023); 

Ainda Mortágua, a Ucrânia e a Nato (ucranianas CCXXII)

Pois, é, pois é... Mariana Mortágua disse no debate com Rui Tavares que é pela autodeterminação dos povos -- e esquece-se dos russos do Donbass, e tudo o que se passou à sua volta para torpedear o problema que ali existe. O BE (tal como o Livre), por omissão, é objectivamente parte da frente organizada pelo imperialismo americano, sem distinguir-se dos restantes, a começar pelo Chega (volto a falar da ignóbil fotografia na Assembleia da República). Não seria obrigada a pôr-se ao lado do imperialismo russo, é certo, mas há uma decência que seria necessário observar, sem fazer o jogo precisamente dos mesmos tipos que no início do século cometeram a chacina do Iraque. É que são os mesmos, sem tirar nem pôr. Como Mortágua não é estúpida, e sabe disto tudo, poderemos sempre cogitar sobre o que faz o Bloco de Esquerda na vanguarda organizada do complexo militar-industrial norte-americano, cujo braço político é o Pentágono. e os títeres, Joe Biden (tão senil que nem o querem julgar) -- Biden, e companhia. 

ui... o "conservador" Tucker Carlson entrevistou Putin, um cartazito no Rato e o "debate" Mortágua-Tavares

* Assim qualificava o rodapé de ontem da cnn, e suponho que o resto dos propagandistas do Pentágono. Mão amiga fez-me chegar a transcrição, (enquanto não podemos ver na net). Hilariante, como Putin fala  da fronteira sul dos Estados Unidos.

* No Rato, um cartazito não sei de que força política: "Ou estás com a Ucrânia, ou estás com Lula." Exactamente, ou quase, porque a Ucrânia, como se tem dito, espécie de Afeganistão da Europa, é um território onde as potências lutam. 

* No frente-a-frente Mariana Mortágua - Rui Tavares, a moderadora pergunta sobre Portugal e a Nato: deve ficar ou sair? Mortágua não tem coragem de afirmar o que quer que seja -- pega e escuda-se na Constituição para não ter que dizer que deve sair; Tavares, à mesma pergunta, também não tem coragem de dizer sim ou não, chuta para canto com a fantasia paupérrima de uma força de defesa europeia, que ele deveria saber e sabe que só existirá com alemães a mandar, franceses cooptados até ver, e todos os outros a obedecer e a servir interesses de terceiros, que é o que sucede agora. Patético.

quinta-feira, fevereiro 08, 2024

Bob Dylan, «When the Ship Comes In»

os debates: o instinto matador de Rui Rocha, com breve alusão aos flatos emanados com nauseante estrépito pelo 'Expresso', cada vez mais pasquim

 Rocha-Santos: Um equilíbrio ao longo do debate que terminou com uma série de estocadas mortíferas de Rui Rocha (TAP, CP, habitação), que revela um instinto matador, e Pedro Nuno Santos em nítida dificuldade (só estou a falar da performance).

Real-Ventura - Um reencontro, com Inês Sousa Real em baixa condição física, prejudicando-lhe o tiro bem ensaiado: o número de propostas (zero) aprovadas na legislatura, por parte de "Ventura e os seus doze deputados". A razão: os projectos estavam mal feitos.

Raimundo-Real - Foi um tomar chá entre duas pessoas bem educadas, que nem a questão das touradas perturbou.

Montenegro-Mortágua - Mariana Mortágua muito bem, grande desenvoltura; Montenegro, melhor do que eu estava à espera.

Rocha-Ventura - Não é fácil debater com vendedores de banha da cobra. A frase de Ventura ("A IL só sabe privatizar e despedir."), repetida várias vezes, deve causar um bom efeito no seu eleitorado. Rocha muito bem na questão dos imigrantes -- mesmo depois daquele exemplo criminosamente boçal sobre a pena a aplicar quando um imigrante violasse uma criança...  A certa altura Rocha encolhe os ombros, como a dizer que não vale apena argumentar com o bazófias. Na verdade, dirigem-se a dois eleitorados diferentes.

Rocha-Tavares - Nalguns casos, mais próximos do que parecem (A vida não é só economia). Dois bons momentos: Tavares quando, em tom épico, disse querer ver os utentes de cara levantada quando entram no SNS, sejam ricos ou pobres; Rocha, quando o oponente falou nos custos sofridos pelos portugueses para salvar a banca, ao que este responde: "Não tenho nada que ver com isso." -- ou seja se é para falir, é para falir: meu deus: BPN, BPP, BES, que escumalha, aqueles conselhos de administração, bem vestidos, bem penteados, bem perfumados, bem bandalhos.

Um episódio à margem: o Expresso tem à frente uma série de pacóvios que se atribuem o direito de eliminar partidos ou dirigentes das suas promoções. A imagem relativa aos debates, em que Paulo Raimundo, do PCP, não aparece, é das coisas mais nauseabundas que já vi. Como digo há muito, eu não compro o pasquim há décadas, apesar de lá escrever um ou outro colunista que aprecio, em especial Miguel Sousa Tavares.  Lembro-me de há uns bons anos, num canal infantil que os meus filhos viam, dum separador autopromocional em que um rapazinho falava e arrotava ao mesmo tempo. A voz-off perguntava: 'Porque faz ele isto?' E a resposta era: 'Porque posso...' Assim o Expresso e os insignificantes que mandam nele: peidam-se com estrépito miasmático à frente de todos. Porquê? Porque podem, e não têm vergonha naquelas carinhas (é olhar...)

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«Aqui era uma manada de bois soltos, em direcção do curral, guiados por uma criança de palhoça e pernas nuas, os quais paravam a olhar com aquela expressão de composta curiosidade, que lhes é peculiar, para o recém-chegado visitante da aldeia.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu desci os Campos Elísios em demanda do 202.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901) 

«Repetiu a sedução dos vestidos e dos diamantes; encareceu as delícias do teatro; soprou-lhe a vaidade, imaginando-a invejada pelas mulheres de todos os negociantes do Porto; enfim, por não fechar o discurso sem uma imoralidade, com palavras equívocas, dissertou pouco cristãmente acerca dos deveres da mulher casada.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

segunda-feira, fevereiro 05, 2024

quadrinhos


 

curtas

«Aspiração única era fugir para bem longe daqueles cento e meio de quilómetros quadrados, lugar de desterro e prisão perpétuas.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932) / «E tal comoção a agitava, e tão convulsa estremecia, que, ao atirar a esmola aos pequenos varinos, do seu dedo esguio resvalou sobre a areia fofa a aliança de noivado.» Conde de Sabugosa, «A aliança inglesa», De Braço Dado (1894) / «Mas por esse tempo veio morar para defronte do armazém dos Macários, para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto desejável.» Eça de Queirós, «Singularidades de uma rapariga loura» (1874), Contos (póst., 1902)

sábado, fevereiro 03, 2024

Arthur Rubinstein, Colin Davis, Concerto para piano #1 de Brahms

caracteres móveis

«Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno ponto branco, que se divisava ao longe, por entre a rama do arvoredo, mas já indistintamente, em virtude do adiantado da hora e da intensidade da neblina.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Gementes, gementes e de madeiras escanzeladas, surgiam picotas, cravadas à boca dos poços, um homem a cada balde, braços e tronco em vaivém, rins derreados, na tarefa do regadio.» Romeu Correia, Calamento (1950)

«O avô de Raquel, também André de seu nome, legara à neta uma utilização fácil e fluente da língua italiana, um alegre apreço por Vivaldi e uma devoção quase religiosa pela Divina Comédia Helena Marques, O Último Cais (1992)

sexta-feira, fevereiro 02, 2024

The Beatles, «A Taste of Honey»

curtas

«Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha -- como lhe dizia uma velha tia, que fora querida do desembargador Curvo Semedo, da Arcádia -- "sentido Vénus".» Eça de Queirós, «Singularidades de uma rapariga loura» (1874), Contos (póst., 1902) / «Os homens, o pai e o marido, esperavam cá fora, sentados numa laje que ocupava quase todo o pátio, onde se abria um canal para esgoto das urinas escapadas das furdas.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «Sobre o seu regaço, na flanela branca do fato, a cabeça negra do cão deixava-se afagar, olhando-a com reconhecimento, quando dois pequenos varinos enlutados se chegaram, pedindo esmola para a mãe, doente e viúva.» Conde de Sabugosa, «A aliança inglesa», De Braço Dado (1894)